sexta-feira, 14 de novembro de 2014

CAPÍTULO 3

Os dois dias que passei enclausurado no meu quarto no casarão podem ser entendidos lembrando que não fiz nada para resolver o problema do estado peculiar dos meus nervos sob pressão, além de silenciar a mente. Janice não apareceu mais (o que era conveniente) após eu dizer à ela que viajaria por algum tempo, e não ousei telefonar para Cecília, nem mesmo para colher informações sobre o sujeito que tinha visto com ela. E como ela não me procurou nesse intervalo... então, na noite do meu segundo dia de clausura total, ocorreu algo (já digo o quê) que me fez subitamente atender ao clamoroso apelo daquela carta-ameaça, e eu, literalmente, SUMI: voei direto do Rio de Janeiro para Montevidéu, onde passei uma semana inteira me divertindo e escrevendo sob o efeito da maconha: e a condição de uma pessoa (sobretudo de um escritor) sob o efeito da ganja, é sempre existencial: pode-se sentir a importância de cada momento e como ele opera uma transformação em nosso espaço interno: sentimos o nosso ser, nos tornamos cônscios da enorme engrenagem do VAZIO (o zunido do ouvido interno, num iniciado; o som de batata frita de um vinil rodando numa vitrola antiga; as borbulhas na água de uma banheira; a súbita interrupção de um encontro amoroso... ganha-se uma lancinante consciência da guerra travada dentro de cada um de nós e, como o nosso ser é assaltado pelo vazio dos outros. Recapitulando: durante a segunda noite de clausura no casarão, acordei de madrugada precisando ir ao banheiro. Tinha fumado uma quantidade considerável de erva e minha meditação rapidamente se converteu num jorro desgovernado de ectoplasmas cada vez mais sem brilho forçando meus pensamentos contra o teto. Um vento soprava lá fora; vagas sombras de árvores, negro sobre azul, se debatiam. Sem acender a luz, para não acordar ninguém, achei a porta do meu quarto, abri-a levemente na escuridão e dei dois passos firmes no corredor na direção de onde eu me lembrava ficar o banheiro. No segundo passo, nada havia sob meus pés exceto o ar. Meu cérebro anestesiado despertou num solavanco, e dei-me conta de que estava caindo escada abaixo. Enquanto eu pairava no espaço negro, tive tempo de pensar que meu corpo faria um terrível estrondo ao se espatifar lá embaixo, que o casal idoso e os outros hóspedes seriam acordados e que seria bastante embaraçoso e incômodo para todos aqueles velhos e velhas lidarem com meu corpo quebrado. Tive até mesmo tempo de ponderar o quanto era bizarramente altruísta este último pensamento. Então algo (alguém, na verdade) desferiu-me um sólido golpe no centro exato do meu peito, bem no esterno, e logo me reencontrei de pé, em posição vertical, no que parecia ser o patamar intermediário da escada. Apurei os ouvidos por um momento e o zunido interno da iniciação estava mais alto do que nunca  na minha cabeça, além do que apenas o vento gemia em volta daquele estranho casarão destroçado. Subi os doze ou quinze degraus, mais ou menos, de volta ao segundo andar, absolutamente convicto de que um espectro habitava aquela propriedade ou de que aquele lugar estava sujeito à aparições. Em nenhum momento eu pensei num agressor, ou ladrão, ou no sujeito da carta-ameaça: saí do meu sonho entorpecido no quarto naquela mesma noite em que me convenci de que não estava sonhando e ouvi aqueles passos descendo a escada, após evitar meu acidente. Lembrei-me então de que se chegava ao banheiro virando imediatamente para a esquerda ao sair do quarto, depois para a direita no corredor que resguardava a caixa da escada, depois de novo para a esquerda, na segunda porta: continuei tateando e abri essa segunda porta. O banheiro e o vaso sanitário de porcelana brancos tinham um brilho próprio na noite de luar, de modo que, de novo, dispensei a luz. Minhas pernas tremiam e meu peito doía um pouco, mas me senti melhor depois de mijar. No entanto, ao sair mais uma vez no corredor escuro, não encontrei o caminho de volta ao quarto. Paredes como que de uma sala de espelhos imateriais me rodeavam. Uma grande superfície lisa sustentava a forma de um homem espectral, que na realidade tinha me tocado no peito, com um toque abrupto e eficiente, e me dei conta de que era uma aparição realmente, uma presença. Nos outros três lados havia superfícies opacas apaineladas como portas; uma das portas desenvolveu então uma fissura de luz pálida que pareceu se deslocar em um movimento diagonal, produzindo um zunido ou assovio tão forte dentro das paredes do meu crânio, que numa fração de segundo meus olhos como que acenderam dentro da escuridão e eu pude registrar mais uma vez aquele formato imaterial de homem como um papel de parede vivo, levemente abrasivo e quente ao tato, projetando uma luz cintilante e reta, como a de um trilho de trem, no corrimão da escada. Tomei subitamente a direção oposta, apavorado. De fato, não foi um ato de bravura. Parecia agora haver inúmeras portas ao longo do corredor, mas a que eu empurrei para abrir felizmente revelou ser a do  meu quarto. O vento resmungava ainda, remexendo nervosamente no firme caixilho da janela de guilhotina francesa, e ao me aproximar da cama, pude ouvir (o coração saltando até a boca) algo como uma respiração no escuro. Atirei-me na cama e busquei desesperadamente controlar meus pensamentos, com todos aqueles contornos de luz ambarina esvoaçando no teto como serpentinas. O zunido no meu ouvido parecia próximo de um limite no qual chegando minha cabeça explodiria imediatamente. Aquela presença insinuou-se novamente, de pé ao lado da cama... então, apaguei de vez. Na manhã seguinte, ao examinar detidamente os locais da aventura, admirei-me de não ter morrido. Mesmo assim, foram necessárias menos de duas horas para eu perceber que o casarão inteiro tinha sido alterado por aquela presença;  enquanto tomava café da manhã, objetos se quebraram num ritmo alarmante; vi um cinzeiro de vidro deslizando para a borda da mesa; nada tão dramático como nos filmes, mas extremamente ardiloso: não podia dizer com certeza que a manga do meu casaco não tinha esbarrado no copo, nem que a mesa antiga não tinha uma certa inclinação. Tudo podia estar acontecendo por causas naturais, ou quase: as coisas se transformavam em outras coisas, sem parar. E em meio à esse turbilhão, eu subi no quarto , guardei todos os meus pertences na mochila e procurei o casal idoso para quitar minhas dívidas, prometendo voltar dentro de uma semana e pedindo para guardar alguma correspondência que, por acaso, chegasse pra mim (CORTA ----- nem parecia que eu estava na América do Sul... pelo menos o cenário não combinava muito com minhas idéias pré-concebidas da capital do Uruguay: nas ruas de Montevidéu, a maior parte da população era mediterrânea (espanhola, com um toque italiano): pessoas sérias, vivendo com os pés no chão: a arquitetura mais antiga, colonial e barroco espanhol, não me impressionou em absolutamente nada, a não ser uma ou outra pequena surpresa. O espírito daquela cidade não era fácil de se precisar, algo como um desenho italiano do século XVIII, daqueles encontrados em velhos livros de viagem europeus, onde há um viajante solitário contemplando a paisagem vazia de cima de um morro. Tudo parecia repousar, ali: o tempo como uma presença alta no céu imóvel. O Palácio Legislativo grande como uma estação de trem, mistura de Versalhes com o Partenon (imenso bolo de noiva e imensa e deserta avenida Libertador General Lavalleja (havia, no entanto, movimentos de todo tipo em outras partes da cidade: lojas de roupas com nomes tipo Lola e Marbella; hordas de consumidores com ar materialista; açougues exibindo carcaças; na verdade, comia-se tanta carne naquela cidade (cento e vinte quilos per capta anuais) que se podia sentir o cheiro de churrasco em cada esquina, e ele penetrava quase tudo o que se comia (e tudo na cidade me parecia ter sido reformado recentemente: minha primeira impressão foi a de que no Uruguay jamais aconteceria algo digno de figurar na história do mundo, e que o melhor a fazer em Montevidéu era procurar aproveitar a vida ao máximo, a vida em si. E foi exatamente o que fiz: solto finalmente nos bordéis e cassinos de Montevidéu com o dinheiro que tinha no banco, inicialmente apreciando tais noitadas mais do que poderia imaginar , fiz justiça à minha própria imaginação , depois, enchendo páginas e páginas de anotações no meu caderno, naqueles meio-dias em que a primeira coisa que eu fazia no meu quarto de hotel era enrolar um baseado e me sentar na mesa da varanda para escrever. Acabei gostando mais de uma garota de programa ruiva que conheci logo na primeira noite do que de todas as outras cinco com quem fiz sexo depois, e pouco pensei em Cecília (conscientemente) durante aqueles dias (nos quais ela parecia ter se tornado menos importante nas minhas lembranças do que eu nas dela ); era daquilo que eu estava precisando, como um potro selvagem recordado por revelar minhas inclinações naturais e verdadeiras, embora aquilo não chegasse a constituir na minha mente o prelúdio de nenhum novo estilo de vida (meu dinheiro não era tão largo assim , e eu não queria voltar para o garimpo tão cedo). A carne feminina de qualidade não era difícil de ser encontrada nos bordéis e cassinos de Montevidéu, e eu sentia a todo instante pulsar em minhas veias o entusiasmo do principiante, ao me deparar com caça ilimitada. Durante uma semana, foi assim, simples assim: gravadas na minha retina, haviam agora as imagens de todos aqueles lugares e garotas de programa, uma conjunção de potências materialistas que alimentava minha imaginação libidinosa. Um sujeito chamado Carpegiane, que trabalhava na gerência do hotel onde me hospedei, me serviu de guia turístico na primeira noite, e apontava à todo momento as garotas disponíveis pra mim, no cassino: ----- Aquela morena baixa tem um encaixe perfeito, e muito molejo(.) -----, quando ela finalmente sorriu pra mim, da mesa onde estava, Carpegiane apontou para outra, alta e ruiva: ----- Dizem que aquela ali tem a xota mais linda de Montevidéu, e gosta de dar o c (... ----- , era uma garota graciosa, emburrada e esguia, dos seus vinte e poucos anos, de anca sugestivamente arrebitada. Ele ainda ameaçou apontar e descrever mais uma, como um vaqueiro dentro de um curral, enquanto minha mente recordava os dois dias de clausura naquele casarão em Minas Gerais, aquela aparição espectral, a carta ameaçando me pôr numa cadeira de rodas, Cecília e Janice trocando olhares inquietantes no enfumaçado breu daquela boate... ----- Vou ficar com aquela ruiva, hoje (.) -----, disse para Carpegiane, e ele me orientou a ir até ela e me apresentar, e apresentar minhas intenções. Foi o que fiz, e durante toda aquela noite, senti que poderia perfeitamente me apaixonar por aquela jovem ruiva.... do jeito que a coisa tinha ficado em Minas Gerais,  o desejo humano mais simples encontraria naquele contexto tão pouca satisfação que iria devorar meu último nervo que conduzia à alma. Enquanto usava a hora comprada da ruiva naquela primeira noite, e depois outra hora, de outra mulher, até voltar para meu hotel com a primeira delas no colo, dentro do táxi, eu me sentia à salvo e meu desejo se convertia numa emoção mais fácil e lúbrica, como se eu finalmente tivesse me ligado ao grande esquema pantanoso do mundo. Durante aquela semana de vida noturna encantada, visitei prostíbulos caros em prédios altos, perto da praia de Pocitos, e no terceiro ou quarto dia, voltando da villa de Hunt em Carrasco, descobri um bordel luxuoso, ao lado do famoso cassino e hotel Carrasco, onde as garotas eram lindas como  estrelas de Hollywood, embora eu tenha escolhido uma moça (cujos seios apontavam para o céu) que possuía apenas o senso austero de reciprocidade espanhola, e que não se revelou nenhum abalo sísmico na cama, comigo; outra noite, numa boate onde as mesas rústicas de carvalho exibiam iniciais de nomes entalhados sobre iniciais mais velhas , acabei com uma garota divertida, rechonchuda, cujos olhos negros brilhavam de astúcia profissional. Eu podia me sentir gozando sobre a  cidade de Montevidéu inteira: cheguei mesmo a sentir amor pela decoração dos puteiros, bares ou salas de estar, boates e hotéis-cassinos; as luzes eram sempre suaves, com cascatas de tubos neon nas paredes atrás das garrafas; por si só se assemelhavam à pequenas cidades fronteiriças onde se jogava com o dinheiro, o coração, o ego e a saúde, mas o perigo real de tudo aquilo, DESCOBRI LOGO NA TERCEIRA NOITE, era a solidão, a visita constante e corrosiva à solidão num estado de saciedade animal aplastante. Desnecessário dizer, mas essa exploração, o turismo sexual de noite após noite, só se tornou possível porque uma parte (inconsciente) de mim ainda estava perdidamente apaixonada por Cecília, o que tornava o final daquelas noites ainda mais aplastante. Era uma tentativa de compensação. Na quinta noite, lembro que fiz amor (?) com uma garota de forma surpreendentemente automática: normalmente eu procurava escolher mulheres capazes de introduzir um mínimo de arte e cerimônia na profanação do sacramento, enquanto eu trepava com um pedaço de carne. A conclusão óbvia era de que a depravação nos aprisiona quando a carne se iguala à borracha, no tato, e enquanto afundava a noite com meus últimos atos fálicos, naquele recanto do mundo neon de um cassino onde as ondas barrentas batiam suavemente na costa, pude ouvir no dois quartos adjacentes os longos gemidos profissionais de duas jovens putas, gozando com seus respectivos clientes, OU FINGINDO, as vozes trincando a noite fria do Uruguay... foi então que soube o que era me sentir o homem mais solitário do mundo (mais do que se estivesse sozinho num quarto) : vesti a roupa e desci para tomar um drink no bar do hotel-cassino e pensei profundamente em Cecília e na aparição espectral naquele casarão sinistro. E senti (creia-me) saudades das duas coisas! Por incrível que pareça, eu já quase não pensava na carta-ameaça. Estava de tal modo decidido à voltar para aquela cidade, aquele casarão e Cecília, que nada que pudesse servir de obstáculo parecia encontrar abrigo na minha mente, naquele momento; e só voltei a pensar na aparição espectral porque, boquiaberto, percebi que aquele tempo todo, em Montevidéu e adjacências, ela estava por ali, espreitando-me. Na Cidade Velha, em uma rua que acabava no mar, havia uma praia argilosa e cinzenta, completamente deserta, onde fui passear para refletir ao ar livre; no fundo dessa paisagem uma praça vazia, uma coluna solitária erguendo-se contra o mar (eu me perguntava se teriam escolhido aquele lugar para provar que De Chirico sabia pintar); e naquele cenário desolado, no exato momento em que me detive para acender um cigarro, vi uma figura isolada na distância, com nítidos contornos luminosos, perfeitamente translúcida contra a paisagem, acenar para mim e logo depois desaparecer. De volta ao hotel, abri numa página qualquer meu caderno de anotações e escrevi: '' A vida sempre nos dá exatamente o Mestre de que necessitamos em cada momento. Isto inclui cada mosquito, cada desgraça, cada luz vermelha, cada engarrafamento no trânsito, cada patrão tirânico ou empregado desonesto, cada perda, cada resfriado, cada momento de alegria ou depressão, cada vício, cada respiração. Cada momento é o Gurú, o Mestre Espiritual.  Ainda que raramente ele se apresente personificado diante de nós, algo que só acontece após uma iniciação autêntica. O toque de Krishna restaura repetidamente meu vigor e me orienta para o verdadeiro AMOR. Então ele se multiplica novecentas mil vezes e copula com novecentas mil mulheres Gopi. Os deuses, as deusas e os sábios no céu observam tudo com espanto. As deusas desmaiam muitas vezes enquanto observam, mas no desejo de aprender a Maithuna, a FODA, pedem para renascer por toda a Índia sob a forma de princesinhas nos palácios dos reis. Nascem, então. Tais são os fatos. Foi isto que aconteceu nas veredas de Vrindavan, conforme registrado no Brahmavaivarta Purana. OM mani padme HUM. Certa vez um sábio brahmin procurou Buda muito indignado, e perguntou: ----- Que suruba toda é essa(?!) ----, gritava, e acrescentou: ---- NADA DISTO ESTÁ NOS VEDAS(!!) ----, e Buda respondeu: ----- As mulheres são os deuses(.) as mulheres são a vida(.) esteja sempre entre mulheres, em pensamento(!) -----, e essa é uma frase histórica verdadeira''. Fiz toda a viagem de volta num estado peculiar de vácuo mental: Montevidéu, Rio de Janeiro, Região Serrana do Rio, rodoviárias, trem cortando as montanhas de Minas Gerais,  gado holandês preto e branco, cigarros, banca de jornal; e café da manhã no Nemo´s, já na cidade, antes de finalmente me restabelecer no meu quarto, no casarão: ---- Ela começou com alguma timidez, dizem (..) ----- disse uma garçonete gorda, com o rosto engordurado de fritar queijo na chapa, para uma cliente que estava aguardando seu queijo quente ao meu lado, enquanto eu aguardava meu café preto, acompanhado de Doritos e abacate (só alguns segundos depois percebi que estavam falando de Cecília, e indiretamente para atrair meus ouvidos. Ela continuou: ---- Mas agora (... você sabe, mulher casada, rica, tem filho e tudo mais (...) ----, quando cheguei ao casarão, os últimos raios de sol da manhã nublada brilhavam como pano de fundo de metal precioso com desenhos de belas folhas, entre os movimentos inquietos dos galhos escuros e brotos novos nas pontas dos galhos e flores de quatro pétalas do jardim de entrada. As vozes do casal idoso, na porta da frente, me receberam friamente e me fizeram voltar à mim dizendo que uma mulher tinha vindo me procurar e que tinham guardado uma correspondência para mim no meu quarto, deixada debaixo da porta. Agradeci e subi: o caminho do meu quarto incluía as escadas e depois um longo corredor escuro, antes da virada à direita em ângulo reto, com assoalho encerado. A janela dava para o gramado marrom borrifado de verde onde eu treinava kung-fu pela manhã. Havia a cômoda, a cama com colchão fino , tipo europeu, em cima do colchão maior. A cabeceira era pesada como um tronco encharcado. A nova carta estava em cima da cômoda. Acendi um cigarro e abri-a lentamente: dessa vez, ele tinha sido mais sucinto: ''SE VOCÊ ESTIVER LENDO ISSO, CONSIDERE-SE MORTO''. 

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