Para Marx -- comenta Heidegger -- o ser é processo de produção. Tal é a idéia que ele recebe da Metafísica, a partir da interpretação hegeliana da vida como processo. A noção prática de produção não pode ter existência senão a partir de uma concepção do ser oriunda da Metafísica. (Semináire du Thor)
Assim ,depois de aproximar-se de Marx pela idéia de alienação, Heidegger o envolve na trama do Ser, uma vez que, como processo de produção, o ente é um derivado da vontade de potência, dependente da espécie de desvelamento que acontece ou que se essencializa na técnica. A consciência de si, ou melhor , a certeza da consciência de si, princípio do saber incondicionado em Hegel, seria a figura precursora e preparatória da absolutização do sujeito, e por consequencia, do esquecimento declinante do ser. Só quando isso se dá, na doutrina de Nietzsche, é que a Metafísica alcança sua extrema possibilidade, já virtual no inicio fundador em Platão, pois se o primeiro nome da Metafísica é platonismo, o último é niilismo, o momento em que a alienação, de que a errância e o apatridismo constituem sinônimos, alastra-sa à sombra da maior retração, ao planeta como um todo, de onde os deuses desertaram.
''Não se pode realizar a Filosofia senão superando-a, e só se pode superá-la realizando-a'', disse Marx em sua Crítica à Filosofia do Direito em Hegel. Heidegger acrescentou uma ''coda'' ao tema resolutivo da sinfonia hegeliana reorquestrada por Marx. ''O fim da Filosofia significa: o começo da civilização mundial baseada sobre o pensamento ocidental europeu''. Mas a civilização mundial, acrescentaríamos, significa o domínio planetário da técnica ----, e, com esse domínio, a Filosofia consuma-se, realizada nas ciências empíricas, nos projetos interdisciplinares, na Logística, na Psicologia, na Psicanálise, na Sociologia e na Cibernética, que floresceram do e sobre o fenecido tronco do saber filosófico em sua derradeira primavera, e que o espetacular Guy Debórd chamou (sabiamente) de ''ciências da dominação''.
Entretanto, como o sistema do mundo atual apenas ensombrece a Clareira onde a Fonte Original da Vida se encontra, sempre a derradeira primavera da Filosofia pode anunciar o verão de um novo modo de pensar, de um novo começo (realmente digno) do pensamento, na expectativa do qual se empenha a prática meditante de Heidegger: de um modo de pensar que seja, ao mesmo tempo , uma transformação do pensamento e da relação do homem com a Fonte do Incriado... e é à busca dessa dupla transformação que a Hermenêutica heideggeriana, a qual nunca quiz ou simplesmente não podia mais chamar-se de reflexão filosófica, e que se autodenomina ''topologia'' do ser, aproxima-se dos poetas e dos artistas tanto quanto dos pré-socráticos (sobretudo Heráclito e Parmênides, dois notáveis xamãs gregos). As obras de arte em geral serão então os lugares (tópoi) privilegiados da essencialização da verdade.
Mobilizando o poder da imaginação (Einbildungskraft) que os filósofos românticos foram buscar em Kant, a meditação heideggeriana, em seu potente inacabamento ensaístico, e que não pode identificar-se senão metaforicamente como um simples ''caminho'' (Weg), é uma devolução do continente metafórico da poesia soterrado na Filosofia, em seus elementos míticos, escatológicos e utópicos: ''Questionar é elaborar um caminho, construí-lo. O caminho é um caminho do pensamento. Todos os caminhos do pensamento conduzem, de uma maneira mais ou menos perceptível e por passagens inabituais, através da lnguagem'' (H ----
O caminho de palavras feito à imagem e semelhança das trilhas (Wegmarken) e das veredas (Holzweg) da terra nativa do filósofo ---- logomaquia do pensamento, tal como foi a grande construção hegeliana, mas com a consciência, que faltou à Hegel, do prévio trabalho de linguagem no desenvolvimento do conceito: pois o pensar meditante de Heidegger, ao contrário da especulação filosófica caída em desgraça, e em consonância com a genealogia crítica de Nietzsche, não oculta o metaforismo em que reisde o essencial desse trabalho. Opulento de paranomásias e tautologias, o idioma de Heidegger é um conjunto de ''metáforas vivas'':
CLAREIRA, VELAMENTO ILUMINADOR, ABERTURA, ABERTO DE UM MUNDO, DISPENSAÇÃO, DOM, RETRAÇÃO, SÍTIO, PARAGEM, QUADRIPARTITE, EXÍLIO , RETORNO À TERRA NATAL, A VOLTA, O EVENTO, O ÚLTIMO DEUS
etc.
(continua)
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