quarta-feira, 12 de novembro de 2014
CAPÍTULO 2
Sexta-feira. Uma hora da madrugada, e Seu Antônio (o senhorio), diminuiu a intensidade do último de três abajures na sala principal do casarão: o carpete marrom escureceu um ou dois tons e as paredes retraíram-se para um espaço mais remoto, dentro da escuridão do imóvel. Algumas cadeiras estavam ocupadas por velhos hóspedes sombrios e teias de aranha. Do lado de fora, no jardim, eu e Janice, uma garota ruiva de dezenove anos que eu tinha conhecido na praça, naquele mesmo dia de tarde, tinha talvez salvo a minha noite: logo depois de nos conhecermos, enquanto dividíamos um cigarro, ela se grudou em mim: a garota nem mesmo era da cidade, morava num município vizinho, com uma família destroçada num apartamento de dois quartos, ela e o padrasto, porque a mãe estava sempre viajando ou fazendo alguma coisa em Belo Horizonte que ela não foi capaz de me explicar direito ( os estilos sexuais de certas mulheres tem geralmente uma grande parte aberta a muitas interpretações, talvez sabiamente, pois as conjecturas podem se tornar excessivamente fascinantes: eu e Janice, agora, não tínhamos a mínima idéia do que fazer, depois de termos ido para o meu quarto e trepado até não aguentar mais. ----- Precisamos aprender a adquirir a pura espontaneidade (: quando a Kundalini se une ao Atman, isso também é Sahaja(: a sermos incondicionados (: o Buda não foi um menino bem comportado, de bochechas gordas, sentado com as mãozinhas cruzadas no colo (: ele conquistou o demônio Mara com a técnica da Maithuna, a FODA(: primeiro Mara apareceu à Buda sob a forma do desejo(: quando o desejo sedutor não afastou Buda da iluminação, Mara endureceu o jogo (: atacou-o com a visão de muitos horrores, demônios, animais, monstros com axilas e hálitos horríveis, fantasmas desesperados, mas nem assim conseguiu fazer o Buda vacilar (.) -----, eu disse, folheando um bloco tirado da mochila, e a testa de Janice desanuviou-se, e uma miniatura de sorriso mostrou-se, marota, nos cantos da sua boca. Ela não ergueu o rosto; ficou ali, recostada numa cadeira, uma mãozinha branca e delicada fechada sobre o joelho cor de pêssego (um conjunto informal de saia e mini-blusa, todo em nervuras, de seda, bordado com negros botões de lótus; e botas de cano longo). ---- O sexo como estado de espírito é um assunto de tonalidades(: o estado de espírito como uma harmonia de tudo o que vive na Gestalt, vários modos de apreensão ou disposição(: o riso, por exemplo, pode dar nova intensidade à disposição de espírito, oferecer uma substância irônica à sua forma, COMO SE ESTIVESSE VIVA(: digo, viva como um organismo, pois um estado de espírito é um organismo psíquico(.) ----, após aquele insólito diálogo, Janice só abriu a boca para me convencer à ir numa festa de música eletrônica no clube ao lado da rodoviária: o velho terminal rodoviário encardido, retorcido e enferrujado, agarrado aos trilhos da linha férrea, com sua claquete de cinema gigante e seus exércitos de pombos fétidos em volta: a festa ocorria no porão de um salão de um grande prédio espelhado e mal iluminado por fora, com tábuas justapostas, num formato de torre quadrada, na encosta de um morro cheio de edifícios de quatro andares, com telhados de ardósia. A água da chuva de uma hora atrás parecia negra, no final da rua. As vidraças foscas do porão reluziam como um fogo leitoso, de uma caverna tumultuosa e enfumaçada lá dentro; o grave da música penetrava as paredes: Janice e eu descemos a escada de concreto de uma entrada lateral; um negro tão reluzentemente calvo, que as emendas de seu crânio mostravam seu desenho, vendeu-nos bilhetes vermelhos. Lá dentro, um excesso de luzes coloridas, calor, barulho, e um mundo de gente, sentada, de pé, bebendo cerveja e vodka, dançando em linhas sinuosas apertadas, as caras tolas, vidradas, endiabradas. Os amigos (adolescentes) de Janice estavam todos lá, mas ela apenas os cumprimentou de longe, com um aceno indiferente. ---- Falei da festa com eles, mas não achei que viessem (.) ----, assim que ela acabou de falar aquilo, para meu espanto, Cecília também apareceu no meu raio de visão. Me adiantei para perto de Janice, num impulso. Cecília parecia estar bêbada e embaraçada, e assim que me viu percebeu que eu estava de caso (ou ia ter um) com Janice; tinha alguns dias que não nos víamos; ela trajava um vestido cor de laranja , de um colorido dramático e lisonjeiro. As têmporas de Janice começaram a doer, mas ela queria dançar. Peguei ela pela mão e nos juntamos ao cordão de dançarinos que passou por nós, carregando-nos para frente, fundindo-nos com a massa saltitante e epilética. O laranjado do vestido de Cecília contornava os cantos da sua visão, enquanto ela dançava como uma sensual e apetitosa barata tonta. Havia momentos, na pista enfumaçada, em que as duas ficavam de frente uma para a outra, em linhas espiraladas, o rosto de Janice virado para baixo, por causa da dor de cabeça, seu corpo parecendo fazer parte dos que nos rodeavam; enquanto que Cecília parecia espetada, puxada, disputada, em antagonismo e desajeitadamente. Mãos copulavam com a dela a todo instante. Meus dedos se mexiam entre os de Janice, para firmar-se em sua mão. Então um homem desconhecido, um homem forçado, que saltava e se contorcia para acompanha-la, com cabelos saindo das mangas compridas da camisa, agarrou o pulso de Cecília e lhe destinou um significativo sorriso, com dentes tortos. Algo forte vinha do sorriso dele. Algumas mãos ali pareciam grossas como pães, outras moles como massa. Terminada a última música, Cecília soltou a mão do desconhecido e ficou olhando, assombrada, para a cara de Janice, que era bela, comum e estupidamente infantil. Com o mesmo assombro ela olhou para mim, talvez imaginando que uma ou duas vezes ela tinha se encontrado comigo naquele vestido, que eu já o tinha visto e tirado dela para nos amarmos. Eu segurava agora a mão de Janice tão levemente, que nossas mãos ficavam o tempo todo se largando. Cor de laranja faiscando nas bordas da visão de Cecília. O teto da boate era uma rede de canos de aço, pintados de um verde envenenado. -----Vamos, K, para logo com essa merda (Janice disse: ----- Você tá dançando como se tivesse uma pedra no sapato(.) -----, mas a vodka tinha deixado Janice tonta e então, quer estivesse dançando ou parado de pé, a boate girava e a forma brilhante dela, com sua sombra jovem de energia, aparecia do meu lado direito e depois do esquerdo, parecendo cortar minha visão, reduzindo seu tamanho cada vez mais. O barulho (música) parecia-me algo sólido que o DJ estava enfiando pelos cantos do ambiente, para dentro dos espaços misteriosos entre os tubos de água e ventilação e o teto. Cecília não se supreendeu de ver Janice me puxando para a pista de dança, chamando a atenção de todos: parecia haver alguma coisa de impressionante em nós dois como casal, algo de adolescente e alto, vagamente cômico e extravagante ( eu não sei dançar direito); Cecília voltou para perto do desconhecido de antes, e sem se tocarem, se postaram um diante do outro e lançaram seus corpos angulosos na dança. Meu primeiro pensamento, vendo ele dançar diante dela, foi: '' A inexperiência de um homem de quarenta e poucos anos é coisa muito mais séria que a de um jovem de dezoito, pois não pode socorrer-se dos rompantes de um temperamento impetuoso''. Janice olhou para Cecília à distância e me perguntou quem era, e porque eu estava olhando para aqueles dois, e a julgar pelo brilho dos seus olhos, parecia estar vendo em Cecília uma criatura contagiosa, suja, maldita e que logo daria à luz, pela dor que despontava nas têmporas de Janice, à um monstro igual ao que tinha pintado em sua mente. ----- Quero ir embora, K(.) ----, Janice disse de repente, minha fisionomia agitada mostrou surpresa e os músculos do rosto dela se enrijeceram e os olhos escureceram tanto que as órbitas pareceram fundas, e acrescentou: ---- Sinto muito(.) ----, ora, tudo bem: o sonho continuaria se movendo sem ela, agora, dentro da minha cabeça: enquanto andávamos para a saída, a dor de cabeça de Janice voou em fagulhas e pedaços do topo do seu crânio, enquanto ao mesmo tempo eu pensava que Cecília era encantadora demais e que eu não podia desistir dela de jeito nenhum. Agora eu olhava para Janice e minha impressão era de que seus olhos me repreendiam, dizendo: ''Não faça nenhum gesto afetado e pense mais baixo(: estou ouvindo tudo(!)''. Então, vi aquilo naquela noite, com muita clareza: uma revelação: estive esperando por uma e lá estava ela agora. Tive vontade de ir para junto de Cecília, como nunca antes. De ir parar naquele vestido cor de laranja, MERGULHAR E DESAPARECER. Não importava mais que aquilo pudesse me matar, todo o resto que se intrometesse entre nós era agora só matéria, matéria ruim, matéria oca. Eu precisava de fé, algo que me faltava quando pensava em Cecília. Meu Deus, Janice, eu é que sinto muito: será pior do que eu imagino, bem sei. Me perdoa. Eu te amo também. Sinto muito. Sou grato. É um grande alívio? Mas sou... muito grato. Estou aturdido e assustado, no momento, mas contente. Fique contente também. Por favor? ----- Droga(!) ----, eu exclamei: ---- Fomos longe demais(.) o que eu queria mostrar pra você ficou lá em casa, Janice(: minhas anotações(.) meus contos (.) ----, fizemos a volta no balcão da boate, e quando passamos por ali de novo, várias pessoas de um pequeno agrupamento rente ao balcão, reconhecendo minha pessoa, pareceram achar graça de alguma coisa. ----- Quem são, K(?) -----, Janice perguntou, percebendo aqueles olhares inquiridores; mesmo sem saber, arrisquei uma resposta: ---- Ah, gente(... mas acho que, cada vez mais, gente jovem e moderninha de cidade pequena, dessas que dentro de um ou dois anos estarão abrindo novas lojas de roupa no calçadão do centro(.) -----, mas não contribuí muito para esclarecer porque aquelas pessoas, que agora pareciam ser TODAS, acharam tanta graça ao nos ver passar de mãos dadas na frente deles: imaginei que, alguns passos atrás, alguma delas poderia ter gritado alguma coisa ofensiva, ou ameaçadora, procurando me intimidar. ----- Bom, acho que essa gente pensa (Janice disse) que nós temos olhos para ver como eles também têm (: eles são assim(: não revelam nada, a gente é que tem que procurar saber, pescar no ar, ou mesmo tentar chegar até eles(.) -----, nos esprememos contra uma parede de pedra, a música parou por um instante, e eu observei: -----Essas pessoas simplesmente não conseguem imaginar algo mais profundo para suas vidas do que isto(: jamais SONHAM, nem mesmo por um dia, a autoreflexão (espelhismo) transforma a todos em sonâmbulos da vida social(: não RESPIRAM, estão fechados por completo no mundinho delas e seguirão agarrados uns aos outros até o inferno(.) -----, ainda que essa também fosse a acusação que aquelas pessoas provavelmente lançariam contra alguém como eu, de que vivo fechado num mundinho... mas eles não conhecem o caminho para o ALTO. ----- E a televisão (?) -----, Janice perguntou de novo. ----- Ah, elas devem assistir muito a televisão, a máquina de fazer doido, mas não percebem o quanto tem a ver com elas(: sentem, de alguma forma biliosa, que estão protegidas, entende(?) a televisão bloqueou a capacidade de seus cérebros de fazerem as sinapses necessárias para sair do estado de adormecimento mental(: lhes dá a ilusão de que as coisas estão todo dia em seus devidos lugares, quando na verdade o mundo está vindo abaixo(: e que comparados aos seus pais e avós, eles não estão tão mal assim(: a qualidade massacrante do sistema está além da imaginação delas, a consciência delas é sem luz, não tem chama, não existe(: VAMOS EMBORA(.) -----, lá fora, na rua, o vento castigava as maçãs dos nossos rostos. Caminhamos depressa: eu sentia que tinha escapado sem cicatrizes do encontro fortuito com Cecília e o desconhecido : ''Eu amo você , Cecília'', eram as únicas palavras que não saíam da minha cabeça com o vento, e tremi um pouco (de frio!) com o eco esquálido que elas logo adquiriram. O instinto nos levou para o bar-restaurante do posto de gasolina na saída da cidade. Enfrentar aquelas ruas à noite, com uma ereção completa sufocada dentro da calça, deve ter me servido de vetor. Um táxi vazio passou , e por impulso acenei, e com isso chegaríamos dentro de algum tempo ao lugar bem na hora em que as portas de aço estivessem descendo. Segurando um livro de bolso de Scott Fitzgerald com uma das mãos, arrepiada de frio na calçada, com um casaco curto e gasto sobre os ombros, Janic enfrentava bravamente ao meu lado o vento das quatros da madrugada. Sem um único tremor de hesitação, e o sorriso mais perfeito no rosto, como se o nosso encontro fosse ainda a primeira nota em uma sinfonia romântica cujo compositor fosse o Destino, ela entrou comigo no táxi, disse o endereço do bar-restaurante e ofereceu os lábios para mim. No táxi, eu percorria mentalmente (por antecipação) todo o caminho de volta até o meu quarto, no casarão. Mas depois do beijo subi em cima dela, no banco traseiro, e não conseguia mais parar de beijar. ----- Talvez você goste de mim mais do que um pouquinho -----, Janice disse, e a repetição daquilo (eu nunca tinha me declarado a respeito, só a conhecia há vinte e quatro horas) começou a soar à mim como ambição, e me manteve internamente num estado de contemplação longínqua, intrigado, enquanto outra parte de mim apreciava a fadiga férrea das suas pernas e ombros, depois de algumas horas dançando , absorvendo sua energia enclausurada, BOA e MÁ, com meus dedos e mãos. Íamos nos agarrando, esfregando, agradando e beliscando, como duas máquinas treinadas naquilo, uma sobre a outra. Com minha experimentada educação em frestas, aos vinte e seis anos, eu calculava freneticamente se devia desferir um golpe de penetração frontal no banco do táxi, ou contrapor ao endereço do bar-restaurante o do casarão para onde eu iria voltar logo mais: minha cama, meu quarto, minha mochila, e enfrentar um longo treino de kung-fu na ressaca da manhã eminente, com o constrangimento de tropeçar no casal idoso que fazia as vezes de senhorio naquele imóvel. Eu já podia escutar seus bons dias desconfiados, enquanto refletiam sobre a decência e a conveniência de eu levar para o meu quarto aquela fonte externa (Janice: de sexo e fumo) e sentá-la ''en famile'' na mesa do café da manhã coberta pelo plástico quadriculado de sempre com farelos de pão frances e queijo mineiro fresco . Eu ainda conduzia meus cálculos pelo centro de decisões encharcado de álcool do meu cérebro, quando paramos no endereço solicitado, um bar-restaurante aberto a noite inteira, ao contrário do que pensei, totalmente visível da rua, à quilômetros do centro da cidade. Naquele local, logo aprimorei minha educação na Gestalt da cidade, e sua vida noturna: metade das pessoas presentes me eram de vista familiares; me parecia inclusive te-las visto todas na rua ao longo da última semana; no momento tomavam café, cerveja, refrigerantes e comiam hambúrgueres tipo americano: ou panquecas de batata com molho verde: ou tortas de frango com catupiri e coca-cola: ou sanduíches de pernil: um lugar super-iluminado: vi novamente alguns daqueles rostos masculinos que pareciam achar graça de mim com Janice, na boate; e jovens prostitutas caras e conhecidas; mais algumas das divorciadas boêmias como Helen, amiga de Cecília, também estavam ali; e para minha surpresa (de novo), nada menos do que o desconhecido que eu tinha visto tentando fichar Cecília desajeitadamente na pista de dança da boate: ela, no entanto, não estava por ali: mas o sujeito estava empoado com capricho, tinha ido à luta: de blazer cinza com colete, relógio prateado no pulso, e parecido com um advogado com faces esparavonadas e apetite amplo: tinha acabado de devorar alguma coisa grande e molhada, a julgar pelo tamanho do prato com restos marrons melecados diante dele, na mesa. Seu olhar não era o de um homem contente, mas frustrado. Talvez Cecília tivesse deixado o sujeito na mão: assim que ele me viu entrar no estabelecimento, olhou para mim com o típico olhar de quem poderia atirar em mim pelas costas, e eu rapidamente desviei meus olhos dos dele, antes que aquilo se transformasse no olhar de quem pudesse atirar em mim pela frente, e em público. E ali... E JÁ! Ponderei o fato: não há homem que triunfe em todas as suas empresas; nesse sentido, somos todos fracassados. O essencial é não fracassarmos em determinar e sustentar o esforço de nossas vidas: o homem comum encara tudo ou como uma benção ou como uma maldição , mas o ocultista apenas enxerga desafios à sua frente, e um desafio é apenas um desafio... nada mais. Nesse particular, é a vaidade (o diálogo interno) que nos faz perder o rumo: ela nos espreita e nos precipita em situações das quais forçosamente saímos atingidos, ao passo que o SILÊNCIO INTERNO é nossa salvaguarda (a salvaguarda de um praticante de nagualismo) , tanto pela reserva que impõe à escolha de nosso empreendimento quanto pela virtude do seu poder de sustentação. No entanto, bastou aquele único olhar, tão decidido, rancoroso e cheio de tensão ingovernável, para eu saber imediatamente que aquele sujeito esquisito era o autor da carta-ameaça que eu tinha encontrado sob a porta do casarão, na semana anterior. Basicamente, ameaçava quebrar minha coluna e dizia: ''SUMA!''
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