domingo, 23 de novembro de 2014
CAPÍTULO 6
Era noite, e já estávamos sentados numa esquina do extenso corredor gramado (lendário, por ali) em que havia interfones em todas as mesas da festa. Era possível chamar uma pessoa do outro lado da mansão, discando o número de sua mesa. O sistema funcionava com a mesma eficiência no sentido oposto, e o interfone tocou algumas vezes em nossa mesa (Marion tentou falar com Cecília apenas uma única vez, depois desistiu, ao se dar conta da minha presença: mas outras mulheres queriam muito falar com Marion, ele era o produtor-executivo de tudo aquilo. ---- Meu anjo (ele falava) levante a mão, para eu saber com quem estou falando(.) ----, e logo uma loira oxigenada de olheiras fundas erguia o dedo no meio da fumaça de cigarros. ---- Você é fabulosa (.) ---- , ele falava então, e continuava ---- Mas não precisa agradecer, é a pura verdade (.) ----, enquanto isto, tamborilava os dedos na mesa, impaciente, desafiado e ultrajado, a todo momento buscando meus olhos e os de Cecília. Continuava com o interfone de sua mesa na mão: ---- Hilda , é um lindo nome (: e você ainda disse que é divorciada (: ótimo (: pode me responder uma pergunta, Hilda(?) (sim sim, claro que posso) ---- Quer foder comigo hoje à noite(?) ----, Marion disparava, e começava a rir ( um amigo dele, talvez um funcionário de confiança, perguntou-lhe: ---- Patrão, você não vive levando bofetadas por causa dessas coisas (?) ----, Marion acendeu um cigarro e disse: ---- Sim, vivo(... mas trepo um bocado, também (.) ----, caso alguma delas desligasse o interfone na cara dele, ele dava de ombros e discava outro número. As mulheres, de fato, nem sempre diziam não, e acabavam marcando algo para mais tarde, dentro da mansão. Às vezes Marion se levantava e entrava na mansão, desaparecia por meia hora, uma hora, cinco minutos (a festa estava restrita à área externa para a grande maioria dos convidados, e na região inteira o imperativo categórico da noite era conseguir uma mesa ali fora; dentro da mansão, alguns convidados privativos divertiam-se usando varas de pescar fornecidas pela organização da festa para pegar roupas íntimas largadas no chão de um palco iluminado pelas meninas do strip-tease. Haviam também homens vestidos de mulher. Agora eu odiava aquilo, odiava com todo o sangue de Cristo que corre nas minhas veias, mas Marion parecia muito divertido (El depois ia em frente, sempre estava conversando com algum funcionário, passando a mão na bunda de alguma garota de programa, guardando algum bilhete no bolso, anotando alguma coisa no seu celular. Vendo o quanto eu odiava aquele seu jeito, Cecília começou a rir ao meu lado. O barman trabalhava para ele, na fazenda, e foi possível ouvir alguma coisa da conversa que tiveram. ---- Uma noite dessas ela provocou agitação suficiente no nosso camarote para estimular minhas fantasias durante um mês(: acompanhou-me durante várias semanas, nas noitadas(: nunca senti tanto formigamento por dentro, vontade de foder toda hora(: ah essa vida promissora e cheia de maldade(!) -----, ele vivia rodeado de um exército de capos e mercenários sangrentos, poderia viver um dia ou um século, mas o vício piscava em seus olhos como anúncios luminosos num parque de diversões. ---- Sim, naquele tempo era um pouco melhor(.) ----, ouvimos o barman responder, e fiquei pensando no que poderia existir de melhor , num mundo como aquele. Nas outras mesas até poderia haver algumas pessoas deprimidas, mas à nossa volta a febre e a histeria só aumentavam. ---- Vou levar o Leozinho pra dar uma volta por aí, encontre a gente no parquinho, daqui a uns minutos(... ----, Cecília disse pra mim, e percebi subitamente que aquela era minha chance de entrar e dar uma espiada no que acontecia dentro da mansão (o que citei acima foi visto depois que entrei). A fisionomia de Marion , artificialmente alegre e cruel, de cabelos ralos, sua altura e corpulência, e sua luxúria desbragada pela pilhagem deveria provocar nos seus puxa-sacos a impressão de que, dado o número de mulheres que cruzavam seu caminho, eles poderiam recolher algumas ''sobras'' para si. Eu jamais tinha me envolvido num situação capaz de demonstrar o quanto eu temia algumas (daquelas) mulheres (todas pareciam fiéis à Marion e capazes de me empurrar pelas costas para o fundo de um porão onde eu pudesse ser torturado); mas ocultei-me bem, a princípio, dentro dos limites da mansão: adentrei o ambiente com a expressão concisa que encerra a idéia de que a morte tudo purifica, na pior das hipóteses. ''Mas a morte não purifica'', dizia comigo mesmo depois, arrependido, reconhecendo meu medo nos rostos dos convidados privativos ''A morte dissipa(!)''. As emoções, trapaças, cheiros, terrores, tilitações, gestos obscenos, pensamentos sádicos, projetos e planos de pilhagem inter-pessoal e (caso eu morresse por ali mesmo ) o gás incolor que apagaria todo aquele azedume das minhas vistas penetrando o ar, para ser respirado por aquelas pessoas e novamente exalado, talvez tenha influenciado em um milímetro o milhão de anos-luz à que minha imaginação estava daquilo tudo; perceber instantaneamente que algumas daquelas garotas de programa, divorciadas vingativas, solteiras e esposas disponíveis para orgia de vez em quando olhavam para mim sugestivamente, provocou em mim o mesmo pânico que costumava sentir no colégio, bem novo, quando eu ainda não sabia brigar e acreditava que poderia ser ferido seriamente à toa. O saldo dos meus atos era completamente desconhecido ali, e a partir do meu OLHO semelhante ao OLHO DE DEUS , com que eu contemplava tudo, sabia que eu ainda não era suficientemente DIVINO (estava fora da minha visão saber se a força da minha presença entre aquelas pessoas acelerava meu amor por Cecília, pelas agonizantes fadigas do TEMPO, ou se estava apenas desgastando o TEMPO, aproximando-me dos pesadelos de um DESTINO que começava a falhar perigosamente. Duvido que na história da nossa república tenha havido uma festa privativa com igual composição: uma cantora de música sertaneja e um surfista profissional, um estuprador e um delgado da Policia Federal, um psicanalista e vinte prostitutas de luxo, um cachorro poodle e um mecânico de maquinário agrícola, um hacker viciado em crocodil e seu irmão caçula cego, um capataz de fazenda de café e uma aparição espectral, um matador de aluguel e uma atriz de televisão. Naquele momento, tive a impressão de que o sexo praticado naquele recinto era a transação humana mais feroz e nojenta de todas: aquelas pessoas entregavam uma grande porção de si mesmas, para receber algo tão bizarro em troca que nem Hunter S. Tompson saberia definir o quê exatamente. Mas exagero meu medo, na tentativa de explicá-lo melhor (quando uma daquelas putas sentou ao meu lado e perguntou porque eu estava sozinho, alguma coisa na minha alma pareceu a ponto de ser sequestrada, corrompida e subornada: meu pensamento era ainda mais carola, admito, do que o episcopalismo pregado em São Mateus, sobre as verdadeiras força, coragem e responsabilidade de Cristo. Por outro lado, ainda me considerava um pouco (por contaminação) competitivo em relação à Marion. Não sei se devido à presença de Cecília e seu filho do lado de fora, ou ao vigor das sinapses nirvânicas no meu cérebro, eu me incomodava por não estar em condições táticas de entrar em campo contra Marion, naquele momento, em matéria de conquistas femininas. Uma parte em putrefação do meu ego queria voltar aos tempos de puteiro e baile funk e ser capaz de se gabar diante de todas aquelas aberrações, por fazer sexo com mais arte e intensidade do que qualquer um ali, mas o bom senso e a temeridade atrapalhavam meus planos de exibicionismo (eu precisava fornecer rápido uma explicação convincente para rejeitar o assédio e continuar ouvindo impassivelmente os diálogos entre os personagens que cruzavam meu caminho: ---- Enquanto eu pensava que ele era apenas um homem rico e inteligente, que tinha uma família em algum lugar, estava tudo bem (: mas um dia vi a foto dele numa revista de agronegócio e compreendi que ele não tinha me dito nem mesmo seu nome verdadeiro (: quis deixá-lo, mas ele me convenceu a viajar na sua companhia mais uma vez, para Miami(: disse que ali poderíamos estar juntos em público(: fui, e em Miami, naturalmente, fiquei conhecendo alguns de seus amigos e, VEJA SÓ, eram todos chefes de quadrilhas e traficantes internacionais (.) ----, que homem extraordinário (pensei) e sangrento, para compilar um tal esquema de personalidade em tão pouco tempo (essa revelação irônica valia também para meu amor por Cecília: uma saída de emergência foi construída no calabouço do meu cérebro, enquanto eu ouvia aquela puta de luxo conversando com o hacker viciado em crocodil e seu irmãozinho cego e mudo ao lado: ---- Ele já era da quadrilha, naquela época(?) ----, perguntou o rapaz. ---- Ele já era muito rico (respondeu a garota) e respeitado na alta sociedade (mídia, inclusive): gostava muito de jogar, íamos à Las Vegas apenas para isso, e cheguei a pensar que talvez ele fosse dono de algum daqueles cassinos(.) porque às vezes me deixava sozinha por uma semana, ou um mês, e isso não aconteceria se ele fosse apenas um cara rico que deixava uma puta pra trás(: evidentemente ele não era o tipo que pertencia à uma quadrilha, pelo menos não diretamente (.) ---, aquela garota fazia as pausas nos momentos mais estranhos da história. ---- É claro, havia sempre brigas (continuou ela) sobre alguém ser um possível CHEFÃO (: existe ou não existe(?) muitas vezes ouvi gente graúda discutindo isto, sujeitos da mesma posição que Marion no grupo (: mas logo alguém dizia ''NÃO EXISTE ISSO ENTRE NÓS. ESQUEÇA!'', enquanto o outro ria e se benzia (.) ----, dizia a garota, rindo também e imitando ironicamente o mafioso recém-eleito. Mas, se por acaso, eu mesmo digo que há (um chefão), giro a chave da categoria do meu próprio segredo, pois, como muitos leitores(as) já devem ter percebido agora, EU SOU O HOMEM MORTO NO CHÃO, ESCUTANDO TUDO AQUILO (sou no interminável instante deliberado da visão proporcionada pelo risco de morrer de um instante para o outro: os milhões de espasmos agonizantes da consciência irradiadora das palavras, ESSE ÚLTIMO TRAÇO DE MIM , uivando interiormente, turbulento com o terror de que eu não mais sabia onde estava me metendo, nem se havia mais outras vozes próximas para ouvir-me e responder-me, além daquela aparição espectral que se comunicava comigo por telepatia dentro de um oco ressonante do meu crânio. A garota continuou: ---- Creio que ele não fazia parte da quadrilha, diretamente(: mas a quadrilha realizava missões especiais pra ele (: missões complicadas, algumas no exterior, foi minha impressão(.) ----, outra pausa estranha: ---- Então (concluiu ela) comecei a achar que não era bom ficar sabendo de tanta coisa (: porque chegou o dia em que eu quis me livrar de Marion, e não sabia como (: mas nos separamos como amigos, ele me passou para um amigo dele ( outro rei do tráfico, na América do Sul; mas ele tinha tendências secretas escabrosas, e ameaçou me matar quando não topei (: ameacei-o com magia negra, cara a cara, acredita nisto(?!) mafiosos são mais superticiosos que macumbeiros(: EU DISSE A COISA CERTA (: diz um ditado do crime ''fuja de uma faca, mas enfrente um revólver'', e ele era um sujeito de revólver(: se eu tivesse fugido para outra cidade, teria levado um tiro pelas costas, numa noite qualquer voltando pra casa (: fiquei por ali mesmo, enchendo a cabeça dele de minhocas, e tive sorte de conseguir manter-me intacta por dois meses ( foi quando comecei a cantar em algumas boates e passei dois anos muito agradáveis nos States (com bandidos menores) -----, eu estava solto ali dentro daquela mansão, finalmente (iniciada a viagem enlouquecida, cujos primeiros ecos conheci acercando-me daquele primeiro diálogo, contaminava-me da malícia, licenciosidade, falsa promessa e horror no âmago daquela festa quando, sóbrio demais com o conhecimento da coragem que me era exigida e da pouca que ainda me restava, comecei a fechar os olhos e a guiar-me unicamente através dos acenos que a aparição espectral grafitava nas paredes internas das minhas pálpebras, sentado na salvação de uma cadeira de balanço vazia, abandonando qualquer pretensão de espreita mais arriscada à uma vontade apoiada na ausência de ego , e deixava a tortura de alguns discretos goles num copo de whisky temperar meu ouvido, arrastadamente, entre as vozes sobrepostas dos personagens em pé diante do palco de strip-tease. ---- Ninguém no nosso meio sabe exatamente o que o outro sabe ( disse a atriz de televisão, acercando-se do mecânico de maquinário agrícola) na verdade, ninguém sabe nem mesmo o que é que sabe (: considerando os homens com quem eu fodia no começo da minha carreira, outras pessoas que eu mal conhecia logo se prontificaram a me fazer todo tipo de favores(: julgava-me, então, mais importante do que eu realmente era(: não constitui pra mim motivo de orgulho dizer isto, mas eu tinha então até mesmo o poder de mandar matar gente(: e me ocorreu também que eu mesma podia ser morta, e sem saber para quê ou por quem(.) ----, e suspirou, o que me fez suspirar também, o ar entrando pelas minhas narinas e percorrendo um longo e insondável caminho dentro de mim, enquanto eu me distanciava internamente de todas aquelas presenças girando com uma rapidez inversamente proporcional à do ritmo luxurioso, e por alguns segundos me senti unificado com alguma coisa omnisciente dentro do meu cérebro, até expirar o ar de volta à atmosfera e perceber novamente, abrindo os olhos, a atriz, mulher, amante ou qualquer última personoficação da Grande Rameira conversando com alguém ao meu lado, arrastando-me de volta ao epicentro carnal da violação, dedos femininos de uma curiosidade furiosa contra um homem (eu) sentado em silêncio, indiferente, aparentemente sem espinha dorsal (além da cadeira) e mergulhado num tipo de dissolução cognitiva indescritível, a voz dela procurando arrancar-me de volta para o mundo dos vivos à nossa volta com uma determinação procriadora, e então ela se inclinou finalmente sobre mim e perguntou: ---- Você está se sentindo bem, moço(?) ----, respirei fundo, quando começava alguma coisa vertiginosa assim, um estado de consciência intensificado, sentia sempre que havia um anjo (agora, uma aparição espectral) que me acompanhava e orientava. ''Todos os órfãos têm'', eu pensava ''é parte da economia espiritual da Natureza'''. ---- Eu só estava aqui pensando, minha flor (eu disse) é que costumo pensar de olhos fechados(.) -----, mas essa era a mentira das aparências partilhada entre dois desconhecidos, ocasionalmente, um pão de falsa farinha que, pela força das circunstâncias, me reconduziu às determinações práticas de espreitador, de volta à virtualidade viva daquela festa, depois de me ter projetado longa e profundamente pra fora dela. ''Agora eu vou'', pensei ''o vórtice não pára''. Ela voltou a conversar com o mecânico de maquinário agrícola e o psicanalista, enquanto o delegado da Polícia Federal inalava uma espessa carreira de cocaína num espelho de mão, com o poodle no colo, sentado num sofá de couro vermelho ao lado de um gogo-boy vestido de mulher. ---- Sempre fui independente (disse o psicanalista), ou pelo menos, gosto de pensar que sou(: creio haver algo em mim que não quer nada de ninguém, e talvez seja isso o que agrade à bandidagem para quem trabalho (: atribuo isto ao fato de minha mãe ter abandonado meu pai, meu irmão e eu quando tinha dez anos(: meu pai era um bêbado desgraçado, me dava surras de criar bicho(: mas quando cresci, perdi a conta de quantas vagabundas amigas do meu pai eu comi sem que ele descobrisse(: no fundo, odiava aquelas vacas, porque me impediam de ter... um pai decente(: o velho Marion foi a coisa mais próxima que tive de um pai, mas não diga à ele que falei isso, senão vai começar a querer controlar de novo os rombos nas minhas despesas com drogas(: não quero me arriscar(.) -----, e eu, agora, afundo ou vôo(?) me perguntava: todos os vetores haviam desaparecido do meu pensamento , enquanto no centro de mim, claro como o olho gelado da cocaína, preciptava-me para um ponto de julgamento final onde haviam agora tantas provas definitivas de tantas coisas que eu mal sabia o que fazer com elas (meu impulso e recuo masculino da avarenta caverna cabeluda daquela festa que começava a sugar toda a energia da minha mente); assim me aproximei dele, Marion, indiretamente, ouvindo aquelas estranhas conversas, entre estranhas pessoas; e assim também, provavelmente, o perdi de vista, mergulhado em seu destino insólito, inapreensível, indecifrável, no qual entrevia-se tanto êxito quanto fracasso, comédia e tragédia. ----- O que você tem na cabeça esta noite(?) já vou até aí (alguém disse, puto) quero ver que tipo de palerma tem a petulância de falar assim de mim (----, a aparição espectral (meu anjo da guarda) de repente se tornou a coisa mais valiosa que eu possuía no mundo. Como Deus, aquele espectro agora também sofria da ambição de realizar um destino mais extraordinário do que o que havia sido concebido para ELE e, consequentemente, também para mim; ''Deus é como eu'', pensei ''apenas um pouco mais''. Eu estava diante da cantora de música sertaneja que tinha acabado de dizer aquilo. Ela agora conversava com o matador de aluguel: ----- Pois eu também tenho que vigiar o meu assassino profissional (ela disse), pois há um serial killer bem aqui dentro desta mansão, pessoal (tem certeza, ele perguntou rindo) sim (ela respondeu) mas um assassino em série seguro de si, sem inspiração nenhuma (só mata por encomenda) ----, ela era grande e bonita, com feições amplas e corpo esguio, panturrilhas musculosas e veias saltadas nos ante-braços (por qualquer critério de acasalamento animal (as sombras da vida bandida agora ditavam meus pensamentos) ela daria um excelente par para Luís Carlos Marion, o que parecia provocar algum ciúme inconfessado no matador de aluguel. Seu nome era Suzana, foi como o matador de aluguel a chamou. ----- Apenas faço trabalho externo, Suzana (.) ----, ele disse, e pude perceber que havia escolhido ela para passar a noite ou simplesmente não queria vê-la com mais ninguém, muito menos com Marion. Ria de maneira forçada e discutia obstinadamente os méritos do seu ofício com ela. ---- Não posso saber (: a verdade feia, mas que pode ser dita aqui, é que, provavelmente, um ou dois homens em Paranaguá estão mortos agora, e talvez ''a culpa'' seja minha(... rs(.) ----, ela adorou aquilo (os sinais do status homicida retiniam em sua cabeça como numa caixa registradora); e fiquei surpreso com o que Suzana disse depois: ----- Bem, a verdade é que aqueles dois já estavam mesmo por um fio e eu fui bastante vingativa pra puxar o fio(: e você o gatilho(: comecei a pensar naquela cidade que eu odiava e que sempre considerei abaixo de mim e da minha música, aquela inveja, mas que agora me pertencia por direito e força (: agora ela cabe inteira dentro do meu fantasma (.) ----, e deu um sorriso sensual, cheio da sua própria carne. ---- Devia ter levado você para aquele programa, pra ver como é que funciona a coisa ao vivo(.) -----, disse o matador de aluguel. ---- Sim (ela sacudiu a cabeça várias vezes) mas não é bom para uma artista jovem, promissora e completamente sem talento como eu (hoje isso é possível) andar com homens que enfrentam quase tudo, mas sabem que há ALGO que jamais poderão enfrentar (e deu outro sorriso, agora radioativo, e acreditei te-la ouvido pronunciar o nome de Marion) -----, pura verdade (as nádegas de Suzana eram primas da lua, e filhas de Marion), e o matador de aluguel, tendo sua dignidade masculina para defender, ao ouvir AQUELE NOME , retrucava agora, visivelmente desafiado: ----- Ah, cala essa boca(: você nem sabe cantar direito, Marion pagou todos seus cursos de canto , financiou seus discos e inventou aqueles shows pra você fazer a abertura nas exposições de gado de lá (!) ------, eu só olhava, como já contei: ----- Aprendi um pouco nas aulas de canto (: mas é verdade (Suzana disse), acho que sou mesmo uma péssima cantora, apenas alguma presença de palco, nada mais(: hoje em dia, que diferença faz(?) ----, isso, aparentemente, encerrou (ou azedou) a conversa entre eles: ela bocejou e espreguiçou os braços lindamente (que corpo!) , e eu não estava mais preparado para coisas piores do que aquela história; por isto, comecei a sentir vontade de vomitar, mesmo sabendo que dentro de uma ou duas horas eu deveria estar pronto para ir pra cama com Cecília como se nada tivesse acontecido. Aquela era também a sensação de que eu não me pertencia mais, de que o meu centro era agora propriedade de Cecília. E a sensação que senti cinco minutos antes de deixar sua companhia (de que eu seria capaz de matar Marion) voltou com força. Sentia-me perfeitamente capaz de fazer a coisa e aquilo me assustou. A possibilidade de que minhas melhores emoções, quando fazia amor com Cecília, fosse uma sensação que agora pertencia somente à ela, encheu-me de um impulso homicida. Como distinguir entre o amor e as artes do Diabo? Não houve tremor no ar, enquanto eu pegava um pedaço de guardanapo e escrevia um recado (a aparição espectral apontava para o matador de aluguel). ---- Entregue quando ele estiver sozinho(.) ----, o garçom me olhou de um jeito estranho. ---- Diga apenas que foi de um amigo(.) -----, aquela era uma invenção do Mal. Mas há operações que devem ser feitas de um única vez, com sentido de oportunidade (eu sentia dentro de mim a selvageria estratégica de um amante ansioso por ver o caminho livre. O garçom entregou o bilhete à ele, sem abri-lo ou apontar-me. Senti a irritação no rosto do matador de aluguel crescer, até tomar a forma paranóica; um lampejo daquele orgulho de profissional eficiente (rosto queimado de sol e jaqueta de couro) ,de um dom que se preparava para a última canção diante de um auditório seleto (mas alguma coisa humilde e discreta de repente predominou naquele rosto, segundos depois, e ele disse ao garçom: ---- Tudo bem(.) obrigado(.) ---- ,
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