quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Toda prosa sobre o Altíssimo é ininteligível...

 "Nós procuramos por toda parte o incondicionado (Unbedingte) e sempre encontramos apenas coisas" (NOVALIS). 

Como indicam os verbos sublinhados, mesmo que haja a intenção, o querer encontrar o incondicionado, das Unbedingte, tarefa de toda uma tradição na filosofia, "encontramos apenas coisas", ou seja, não conseguimos sair do mundo dos fenômenos, e encontramos, sempre, a diferença, o plural (die Dinge). No mesmo sentido aponta Schlegel que os "[...] Princípios estão sempre no plural", [...] constroem-se uns aos outros; nunca é apenas Um, como presume o pensamento sobre o fundamento" (SCHLEGEL, 1963, p. 105)

A constatação da impossibilidade de fundamento não desemboca, entretanto, em total ausência do conhecimento para os românticos de Jena, mas numa releitura da "tarefa", por assim dizer, da própria filosofia: a caracterização do filosofar como tarefa infinita. O mundo torna-se "[...] mais e mais infinito" e "[...] nunca há um fim para a conexão do múltiplo, um estado de inatividade para o Eu pensante – a Idade de Ouro deve surgir – porém esta não traz o fim das coisas" pois a "[...] meta dos seres humanos não é a Idade de Ouro", diz Novalis. Daí Schlegel dizer que a filosofia é nada mais que a história da filosofia, isto é, um constante desdobrar-se já que não se parte de um ponto imutável. É "atividade infinita", "sem fim", "eterno impulso para um fundamento absoluto", "[...] uma história das tentativas de descobrimento do filosofar" (NOVALIS). 

A concepção romântica da filosofia concebe, deste modo, o ser como oscilação (NOVALIS), que pode "[...] apenas ser revelado através do ser e o ser, somente através da atividade" (NOVALIS), ou, nos valendo de formulações que podem servir como lema para todas as outras: "Deus é atividade infinita" (NOVALIS), "Toda verdade é remota" (NOVALIS) Por esta via, a filosofia não tem nada a expor a não ser a sua própria busca, um eterno oscilar (Schweben) entre pensamentos. Pode-se deste modo concordar com Seligmann sobre a concepção romântica da filosofia, a qual... ''descarta o sistema fechado como o modo de exposição da filosofia: a filosofia não teria nada a expor a não ser a sua própria busca. O seu resultado é ‘indizível’ (Unausprechlich). A filosofia deve também compartilhar da ‘autonomia’ do poético e da sua oposição a um fim (Absicht) determinado: o seu critério não é nem "aplicação" (Anwendbarkeit) nem tampouco "comunicabilidade" [...] A filosofia é definida como um eterno ir e vir entre os pensamentos, como um oscilar (Schweben) infinito [...] Desse modo voltamos, portanto, à concepção romântica do saber, como construção, como oscilação, Schweben. À diferença da noção tradicional do panteísmo, nos românticos o todo não é um constructo transcendente, que iria além da somatória das partes, mas resultado do movimento das mesmas (SELIGMANN).
Assim, o que está tematizado, segundo Seligmann, é justamente esta "[...] impossibilidade de se nomear, ‘conceituar’ e conhecer o Absoluto". A noção de fundamento contém uma "impossibilidade" e portanto a tarefa do pensamento "[...] não seria nada mais do que essa própria ‘busca’" (SELIGMANN). "Toda prosa sobre o Mais Alto é ininteligível" (SCHLEGEL), como diz Schlegel, ou ainda, com certa comicidade: "Há escritores que bebem o incondicionado como água; e livros em que até os cães se referem ao infinito" (SCHLEGEL). 

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