segunda-feira, 10 de novembro de 2014

CAPÍTULO 1

Há cerca de duas semanas que eu podia dizer estar perfeitamente familiarizado com as lajotas daquela sala e o pedaço de selva ornamental iluminada por lâmpadas fosforescentes atrás e o teto com um frio triângulo de céu estrelado em cima : a casa de Cecília era a única coisa que existia naquela cidade, para mim, além do casarão destroçado e vazio em que eu tinha alugado o quarto do caseiro ( inexistente há anos) nos fundos da propriedade. Certas cidades do interior de Minas Gerais são uma verdadeira cripta após as sete da noite. Quanto mais bonito o céu, mais abissais e desérticas são as ruas. Como numa antevisão da experiência, encostei o lado direito do meu rosto na superfície da água quente da banheira (os lábios dela, na outra ponta, tinham a aparência de um círculo receptor: agora eu sentia minha face esquerda e os olhos verdes de Cecília mostravam que ela tinha lido minha mente: ----- Um antigo texto mahayana diz ''De todas as formas de liberação, a mulher é a mais importante!''(: para Buda, a mulher era o portal da liberação(: a compaixão e o nirvana se manifestam através da mulher (: é uma afirmação das mais importantes(: a YONI , a VAGINA (Buddhatvam yoshid-yoni samsritam): a qualidade de Buda encontra-se na vagina, assim como a jóia está no lótus (: OM mani padme HUM), a jóia é a mente, e o lótus, o nirvana(: a mente se dissolve no nirvana (.) ----, durante todos esses pensamentos, as mãos de Cecília não se afastaram das minhas coxas; ela intensificava as carícias: o musculus trapezios, os deltóides, o meu peitoral: aquela pressão, ora acima, ora abaixo da água, abaixo da cintura (enquanto os olhos vermelhos do termostato continuavam vigilantes, controlando a temperatura da água: a marguerita e a maconha combinando seus venenos redentores no reino sensível, branco e faminto sob a pele dela. ----- Não ficou apaixonado por mim ainda, K (?) ----, ela perguntou , e levou a taça aos lábios, rapidamente, e recolocou-a num pires de porcelana na borda da banheira, onde ficou parecendo uma xícara num quadro de Bonnard, borrado pela luz. ---- Não precisa adotar esse tom comigo, Cecília (: as coisas não estão lá muito fáceis pra mim (: aquela casa em que fui parar é um assombro, mas ainda assim prefiro à qualquer hotelzinho da cidade(: tem espaço e sol suficiente para treinar ao ar livre, logo pela manhã (: e, como diria a presidente Dilma Housseff, no seu antológico discurso do Dia das Crianças:  ''isso é algo muito importante(https://www.youtube.com/watch?v=AZV_hiD8EiU) ----, seria tão fácil, pensei comigo, afundar naquela banheira e afogar alguma preocupação em brilhos esverdeados de água. ----- Anteontem fui ao centro da cidade colocar um troço no correio e vi você na rua, sem camisa, fumando e conversando com uma tribo de adolescentes (: passei rápido, mas senti você se aventurando em direção àquelas garotas(... -----, no inverno, aquela cidade privada de turistas em qualquer época do ano, fechava-se ainda mais compactamente sobre si mesma, como uma grande acha de lenha queimando na fogueira tarde da noite: um grupo reduzido sempre dos mesmos jovens ficava na frente do supermercado à espera do moto-boy que vendia maconha. Aquela garotada era uma espécie de tribo de mártires, ao lado dos velhos pinguços da cidade; também eram mártires os homens e mulheres que se apressavam para adúlteros encontros amorosos, arriscando vergonha e divórcio por uma dose de amor de motel (todos sacrificando o mundo interior pelo exterior, como Cecília naquele momento: proclamando, com aquele tipo de prioridade, que tudo o que parecia sólido e substancial era, na verdade, UM SONHO, menos importante do que qualquer impulso físico de ocasião. ----- Eu não era tão infeliz assim com o Ricardo , até aparecer você(: agora é horrível(: ouço a minha própria voz na minha cabeça o dia inteiro reclamando dele e não consigo mais parar (: sinto vontade de DESTRUÍ-LO ( as lágrimas de Cecília rebrilharam bizarramente) NÃO DOU UM CENTAVO NAQUELE HOMEM (.) -----, no fim, ela riu de si própria, admirando-se no espelho sobre a banheira com aquela expressão: ri também, mas assim que ela recomeçou a descontrair-se, fechei um pouco teatralmente a cara e disse num tom afetado e circunspecto: ---- Você não pode ficar apenas divertindo-se gratuitamente(: deve assumir a responsabilidade dos seus atos, Cecília(: não pode fazer um homem passar fome sexual e emocionalmente, e depois, quando eu saio de cena, puxar um cordão e tê-lo de volta(.) ----, ela era dona de uma das escolas particulares da cidade ( com todos aqueles tolos poderes diretivos), ainda jovem e esbelta aos trinta e oito anos, ao meu lado, tocando meu corpo, sendo tocada, o corpo dela tecido não com músculos trabalhados em academias, mas com uma espécie de vime, elástico e deliciosamente sardento, a nuca, descoberta pelo cabelo levantado, de uma brancura que jamais via o sol, um pedaço de alabastro maleável sob os fios ambarinos. O corpo de Cecília sob minhas mãos parecia de seda, uma fruta polpuda e escorregadia; Cecília tão dissolvida naquela confusão de sentimentos melancólicos, revanchistas, ternos e ardentes, que não podia mais distinguir as carícias feitas das carícias recebidas; ombros, braços e seios fora dágua, enquanto o inverno lentamente se evaporava no ar, e eu ia e voltava da casa dela, de acordo com as ausências do marido, aumentando o volume das notas e diagramas para o meu romance, que eu, naquela época (tinha vinte e seis anos), acreditava que podia ser planejado e engendrado com antecedência, uma simples máquina verbal para criar e depois aliviar a tensão: eu tinha certa desconfiança de que jamais escreveria sobre o que estava vivendo naquele momento , e realmente teria sido ridículo escrever tão rente à realidade (mas agora estou disposto a transformar o bagulho anotado naquela época numa espécie de nota de rodapé: a experiência vem em primeiro lugar, certo(?)  Esta
....................................................NÃO.........................................................................................................................obra terá, por isto, os contornos imprecisos de algo visto através da porta do box de um chuveiro e será viscoso, curto, estilhaçado, evaporando-se lentamente rumo ao silêncio último. Durante certo número de anos, depois dos fatos aqui narrados em desordem e até com relutância, o boato maculou esta cidade de Minas Gerias, de tal modo que a mais inocente menção à seu nome real provocaria uma atmosfera inquietante de embaraço e constrangimento. Nota: aos poucos, o Estabelecimento Literário vai melhorando de gosto (CAPÍTULO 1: o final do inverno fazia Cecília sentir-se idiota e pesada, com dificuldade para entender a coisa mais simples através da opacidade onipresente da seiva que voltava a fluir lentamente nas plantas, dos filamentos orgânicos que se aqueciam mais uma vez para para romper a terra mineral e faze-la fornecer mais vida. Cecília tinha completado trinta e oito anos em março, e isso também pesava na balança: a alusão fez com que eu sentisse saudades daquelas noites, que na verdade haviam se tornado mais raras no fim do inverno, quando ela me ouvia na banheira, nua, molhada e na languidez da maconha e do vinho do Porto,  as minhas vozes literárias envolvendo-a na escuridão estereofônica, cantando e massageando-lhe a alma, presença escorregadia e vital no interior do espaço interno cor de púrpura do qual a sala de banho fracamente iluminada com a pequena floresta ornamental atrás era uma espécie de amplificação. Havia alguma coisa no ar: Cecília sentiu o começo de um deslizamento dentro de si, uma depressão lisa e escorregadia surGiu como se tivesse aberto a porta automática de uma garagem, ativada por uma espécie de olho elétrico da sua sensibilidade interna, que dava para uma larga rampa subterrânea cuja descida não tinha volta, nem com comprimidos ou luz do sol, nem com uma boa noite de sono: sua vida tinha sido construída sobre areia e agora sabia que qualquer coisa sincera que eu dissesse naquela noite ia atingi-la com grande tristeza . ----- Sinto-me sexy e triste nesta manhã(.) ----, ela disse, no dia seguinte, quando foi pegar um livro emprestado comigo no casarão ( ----- Quero tomar meu  banho, fumar minha maconha e ir pra casa(.) você vem comigo, K (?) ----, sim, fomos para a casa dela, então: o quarto do casal, a madeira trabalhada verde, e os grandes gerânios das cortinas com os rostos de palhaços escondidos e o teto rachado que, mudos e como conspiradores, haviam testemunhado a maior parte das nossas relações sexuais, eram parte daquela sensação; pois nada é mais precioso para um homem do que ser bem recebido numa casa onde ele não dá nada para manter, nada mais momentoso para a mulher do que essa recepção, essa generosidade, MINHA CASA É SUA, minha somente pela potência do meu pau , meu pau e minha companhia, o cheiro, o divertimento, meu peso (sem comprar a mulher com os pagamentos da hipoteca, sem chantageá-la com os filhos, simplesmente recebido entre as paredes dela mesma). Em minha ansiedade, logo surpreendi Cecília com uma ereção , e como o tempo já era curto naquele momento, pois o fim da manhã tinha sido desperdiçado com palavras, ela me permitiu come-la como eu mais gostava, por trás, ela de joelhos: pulsei dentro dela com força: todo meu corpo vibrava quando ejaculei: o coito deixou Cecília com uma sensação de desmoronamento e limpeza (a casa também parecia mais feliz com a minha visita, NAQUELE INTERVALO,  antes que o tempo da separação se instalasse. As traves de madeira e as tábuas do assoalho,  naquela época do ano úmidas e varridas pelo vento, conversavam entre si, estalando de felicidade. ---- A jóia do lótus é também o ''linga'', o pau (: o lótus é a vagina(: o pau dentro da vagina(: isto é a felicidade, ''rasa'' (: é ''samrasa'', felicidade da unidade (: é MAHASUKHA, a Grande Felicidade (: é MAHABINDU, o Grande Ponto, o Vazio Transcendental (: é a MAITHUNA, a FODA, Purusha e Prakriti juntas para produzirem felicidade (.) -----, eu disse, lembrando algumas das anotações da noite anterior, no meu caderno, e Cecília deu alguns passos à minha frente, inconscientemente imitando o começo de uma dança, e o espelho  dourado entre as duas janelas devolveu-lhe um retângulo inesperado de si (quadris para fora, cotovelo empinado, lábios entreabertos, como se tivesse acabado de morder uma fruta muito suculenta. Enquanto ela ficava imobilizada por aquele olhar, eu cheguei por trás dela e peguei seus seios nas minhas mãos. ----- Suponho que você ache (eu disse) que a corrupção lhe assente bem (e ela respondeu: ----- Tenho que levar meu filho no clube, hoje de tarde, prometi à ele ontem, a noite toda (.) -----, os conhecidos casais da cidade, obedecendo ao que passava a ser uma necessidade ritual de se manterem em contato, arranjavam sempre pretextos para reuniões: o clube, festas, churrascos, jogo de vôlei, cooper, reuniões de ongs filantrópicas . De noite, no meu quarto no casarão destroçado, eu só conseguia pensar em fugir daquela cidade, em arranjar outra amante, ir trabalhar no sul, rever alguma ex-namorada, internar-me num hostel para ler: todos eram métodos de se lançar contra a resistência invisível e demonstrar por uma explosão suave, A FLOR DO SOFRIMENTO,  que ela existia. Na minha errância ilimitada via-me constantemente na situação impossível de precisar forçar-me à acreditar em uma solução , quando na verdade aquilo nao passava da projeção fantasmática do diálogo interno no contato com os outros. Por alguns motivos óbvios eu nao conseguia acreditar em Cecília e ela, sentindo essa incapacidade, alimentava-a, aumentava-a, pois era a brecha pela qual ela me usava para fugir de si mesma. Rodei pela cidade até o pôr-do-sol, parando uma vez em um bar do centro da cidade para tomar uma cerveja, e depois segui para as montanhas atrás da linha férrea de onde era possível ver todo o clube onde Cecília estava com o marido e o filho . De fato, era caminho para o local onde eu me hospedava (: CORTA ---- Eu seria realmente um idiota se amasse Cecília: geralmente naquelas noites de domingo, excitado (ela me contou), seu marido insistia com ela para terem relações sexuais, e ela concordava, não gozava nunca, pois não estava mais presente . era outra sob as mãos peludas dele, que roçavam pelo seu corpo, conjurando-o a tornar-se outra mulher, e o que havia nela que era realmente dele, conjugal, procurava ainda obedecer. Na deformação sombria desse esforço de obediência, ela perdia toda o arrebatamento e orientação.  Por fim ele a forçava como se força uma peça numa engrenagem inutilizada, e afastava-se ofegante e satisfeito. O fracasso dela aparentemente o satisfazia, isso confirmaria sua fuga final, pois de um dia para o outro a cidade inteira se deu conta do que vinha acontecendo: todos de repente sabiam, todos os amigos deles, durante o último mês, vieram a saber a minha existência e dos meus escritos na internet. Imagina! Cecília sentia claramente no clube, jogando vôlei, sentia como se quilo a estivesse tocando fisicamente: sempre que ela pulava, ria ou caía na areia quadra, sentia a tênue rede de conhecimento público que a envolvia. Os outros homens começaram a encostar e a tocar ela nas festas: e dois velhos conhecidos chegaram mesmo a convidá-la para sair às escondidas. Ela recusou os dois convites, mas sabia ao menos que os outros homens, agora, sempre estariam ali, às suas ordens, ainda que casados com duas amigas suas de longa data. ELES PODIAM ESPERAR, pensei, pois eu mesmo não teria condiçoes de ficar muito mais tempo naquela cidade, minha obra simplesmente não andava pra frente, nao acontecia, e isso começou a me deixar puto: e também por causa da carta que encontrei embaixo da porta do casarão onde eu tinha me hospedado, contendo uma vaga ameaça, mais ou menos poética, à minha integridade física.  Mostrei a carta à Cecília e ela me disse que o marido dela jamais faria aquilo. Havia alguém realmente interessado nela, naquela cidade.

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