domingo, 30 de novembro de 2014
''Corta a cabeça do Buda!''
Buda comparava os métodos para alcançar a liberação com uma balsa que nos conduz à outra margem. Uma vez lá, já não havia necessidade de métodos. ''Mantém-se energizado, passa despercebido e serás livre'', dizia Rinzai, o mesmo sábio que aconselhava, a todo buscador de poder espiritual, a CORTAR A CABEÇA DO BUDA , caso nos deparássemos com ele. ''Não se apegue a nenhum ensinamento'', dizia Rinzai. Não necessitamos acalmar nossas paixões, dizia William Blake, apenas ''cultivar nossa compreensão... tudo o que vive é santo'' e também ''O sagrado nos devolve ao profano, mas nunca mais o veremos como profano''.
'Eu te dou a ponta de uma corda de ouro...
Quando William Blake escreve ''Eu te dou a ponta de uma corda de ouro, Apenas enrole ela numa bola; Ela te conduzirá á porta do Céu, Construída na muralha de Jerusalém'', ele não está usando uma terminologia privada e sim uma terminologia cujo rastro podemos seguir mesmo antes da EUROPA e segui-la através de DANTE ''questi la terra in s? stringe'' (Paradiso I.116 ), dos EVANGELHOS ''Ningún hombre viene a mí, excepto que el Padre… tire de él», San Juan 6:44, cf. 12:32 ), de FÍLON, y e de PLATÃO ( com sua «única corda de ouro» a que nós, as marionetes humanas, devemos agarrar nos e pelas quais devemos ser guiados, Leis 644), até HOMERO, onde Zeus pode tirar tudo de todas as coisas e até a si mesmo por meio de uma corda de ouro( Ilíada VIII.18 sigs., cf. Platão, Teeteto 153 ). E não é só na Europa onde o simbolismo do ''fio de ouro'' foi corrente por mais de dois milênios; tal simbolismo tbm se encontra presente em simbolismos islâmicos, hindus e chineses. Assim, lemos em Shams-i-Tabriz, «ELE me deu a ponta de um fio.… "Tira", disse "para que eu possa tirar: e cuida para que ele não se rompa com a ação"», e em Hafiz, «guarda sua ponta do fio, para que ELE guarde sua ponta''; no Shatapatha Brahmana, esse SOL é o nó ao qual todas as coisas estão atadas pelo fio do espírito, mientras que no Maitri Upanishad a exaltação do contemplativo se compara á subida de uma aranha pelo fio de sua teia; Chuang Tzsé nos diz que nossa vida está suspensa por Deus como se fosse um fio, que se corta quando morremos. Tudo isso se relaciona com o simbolismo do tecido e do bordado, os ''jogos de cordas entrelaççadas'', o cordel, a pesca com rede e a caça com laço; e com o simbolismo do terço, rosário e colar, pois, como nos recorda o Bagavad Gita ''todas as coisas estão entrelaçãdas com ELE como se fossem fileiras de pérolas em um fio''
Tú poderás ver também, como estas unidades, como o sentido (sensus) remonta á razão, a razão á inteligência, a inteligência á Deus, onde o início e a consumação se encontram, num perfeito curso circular.
Tú poderás ver também, como estas unidades, como o sentido (sensus) remonta á razão, a razão á inteligência, a inteligência á Deus, onde o início e a consumação se encontram, num perfeito curso circular.
sábado, 29 de novembro de 2014
CAPÍTULO 8
Veja, a única frase dita pela VOZ foi ENTRE. Na sacada, ela abriu a bolsinha prateada. Combinando com o vestido prateado. Trocou de roupa para me receber. Tira um cigarro da bolsa. Aproximo um isqueiro. Acende. Traga. Momento de devoção contínua: penso no capelão episcopalista de St. MatheW, ele costumava fazer o sinal da cruz tão concentrado na agonia do Nosso Senhor (sua expressão demonstrava isso) que a gente sentia a mesma agonia no peito. Impressionei-me com a solenidade do encontro entre o cigarro e a chama do isqueiro. VOZ. Tão profundamente feminina! Como se eu me deparasse, finalmente, com a imagem de uma sacerdotisa da antiguidade, e com as descrições da intimidade antecipada entre nós, sob o olhar de um oráculo tântrico. Deturpo tudo pela violência cômica implícita na minha narrativa. Até agora não disse nada de muito relevante. A não ser que isso tudo era uma VOZ. Um súcubo é uma VOZ. Apenas digo que as artes de todas as mulheres atraentes que conheci na vida pareciam agora absorvidas pela pessoa dela. Pela pessoa dentro daquela VOZ. Não consigo tirar os olhos dos seios. Sob a luz que chega na sacada, parecem muito bem-feitos. Misteriosos no decote profundo como sua voz. Em seguida, percebo que ela está perfeitamente consciente do meu exame. Não importa, ela parecia pensar que ( uma placa de DIAS DEPOIS resolveria o problema do período de despersonalização e êxtase, na companhia daquela VOZ. Captação de forças psíquicas. Captar uma força psíquica, através de práticas ocultas, é tornar sensíveis forças invisíveis e inaudíveis, e libertar a vida de uma prisão (a personalidade) traçando linhas de fuga dentro da consciência, ampliando sua tela de captura indefinidamente . Uma VOZ dessas é um INORGÂNICO. Um SÚCUBO não é uma mulher, é um organismo psíquico parasitário (sendo Domingo de manhã, havia feira e a praça e as ruas do centro da cidade estavam cheias: eu seguia meu caminho em direção às barracas de verduras frescas. Ao ver Janice andando adiante, não me surpreendi. Ela trajava uma jaqueta lilás cinzenta, seu passo era ligeiro e insólito; usava na cabeça uma boina preta com uma flor de pano branca, inclinada para frente. Seu cabelo preto estava preso atrás num coque. Eu advinhei que a apurada elegância dela logo de manhã cedo nas ruas daquela província significava que tinha dormido mal (existem cabeleiras com tendências a serem frias, outras que parecem gerar seu próprio calor nas mais frias condições. No ar friorento daquela manhã de Domingo, enquanto ela permanecia totalmente alheia à minha presença atrás dela, fui capaz de prever (com exatidão paranormal) que o cabelo de Janice estava inusitadamente quente. Ela parou para olhar uma barraca de uvas e eu peguei abruptamente seu braço por trás. Ela virou-se. Suas feições demonstravam alívio, ao ver que era eu. Continuava franzindo a testa, mas um sorriso apareceu na sua boca. ---- Ainda tá morando aqui(?) ----, perguntei. ---- Estou (: aluguei uma casinha na Vila S.F (.) ----, me pareceu uma mudança para melhor. ---- Sozinha (?) ----, sim: ela queria viver sozinha agora e a nova casa facilitava isso. Quando uma garota (uma mulher) está sozinha em sua casa (ou quarto) e segura quanto a isto, pode se olhar no espelho e mostrar a língua (uso aqui um símbolo para outras coisas: isso a fará rir e, em outras ocasiões, chorar. O mundo subjuntivo da mulher, reino de sua própria presença, onde uma parte dela VIGIA outra parte VIGIADA. Naquele momento, isolo essas duas partes dela no meu pensamento para seguir meus próprios olhos com mais fidelidade. Meus olhos se mexem, tento decifrar algo ( o novo testemunho de cada parte , de cada nova visão dela, contribui agora para que eu perceba um todo, um todo pulsante como um jovem coração. ---- É bem pequenininha, numa rua quieta no começo da colina (.) -----, na verdade, era a mais antiga construção do bairro, e perto de todos aqueles bangalôs alinhados na calçada como quadros num supermercado (um desenho num conto de fadas: do lado de fora era de estuque num tom lavanda pálido, com molduras de janelas marrons, e dentro apenas uma sala, quarto, cozinha e banheiro. Havia uma banheira velha ao lado do chuveiro; o teto curvava-se no meio, e a porta da frente ficava praticamente em cima da calçada. ---- He he (: fiquei apaixonada à primeira vista(.) ----, ela disse. ---- Por mim (?) ----, perguntei, rindo. ---- Não, pela casinha(: rsss(.) -----, no quintal, havia um velho pé de romã arruinado, com alguns arames enferrujados sustentando alguns ramos. Janice realmente a adorou. Janice, olha pra mim: eu te vejo, olha pra mim olhando pra você, e você se verá sendo vista tal como é, pois meus olhos estão atravessados pelo vazio cósmico. Ela me olha: minha imagem nos seus olhos recobrem a superície inteira do corpo dela como uma segunda pele. É um olhar intimista. Eu jamais me vi assim: é a primeira vez que converso com alguém depois de muitos dias meditando. Ela me reconhece, seu reconhecimento não pode ser apagado. Queima aquilo que reconhece. Combustão de olhos e desejo em que tudo fica tão claro que ela reconhece como familiar aquilo que jamais o foi. ---- Acredita que uma semana depois que mudei minha mãe se separou e sumiu de novo (?) isso teria me deixado deslocada por aqui se não tivesse alugado a casinha (: é bem melhor do que um namorado ou um marido(.) ----, ela disse. ---- Quem, eu (?) ----, perguntei, rindo de novo. ---- Não, a casinha(: como você é bobo, K(!) ----, Janice se divertia, pelo jeito; eu também. Ela não parecia ter transado com ninguém por semanas (parecia, mas teve: apenas talvez não estivesse com tanta vontade até então, estava com uma cara saudável de uma jovem aprendendo a digerir a própria vida : o homem com quem morou, o ex-namorado na cidade e mais ficantes do que se poderia contar. Bem , a rotina continuava. ----Agora eu tenho um emprego de garçonete no Nemo´s(.) ----, talvez não fosse de todo ruim para ela, no momento. Meu Deus (!, ela enchia meu coração de ternura e piedade. Seu rostinho lindo brilhava e seu olhar era tão macio quanto translúcido, enquanto ela percebia algo no meu jeito de olhar pra ela: a maioria dos homens, quando olha para uma garota que os atrái, já deu início ao processo de seduzi-la e despi-la com a imaginação ( já a vê em determinadas posições e com certas expressões no rosto (já começou a sonhar com ela, como eu, naquele instante. ----- Acho que o dia mais feliz da minha vida foi quando fugi do homem com quem morava e dormi numa praça, numa cidade desconhecida (: e também uma noite por aqui, tomando ácido com o Daniel (: não digo feliz, mas bom no carro a noite e o céu (: nossa haxixe ---- (pensei que ela começava a fantasiar ou... ou oquê? ----- (: quase tive um colapso(!) tomei outro(: rádio ligado na represa, tocando funk ou sei lá o quê (: -----, entendi o que ela queria dizer: provavelmente , de súbito, os flúidos de Daniel, do carro e da noite começaram a se confundir (reino subjuntivo das cores) UUAAM! , e ela sentiu-se arremessada na estrada, em pleno vôo. Daniel disparou atrás dela, pegou-a, arrastou-a de volta, mas ele próprio pirado demais. Com Daniel, às vezes, ela ficava com os seios hiper-sensíveis pelo excesso de carícias, como quando era criança. E às vezes enjoava dele na cama. Mas ela tinha sido louca por ele, de fato. Rapaz bondoso. ---- O Daniel não deve voltar do Sul tão cedo(.) ----, deve ter sido um namoro engraçado: eram felizes e miseráveis ao mesmo tempo. Depois que terminaram o namoro sério, Daniel esfriou-se tanto que quis vendê-la. "Já que você se acha tão boa assim(...)'', ele disse, bancando o inabalável. Mas era um comerciante nato e precisava de algo para vender, quando a banca quebrou. ---- Quer tentar (?) ----, ele perguntou à ela na época (ela me contou: talvez isso tenha lhe proporcionado um monte de sensações malucas, que não podia ficar me contando detalhadamente. Cruas demais. Ela acabou preferindo não brincar de novo com o ego sensível de Daniel. Ciumento demais. ----- Você vai ficar por aí, K(?) ----, me perguntou. ---- Não sei (.) ----, respondi, imaginando-me nu diante dela. Janice se dá conta disso: percebeu que o homem diante dela não tem nenhuma necessidade de esconder nada. ---- Você vive de quê, K(?) ----, perguntou. ---- Tenho dinheiro no banco(: ouro, ações, vou e volto do garimpo (: até outro dia não tinha nada, mas hoje posso andar por aí sem ficar na mão(.) ----, sinto que ela há de guardar a informação para si ( magnífica imprudência de K. ---- Éééé´você é um artista na arte de viver assim(: nunca vi, se não te conhecesse um pouco ia achar que você é sinistro (.) ----, dessa vez, a escolha não era entre encorajar ou desencorajar (se ela baixar ou desviar os olhos, será praticamente admitir que ela me viu tal como sou: uma vez uma garota me disse olhando nos meus olhos que nunca tinha olhado dentro de olhos tão vazios ( mas se Janice olhar para o lado, direi que apreciou uma certa vontade louca minha de ficar com ela hoje. ---- Quer me ajudar a colher amoras(?) ----- (me perguntou) meu Deus(!), essa é a vida mais estranha que já conheci, pensei: o que prometer à alguém como ela(?) Amor, logo mais e (porém isso ainda não se cumpriu: por Deus, eu vi coisas dentro da meditação e senti que era um nevoeiro tão extenso que era inútil fixar a atenção em qualquer coisa determinada, depois de fixar distantes filamentos de luz envoltos por uma luminosidade opaca passiva: mas se fizer amor com Janice hoje seria completar algo que já tinha acontecido entre nós. Quando descrevo algo, quando o nomeio, CRIO ou SEPARO-ME desse algo ( mais ou menos, certo? Foder é como nomear algo que aconteceu na única linguagem adequada para exprimi-lo (somente quando nada aconteceu é possível separar o sexo do amor, a não ser que seja tão pedante ao ponto de compor uma canção idiota sobre isto. O tempo melhorou de repente. Fizemos compras e guardamos na casa dela. A colina atrás da casa convidava à uma caminhada na floresta. ---- Gostou do meu quartinho, K(?) ----, ela me perguntou. ---- Amei (: espero que aquela cama não se torne apenas um leito para bad trips (.) ----, disse, ela riu: ----- Agradeço à Deus por essa brisa gelada e as árvores e bordos copados (: aqui vamos nós(.) não é romântico(?) -----, ela diz, com um farfalhar ao fundo que podem ser as batidas no meu coração. Fricção dos olhos e tato amplificado. A voz dela é feminina e difícil de se distinguir do vento nas árvores. O sonho da noite anterior cospe um pedaço de diálogo nos meus ouvidos (aquela mulher imaterial do sonho, aquela VOZ que abafa a de Janice por um instante, reaparece na minha cabeça: ''OUÇA A MOCINHA FALAR AGORA(: EU SOU APENAS UMA PRINCESA CRIADA EM BERÇO DE OURO , MAS ELA NÃO(: É FÁCIL PRA TODO MUNDO DIZER NÃO FAÇA ISSO OU AQUILO(: PRA VOCÊ, K, ISSO É SÓ MAIS UMA CURTIÇÃO(: EU NÃO FICARIA PREOCUPADA, NO SEU LUGAR(: QUANDO TUDO ISSO FOR POR ÁGUA ABAIXO VOCÊ VAI VOLTAR PRO GARIMPO E EU VOU VOLTAR PRA SALVADOR E PEDIR AO PAPAI PRA FINANCIAR SEIS SEMANAS NA COSTA DO SAUÍPE(.) ''. Não era a VOZ de uma coleguinha, era uma VOZ arrogante, sugestiva, afetada, preocupante, invejosa, comprometida com seu ARTHA pessoal ( o próprio KARMA e o PADMA de alguma coleguinha de quarto: mas logo respiro fundo e me pergunto se não seria possível pedir àquela VOZ para ficar de boca fechada em assuntos de que não entende bosta nenhuma. Volto para Janice. A luz penetra na floresta quase horizontalmente. Cada entrada, entre as árvores, na profundeza da floresta adquire, nessa luz, um exagerado aspecto estereoscópico. As árvores aparecem, à contra-luz, inteiramente pretas. As árvores iluminadas pela luz do sol são cor de mel acinzentado. A mesma luz se derrama sobre a jaqueta lilás de Janice. À medida que caminhamos, os pés dela, em suas botas com presilhas, pisam leve porém profundamente num tapete de folhas de pinheiro, pinhões apodrecidos, musgo e ramagens de flores. Cada superfície está mais do que normalmente vívida, porém na floresta tudo perde algo de sua substancialidade. Até agora, com Janice, eu não fui mais do que ''polido'', mas ciente da força do conluio inconsciente que agora nos ligava. ---- Não lembro de ter visto você por aqui esses dias(.) ----, Janice disse. ----- Estava entocado, enfrentando a confusão que aprendi nos livros(.) -----, e enquanto isto, Janice tinha andado brincando com o rapaz sardento da segurança do banco. Sei, o seu tipo de diversão (as árvores são espruces ou lariços; o musgo cresce com mais facilidade nas primeiras; muitos galhos mortos exibem uma decoração de cabelos verdes entrelaçados, como algas secas; em outros galhos, listas e grumos de líquens estão grudados como tachas de prata branca embaçada. A maneira como Janice finca os pés sobre tudo isso, o exato comprimento das costas dela à minha frente, o tom rascante e feminino da sua voz, tudo me parece significativo como um milagre. ---- Que confusão(?) ----, ela me pergunta, meio atrasada; a dos livros certamente ( não há fim no que podem oferecer, apenas determinação infinita (e eu não estou me iludindo: a importância dos menores movimentos dela, o poder daquilo que a diferencia de todas as outras mulheres, me faz arriscar alguma explicação: ----- A confusão do próprio Universo, certo(?) uma ordem tão grande que numa cabeça pequena de ser humano vira uma confusão(: por isso, eu medito e busco dominar as imagens dentro dos meus sonhos (.) ----, e isso é o mundo. Sinto que Janice me envolverá, se demonstrar alguma curiosidade pelo que digo. ---- He he (... legal(.) -----, ela se virou no caminho e empurrou meus lábios para cima com os seus, talvez menos um beijo do que uma imitação dos beijos vistos em revistas ou na televisão ( tinha deixado de ser uma pessoa, e agora haviam apenas histórias: a pequena peça clara da calcinha de Janice saiu para o lado entre os meus dedos (contorção e uma costumeira dança imóvel e sensual da musculatura, executada com um sorriso meio de desafio. ---- Você não vai me comer aqui, K(: está frio demais (.) ----, ela disse, me pareceu então pouco menos nua que com minha mão entre as suas pernas . Acrescentou: ----- Fala mais aí das imagens dos sonhos, como é isso(?) -----, os mamilos, discos de pele de uma leve cor rosa, haviam-se enrijecido com a exposição ao ar e aos meus olhos. ----- Tá frio mesmo(: o controle dos sonhos é um procedimento ocultista antigo (xamânico, para ter acesso à poderes mentais (: cada novo praticante de nagualismo , à medida que avança no treinamento e endurece sua disciplina, sente muito claramente os ecos desses antigos conhecimentos e as revelações continuam vivas por trás do mundo cotidiano(.) -----, a luz que, ao recair sobre Janice naquele momento, revelando-a, é exatamente como a luz que recái e revela cidades e oceanos: os fatos do seu ser físico, agora, são as únicas ocorrências do mundo para mim e isso é delicioso ( o espaço no qual Janice se move é o espaço do Universo inteiro. Ela pergunta: ---- E pra que servem essas coisas, na prática(?) -----, é como tentar explicar a poesia de Mallarmé : ----- O propósito de um praticante de nagualismo é arder de dentro para fora e desaparecer, devorado pela força da percepção (: alguém assim se prepara a vida inteira para isto (: claro que não há muita gente assim(: são pessoas tocadas profundamente pelo contato com outros planos, é idiotice querer convencer uma pessoa comum a aprender nagualismo ou ocultismo em alto nível (.) ----, acentuar a unidade da minha energia total, vencer a morte. ----- Está começando a ficar frio(: quer comer mais amoras ?) já são cinco da tarde (.) -----, sim, chegando a noite, nuvens voltam a se formar sobre a cidade. A luz plúmbea faz com que a igreja à distância pareça um gigantesco estilhaço de metal. Os canais nos subúrbios parecem ter se tornado pretos. Os espaços abertos na floresta parecem agora carecer de ar, como se tivessem sido colocados numa caixa. ----- Vamos voltar, o céu já está estrelado (.) -----, numa de suas tiradas oportunas, Carlos Castaneda fala de um dos mais poderosos mananciais do universo: a ENERGIA ESCURA ( o mar escuro da consciência) como fonte de alimento espiritual de um praticante de nagualismo; na minha adolescência, quando supunha que o mundo tinha sido minuciosamente ordenado para meu próprio benefício, com uma eternidade virtual levada em conta para inspeção de suas inúmeras partes vastas e misteriosas, eu dava as ESTRELAS, como as nuvens no alto, como CERTAS. Conhecia a Ursa Maior e Órion, e numa noite de verão fui capaz de mostrar à uma menina na praia, com uma voz cheia de inexplicável excitação, Vênus (uma luminosa perfuração branca no azul que se aprofundava no sangrento pôr-do-sol) e Sírius ( a ardente). ----- O ''mar escuro da consciência'' são emanações de uma fonte todo-poderosa de energia consciente (: a Águia ( -----, como uma espécie de buraco negro, essa FONTE também absorve de volta a vida e a energia dos seres que não alcançam poder suficiente para preservar sua consciência depois da morte física (.) ----, num momento e noutro, eu me dava conta, assim como um esquiador se dá conta das águas escuras nas quais desliza, de um firmamento pontilhado, uma partícula de mundos distantes, entre as silhuetas maciças das copas das árvores que atravessávamos, no caminho de volta. ----- A Ciência hoje admite que tudo aquilo que percebemos, incluindo as ESTRELAS, ocupa tão somente míseros 4% de tudo o que existe no Universo, sendo que 70% corresponde à ENERGIA ESCURA e 26% representa MATÉRIA ESCURA, ainda de natureza misteriosa para os cientistas(.) -----, mas no quintal, onde minhas revelações realmente começaram a surpreender Janice, ela se apressou em fazer um baseado e sentir o pulsar da minha respiração controlada enquanto eu falava. De fato, era uma casinha humilde, mas espetacular, com a janela iluminada atrás das nossas cabeças. ----- Sabemos hoje que o Sol navega na direção de uma estrela chamada Vega, que significa ''Águia'', em árabe, situada na constelação de Lira(: algo atrái nosso sistema solar para aquela região do espaço(.) -----, a imagem pareceu perturba-la, com o baseado na mão, olhando para o alto e sentindo um fervilhar de atividades que prosseguiria sem ela ou eu, a noite inteira: o impacto intelectual das minhas observações foi momentaneamente amortizado pela passagem de algumas garotas em frente à casinha (corpos femininos com seus pesos maleáveis, auras empoadas e perfumadas, blusas sedosas e calcinhas elásticas: houve um verão, há poucos anos, em que aluguei uma casa de praia com um deque, comprei um guia de bolso da abóbada celeste e aprendi a localizar o triângulo de verão das estrelas luminosas: Denébola, Altair e Vega, e algumas constelações proeminentes: o V voador de Andrômeda, o Cisne cruciforme, a pequena Lira retangular, e Cefeu, com o formato de uma casa em um desenho de criança. Naquelas decifrações (as pranchas do deque rugosas sob meus pés descalços, a casa de madeira toda iluminada e as vozes das pessoas conversando na varanda da casa vizinha) eu me senti unido à antigas gerações de astrônomos e astrólogos ( o homem mal alcançou a postura ereta e já começou a tentar explicar as estrelas, a dar-lhes nomes a partir de deuses e animais (a Águia é o animal de Zeus / Júpiter e veículo do deus Vishnu, através de Garuda (sempre mostrada dominando uma serpente) e logo depois começou a construir enormes círculos e pirâmides de pedra, como que para demonstrar uma harmonia aplacadora com os ciclos da máquina celeste ( foi também uma águia com serpente que assinalou para o deus-sol asteca Huitzilopochtli o local de sua nova capital, Tenochtitlan; na Hierarquia dos Pássaros, a Águia representa o Adeptado, o dom da Quintessência, o Alquimista consumado com acesso às Leis da Natureza. ----- Quem foi o primeiro homem (talvez um pouco mais que um macaco) a compreender que o borrifo congelado no céu atravessava a noite como um disco fora do centro? E quem foram aqueles vigilantes homens sábios que notaram os planetas pela primeira vez, os nômades que mantinham as próprias trajetórias lentas e arcadas ao longo da superfície desse disco (?) as ESTRELAS foram os pais da especulação, da filosofia. Sob o olhar fixo de Janice, como se ela estivesse suspensa pelos calcanhares acima de uma tigela abissal, as estrelas agora pareciam cantar, gritar em coro ressonante. Na realidade, após o primeiro trago no baseado, eu também ouvia aqueles sons solitários aglomerando-se num zumbido dentro da minha cabeça ( também grilos grisalhando no capim seco do quintal sob nossos pés: estar apaixonado é um complicado estado de expectativa por uma troca contínua de determinados tipos de dádivas (pela manhã, eu a ouviria tomando banho na velha banheira ao lado do chuveiro, e lembraria da noite de hoje, e do nosso banho); o quintal da casinha, sob a luz da janela atrás de nós, é agora um emaranhado de capim e flores silvestres da altura do meu joelho: pétalas desbotadas pelo sol até ficarem quase brancas, porém não brancas-argila como os minúsculos caracóis encontráveis no solo poento; delicados gladíolos silvestres da cor de ametistas, transparentes e menores que um nó de dedo; e o vermelho dos gerânios (a cor pela qual uma criança visualiza o fogo); papoulas desbotando, úmidas, suas corolas pendentes da cor de manchas de vinho; extensões rasas de pedra plana, lisas e acinzentadas como flancos de golfinhos. O quintal cercado por visões e audições. Temos consciência de um gosto doce em nossas gargantas. Olho para Janice (o baseado está no fim, graças a Deus) e percebo os olhos de uma garota desconhecida me olhando: ela olha para mim sem que seus olhos me focalizem inteiramente, como se eu, tal como a natureza ali presente, pudesse ser encontrado em toda parte. Fico meio zonzo, agora, olhando para cima; meu pescoço começa a doer; meu senso de relações espaciais volta a ficar limitado e, dando-me por satisfeito com umas poucas identificações notáveis, ou tendo, pelo canto de um olho, aparentemente visto a queda de um meteoro, pego Janice pela mão e deixamos o quintal. Voltamos para dentro da casa, a calidez feminina, a luz elétrica. Ponho sem hesitar a mão nos cabelos dela e abro os dedos para deixa-la pular entre eles. Ela abre as pernas e empurro a mão naquela direção. Ela segura meu pau com as duas mãos como se fosse uma garrafa que estivesse prestes a despejar em si mesma. Agora, se move para o lado para ficar embaixo. Sua vagina começa no ar que respiro: seus seios estão dentro dela e os olhos também. Fui abduzido. A facilidade. Janice me brindou com uma de suas especialidades: a felação. Assim que subimos na cama seus dedos voltaram a segurar meu pau como uma garrafa, e ela conduziu sua boca por uma montanha russa de subidas e descidas longas, lânguidas e lentas; não gozei solto, na primeira vez: uma teimosia residual recusava-se a cruzar a ponte até sua boca. Gozei depois de várias idas e vindas dentro dela. Ela gostava de sentir o gosto da própria buceta na minha boca e no meu pau. Minha virilha puxava um pouco, quando terminei. As torneiras do chuveiro dentro do cubículo de mármore eram inúmeras, por causa da banheira, e produziam vários tipos de jato (um buquê de finas agulhas ou um esguincho de cordas dágua mais grossas em rápida pulsação. Junto dela sob a catarata vagamente aquecida, ensaboando-lhe a pele de modo a fazer com que a seda se recobrisse de uma graxa branca, ela sente novamente o punhal transformar-se em espada, sob a água, estourando de tão pesado. Janice ensaboa-lhe naquele ponto com uma expressão séria, curvando a cabeça sob o martelar da água para ver melhor as veias saltadas, a pele rosa, roxa e vermelha, a glande em forma de coração. No espelho trincado da pia, levanto-me e vejo-me retalhado em fatias. Tenho um rosto severo de guerreiro evadido fotografado na parede. Quando ela se curvou sobre o limiar de mármore da banheira, para pegar a toalha no chão, expôs as nádegas brancas e ondulantes, que se abriram levemente, mostrando uma linha rósea vertical no meio, assim como a pele em torno do ânus. Rubro brilho da jóia! FARFALHAR. SUA ESSÊNCIA É ILUSÃO. ISSO SERIA PRAZER DEMAIS. MAS NÃO PARA UM MESTRE, K. AO CONSENTIR EM SER UM GURÚ, VOCÊ ESTÁ PERMITINDO QUE A PRAKRITI CONTAMINE SEU PURUSHA, PARA TORNA-LO DENSO E PESADO. ESTÁ BARGANHANDO SEU ATMAN. VOCÊ É MUKTA (LIBERADO, IMORTAL SALVO) MAS TAMBÉM É JIVAN (VIVENTE). ESSA É A SUA TENSÃO. ESSA É A SUA DUPLICIDADE. UMA MULHER É CHAMA. É FUMAÇA. É RADHA, SUADA DE AMAR. SUADA DE RASA. SEUS SEIOS... FARFALHAR. VOZ. PULSAÇÕES MAIS FORTES. ----- Não, K (: por hoje já chega(.) ----, Janice diz (risos. ----- Desculpe (: que tal voltar lá pra fora, então(: queria olhar um pouco mais as estrelas(.) ----,
quinta-feira, 27 de novembro de 2014
Logos: arquivando o que há de melhor...
Desde a Antiguidade se interpretou o Lñgow (Logos) de Heráclito de distintas maneiras: como ratio, como verbum, como lei do mundo, como o lógico e a necessidade de pensar, como o sentido, como a razão. Aí se ouve sempre um chamado à razão como o módulo que rege o fazer e o não-fazer. Mas o que pode a razão se ela, junto com a não-razão, segue obstinada o mesmo plano de um esquecimento, um esquecimento que descuida de refletir sobre a proveniência essencial da razão(?), do mesmo modo como descuida de se submeter à essa proveniência(?)
O que pode a Lógica, logik® (¤pist®mh), do tipo que for, se nunca começamos prestando atenção ao Lñgow (Logos) e rastreando sua essência inicial?
O que seja esse Lñgow (Logos) podemos depreender da palavra Legein. O que significa Legein? Significa dizer e falar; Lñgow (Logos) significa: Legein como ENUNCIAR e Legñmenon como o ENUNCIADO.
Quem poderia negar que na língua dos gregos desde muito cedo Legein significa falar, dizer, contar? Mas igualmente cedo, e de um modo ainda mais originário, e por isto também dentro do significado que mencionamos, significa o que também quer dizer o homônimo alemão Legen (pôr ou colocar sob e pôr ou colocar diante de). Aqui prevalece o juntar, o verbo latino legere como ler no sentido de ir buscar e juntar. Propriamente Legein significa o ato de ''pôr sob'' e ''pôr diante'' que se reúne a si mesmo e recolhe outras coisas. Empregado na voz média Legesyai quer ainda dizer: estender-se no recolhimento do repouso;
lexow é o ato de descansar; lñxow é a emboscada, onde algo está oculto atrás de algo e está disposto (estendido: há que se considerar aqui também a palavra
Žlegv) [a copulativa], em processo de extinção a partir de Ésquilo e Píndaro: ''algo me importa, me preocupa''.
Contudo, segue fora de discussão o seguinte: Legein significa dizer e falar. Mas em que medida o sentido próprio de Legein ( pôr, colocar) chega ao sentido de dizer e falar?
Para encontrar um ponto de apoio para se obter uma resposta a isto é necessário refletir sobre o que há de próprio no verbo Legein como PÔR. Legen (pôr) significa exatamente isto; colocar algo estendido (levar algo a se estender) e ao mesmo tempo PÔR UMA COISA JUNTO DE OUTRA, COM-PÔR
Legen é ler. O ler que mais conhecemos, ou seja, ler um escrito, segue sendo, agora no primeiro plano, uma variedade de ler no sentido de ''LEVAR-A-QUE-ALGO-ESTEJA-JUNTO-ESTENDIDO-DIANTE-DE
A coleta de espigas (Ährenlese) recolhe o fruto do solo. O recolher (de baixo, do solo, do chão) tem lugar também em um certo REUNIR
Ainda que persistamos no modo de ver habitual, nos inclinaremos a tomar agora este JUNTAR por REUNIR ou inclusive pela conclusão deste processo (reunir é algo mais do que amontoar ou entulhar: REUNIR implicar em IR BUSCAR e COLOCAR DENTRO. Nisto prevalece a idéia de colocar ou pôr sob um teto; e neste a idéia de preservar
esse plus pelo qual REUNIR vai mais além do simples COLHER avidamente algo do solo e JUNTA-LO não chega como um mero significado agregado; e muito menos é sua conclusão. Ao PRESERVAR que COLOCA DENTRO (o COLHER (de baixo, do chão) segue o JUNTAR; a este, o COLOCAR DENTRO, e a este o PÔR SOB UM TETO, em um recipiente ou em um armazém ou ARQUIVO
Daí que se imponha a aparência de que o GUARDAR e o PRESERVAR já não pertencem ao REUNIR. Mas... que se faz de uma colheita que ao mesmo tempo não está movida pelo impulso fundamental de ALBERGAR? O ALBERGAR (arquivar, armazenar) é a primeira coisa na estrutura de uma colheita
Mas o ALBERGAR por si mesmo, não alberga qualquer coisa que ocorra em qualquer lugar e em qualquer tempo. O REUNIR que começa propriamente a partir do ALBERGAR (arquivar), a COLHEITA, é, em si mesmo, de antemão, um ELEGER (e-leger) aquilo que pede ALBERGUE ou ARQUIVAMENTO. Mas a ELEIÇÃO (e-leição), por sua vez,está determinada por aquilo que dentro do ELEGÍVEL (e-legível) se mostra como o mais SELETO (o melhor!)
Na estrutura essencial da COLHEITA, o primeiro que há frente ao ALBERGAR é o ELEGER (alemão: Vor-lese, pre-leção) , ao que se insere a SELEÇÃO que PÕE SOB SÍ aquilo que foi REUNIDO e POSTO SOB UM TETO
ou mesmo num BLOG.
O que pode a Lógica, logik® (¤pist®mh), do tipo que for, se nunca começamos prestando atenção ao Lñgow (Logos) e rastreando sua essência inicial?
O que seja esse Lñgow (Logos) podemos depreender da palavra Legein. O que significa Legein? Significa dizer e falar; Lñgow (Logos) significa: Legein como ENUNCIAR e Legñmenon como o ENUNCIADO.
Quem poderia negar que na língua dos gregos desde muito cedo Legein significa falar, dizer, contar? Mas igualmente cedo, e de um modo ainda mais originário, e por isto também dentro do significado que mencionamos, significa o que também quer dizer o homônimo alemão Legen (pôr ou colocar sob e pôr ou colocar diante de). Aqui prevalece o juntar, o verbo latino legere como ler no sentido de ir buscar e juntar. Propriamente Legein significa o ato de ''pôr sob'' e ''pôr diante'' que se reúne a si mesmo e recolhe outras coisas. Empregado na voz média Legesyai quer ainda dizer: estender-se no recolhimento do repouso;
lexow é o ato de descansar; lñxow é a emboscada, onde algo está oculto atrás de algo e está disposto (estendido: há que se considerar aqui também a palavra
Žlegv) [a copulativa], em processo de extinção a partir de Ésquilo e Píndaro: ''algo me importa, me preocupa''.
Contudo, segue fora de discussão o seguinte: Legein significa dizer e falar. Mas em que medida o sentido próprio de Legein ( pôr, colocar) chega ao sentido de dizer e falar?
Para encontrar um ponto de apoio para se obter uma resposta a isto é necessário refletir sobre o que há de próprio no verbo Legein como PÔR. Legen (pôr) significa exatamente isto; colocar algo estendido (levar algo a se estender) e ao mesmo tempo PÔR UMA COISA JUNTO DE OUTRA, COM-PÔR
Legen é ler. O ler que mais conhecemos, ou seja, ler um escrito, segue sendo, agora no primeiro plano, uma variedade de ler no sentido de ''LEVAR-A-QUE-ALGO-ESTEJA-JUNTO-ESTENDIDO-DIANTE-DE
A coleta de espigas (Ährenlese) recolhe o fruto do solo. O recolher (de baixo, do solo, do chão) tem lugar também em um certo REUNIR
Ainda que persistamos no modo de ver habitual, nos inclinaremos a tomar agora este JUNTAR por REUNIR ou inclusive pela conclusão deste processo (reunir é algo mais do que amontoar ou entulhar: REUNIR implicar em IR BUSCAR e COLOCAR DENTRO. Nisto prevalece a idéia de colocar ou pôr sob um teto; e neste a idéia de preservar
esse plus pelo qual REUNIR vai mais além do simples COLHER avidamente algo do solo e JUNTA-LO não chega como um mero significado agregado; e muito menos é sua conclusão. Ao PRESERVAR que COLOCA DENTRO (o COLHER (de baixo, do chão) segue o JUNTAR; a este, o COLOCAR DENTRO, e a este o PÔR SOB UM TETO, em um recipiente ou em um armazém ou ARQUIVO
Daí que se imponha a aparência de que o GUARDAR e o PRESERVAR já não pertencem ao REUNIR. Mas... que se faz de uma colheita que ao mesmo tempo não está movida pelo impulso fundamental de ALBERGAR? O ALBERGAR (arquivar, armazenar) é a primeira coisa na estrutura de uma colheita
Mas o ALBERGAR por si mesmo, não alberga qualquer coisa que ocorra em qualquer lugar e em qualquer tempo. O REUNIR que começa propriamente a partir do ALBERGAR (arquivar), a COLHEITA, é, em si mesmo, de antemão, um ELEGER (e-leger) aquilo que pede ALBERGUE ou ARQUIVAMENTO. Mas a ELEIÇÃO (e-leição), por sua vez,está determinada por aquilo que dentro do ELEGÍVEL (e-legível) se mostra como o mais SELETO (o melhor!)
Na estrutura essencial da COLHEITA, o primeiro que há frente ao ALBERGAR é o ELEGER (alemão: Vor-lese, pre-leção) , ao que se insere a SELEÇÃO que PÕE SOB SÍ aquilo que foi REUNIDO e POSTO SOB UM TETO
ou mesmo num BLOG.
Carmelo Bene em feixes de luz.
Carmelo Bene foi um dos maiores atores do século XX, razão pela qual Gilles Deleuze, em 1978, decide dedicar-lhe um amplo ensaio. Bene estreia em 1959 no Teatro das Artes de Roma, em Caligula, de Camus. No ano seguinte ele apresenta um trabalho autônomo intitulado Espetáculo Majakovskij. Logo depois surgem os experimentos mais radicais da sua carreira: Pinocchio, de Collodi (1961), Hamlet, de Shakespeare (1961), Eduardo II, de Marlowe (1963), Salomé, de O.Wilde (1964), Manon, de Prévost (1964), Nossa Senhora dos Turcos (1966), Hamlet ou as consequências da piedade filial, de Shakespeare e Laforgue (1967), Arden of Feversham (1968) e Don Quixote, em colaboração com Leo De Berardinis (1968).
Nos anos sessenta e setenta Bene apresenta uma linguagem estética baseada na atuação: é esta, e não o texto dramático, que representa o elemento estilístico dominante.
A representação de Bene é baseada na contaminação de registros diferentes, prevalecendo uma expressividade acentuada e exasperada, grotesca, uma inclinação à caricatura, ao monstruoso e ao bizarro. A expressão do ator em cena se transforma em veículo de uma operação que, em alguns momentos, é de paródia e, em outros, é de celebração dos clássicos da dramaturgia e da recitação. Isso tudo numa recomposição de fragmentos nada harmônica
Ao enumerar brevemente, numa síntese precisa, as características do primeiro teatro de Bene, Paolo Puppa fala de:
Recitação desarrumada, dicção ofegante em gritos agudíssimos e sussurros ininteligíveis, cenário muitas vezes destruído ao longo do espetáculo, coluna sonora enlouquecida, e todo o arsenal de fonemas, borborigmos, gestos repetidos e excessivos, luzes voltadas para a plateia; e, em relação ao texto dramático, sequências tumultuadas, personagens desdobrados ou unificados. Variedade futurista e pré-espetáculo, Petrolini e Macario, jogralismo e amaldiçoamento romântico, e tumefacências dannunzianas, em suma, um leque de maneirismos.
Tantos estilos e tantas formas se alternam e se misturam sem uma solução de continuidade: aos momentos de improvisado lirismo – como quando estrofes de ópera ou de música sinfônica, com aleatória poesia suspendem ou acompanham ações e declamações – se seguem instantes de sarcástica zombaria, de blasfêmia escarnecedora destinadas a serem logo depois interrompidas por instantes de intensidade fulminante. O resultado é uma vertiginosa metástase estilística. Mas sobre essa ciranda de modos de preencher a cena, sopra o vento grotesco da crise. O teatro proposto por Bene, “pré-amplificado”, é um teatro que, refletindo sobre a linguagem dramatúrgica e sobre a capacidade que tem a palavra de incidir na realidade, denuncia a ineficácia e a impotência da escritura em uma época em que nada possui um fundamento ontológico. A multiplicação louca e incoerente dos estilos utilizados no palco é a consequência dessa condição de crise de uma cultura e de uma época. A única carta que resta à disposição do ator, em um mundo onde as palavras não correspondem mais às coisas, é, portanto a de carregar a linguagem, de uma expressão intensificada até a explosão hipertrófica, da expressividade desesperada e excessiva.
Não por acaso que Pier Paolo Pasolini em uma entrevista – mesmo se referindo ao problema da ignorância por parte dos homens de teatro quanto à inexistência de um italiano de uso médio mais do que à questão prejudicada entre linguagem escrita e linguagem cênica – reconduz Bene à vertente da “experimentação caricatural, expressionista). Bene, de fato, cujo estilo Pasolini em um escrito programático de 1968 associou à vertente “do Gesto e do Grito” , “nos momentos falsamente dramáticos faz uma caricatura da linguagem teatral, e em outros momentos rompe a língua, desarticula-a, lhe sobrepõe rumores, sons, a sussurra” . Essa expressividade ao cubo que é liberada em cena é voluntariamente em cima da pauta. O grotesco do primeiro Bene tem origem na consciência de um limite. É indispensável recorrer a tantas linguagens e a tantas citações quando nenhuma das formas empregadas tem força para afirmar-se. Se a tragédia é negada, é a comédia que vai arranhar com os próprios dedos. Todavia, quando nem o cômico consegue o efeito da realidade, então é só forçando os limites entre esses dois gêneros que o teatro pode refletir os espíritos de um presente ridículo e despedaçado. De tal dialética frustrada deriva o grotesco beniano.
Desde 1959 Bene mostra uma propensão pelos modos próximos àquela dicção dissonante e de várias cordas, articulada em gritos, borborigmos, sussurros, fonemas, sons imperceptíveis e cantilena infantil, que constituirá a sua cifra distintiva, voltada a uma produção cênica dos personagens e das situações próxima da estilização, a uma gestualidade decomposta e anti-naturalística. Esse gosto por um “clima de paródia” será proposto constantemente nos espetáculos sucessivos até a segunda metade dos anos Setenta. Alguns exemplos:
em Salomé, espetáculo de 1964, a protagonista[...] vocifera e roda pelo palco como uma gata rouca, sexy, petulante e irresistível [...].
Depois as coisas assumem um jeito menos rigoroso com o retorno do profeta Johanaan.
Depois as coisas assumem um jeito menos rigoroso com o retorno do profeta Johanaan.
Este é Franco Citti, o ator pasoliniano de Accattone. Fala em romanesco, não quer escutar a longa proposta amorosa de Salomé, tem falas cômicas, berra, some, não o veremos mais [...]. Carmelo Bene se encarrega do seu personagem, arrasta-o consigo como um baú cheio de remorsos e pressentimentos, monologando. A sua voz desce até o mais angustioso falsete e encontra também acentos de comovida estupefação.
Em Pinocchio, de 1996, Bene mistura as cartas da estória, mostrando [...] o grilo falante como um triste pedante de comédia, a fadinha que se joga em cima de Pinocchio [...], Geppetto absolutamente abobado quando Pinocchio o encontra no ventre da baleia [...]. É divertido ver a fadinha, de pernas pro ar, babando em Pinocchio com beijos não propriamente maternos; ver o sábio grilo falante transformado em um lúgubre perturbador, os cruéis monólogos desfiados com a vozinha sutil e acariciante do boneco de manteiga, até os burricos que também têm um ar de exagerada advertência com seus cabeções tristes.
Em Pinocchio, de 1996, Bene mistura as cartas da estória, mostrando [...] o grilo falante como um triste pedante de comédia, a fadinha que se joga em cima de Pinocchio [...], Geppetto absolutamente abobado quando Pinocchio o encontra no ventre da baleia [...]. É divertido ver a fadinha, de pernas pro ar, babando em Pinocchio com beijos não propriamente maternos; ver o sábio grilo falante transformado em um lúgubre perturbador, os cruéis monólogos desfiados com a vozinha sutil e acariciante do boneco de manteiga, até os burricos que também têm um ar de exagerada advertência com seus cabeções tristes.
Armando Petrini, no seu livro dedicado ao Hamlet de Carmelo Bene, vai direto ao âmago do problema e, corretamente, enquadra no modo assim descrito mais de quarenta anos de produção artística beniana:
É necessário distinguir um primeiro período que vai das primeiras apresentações até a metade dos anos Setenta, no qual prevalece um sentimento da arte que se reporta a uma poética de tipo alegórico e grotesco, e um segundo período datado desde o fim dos anos Setenta até a morte, no qual dominam os acentos mais líricos e simbolistas.
E ainda:
A arte de Carmelo Bene na verdade apresenta sempre uma riquíssima, complexa e magmática miscelânea de elementos estilísticos alegórico – grotescos e lírico- simbolistas, ainda que efetivamente venham a prevalecer uns, como se disse, no primeiro período e outros no segundo.
No fim dos anos setenta, tal estilo sofre uma ruptura, ocorre uma virada decisiva, já antecipada por algumas tensões presentes no sistema estilístico anterior, tanto no teatro como no cinema, a propósito do qual Ronald Bogue observa com perspicácia que Bene dá vida a “uma serie de espaços ritualísticos, nos quais movimentos paródicos gradualmente se abrem a uma graça musical e abstrata” . Em Manfred – o espetáculo em que a nova maneira estilística se desdobra com mais força – Bene pronuncia monólogos e frases diante de um ou mais microfones, em um “recitar salmodiando, ora em tom paradevocional, ora peremptório ou ameaçador”, e dialoga com a música que provém de um ou mais instrumentos orquestrais (como no caso também d Egmont), dos amplificadores (como em alguns momentos de Hamlet Suite ou de Poesia da filha de Iorio), ou também com a total ausência de som.
No fim dos anos setenta, tal estilo sofre uma ruptura, ocorre uma virada decisiva, já antecipada por algumas tensões presentes no sistema estilístico anterior, tanto no teatro como no cinema, a propósito do qual Ronald Bogue observa com perspicácia que Bene dá vida a “uma serie de espaços ritualísticos, nos quais movimentos paródicos gradualmente se abrem a uma graça musical e abstrata” . Em Manfred – o espetáculo em que a nova maneira estilística se desdobra com mais força – Bene pronuncia monólogos e frases diante de um ou mais microfones, em um “recitar salmodiando, ora em tom paradevocional, ora peremptório ou ameaçador”, e dialoga com a música que provém de um ou mais instrumentos orquestrais (como no caso também d Egmont), dos amplificadores (como em alguns momentos de Hamlet Suite ou de Poesia da filha de Iorio), ou também com a total ausência de som.
O que mudou em relação ao período anterior? A grande vantagem da Voz, que se faz elemento cênico preponderante, Bene reduziu o número dos atores, os objetos, presentes em cena e os movimentos através do palco, transformando assim o roteiro em uma partitura vocal, em um tipo de transcrição literária feita não tanto de significados, mas, sobretudo, de significantes prontos para serem sussurrados e gritados, declamados com ritmos que variam do monótono e lento ao rápido e nervoso. Os espetáculos se tornam sinfonias, nas quais os ímpetos rítmicos e os gritos repentinos se alternam a outras tantas repentinas desacelerações, que acabam por aplacar-se em um andamento artificial de oráculo.
Nos anos oitenta e noventa, a atuação de Bene vem se configurando cada vez mais como construída em duas velocidades diferentes, como uma enunciação rítmica que escorre sobre um par de binários paralelos e distintos, que muitas vezes convergem, confundindo-se entre si, e muitas vezes também se separam para depois voltar a unir-se, estruturando-se, porém, em torno de uma dominante que podemos chamar contemplativa.
A perda do eu e a fusão com o absoluto, manifestação do ser em detrimento da subjetividade do artista: o evento estético torna-se sede da contemplação do ideal, da essência, transpondo a identidade coletiva e histórica, a personalidade do seu artífice e a sua individualidade. A esfera artística torna-se domínio total do transcendente. Na expansão da mesma onda, se colocam algumas teorizações de Bene, sucessivas a 1979, e empenhadas em sondar e enuclear conceitos de derivação schopenhaueriana e nietzscheana, como a ausência do eu e a negação da subjetividade, por outro lado já abundantemente dissecados pelo simbolismo francês. Falando da união da voz e do vulto e, mais amplamente, do conceito tradicional e vulgo da criação artística – em polêmica direta com o modo de estar em cena prevalente entre os atores seus contemporâneos – Bene ironizava a incapacidade de muitos de seus “colegas” ao acolherem as inovações por ele propostas:
A perda do eu e a fusão com o absoluto, manifestação do ser em detrimento da subjetividade do artista: o evento estético torna-se sede da contemplação do ideal, da essência, transpondo a identidade coletiva e histórica, a personalidade do seu artífice e a sua individualidade. A esfera artística torna-se domínio total do transcendente. Na expansão da mesma onda, se colocam algumas teorizações de Bene, sucessivas a 1979, e empenhadas em sondar e enuclear conceitos de derivação schopenhaueriana e nietzscheana, como a ausência do eu e a negação da subjetividade, por outro lado já abundantemente dissecados pelo simbolismo francês. Falando da união da voz e do vulto e, mais amplamente, do conceito tradicional e vulgo da criação artística – em polêmica direta com o modo de estar em cena prevalente entre os atores seus contemporâneos – Bene ironizava a incapacidade de muitos de seus “colegas” ao acolherem as inovações por ele propostas:
Que miséria! Que estranho: uma deterior – patética nostalgia do “eu”, e não um (ao menos um) só trejeito de insatisfação pela renuncia definitiva ao tema infantil (o ser-ter, o todo- -nada) = existo portanto não sou, ao invés do Não existo, portanto sou. Este sentir-se defraudados da própria identidade é o insensato plebiscito do “sindicato autores de prosa” contra o abecedário do teatro. As reticências são, ai de mim!, mais miseras de quanto se possa adivinhar a primeira vista: o ator genérico “sente” que atenta ao seu “prestigio” o magistral abuso do playback, só enquanto a sua angustia mental o persuade que ser “possuído” por “outras” vozes estranhas ao conjunto da sua pessoa “dramática” equivale a uma prepotente dublagem inoportuna. E por que “inoportuna”? Porque – sem duvida – tal abuso de ser dito compromete na verdade a mediação. Mas não é esta habitual mediação que é preciso aniquilar? Justamente
O fato de “ser ditos” significa perder a identidade através da qual se compartilha o sentir e o pensar comum e, por consequência, significa a possibilidade de mediar, por meio do próprio “eu”, a transcendência e a imanência, de negar a subjetividade colocando em relação direta existência e essência. Introduzindo a ideia que o artista teatral autêntico é como se fosse possuído pelo transcendente e tomando sempre como ponto de referência os atores da tradição, definidos “atores-falantes”, Bene no ensaio apenas citado afirma:
Os atores-falantes referem outra coisa; falam e cantam de outra coisa, mais ou menos naquela “outra coisa” “emedesimando-se” na outra coisa ao dizer. Eles recordam, comemoram, celebram, comentam, absolutamente inconscientes do momento poético que, pelo contrario, da voz dele exige a (re)formulação. Eles exibem quase um virtuosismo – a maravilha da própria faculdade mnemônica (também ao ler) – de modo nenhum aflorados pela necessidade urgente da memória enquanto escritura vocal. Eles dizem e recordam outra coisa. Dizem e não são ditos. Não são falados. Falam.
Eis-nos aqui no âmago da estética do último Bene: o palco adquire uma função contemplativa, se transforma em um lugar no qual domina uma disposição ao desfrute aconceitual em relação ao transcendente e ao suprassensível. Na base dos concertos de ator está o modo de pensar que pende fortemente do lado da intuição mais que para aquele da expressão.
O teatro beniano, a partir do Manfred, torna-se um teatro “ontológico”. A disposição cenográfica das leituras-recital inauguradas pelo Manfred fundamenta-se em uma estrutura que se repete, com algumas exceções; em suma, constante. O palco aparece envolto na escuridão e ocupado, em alguns momentos, por objetos cenográficos elementares; em outros momentos o espaço cênico aparece ocupado somente por Bene, que atua utilizando o microfone no meio de um grande cone de sombra que invade o palco e no meio de feixes de luz.
Como dominado por um delírio, o olhar de Bene, quando abandona a estante, vaga sem fixar nenhum ponto preciso, os olhos arregalados e febris vagueiam na penumbra que circunda a cena; no semblante, como em uma sequência de tomadas fotográficas, expressões de riso e desespero, de maldade e espanto, de amor e ódio, se alternam bruscas e desarticuladas; os gestos se limitam a uma serie de poses (a cabeça que se inclina com poucos trejeitos rítmicos e imprevisíveis oscilações, como um pêndulo de um ombro para o outro, enquanto o braço de tanto em tanto se eleva no ar com tom declamatório). E é nessa atmosfera de trevas que se originam os cintilantes equilibrismos da voz que, em conflituosa dialética expressiva com os descorrelatos e estilizados movimentos do corpo e as inflamações do olhar, rompem a obscuridade difusa. Num ensaio Piergiorgio Giacché observa, a propósito do “teatro da ausência” de Bene, que “a possessão no teatro tem no fundo só este valor e este objetivo para o ator: serve-lhe para evadir-se de si e do teatro” . Eis o “teatro da ausência”.
O que seja o “teatro da ausência” explica de modo detalhado Gilles Deleuze em um ensaio de 1978, dedicado a releituras shakespearianas de Bene. O “teatro da ausência” consiste na “subtração dos elementos estáveis de Poder, a qual libera uma nova potencialidade de teatro, uma força não representativa sempre instável” (Deleuze. Evoca-se então o poder, aliás “o Poder”. O teatro de Carmelo Bene em sua segunda fase – no entender do filósofo francês – é caracterizado pela subtração dos elementos de poder ao interior da criação teatral. Em Romeu e Julieta, é o personagem de Romeu que sofre o processo de desconstrução, que Deleuze lê como o representante do poder das famílias; em S.A.D.E., é a figura do dono, enquanto que em Ricardo III é todo o sistema de reis e príncipes.
Aonde se chega com isso? A uma dimensão artística definida como “menor”. Um autor menor, para Deleuze, é “sem futuro e sem passado, tem só um devir, um centro, através do qual se comunica com outros espaços” . Villon, Kleist e Laforgue são reputados como “menores” porque capazes de “liberar devires contra a História, vidas contra a cultura, pensamentos contra a doutrina, graças ou desgraças contra o dogma
Ilustrando as suas noções de “menor” e “maior” e continuando a contrapor a primeira noção à segunda, Deleuze evoca também a linguagem, efetuando a distinção entre “a língua maior” e a “língua menor”. A primeira é aquela caracterizada pelas invariantes, enquanto a segunda é aquela das variantes contínuas. Escreve Deleuze: “não existe língua imperial que não seja escavada, arrastada dessas linhas de variação inerente e contínua, isto é, desses usos menores” . O uso menor de uma língua consiste na desagregação das consoantes, na transformação da homogeneidade estrutural em desomogeneidade, na desconstrução daquele uso “que trata a língua como um estado de poder, um marco de poder” (DELEUZE). Mark Fortier, no seu feliz Theory/theatre, não esqueceu de relevar que mesmo que o domínio do texto sobre o espetáculo equivale ao domínio da langue sobre a parole, de um modelo abstrato e imutável sobre o particular e o concreto, para Bene também a parole é inimiga, simplesmente porque as palavras têm significados fixos.
É por isso que Bene “quer que o ator cante palavras incompreensíveis, articulando-as como um troglodita para tornar-se não uma fonte de significados, mas uma destrutiva ‘presença intolerável’” . E eis que “Bene coloca isso em prática mediante a destruição dos elementos standard do teatro: a linguagem se torna rumor, o personagem, caos, o cenário se libera do controle do autor”
Lorenzo Chiesa, escrevendo recentemente sobre a relação entre Bene e Deleuze, assegurou que “entre as virtudes da interpretação deleuziana de Bene está o modo com que Deleuze caracteriza tal teatro, qualificando-o como um teatro anti-histórico do imediato” e colocando em relevo o fato que Deleuze leia Bene “através de uma noção vitalística de subtração” ). Entretanto, o caótico vitalismo gramatical que está na base do devir criativo que Deleuze identifica na arte do segundo Bene é desagregado e rizomático na forma. O que dá coesão à espontaneidade linguística propugnada pelo filósofo francês é, porém, a ideologia que o perpassa. Como diz José Luiz Fiorin:
O falante, suporte das formações discursivas, ao construir seu discurso, investe nas estruturas sintáticas abstratas temas e figuras, que materializam valores, carências, desejos, explicações, justificativas e racionalizações existentes em sua formação social. Esse enunciador não pode, pois, ser considerado uma individualidade livre das coerções sociais, não pode ser visto come agente do discurso. Por ser produto de relações sociais, assimila uma ou várias formações discursivas, que existem em sua formação social, e as reproduz em seu discurso. É nesse sentido que se diz que ele é suporte de discursos .
''Kafka: por uma literatura menor...
Segundo o livro de Gilles Deleuze ''KAFKA: POR UMA LITERATURA MENOR'', atingir um DEVIR é ''atingir um contínuo de intensidades que só valem por si mesmas, encontrar um mundo de intensidades puras, onde todas as formas e todas as significações, significantes e significados, se desfazem em assignificantes. A intensidade diz respeito à partículas e à relação de movimento e repouso. DEVIR é o enlace de duas sensações sem semelhança que cria uma ZONA DE VIZINHANÇA (zona de indistinção, de indeterminação ou de indiscernibilidade entre elas ----
citando DIÁLOGOS, do mesmo autor: '' DEVIR não é imitar, nem fazer como se, nem se conformar a um modelo... Não há um termo do qual se parta, nem ao qual se chegue, ou ao qual se deva chegar. Não se trata também de dois termos que trocam de posição... Pois, à medida que alguém se torna, aquilo que ele se torna muda tanto quanto ele. O DEVIR não é um fenômeno de imitação, nem de assimilação, mas de DUPLA CAPTURA, de evolução não paralela, núpcias entre dois reinos.
Esse ''encontro entre dois reinos'', essa ''desterritorialização conjugada'', características do DEVIR (linha de fuga) , pode ser notada , por exemplo, na interpretação de Deleuze do ''devir não humano'' do Capitão Ahab no livro Moby Dick, de Herman Melville: ''O Capitão Ahab não imita a baleia branca, não quer ser semelhante à ela; vive um devir-baleia irresistível, e ,diferentemente de Bartleby , que não preferia nada, demonstra uma preferência monstruosa, faz uma aliança monstruosa com Moby Dick, infringindo, desse modo , a lei dos baleeiros segundo a qual toda baleia sadia é boa para ser caçada. "Ahab não imita a baleia, ele torna-se Moby Dick, ele entra na zona de vizinhança onde não pode mais se distinguir de Moby Dick, e fere-se, ferindo-a. Moby Dick é a ''muralha próxima'' com a qual ele se confunde.
Assim, para se compreender a classificação delleuziana dos DEVIRES, sobretudo o que significam DEVIR-MINORITÁRIO e DEVIR-IMPERCEPTÍVEL, é preciso partir da idéia de que expressão como ''tornar-se- baleira'', ''tornar-se criança'', ''tornar-se poeta'', ''tornar-se revolucionário'', ''tornar-se índio'', ''tornar-se um nagual'', ''tornar-se um gavião'', ''tornar-se invisível'', são maneiras de formular sua crítica do modelo e sua proposta de um pensamento capaz de dar conta do DIFERENTE sem subordiná-lo à IDENTIDADE com isto ou aquilo, como vexatoriamente faz a crítica literária despreparada do nosso país, nos jornais de circulação nacional (todo sábado
TODO DEVIR É UM DEVIR MINORITÁRIO (porque homem é maioria qualitativa, modelo de identidade, entidade molar, forma de expressão dominante, por isso não há um DEVIR-HOMEM.
DEVIR é se ''desterritorializar em relação ao modelo. E quando Deleuze diz que numa LINHA DE FUGA há sempre traição, isso significa trair as potências fixas, as significações dominantes, a reflexão pasteurizada dos jornais, a ordem estabelecida ---- o que exige ser um CRIADOR.
Quando se pensa a questão da literatura relacionando-a com o tema do DEVIR, isto significa que escrever é um PROCESSO, uma LINHA DE FUGA: tornar-se diferente do que se é, como também pesava Foucault. E quando Deleuze levanta a questão ''O QUE SE TORNA QUEM ESCREVE?'', sua resposta é que, se escrever é TORNAR-SE, trata-se de se tornar OUTRA COISA que não ESCRITOR, tornar-se estrangeiro em relação a si mesmo e à sua própria língua. E uma das maneiras como Deleuze aborda a questão é pensando o PROCESSO DE MINORAÇÃO do escritor através da relação entre a literatura que ele chama de MENOR e o que também chama de POVO MENOR.
Esse tema do MENOR está no âmago da filosofia de Deleuze, explicitamente desde KAFKA: POR UMA LITERATURA MENOR. Ele aparece com clareza num pequeno artigo de 1978, ''Filosofia e minoria'', publicado na revista Critique, retomado na apresentação do teatro de Carmelo Bene (''Um manifesto de menos'')e depois integrado em a Mil Platôs. Esse texto expõe MAIORIA e MINORIA qualitativamente, e não quantitativamente. Maioria implica uma constante, um modelo, uma medida pela qual a maioria é avaliada. O que é ser maioria hoje? Ser homem, branco, ocidental, americano do norte ou europeu, adulto, racional, morador de cidade... O que é ser minoria? Desviar do modelo, ao mesmo tempo teórico e político. E Deleuze salienta que DEVIR jamais é DEVIR MAJORITÁRIO, que ser MAJORITÁRIO nunca resulta de ou num DEVIR.
É isso o que se dá com as LÍNGUAS MENORES, que, existindo em função de línguas maiores, são agentes potenciais para fazer a língua maior entrar num DEVIR MINORITÁRIO , num DEVIR REVOLUCIONÁRIO. MAIOR e MENOR não são dois tipos de língua, são dois tratamentos possíveis de uma mesma língua, dois usos ou funções da língua. Assim, MENOR diz respeito não a uma outra língua ou a uma língua de minoria, mas a um PROCESSO DE MINORAÇÃO, à invenção de um USO MENOR de uma LÍNGUA MAIOR:
----- ''servir-se do polilinguismo em sua própria língua, fazer desta um uso menor ou intensivo'' (Deleuze)
Um dos principais exemplos de Deleuze: Kafka, judeu tcheco, escrevendo em alemão, dá ao alemão um tratamento criador de língua menor, ao montar, em função da situação línguística dos judeus em Praga, uma MÁQUINA DE GUERRA contra o alemão ou fazer passar sob o código do alemão algo que nunca tinha sido ouvido antes. Dar um tratamento menor, intensivo ou revolucionário à língua, fazer um uso menor da língua, não é misturar línguas, é introduzir LINHAS DE FUGA CRIADORAS em sua própria língua. O uso menor é o USO CRIADOR ( devir criador ----
Minorar uma língua maior, extrair de sua própria língua uma língua menor é fazê-la escapar do sistema dominante, do regime vigente, é desterritorializar a língua maior, standard, padrão, modelo, oficial, colocando-a em estado de VARIAÇÃO CONTÍNUA. Se é por um modelo político que a língua é homogeinizada, centralizada, standartizada, tornando-se língua do poder, língua do jornal, língua do tédio e da morte, MAIOR OU DOMINANTE, é a VARIAÇÃO CONTÍNUA que constitui o DEVIR REVOLUCIONÁRIO da língua.
Em suma, uma literatura de minoria (como a de Kafka) não é a de uma língua local; é a que dá um TRATAMENTO CRIADOR à uma língua MAIOR tornando-se MENOR. Escrever é criar sua própria língua.
citando DIÁLOGOS, do mesmo autor: '' DEVIR não é imitar, nem fazer como se, nem se conformar a um modelo... Não há um termo do qual se parta, nem ao qual se chegue, ou ao qual se deva chegar. Não se trata também de dois termos que trocam de posição... Pois, à medida que alguém se torna, aquilo que ele se torna muda tanto quanto ele. O DEVIR não é um fenômeno de imitação, nem de assimilação, mas de DUPLA CAPTURA, de evolução não paralela, núpcias entre dois reinos.
Esse ''encontro entre dois reinos'', essa ''desterritorialização conjugada'', características do DEVIR (linha de fuga) , pode ser notada , por exemplo, na interpretação de Deleuze do ''devir não humano'' do Capitão Ahab no livro Moby Dick, de Herman Melville: ''O Capitão Ahab não imita a baleia branca, não quer ser semelhante à ela; vive um devir-baleia irresistível, e ,diferentemente de Bartleby , que não preferia nada, demonstra uma preferência monstruosa, faz uma aliança monstruosa com Moby Dick, infringindo, desse modo , a lei dos baleeiros segundo a qual toda baleia sadia é boa para ser caçada. "Ahab não imita a baleia, ele torna-se Moby Dick, ele entra na zona de vizinhança onde não pode mais se distinguir de Moby Dick, e fere-se, ferindo-a. Moby Dick é a ''muralha próxima'' com a qual ele se confunde.
Assim, para se compreender a classificação delleuziana dos DEVIRES, sobretudo o que significam DEVIR-MINORITÁRIO e DEVIR-IMPERCEPTÍVEL, é preciso partir da idéia de que expressão como ''tornar-se- baleira'', ''tornar-se criança'', ''tornar-se poeta'', ''tornar-se revolucionário'', ''tornar-se índio'', ''tornar-se um nagual'', ''tornar-se um gavião'', ''tornar-se invisível'', são maneiras de formular sua crítica do modelo e sua proposta de um pensamento capaz de dar conta do DIFERENTE sem subordiná-lo à IDENTIDADE com isto ou aquilo, como vexatoriamente faz a crítica literária despreparada do nosso país, nos jornais de circulação nacional (todo sábado
TODO DEVIR É UM DEVIR MINORITÁRIO (porque homem é maioria qualitativa, modelo de identidade, entidade molar, forma de expressão dominante, por isso não há um DEVIR-HOMEM.
DEVIR é se ''desterritorializar em relação ao modelo. E quando Deleuze diz que numa LINHA DE FUGA há sempre traição, isso significa trair as potências fixas, as significações dominantes, a reflexão pasteurizada dos jornais, a ordem estabelecida ---- o que exige ser um CRIADOR.
Quando se pensa a questão da literatura relacionando-a com o tema do DEVIR, isto significa que escrever é um PROCESSO, uma LINHA DE FUGA: tornar-se diferente do que se é, como também pesava Foucault. E quando Deleuze levanta a questão ''O QUE SE TORNA QUEM ESCREVE?'', sua resposta é que, se escrever é TORNAR-SE, trata-se de se tornar OUTRA COISA que não ESCRITOR, tornar-se estrangeiro em relação a si mesmo e à sua própria língua. E uma das maneiras como Deleuze aborda a questão é pensando o PROCESSO DE MINORAÇÃO do escritor através da relação entre a literatura que ele chama de MENOR e o que também chama de POVO MENOR.
Esse tema do MENOR está no âmago da filosofia de Deleuze, explicitamente desde KAFKA: POR UMA LITERATURA MENOR. Ele aparece com clareza num pequeno artigo de 1978, ''Filosofia e minoria'', publicado na revista Critique, retomado na apresentação do teatro de Carmelo Bene (''Um manifesto de menos'')e depois integrado em a Mil Platôs. Esse texto expõe MAIORIA e MINORIA qualitativamente, e não quantitativamente. Maioria implica uma constante, um modelo, uma medida pela qual a maioria é avaliada. O que é ser maioria hoje? Ser homem, branco, ocidental, americano do norte ou europeu, adulto, racional, morador de cidade... O que é ser minoria? Desviar do modelo, ao mesmo tempo teórico e político. E Deleuze salienta que DEVIR jamais é DEVIR MAJORITÁRIO, que ser MAJORITÁRIO nunca resulta de ou num DEVIR.
É isso o que se dá com as LÍNGUAS MENORES, que, existindo em função de línguas maiores, são agentes potenciais para fazer a língua maior entrar num DEVIR MINORITÁRIO , num DEVIR REVOLUCIONÁRIO. MAIOR e MENOR não são dois tipos de língua, são dois tratamentos possíveis de uma mesma língua, dois usos ou funções da língua. Assim, MENOR diz respeito não a uma outra língua ou a uma língua de minoria, mas a um PROCESSO DE MINORAÇÃO, à invenção de um USO MENOR de uma LÍNGUA MAIOR:
----- ''servir-se do polilinguismo em sua própria língua, fazer desta um uso menor ou intensivo'' (Deleuze)
Um dos principais exemplos de Deleuze: Kafka, judeu tcheco, escrevendo em alemão, dá ao alemão um tratamento criador de língua menor, ao montar, em função da situação línguística dos judeus em Praga, uma MÁQUINA DE GUERRA contra o alemão ou fazer passar sob o código do alemão algo que nunca tinha sido ouvido antes. Dar um tratamento menor, intensivo ou revolucionário à língua, fazer um uso menor da língua, não é misturar línguas, é introduzir LINHAS DE FUGA CRIADORAS em sua própria língua. O uso menor é o USO CRIADOR ( devir criador ----
Minorar uma língua maior, extrair de sua própria língua uma língua menor é fazê-la escapar do sistema dominante, do regime vigente, é desterritorializar a língua maior, standard, padrão, modelo, oficial, colocando-a em estado de VARIAÇÃO CONTÍNUA. Se é por um modelo político que a língua é homogeinizada, centralizada, standartizada, tornando-se língua do poder, língua do jornal, língua do tédio e da morte, MAIOR OU DOMINANTE, é a VARIAÇÃO CONTÍNUA que constitui o DEVIR REVOLUCIONÁRIO da língua.
Em suma, uma literatura de minoria (como a de Kafka) não é a de uma língua local; é a que dá um TRATAMENTO CRIADOR à uma língua MAIOR tornando-se MENOR. Escrever é criar sua própria língua.
quarta-feira, 26 de novembro de 2014
O poema excepcional...
Forma parte da essência do poeta que em semelhante época só é verdadeiramente poeta aquele para quem a poesia e o ofício e vocação do poeta se convertem em questões poéticas. Por isso os poetas devem dizer expressa e poeticamente a essencia da poesia.
Nós, os outros, devemos aprender a escutar o dizer destes poetas.
O poema pode significar : o poema em geral, o conceito de poema, válido para toda literatura universal. Mas O POEMA pode (deve) significar também (e principalmente) o POEMA EXCEPCIONAL, marcado pelo fato de que ele só nos afeta pelo destino, porque ele nos poetiza no destino em que estamos mergulhados, o saibamos ou não, tanto se estamos dispostos a aceitar um destino dentro DELE ou não.
Martin Heidegger
Toda prosa sobre o Altíssimo é ininteligível...
"Nós procuramos por toda parte o incondicionado (Unbedingte) e sempre encontramos apenas coisas" (NOVALIS).
Como indicam os verbos sublinhados, mesmo que haja a intenção, o querer encontrar o incondicionado, das Unbedingte, tarefa de toda uma tradição na filosofia, "encontramos apenas coisas", ou seja, não conseguimos sair do mundo dos fenômenos, e encontramos, sempre, a diferença, o plural (die Dinge). No mesmo sentido aponta Schlegel que os "[...] Princípios estão sempre no plural", [...] constroem-se uns aos outros; nunca é apenas Um, como presume o pensamento sobre o fundamento" (SCHLEGEL, 1963, p. 105)
A constatação da impossibilidade de fundamento não desemboca, entretanto, em total ausência do conhecimento para os românticos de Jena, mas numa releitura da "tarefa", por assim dizer, da própria filosofia: a caracterização do filosofar como tarefa infinita. O mundo torna-se "[...] mais e mais infinito" e "[...] nunca há um fim para a conexão do múltiplo, um estado de inatividade para o Eu pensante – a Idade de Ouro deve surgir – porém esta não traz o fim das coisas" pois a "[...] meta dos seres humanos não é a Idade de Ouro", diz Novalis. Daí Schlegel dizer que a filosofia é nada mais que a história da filosofia, isto é, um constante desdobrar-se já que não se parte de um ponto imutável. É "atividade infinita", "sem fim", "eterno impulso para um fundamento absoluto", "[...] uma história das tentativas de descobrimento do filosofar" (NOVALIS).
A concepção romântica da filosofia concebe, deste modo, o ser como oscilação (NOVALIS), que pode "[...] apenas ser revelado através do ser e o ser, somente através da atividade" (NOVALIS), ou, nos valendo de formulações que podem servir como lema para todas as outras: "Deus é atividade infinita" (NOVALIS), "Toda verdade é remota" (NOVALIS) Por esta via, a filosofia não tem nada a expor a não ser a sua própria busca, um eterno oscilar (Schweben) entre pensamentos. Pode-se deste modo concordar com Seligmann sobre a concepção romântica da filosofia, a qual... ''descarta o sistema fechado como o modo de exposição da filosofia: a filosofia não teria nada a expor a não ser a sua própria busca. O seu resultado é ‘indizível’ (Unausprechlich). A filosofia deve também compartilhar da ‘autonomia’ do poético e da sua oposição a um fim (Absicht) determinado: o seu critério não é nem "aplicação" (Anwendbarkeit) nem tampouco "comunicabilidade" [...] A filosofia é definida como um eterno ir e vir entre os pensamentos, como um oscilar (Schweben) infinito [...] Desse modo voltamos, portanto, à concepção romântica do saber, como construção, como oscilação, Schweben. À diferença da noção tradicional do panteísmo, nos românticos o todo não é um constructo transcendente, que iria além da somatória das partes, mas resultado do movimento das mesmas (SELIGMANN).
Assim, o que está tematizado, segundo Seligmann, é justamente esta "[...] impossibilidade de se nomear, ‘conceituar’ e conhecer o Absoluto". A noção de fundamento contém uma "impossibilidade" e portanto a tarefa do pensamento "[...] não seria nada mais do que essa própria ‘busca’" (SELIGMANN). "Toda prosa sobre o Mais Alto é ininteligível" (SCHLEGEL), como diz Schlegel, ou ainda, com certa comicidade: "Há escritores que bebem o incondicionado como água; e livros em que até os cães se referem ao infinito" (SCHLEGEL).
Como indicam os verbos sublinhados, mesmo que haja a intenção, o querer encontrar o incondicionado, das Unbedingte, tarefa de toda uma tradição na filosofia, "encontramos apenas coisas", ou seja, não conseguimos sair do mundo dos fenômenos, e encontramos, sempre, a diferença, o plural (die Dinge). No mesmo sentido aponta Schlegel que os "[...] Princípios estão sempre no plural", [...] constroem-se uns aos outros; nunca é apenas Um, como presume o pensamento sobre o fundamento" (SCHLEGEL, 1963, p. 105)
A constatação da impossibilidade de fundamento não desemboca, entretanto, em total ausência do conhecimento para os românticos de Jena, mas numa releitura da "tarefa", por assim dizer, da própria filosofia: a caracterização do filosofar como tarefa infinita. O mundo torna-se "[...] mais e mais infinito" e "[...] nunca há um fim para a conexão do múltiplo, um estado de inatividade para o Eu pensante – a Idade de Ouro deve surgir – porém esta não traz o fim das coisas" pois a "[...] meta dos seres humanos não é a Idade de Ouro", diz Novalis. Daí Schlegel dizer que a filosofia é nada mais que a história da filosofia, isto é, um constante desdobrar-se já que não se parte de um ponto imutável. É "atividade infinita", "sem fim", "eterno impulso para um fundamento absoluto", "[...] uma história das tentativas de descobrimento do filosofar" (NOVALIS).
A concepção romântica da filosofia concebe, deste modo, o ser como oscilação (NOVALIS), que pode "[...] apenas ser revelado através do ser e o ser, somente através da atividade" (NOVALIS), ou, nos valendo de formulações que podem servir como lema para todas as outras: "Deus é atividade infinita" (NOVALIS), "Toda verdade é remota" (NOVALIS) Por esta via, a filosofia não tem nada a expor a não ser a sua própria busca, um eterno oscilar (Schweben) entre pensamentos. Pode-se deste modo concordar com Seligmann sobre a concepção romântica da filosofia, a qual... ''descarta o sistema fechado como o modo de exposição da filosofia: a filosofia não teria nada a expor a não ser a sua própria busca. O seu resultado é ‘indizível’ (Unausprechlich). A filosofia deve também compartilhar da ‘autonomia’ do poético e da sua oposição a um fim (Absicht) determinado: o seu critério não é nem "aplicação" (Anwendbarkeit) nem tampouco "comunicabilidade" [...] A filosofia é definida como um eterno ir e vir entre os pensamentos, como um oscilar (Schweben) infinito [...] Desse modo voltamos, portanto, à concepção romântica do saber, como construção, como oscilação, Schweben. À diferença da noção tradicional do panteísmo, nos românticos o todo não é um constructo transcendente, que iria além da somatória das partes, mas resultado do movimento das mesmas (SELIGMANN).
Assim, o que está tematizado, segundo Seligmann, é justamente esta "[...] impossibilidade de se nomear, ‘conceituar’ e conhecer o Absoluto". A noção de fundamento contém uma "impossibilidade" e portanto a tarefa do pensamento "[...] não seria nada mais do que essa própria ‘busca’" (SELIGMANN). "Toda prosa sobre o Mais Alto é ininteligível" (SCHLEGEL), como diz Schlegel, ou ainda, com certa comicidade: "Há escritores que bebem o incondicionado como água; e livros em que até os cães se referem ao infinito" (SCHLEGEL).
CAPÍTULO 7
É errado, não é? Sim. Estamos certos, mas é errado. Não concorde comigo. Você me faz sentir uma foragida (a língua de Suzana lambeu a mão conhecida de Marion; as Três Marias de Orion brilhavam, límpidas e cintilantes, sobre a mansão e os bosques do morro: ---- Mas porque contar à mim (?) ----, agora eu tinha me lembrado, tinha visto aquela cantora de música sertaneja numa reportagem sobre festivais de música country e conhecia sua fotografia na internet. ---- Achei que você devia saber (Suzana disse) quero que você me conheça(!) se vamos nos apaixonar de novo, quero que você me ame como eu sou(... -----, Marion parecia medir as palavras, aquele matador de aluguel tinha vindo de uma das piores quadrilhas de Mato Grosso (algo que se percebia pelo seu jeito de andar: havia nele algo de independente, de desgarrado e instável, que certa vez sucitou um comentário de Marion, com Suzana: ---- Algo não muito bom, de que não gosto (.) ----, sinceramente, ela cantava alto demais para o meu gosto (a música em si é algo que nem merece comentários). ---- Bem (disse Suzana) pode ser, ÀS VEZES, mas há quem possa ouvir pra você o que ele anda pensando(..) ----, eram poucos os assuntos em que Marion era totalmente ignorante, mas a música era um deles: não distinguia uma nota da outra, e há tempos que costumava exaltar as canções de Suzana em público, só porque tinha sido ele seu patrocinador (os entendidos do meio musical em fazer lixo render dinheiro diziam que Suzana não era boa, nem mesmo como lixo , mas Marion conhecia a natureza suscetível da moda, sabia que era possível girar a roleta para colocar alguém em evidência ( o braço dela foi estendido na direção de Marion antes mesmo que ele terminasse de falar; pressionou a mão dela contra os lábios, observando mentalmente o quanto era veiuda : ---- Eu ainda costumo colocar seus discos pra tocar(.) -----, Marion disse, e aquilo me fez pensar em Billie Holliday e mais umas quarenta vozes femininas que poderia citar sem dificuldade (mas era covardia,com Suzana: a indústria musical não produzia mais talentos capazes de evocar o cheiro de maconha numa cerração de manhã cedo ou o clima que cerca uma moça ao entrar numa sala de espera, não sugeria que o mais belo caso do ano estava para começar, não me levava à pensar em paisagens da Jamaica, em mangas, mel, um seio sob o luar, amor tropical, um porco selvagem correndo no mato com um quarto meio arrancado por uma onça; Suzana nos dava apenas gritos, uma ou outra nota prolongada, como um sintetizador quando se esquece um cinzeiro de vidro sobre as teclas.... nada mais. ---- Como você acha que ''ele'' vai reagir (?) ----, Suzana perguntou à Marion. ---- Como (?) ----, ela apontou para o matador de aluguel. ---- Ele está ali sentado há vinte minutos(: não pisca, não se mexe, apenas olha pra cá com aquela cara de ''QUER BRINCAR COMIGO(?) ENTÃO VAMOS BRINCAR(!)'' ----, ficaram em silêncio, enquanto a memória de Marion reunia tranquilamente os fatos: de repente, o matador se levantou da cadeira, estremecido de ódio, e foi na direção de Marion (não queria ficar desmoralizado, mesmo não sendo o dono do pedaço: ----- Cara, não sei se você sabe disso, mas o SEU braço tá na cintura da MINHA garota(.) -----, nesse momento, senti então uma curiosa felicidade, por saber agora que ele seria capaz de fazer o que sabia de melhor: MATAR (fixou o rosto de Marion de forma que parecia estar jogando sal na superfície dos seus olhos. Suzana riu nervosamente como se alguma coisa lá no fundo dela tivesse começado a pegar fogo. ---- Genial ---- ela disse ---- Genial(!) -----, e depois beijou o rosto do matador, e acrescentou: ---- Você não passa de um maluco, mas é legal(.) ----, eu percebia tudo isso durante o tempo que ele demorou para levar a mão à coronha de um revólver na cintura, olhar para Marion, olhar para Suzana, e dizer à Marion que sumisse dali. Percebia todos os detalhes ( meu senso de tempo, com aquela hesitação antes da descida da montanha-russa, foi tão demorado quanto o primeiro sôrvo num baseado, quando o pulmão dá seu longo suspiro interior e o tempo recua ao lugar onde começou: sim, tive lembranças relâmpago do matador lendo meu bilhete. ----- SUMA DAQUI (!!) ----, ele gritou na cara de Marion. Seus olhos se encontraram e ficaram juntos. O matador voltou-se para Suzana. ---- Ele não vai fugir(?) merda, até que enfim você arranjou um homem que aguenta a pressão (.) ----, o sorriso desapareceu instantaneamente do rosto de Suzana, então ela disse: ---- Não vá perder a calma, idiota(!) ----, e Marion acrescentou em seguida: ----- Calma, menina(: eu posso dar sumiço nesse seu namoradinho , e ninguém vai encontrar ele em vinte anos(: meu pessoal está aqui, posso enfiar pregos sob as unhas dele(: sou DONO do meu TERRITÓRIO, percebe(?) e de quase tudo DENTRO dele (.) ----, a cena era como dois homens e uma mulher equilibrados num arame tenso (nesse momento, eu saí da mansão. Dei um passo na direção da porta, Não sabia o que fazer direito, mas me pareceu necessário dar aquele passo, da mesma forma pela qual a letra de uma música pode lembrar a um homem, no limite da insanidade, que ele vai ficar novamente louco, e que lá fora havia um mundo mais interessante do que dentro daquela mansão (quando saí, o pulso do matador ainda marcava ritmo sobre a coronha do revólver). Quando reencontrei Cecília, de volta à nossa mesa, ela não percebia mais promessas secretas no meu rosto: sabia que o que nos tínhamos prometido era inconscientemente limitado e o segredo agora nos envolvia. Ela tocou meu rosto de leve, foi seguindo com as pontas dos dedos os contornos de uma sobrancelha, descendo pelo lado do nariz. Ao tocar meu rosto assim ela podia tornar mais natural sua sensação de familiaridade e destruir um pouco do mistério inquietante que eu carregava comigo, desde o berço. Ela poderia continuar brincando assim com meu rosto (não fosse pela presença do filho) com a ocorrência de uma ou outra palavra isolada e enigmática dando um sentido de estranha iluminação em sua cabeça ( como se ela percebesse que havia LUZ atrás de tudo o que visualizava, e que essa LUZ dava um contorno branco à tudo até ser percebida diretamente. Cecília teria continuado assim até que eu falasse ou me mexesse. Ela queria falar alguma coisa e não falou. Porém, seis ou sete pipocos explodiram de repente dentro da mansão e pessoas desesperadas apareceram no pórtico gritando; depois, mais pipocos (uma garota de programa gritou na sacada abaixo da janela: seguiram-se mais gritos, e mais tiros. Se eu não tivesse sido garimpeiro desde o dezessete anos, acho que teria reagido de modo diferente, menos gelado, mas me limitei a pegar o menino no colo e levar ele e Cecília na direção do estacionamento (CORTA ---- ela colocou a mão no meu ombro, seu corpo inteiro voltou-se para mim (de alguma forma indescritível, Cecília podia distinguir no meu rosto o que de fato tinha acontecido naquela festa. Meu rosto devia estar mudado, mas certamente não era o rosto do Demônio. Ela logo se deu conta de que eu estava mentindo, ou omitindo algo: mas o caráter totalmente inesperado do que tinha acontecido na festa não significava que provavelmente haveria de acontecer de novo. Ela estremeceu. Ainda tinha algo para me falar que não tinha falado. Puxei o lençol para cobri-la e ao fazer isso vi todo seu corpo esticado reto, exceto pelo quadril ligeiramente levantado (há mulheres, muitas vezes de cadeiras largas, cujos corpos se tornam espantosamente belos quando se deitam; e a vocação natural de Cecília parecia ser mesmo horizontal: e do mesmo modo que as paisagens são infindavelmente contínuas, a linha do horizonte retrocedendo à medida que avança o olho do viajante, assim, para o tato, esses corpos parecem não ter limites e ser infinitamente extensos, independente do seu tamanho real. Minha mão pôs-se à caminho: o triângulo roseo na pele clara dela anunciava inequivocamente a solução de qualquer mistério, ao menos por aquela noite (ela, talvez, tivesse gostado de me perguntar alguma coisa antes, mas... de repente ela se livrou do lençol e, ajoelhando-se na cama, pegou minha cabeça e apertou meu rosto contra sua barriga (jogou-se levemente para trás e percebeu que a luz azul das maçãs de vidro que pendiam do candelabro no centro do teto chamava incessantamente pelo meu nome entre as suas pernas (CORTA ---- a maneira como minha imaginação me obriga a escrever essa história é determinada pelos indícios, nela existentes, daqueles aspectos do TEMPO em que toquei, mas jamais identifiquei direito. Escrevo esta história na mesma escuridão... ela pode ser objeto ou imagem de ambos os lados do espelho. Pode regar-me ou ser regada por si mesma. Ambos, enquanto a palavra do escritor permanece em sua boca, voltam a ser partes de um todo indivisível cuja energia levará à separação e distinção entre nós tão logo a história seja abandonada, sem mais nem menos, como costumo fazer (Cecília pergunta: ---- Que necessidade tenho eu de mais alguma coisa, K(?) mas você é tão novo (... ----, não dei importância a esse último comentário, os sentimentos dela se distribuíam como veias no meu corpo (estou escrevendo mentalmente sobre dois amantes numa cama, baseado numa recordação íntima, enquanto Marion agoniza num hospital com um tiro no pescoço (CORTA ---- Que horas são (?) ----- Oito da manhã(.) ----- Tá brincando(.) ----Estou de pé desde as sete(.) ----- Você parece severa, aí de pé (.) -----Estou com fome(.) ---- Como você parece severa, aí de pé (.) ---- Marion morreu (.) ----- Grandiosa e severa(... ----- Levou um tiro no pescoço, por causa de uma cantora (.) ----- Tenho que te contar uma coisa sobre mim (....) ----- Diga(.) ----- Sou um traste até tomar uma xícara de café preto, de manhã(.) ----- Gosto tanto desse traste(.) ----- Sinto o cheiro de café entrando pelo ar condicionado (.) -----Vem até aqui um instante (.) ---- Meio minuto , por um milhão de xícaras de café(: já assistiu um filme chamado Coffee and Cigarettes(?) -----Não, peraí(.) ---- Fique junto da janela, to com uma sensação de sono maravilhosa, amando a visão de você aí de pé (.) ---- Você é pervertido(!) ---- Maravilhosa nua(!) ---- Não há pressa (: ok, leve o tempo que quiser (.) ---- Cada vez que te vejo sei que é você, que tem que ser você (.) ---- Quero conversar(.) ----Não importa o que você vai resolver, nem se vai resolver alguma coisa, não somos assim tão importantes(.) ----- Estou com medo, o Ricardo ligou (.) -----Quero dizer, nós como pessoas não somos importantes(.) ---- Estou insegura, você é doido demais, novo demais(.) ---- É o nosso amor que é importante... eu acho(.) -----Talvez eu ainda não esteja preparada(.) ---- Venha aqui, se puder (estou aqui(.) ----- Vou voltar para o meu marido(.) ----- Porque você nunca acredita em mim rs(?) ----- Tenho que pensar no meu filho (.) ---- Foi ótimo, esqueça(.) ---- Sei que estou errada, logo vou me arrepender de voltar pra ele(.) ----- Se não pode, não pode (.) ---- Tem certeza que não posso(?) ---- Você é quem tem certeza(.) ----- Deus, esse é o lugar mais bonito que já vi(!) ---- Jamais me senti tão ( ----- Quero que tudo fique claro entre nós, jamais fui falsa(.) ----- Não posso reclamar(.) ----, aquela conversa avançava, recuava: havia no ar uma sugestão de que poderíamos ir em frente, conversar tempo demais para pouca coisa, enquanto alguma falta continuava corroendo nossos espíritos. ---- Ah, K, toda essa confusão me deixou um vazio por dentro (ela disse) -----, sim, o amor era uma montanha que subíamos com um bom coração e uma boa respiração, mas a subida não tinha ainda nem começado , e o chão já estava escorregadio. Ela me beijou então, e a doçura que vem de uma fruta rara estava em sua boca, e alguma coisa a mais, um indício de febre e um pouco de lubricidade (de uma lubricidade ainda anos à sua frente, mas que vinha do futuro até ali, por um instante: havia de fato menos lealdade entre nós e mais do ar quente do desejo. Devo ter adormecido durante a viagem; quando vi, já estávamos de volta à cidade, e houve outra vez um momento em que acreditei estar morto. Estive certo durante um espaço de quarenta e oito horas ou mais, quase bem, quase perfeito, sentia-me o mais seguro dos homens, e agora estava tudo errado novamente (um ar de furacão pairava na minha cabeça; mais uma vez desejei ficar com ela, mas... é a lei de ferro do romance: o único voto aqui é ser corajoso: possuindo o sal de Maomé ou Buda, eu teria fundado uma nova religião, apenas não seriam muitos os adeptos. O assombro era minha religião, enquanto acreditei que Deus não era o amor, mas a coragem. Achava que o amor vinha apenas como uma recompensa... mas era o contrário. Eu ainda tinha vinte e seis anos na época, e minha Metafísica Privada, porém, era já enorme como a de Jorge Luís Borges (enterrada em vinte grossos volumes que eu jamais escreveria). Naquele momento, estava aterrado, o assombro era um estado de consciência intensificado, como um rito de passagem. Já não tinha a confiança de que meus pensamentos eram só meus; os homens temiam um espreitador, não tanto pelo terror, mas porque um espreitador impecável atrai a atenção dos deuses. Então, minha mente não era mais minha, meu era só o ASSOMBRO. Os augúrios agora eram tangíveis como o pão. Havia uma arquitetura na Eternidade que me abrigava enquanto eu sonhava, e quando havia ASSOMBRO, um zumbido potente ecoava pelos corredores superiores da minha consciência, expandindo seu raio de ação indefinidamente. Aqueles veios dourados multiplicavam-se dentro dela na velocidade da luz. Mas naquele momento senti um vazio por dentro, grande e gelado como o gosto do Infinito, como acontece quando um avião desce de repente. Aquilo era uma resposta direta. O Infinito estava me pressionando. Não podia mais ficar onde estava e não tinha para onde ir. A única solução era deixar de ser uma pessoa.
segunda-feira, 24 de novembro de 2014
A sabedoria do Evento...
Dispostos fundamentalmente na abertura para o evento (Ereignis) os futuros são homens determinados não pela técnica, mas pelo último Deus. Uma força corajosa de resistência ao silêncio abranda o coração na persistência do não querer. Para se encontrar inserido na disposição fundamental o homem deve se afastar voluntariamente do absolutismo calculador, tendo como meta alcançar um saber originário e verdadeiro, mas por outro lado inútil e sem valor aparente. O saber ligado ao evento e conseqüentemente causador do choque do ser (Seyn), para Heidegger, está absolutamente atrelado a consciência de sua história. Isto quer dizer que a partir deste âmbito histórico agregado ao saber questionador, se decide o amanhã no vigor da disposição fundamental. Entretanto, o saber histórico requerido para a melhor apreensão do evento não deve ser obtido através da constatação e descrição dos fatos, mas deve se portar como um saber ocorrido no próprio fluir da época em que os futuros devem interferir. Heidegger recupera a idéia de ocaso como um percurso em um abismo, transposto através da sabedoria do evento (Ereignis). O caminho essencial no ocaso para o futuro é tido como uma preparação ao vindouro. É na silenciosa contrição do escutar poético em que vigora a decisão para se lançar ao princípio deste percurso. .
O caminho dos futuros permite reconhecer a falta dos deuses e a ameaça constante à existência como adversidades a serem superadas pela capacidade de questionar essencial no saber do evento. Desta forma, o ser (Seyn) estaria ainda distante, pois com a chegada dos futuros, um período de adaptação é necessário para que os homens entendam a gravidade desse novo pensar. Sobre o ocaso transpassado pelos futuros, Heidegger afirma na obra Contribuições:
Los que van-al ocaso en sentido esencial son aquellos que pasan inadvertidos por lo que viene (lo venidero) y se inmolan a él como su fundamento invisible venidero, los encarecidos que incesantemente se exponen al preguntar. (HEIDEGGER, 2003b, p. 319).
Os futuros atravessam o caminho na posse da disposição fundamental e suportam o choque que um novo modo de pensar proporciona. Isso se mostra mais acentuadamente quando o homem percebe se tratar de uma intervenção onde o propósito maior é preparar o solo para a chegada do último Deus. A configuração tradicional da existência provavelmente sofrerá alterações com a chegada definitiva dos futuros entre nós e a mudança mais radical se colocará acessível ao mais puro pensamento. Esses arautos da aurora do amanhã trarão a linguagem poética novamente ao âmbito do cotidiano, assim como também junto consigo caminhará o último Deus, ainda indefinido quanto à maneira de conviver junto aos homens, mas certamente importante na conjuntura de acontecimentos previstos por Heidegger na virada do pensamento ocidental.
Os futuros atravessam o ocaso e devem sempre nutrir consigo o pensamento questionador. A intranqüilidade de não se encaixar numa sociedade viciada está essencialmente ligada à sabedoria do evento (Ereignis), responsável pela simples intimidade com as coisas, pela consciência do débito e do abandono do ser a partir da configuração presente no período da técnica moderna. A pergunta pela essência da verdade deve ser instigada ao próprio espírito daquele que deseja se preparar melhor para a meditação acerca da experiência poética como nova possibilidade de habitar nesta terra. Em Contribuições, Heidegger afirma explicitamente que a busca pelo senhorio do saber através da postura silenciosa resgata o ser do esquecimento e o recoloca nos arredores da verdade, onde a relação originária com as coisas possa fazer-se presente com maior intensidade. O silêncio privilegia a escuta, pois no novo paradigma colocado pelos futuros o fundamento e o abrigo determinar-se-ão a partir da reflexão poética. Na era da técnica, privilegia-se a informação rápida, momentânea e descartável, pois o mercado urge se renovar tendo em vista a obtenção de lucros. Na era do último Deus, privilegia-se a celebração austera, sem interesses e condizente com a verdade mais profunda e imutável tendo em vista sabedoria acerca de nós mesmos.
Obviamente é muito difícil, em uma primeira investida, pensar coerentemente em Deus, nos futuros e mesmo no advento de uma nova aurora histórica para a humanidade. Todavia, o que Heidegger pretende ao se colocar no encalço da poesia é, primeiramente, fornecer questionamentos para que se dêem outros modos de lidar com o mundo, e assim preparar o homem para o choque do ser (Seyn). A forma como a poesia se comunica com o mundo se dá sempre a partir de uma perspectiva originária e se empenha em configurar o retrato de um povo histórico. O fundamento de um povo reside na relação que têm com as coisas ao redor e, principalmente, com Deus. Toda a compreensão de um povo, a partir do olhar poético, deve pertencer historicamente a uma época como uma mensagem que se destina ao futuro. Essa mensagem será compreendida melhor quando o perigo da técnica já estiver em um patamar superior e o homem esteja compenetrado na preparação para a chegada do último Deus.
Os futuros trarão consigo a abertura para o ser (Seyn) conviver em meio à totalidade dos entes, expondo os valores da unicidade, singularidade e criatividade.
O último Deus se apresentará finalmente na simplicidade de cada coisa e na relação honesta dessas coisas com a terra. Os futuros devem estar atentos à região onde se encontra a essência da divinização, pois dela extrairão o saber que promoverá o desvio ao modo calculador, não abandonando por completo, mas construindo junto a ele uma obra onde o oculto permanecerá e a vastidão do evento (Ereignis) se fará presente como abrigo da verdade. Hoje, assim como no tempo de Heidegger, existem poucos futuros em vigor. Esses poucos carregam consigo uma espécie de senha especial que guarda os portões do amanhã. A senha é a certeza invariável da chegada do último Deus. A senha está intimamente ligada à sabedoria do evento e a disposição fundamental dos futuros. A certeza proporcionada pela posse da senha haverá de estar sempre aí, como um sinal mostrando que todas as coisas se apresentam numa divinização espacial. Os detentores da sabedoria do evento (Ereignis) estão sempre inseridos na disposição fundamental, ou seja, em todos os instantes e em todas as circunstâncias o ser (Seyn) se quebra em um mistério paradoxal e insolúvel. Após o choque, o ser (Seyn) se apresenta revelando e encobrindo uma verdade incalculável.
Os futuros ainda estão adormecidos para a maior parte dos homens, hoje ainda mais escravizados pela técnica devido à internet. Porém, a consonância se põe à frente dos mais ousados investigadores. Para estes, a solidez do mais íntimo temor se transforma num espaço singular onde reverbera o ser (Seyn) e também se mantém retido o Deus. O ser-aí é o ente que proporciona o movimento de todas as referências e somente ele habita junto à linguagem num mundo repleto de significados. É sempre a partir do homem que um período histórico pode degringolar e um novo surgir, pois nas mãos dele está o próprio destino. O destino é um envio que se põe em marcha quando a terra se encontra em perigo. O envio é um recado celestial que penetra na escuta daqueles mais familiarizados com a relação entre terra e céu. Os receptores do envio devem utilizar-se da linguagem e criar, a partir dela, o retrato de seu povo para só assim propagar a sabedoria do evento (Ereignis). O destino dos futuros é conduzir a humanidade rumo ao choque do ser (Seyn). No insólito espaço rasgado pelo poeta se encontra a essência celestial de Deus bem no interior do ente: radicalmente o sentido contemplativo arraigado pela poesia e também da sabedoria ancestral adquirida pelos futuros e perpetuada através de uma obra que não visa obter nenhum resultado prático. O sentido interno do ente é a senha para se confirmar a chegada do último Deus. Por trás de toda a terrível armação que nos impede o pensamento, devemos descobrir a simplicidade essencial de tudo ao nosso redor e o mundo se apresentará novamente na claridade do evento (Ereignis).
O caminho dos futuros permite reconhecer a falta dos deuses e a ameaça constante à existência como adversidades a serem superadas pela capacidade de questionar essencial no saber do evento. Desta forma, o ser (Seyn) estaria ainda distante, pois com a chegada dos futuros, um período de adaptação é necessário para que os homens entendam a gravidade desse novo pensar. Sobre o ocaso transpassado pelos futuros, Heidegger afirma na obra Contribuições:
Los que van-al ocaso en sentido esencial son aquellos que pasan inadvertidos por lo que viene (lo venidero) y se inmolan a él como su fundamento invisible venidero, los encarecidos que incesantemente se exponen al preguntar. (HEIDEGGER, 2003b, p. 319).
Os futuros atravessam o caminho na posse da disposição fundamental e suportam o choque que um novo modo de pensar proporciona. Isso se mostra mais acentuadamente quando o homem percebe se tratar de uma intervenção onde o propósito maior é preparar o solo para a chegada do último Deus. A configuração tradicional da existência provavelmente sofrerá alterações com a chegada definitiva dos futuros entre nós e a mudança mais radical se colocará acessível ao mais puro pensamento. Esses arautos da aurora do amanhã trarão a linguagem poética novamente ao âmbito do cotidiano, assim como também junto consigo caminhará o último Deus, ainda indefinido quanto à maneira de conviver junto aos homens, mas certamente importante na conjuntura de acontecimentos previstos por Heidegger na virada do pensamento ocidental.
Os futuros atravessam o ocaso e devem sempre nutrir consigo o pensamento questionador. A intranqüilidade de não se encaixar numa sociedade viciada está essencialmente ligada à sabedoria do evento (Ereignis), responsável pela simples intimidade com as coisas, pela consciência do débito e do abandono do ser a partir da configuração presente no período da técnica moderna. A pergunta pela essência da verdade deve ser instigada ao próprio espírito daquele que deseja se preparar melhor para a meditação acerca da experiência poética como nova possibilidade de habitar nesta terra. Em Contribuições, Heidegger afirma explicitamente que a busca pelo senhorio do saber através da postura silenciosa resgata o ser do esquecimento e o recoloca nos arredores da verdade, onde a relação originária com as coisas possa fazer-se presente com maior intensidade. O silêncio privilegia a escuta, pois no novo paradigma colocado pelos futuros o fundamento e o abrigo determinar-se-ão a partir da reflexão poética. Na era da técnica, privilegia-se a informação rápida, momentânea e descartável, pois o mercado urge se renovar tendo em vista a obtenção de lucros. Na era do último Deus, privilegia-se a celebração austera, sem interesses e condizente com a verdade mais profunda e imutável tendo em vista sabedoria acerca de nós mesmos.
Obviamente é muito difícil, em uma primeira investida, pensar coerentemente em Deus, nos futuros e mesmo no advento de uma nova aurora histórica para a humanidade. Todavia, o que Heidegger pretende ao se colocar no encalço da poesia é, primeiramente, fornecer questionamentos para que se dêem outros modos de lidar com o mundo, e assim preparar o homem para o choque do ser (Seyn). A forma como a poesia se comunica com o mundo se dá sempre a partir de uma perspectiva originária e se empenha em configurar o retrato de um povo histórico. O fundamento de um povo reside na relação que têm com as coisas ao redor e, principalmente, com Deus. Toda a compreensão de um povo, a partir do olhar poético, deve pertencer historicamente a uma época como uma mensagem que se destina ao futuro. Essa mensagem será compreendida melhor quando o perigo da técnica já estiver em um patamar superior e o homem esteja compenetrado na preparação para a chegada do último Deus.
Os futuros trarão consigo a abertura para o ser (Seyn) conviver em meio à totalidade dos entes, expondo os valores da unicidade, singularidade e criatividade.
O último Deus se apresentará finalmente na simplicidade de cada coisa e na relação honesta dessas coisas com a terra. Os futuros devem estar atentos à região onde se encontra a essência da divinização, pois dela extrairão o saber que promoverá o desvio ao modo calculador, não abandonando por completo, mas construindo junto a ele uma obra onde o oculto permanecerá e a vastidão do evento (Ereignis) se fará presente como abrigo da verdade. Hoje, assim como no tempo de Heidegger, existem poucos futuros em vigor. Esses poucos carregam consigo uma espécie de senha especial que guarda os portões do amanhã. A senha é a certeza invariável da chegada do último Deus. A senha está intimamente ligada à sabedoria do evento e a disposição fundamental dos futuros. A certeza proporcionada pela posse da senha haverá de estar sempre aí, como um sinal mostrando que todas as coisas se apresentam numa divinização espacial. Os detentores da sabedoria do evento (Ereignis) estão sempre inseridos na disposição fundamental, ou seja, em todos os instantes e em todas as circunstâncias o ser (Seyn) se quebra em um mistério paradoxal e insolúvel. Após o choque, o ser (Seyn) se apresenta revelando e encobrindo uma verdade incalculável.
Os futuros ainda estão adormecidos para a maior parte dos homens, hoje ainda mais escravizados pela técnica devido à internet. Porém, a consonância se põe à frente dos mais ousados investigadores. Para estes, a solidez do mais íntimo temor se transforma num espaço singular onde reverbera o ser (Seyn) e também se mantém retido o Deus. O ser-aí é o ente que proporciona o movimento de todas as referências e somente ele habita junto à linguagem num mundo repleto de significados. É sempre a partir do homem que um período histórico pode degringolar e um novo surgir, pois nas mãos dele está o próprio destino. O destino é um envio que se põe em marcha quando a terra se encontra em perigo. O envio é um recado celestial que penetra na escuta daqueles mais familiarizados com a relação entre terra e céu. Os receptores do envio devem utilizar-se da linguagem e criar, a partir dela, o retrato de seu povo para só assim propagar a sabedoria do evento (Ereignis). O destino dos futuros é conduzir a humanidade rumo ao choque do ser (Seyn). No insólito espaço rasgado pelo poeta se encontra a essência celestial de Deus bem no interior do ente: radicalmente o sentido contemplativo arraigado pela poesia e também da sabedoria ancestral adquirida pelos futuros e perpetuada através de uma obra que não visa obter nenhum resultado prático. O sentido interno do ente é a senha para se confirmar a chegada do último Deus. Por trás de toda a terrível armação que nos impede o pensamento, devemos descobrir a simplicidade essencial de tudo ao nosso redor e o mundo se apresentará novamente na claridade do evento (Ereignis).
domingo, 23 de novembro de 2014
CAPÍTULO 6
Era noite, e já estávamos sentados numa esquina do extenso corredor gramado (lendário, por ali) em que havia interfones em todas as mesas da festa. Era possível chamar uma pessoa do outro lado da mansão, discando o número de sua mesa. O sistema funcionava com a mesma eficiência no sentido oposto, e o interfone tocou algumas vezes em nossa mesa (Marion tentou falar com Cecília apenas uma única vez, depois desistiu, ao se dar conta da minha presença: mas outras mulheres queriam muito falar com Marion, ele era o produtor-executivo de tudo aquilo. ---- Meu anjo (ele falava) levante a mão, para eu saber com quem estou falando(.) ----, e logo uma loira oxigenada de olheiras fundas erguia o dedo no meio da fumaça de cigarros. ---- Você é fabulosa (.) ---- , ele falava então, e continuava ---- Mas não precisa agradecer, é a pura verdade (.) ----, enquanto isto, tamborilava os dedos na mesa, impaciente, desafiado e ultrajado, a todo momento buscando meus olhos e os de Cecília. Continuava com o interfone de sua mesa na mão: ---- Hilda , é um lindo nome (: e você ainda disse que é divorciada (: ótimo (: pode me responder uma pergunta, Hilda(?) (sim sim, claro que posso) ---- Quer foder comigo hoje à noite(?) ----, Marion disparava, e começava a rir ( um amigo dele, talvez um funcionário de confiança, perguntou-lhe: ---- Patrão, você não vive levando bofetadas por causa dessas coisas (?) ----, Marion acendeu um cigarro e disse: ---- Sim, vivo(... mas trepo um bocado, também (.) ----, caso alguma delas desligasse o interfone na cara dele, ele dava de ombros e discava outro número. As mulheres, de fato, nem sempre diziam não, e acabavam marcando algo para mais tarde, dentro da mansão. Às vezes Marion se levantava e entrava na mansão, desaparecia por meia hora, uma hora, cinco minutos (a festa estava restrita à área externa para a grande maioria dos convidados, e na região inteira o imperativo categórico da noite era conseguir uma mesa ali fora; dentro da mansão, alguns convidados privativos divertiam-se usando varas de pescar fornecidas pela organização da festa para pegar roupas íntimas largadas no chão de um palco iluminado pelas meninas do strip-tease. Haviam também homens vestidos de mulher. Agora eu odiava aquilo, odiava com todo o sangue de Cristo que corre nas minhas veias, mas Marion parecia muito divertido (El depois ia em frente, sempre estava conversando com algum funcionário, passando a mão na bunda de alguma garota de programa, guardando algum bilhete no bolso, anotando alguma coisa no seu celular. Vendo o quanto eu odiava aquele seu jeito, Cecília começou a rir ao meu lado. O barman trabalhava para ele, na fazenda, e foi possível ouvir alguma coisa da conversa que tiveram. ---- Uma noite dessas ela provocou agitação suficiente no nosso camarote para estimular minhas fantasias durante um mês(: acompanhou-me durante várias semanas, nas noitadas(: nunca senti tanto formigamento por dentro, vontade de foder toda hora(: ah essa vida promissora e cheia de maldade(!) -----, ele vivia rodeado de um exército de capos e mercenários sangrentos, poderia viver um dia ou um século, mas o vício piscava em seus olhos como anúncios luminosos num parque de diversões. ---- Sim, naquele tempo era um pouco melhor(.) ----, ouvimos o barman responder, e fiquei pensando no que poderia existir de melhor , num mundo como aquele. Nas outras mesas até poderia haver algumas pessoas deprimidas, mas à nossa volta a febre e a histeria só aumentavam. ---- Vou levar o Leozinho pra dar uma volta por aí, encontre a gente no parquinho, daqui a uns minutos(... ----, Cecília disse pra mim, e percebi subitamente que aquela era minha chance de entrar e dar uma espiada no que acontecia dentro da mansão (o que citei acima foi visto depois que entrei). A fisionomia de Marion , artificialmente alegre e cruel, de cabelos ralos, sua altura e corpulência, e sua luxúria desbragada pela pilhagem deveria provocar nos seus puxa-sacos a impressão de que, dado o número de mulheres que cruzavam seu caminho, eles poderiam recolher algumas ''sobras'' para si. Eu jamais tinha me envolvido num situação capaz de demonstrar o quanto eu temia algumas (daquelas) mulheres (todas pareciam fiéis à Marion e capazes de me empurrar pelas costas para o fundo de um porão onde eu pudesse ser torturado); mas ocultei-me bem, a princípio, dentro dos limites da mansão: adentrei o ambiente com a expressão concisa que encerra a idéia de que a morte tudo purifica, na pior das hipóteses. ''Mas a morte não purifica'', dizia comigo mesmo depois, arrependido, reconhecendo meu medo nos rostos dos convidados privativos ''A morte dissipa(!)''. As emoções, trapaças, cheiros, terrores, tilitações, gestos obscenos, pensamentos sádicos, projetos e planos de pilhagem inter-pessoal e (caso eu morresse por ali mesmo ) o gás incolor que apagaria todo aquele azedume das minhas vistas penetrando o ar, para ser respirado por aquelas pessoas e novamente exalado, talvez tenha influenciado em um milímetro o milhão de anos-luz à que minha imaginação estava daquilo tudo; perceber instantaneamente que algumas daquelas garotas de programa, divorciadas vingativas, solteiras e esposas disponíveis para orgia de vez em quando olhavam para mim sugestivamente, provocou em mim o mesmo pânico que costumava sentir no colégio, bem novo, quando eu ainda não sabia brigar e acreditava que poderia ser ferido seriamente à toa. O saldo dos meus atos era completamente desconhecido ali, e a partir do meu OLHO semelhante ao OLHO DE DEUS , com que eu contemplava tudo, sabia que eu ainda não era suficientemente DIVINO (estava fora da minha visão saber se a força da minha presença entre aquelas pessoas acelerava meu amor por Cecília, pelas agonizantes fadigas do TEMPO, ou se estava apenas desgastando o TEMPO, aproximando-me dos pesadelos de um DESTINO que começava a falhar perigosamente. Duvido que na história da nossa república tenha havido uma festa privativa com igual composição: uma cantora de música sertaneja e um surfista profissional, um estuprador e um delgado da Policia Federal, um psicanalista e vinte prostitutas de luxo, um cachorro poodle e um mecânico de maquinário agrícola, um hacker viciado em crocodil e seu irmão caçula cego, um capataz de fazenda de café e uma aparição espectral, um matador de aluguel e uma atriz de televisão. Naquele momento, tive a impressão de que o sexo praticado naquele recinto era a transação humana mais feroz e nojenta de todas: aquelas pessoas entregavam uma grande porção de si mesmas, para receber algo tão bizarro em troca que nem Hunter S. Tompson saberia definir o quê exatamente. Mas exagero meu medo, na tentativa de explicá-lo melhor (quando uma daquelas putas sentou ao meu lado e perguntou porque eu estava sozinho, alguma coisa na minha alma pareceu a ponto de ser sequestrada, corrompida e subornada: meu pensamento era ainda mais carola, admito, do que o episcopalismo pregado em São Mateus, sobre as verdadeiras força, coragem e responsabilidade de Cristo. Por outro lado, ainda me considerava um pouco (por contaminação) competitivo em relação à Marion. Não sei se devido à presença de Cecília e seu filho do lado de fora, ou ao vigor das sinapses nirvânicas no meu cérebro, eu me incomodava por não estar em condições táticas de entrar em campo contra Marion, naquele momento, em matéria de conquistas femininas. Uma parte em putrefação do meu ego queria voltar aos tempos de puteiro e baile funk e ser capaz de se gabar diante de todas aquelas aberrações, por fazer sexo com mais arte e intensidade do que qualquer um ali, mas o bom senso e a temeridade atrapalhavam meus planos de exibicionismo (eu precisava fornecer rápido uma explicação convincente para rejeitar o assédio e continuar ouvindo impassivelmente os diálogos entre os personagens que cruzavam meu caminho: ---- Enquanto eu pensava que ele era apenas um homem rico e inteligente, que tinha uma família em algum lugar, estava tudo bem (: mas um dia vi a foto dele numa revista de agronegócio e compreendi que ele não tinha me dito nem mesmo seu nome verdadeiro (: quis deixá-lo, mas ele me convenceu a viajar na sua companhia mais uma vez, para Miami(: disse que ali poderíamos estar juntos em público(: fui, e em Miami, naturalmente, fiquei conhecendo alguns de seus amigos e, VEJA SÓ, eram todos chefes de quadrilhas e traficantes internacionais (.) ----, que homem extraordinário (pensei) e sangrento, para compilar um tal esquema de personalidade em tão pouco tempo (essa revelação irônica valia também para meu amor por Cecília: uma saída de emergência foi construída no calabouço do meu cérebro, enquanto eu ouvia aquela puta de luxo conversando com o hacker viciado em crocodil e seu irmãozinho cego e mudo ao lado: ---- Ele já era da quadrilha, naquela época(?) ----, perguntou o rapaz. ---- Ele já era muito rico (respondeu a garota) e respeitado na alta sociedade (mídia, inclusive): gostava muito de jogar, íamos à Las Vegas apenas para isso, e cheguei a pensar que talvez ele fosse dono de algum daqueles cassinos(.) porque às vezes me deixava sozinha por uma semana, ou um mês, e isso não aconteceria se ele fosse apenas um cara rico que deixava uma puta pra trás(: evidentemente ele não era o tipo que pertencia à uma quadrilha, pelo menos não diretamente (.) ---, aquela garota fazia as pausas nos momentos mais estranhos da história. ---- É claro, havia sempre brigas (continuou ela) sobre alguém ser um possível CHEFÃO (: existe ou não existe(?) muitas vezes ouvi gente graúda discutindo isto, sujeitos da mesma posição que Marion no grupo (: mas logo alguém dizia ''NÃO EXISTE ISSO ENTRE NÓS. ESQUEÇA!'', enquanto o outro ria e se benzia (.) ----, dizia a garota, rindo também e imitando ironicamente o mafioso recém-eleito. Mas, se por acaso, eu mesmo digo que há (um chefão), giro a chave da categoria do meu próprio segredo, pois, como muitos leitores(as) já devem ter percebido agora, EU SOU O HOMEM MORTO NO CHÃO, ESCUTANDO TUDO AQUILO (sou no interminável instante deliberado da visão proporcionada pelo risco de morrer de um instante para o outro: os milhões de espasmos agonizantes da consciência irradiadora das palavras, ESSE ÚLTIMO TRAÇO DE MIM , uivando interiormente, turbulento com o terror de que eu não mais sabia onde estava me metendo, nem se havia mais outras vozes próximas para ouvir-me e responder-me, além daquela aparição espectral que se comunicava comigo por telepatia dentro de um oco ressonante do meu crânio. A garota continuou: ---- Creio que ele não fazia parte da quadrilha, diretamente(: mas a quadrilha realizava missões especiais pra ele (: missões complicadas, algumas no exterior, foi minha impressão(.) ----, outra pausa estranha: ---- Então (concluiu ela) comecei a achar que não era bom ficar sabendo de tanta coisa (: porque chegou o dia em que eu quis me livrar de Marion, e não sabia como (: mas nos separamos como amigos, ele me passou para um amigo dele ( outro rei do tráfico, na América do Sul; mas ele tinha tendências secretas escabrosas, e ameaçou me matar quando não topei (: ameacei-o com magia negra, cara a cara, acredita nisto(?!) mafiosos são mais superticiosos que macumbeiros(: EU DISSE A COISA CERTA (: diz um ditado do crime ''fuja de uma faca, mas enfrente um revólver'', e ele era um sujeito de revólver(: se eu tivesse fugido para outra cidade, teria levado um tiro pelas costas, numa noite qualquer voltando pra casa (: fiquei por ali mesmo, enchendo a cabeça dele de minhocas, e tive sorte de conseguir manter-me intacta por dois meses ( foi quando comecei a cantar em algumas boates e passei dois anos muito agradáveis nos States (com bandidos menores) -----, eu estava solto ali dentro daquela mansão, finalmente (iniciada a viagem enlouquecida, cujos primeiros ecos conheci acercando-me daquele primeiro diálogo, contaminava-me da malícia, licenciosidade, falsa promessa e horror no âmago daquela festa quando, sóbrio demais com o conhecimento da coragem que me era exigida e da pouca que ainda me restava, comecei a fechar os olhos e a guiar-me unicamente através dos acenos que a aparição espectral grafitava nas paredes internas das minhas pálpebras, sentado na salvação de uma cadeira de balanço vazia, abandonando qualquer pretensão de espreita mais arriscada à uma vontade apoiada na ausência de ego , e deixava a tortura de alguns discretos goles num copo de whisky temperar meu ouvido, arrastadamente, entre as vozes sobrepostas dos personagens em pé diante do palco de strip-tease. ---- Ninguém no nosso meio sabe exatamente o que o outro sabe ( disse a atriz de televisão, acercando-se do mecânico de maquinário agrícola) na verdade, ninguém sabe nem mesmo o que é que sabe (: considerando os homens com quem eu fodia no começo da minha carreira, outras pessoas que eu mal conhecia logo se prontificaram a me fazer todo tipo de favores(: julgava-me, então, mais importante do que eu realmente era(: não constitui pra mim motivo de orgulho dizer isto, mas eu tinha então até mesmo o poder de mandar matar gente(: e me ocorreu também que eu mesma podia ser morta, e sem saber para quê ou por quem(.) ----, e suspirou, o que me fez suspirar também, o ar entrando pelas minhas narinas e percorrendo um longo e insondável caminho dentro de mim, enquanto eu me distanciava internamente de todas aquelas presenças girando com uma rapidez inversamente proporcional à do ritmo luxurioso, e por alguns segundos me senti unificado com alguma coisa omnisciente dentro do meu cérebro, até expirar o ar de volta à atmosfera e perceber novamente, abrindo os olhos, a atriz, mulher, amante ou qualquer última personoficação da Grande Rameira conversando com alguém ao meu lado, arrastando-me de volta ao epicentro carnal da violação, dedos femininos de uma curiosidade furiosa contra um homem (eu) sentado em silêncio, indiferente, aparentemente sem espinha dorsal (além da cadeira) e mergulhado num tipo de dissolução cognitiva indescritível, a voz dela procurando arrancar-me de volta para o mundo dos vivos à nossa volta com uma determinação procriadora, e então ela se inclinou finalmente sobre mim e perguntou: ---- Você está se sentindo bem, moço(?) ----, respirei fundo, quando começava alguma coisa vertiginosa assim, um estado de consciência intensificado, sentia sempre que havia um anjo (agora, uma aparição espectral) que me acompanhava e orientava. ''Todos os órfãos têm'', eu pensava ''é parte da economia espiritual da Natureza'''. ---- Eu só estava aqui pensando, minha flor (eu disse) é que costumo pensar de olhos fechados(.) -----, mas essa era a mentira das aparências partilhada entre dois desconhecidos, ocasionalmente, um pão de falsa farinha que, pela força das circunstâncias, me reconduziu às determinações práticas de espreitador, de volta à virtualidade viva daquela festa, depois de me ter projetado longa e profundamente pra fora dela. ''Agora eu vou'', pensei ''o vórtice não pára''. Ela voltou a conversar com o mecânico de maquinário agrícola e o psicanalista, enquanto o delegado da Polícia Federal inalava uma espessa carreira de cocaína num espelho de mão, com o poodle no colo, sentado num sofá de couro vermelho ao lado de um gogo-boy vestido de mulher. ---- Sempre fui independente (disse o psicanalista), ou pelo menos, gosto de pensar que sou(: creio haver algo em mim que não quer nada de ninguém, e talvez seja isso o que agrade à bandidagem para quem trabalho (: atribuo isto ao fato de minha mãe ter abandonado meu pai, meu irmão e eu quando tinha dez anos(: meu pai era um bêbado desgraçado, me dava surras de criar bicho(: mas quando cresci, perdi a conta de quantas vagabundas amigas do meu pai eu comi sem que ele descobrisse(: no fundo, odiava aquelas vacas, porque me impediam de ter... um pai decente(: o velho Marion foi a coisa mais próxima que tive de um pai, mas não diga à ele que falei isso, senão vai começar a querer controlar de novo os rombos nas minhas despesas com drogas(: não quero me arriscar(.) -----, e eu, agora, afundo ou vôo(?) me perguntava: todos os vetores haviam desaparecido do meu pensamento , enquanto no centro de mim, claro como o olho gelado da cocaína, preciptava-me para um ponto de julgamento final onde haviam agora tantas provas definitivas de tantas coisas que eu mal sabia o que fazer com elas (meu impulso e recuo masculino da avarenta caverna cabeluda daquela festa que começava a sugar toda a energia da minha mente); assim me aproximei dele, Marion, indiretamente, ouvindo aquelas estranhas conversas, entre estranhas pessoas; e assim também, provavelmente, o perdi de vista, mergulhado em seu destino insólito, inapreensível, indecifrável, no qual entrevia-se tanto êxito quanto fracasso, comédia e tragédia. ----- O que você tem na cabeça esta noite(?) já vou até aí (alguém disse, puto) quero ver que tipo de palerma tem a petulância de falar assim de mim (----, a aparição espectral (meu anjo da guarda) de repente se tornou a coisa mais valiosa que eu possuía no mundo. Como Deus, aquele espectro agora também sofria da ambição de realizar um destino mais extraordinário do que o que havia sido concebido para ELE e, consequentemente, também para mim; ''Deus é como eu'', pensei ''apenas um pouco mais''. Eu estava diante da cantora de música sertaneja que tinha acabado de dizer aquilo. Ela agora conversava com o matador de aluguel: ----- Pois eu também tenho que vigiar o meu assassino profissional (ela disse), pois há um serial killer bem aqui dentro desta mansão, pessoal (tem certeza, ele perguntou rindo) sim (ela respondeu) mas um assassino em série seguro de si, sem inspiração nenhuma (só mata por encomenda) ----, ela era grande e bonita, com feições amplas e corpo esguio, panturrilhas musculosas e veias saltadas nos ante-braços (por qualquer critério de acasalamento animal (as sombras da vida bandida agora ditavam meus pensamentos) ela daria um excelente par para Luís Carlos Marion, o que parecia provocar algum ciúme inconfessado no matador de aluguel. Seu nome era Suzana, foi como o matador de aluguel a chamou. ----- Apenas faço trabalho externo, Suzana (.) ----, ele disse, e pude perceber que havia escolhido ela para passar a noite ou simplesmente não queria vê-la com mais ninguém, muito menos com Marion. Ria de maneira forçada e discutia obstinadamente os méritos do seu ofício com ela. ---- Não posso saber (: a verdade feia, mas que pode ser dita aqui, é que, provavelmente, um ou dois homens em Paranaguá estão mortos agora, e talvez ''a culpa'' seja minha(... rs(.) ----, ela adorou aquilo (os sinais do status homicida retiniam em sua cabeça como numa caixa registradora); e fiquei surpreso com o que Suzana disse depois: ----- Bem, a verdade é que aqueles dois já estavam mesmo por um fio e eu fui bastante vingativa pra puxar o fio(: e você o gatilho(: comecei a pensar naquela cidade que eu odiava e que sempre considerei abaixo de mim e da minha música, aquela inveja, mas que agora me pertencia por direito e força (: agora ela cabe inteira dentro do meu fantasma (.) ----, e deu um sorriso sensual, cheio da sua própria carne. ---- Devia ter levado você para aquele programa, pra ver como é que funciona a coisa ao vivo(.) -----, disse o matador de aluguel. ---- Sim (ela sacudiu a cabeça várias vezes) mas não é bom para uma artista jovem, promissora e completamente sem talento como eu (hoje isso é possível) andar com homens que enfrentam quase tudo, mas sabem que há ALGO que jamais poderão enfrentar (e deu outro sorriso, agora radioativo, e acreditei te-la ouvido pronunciar o nome de Marion) -----, pura verdade (as nádegas de Suzana eram primas da lua, e filhas de Marion), e o matador de aluguel, tendo sua dignidade masculina para defender, ao ouvir AQUELE NOME , retrucava agora, visivelmente desafiado: ----- Ah, cala essa boca(: você nem sabe cantar direito, Marion pagou todos seus cursos de canto , financiou seus discos e inventou aqueles shows pra você fazer a abertura nas exposições de gado de lá (!) ------, eu só olhava, como já contei: ----- Aprendi um pouco nas aulas de canto (: mas é verdade (Suzana disse), acho que sou mesmo uma péssima cantora, apenas alguma presença de palco, nada mais(: hoje em dia, que diferença faz(?) ----, isso, aparentemente, encerrou (ou azedou) a conversa entre eles: ela bocejou e espreguiçou os braços lindamente (que corpo!) , e eu não estava mais preparado para coisas piores do que aquela história; por isto, comecei a sentir vontade de vomitar, mesmo sabendo que dentro de uma ou duas horas eu deveria estar pronto para ir pra cama com Cecília como se nada tivesse acontecido. Aquela era também a sensação de que eu não me pertencia mais, de que o meu centro era agora propriedade de Cecília. E a sensação que senti cinco minutos antes de deixar sua companhia (de que eu seria capaz de matar Marion) voltou com força. Sentia-me perfeitamente capaz de fazer a coisa e aquilo me assustou. A possibilidade de que minhas melhores emoções, quando fazia amor com Cecília, fosse uma sensação que agora pertencia somente à ela, encheu-me de um impulso homicida. Como distinguir entre o amor e as artes do Diabo? Não houve tremor no ar, enquanto eu pegava um pedaço de guardanapo e escrevia um recado (a aparição espectral apontava para o matador de aluguel). ---- Entregue quando ele estiver sozinho(.) ----, o garçom me olhou de um jeito estranho. ---- Diga apenas que foi de um amigo(.) -----, aquela era uma invenção do Mal. Mas há operações que devem ser feitas de um única vez, com sentido de oportunidade (eu sentia dentro de mim a selvageria estratégica de um amante ansioso por ver o caminho livre. O garçom entregou o bilhete à ele, sem abri-lo ou apontar-me. Senti a irritação no rosto do matador de aluguel crescer, até tomar a forma paranóica; um lampejo daquele orgulho de profissional eficiente (rosto queimado de sol e jaqueta de couro) ,de um dom que se preparava para a última canção diante de um auditório seleto (mas alguma coisa humilde e discreta de repente predominou naquele rosto, segundos depois, e ele disse ao garçom: ---- Tudo bem(.) obrigado(.) ---- ,
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