A. Scriabin : The Poem of Ecstasy - Le Poème de l'Extase op. 54 (Boulez)
https://www.youtube.com/watch?v=BWINpXNd5KE
O esplendor intuitivo se derrama no Poema do Êxtase, opus 54, do compositor russo Alexander Scriabin. Eleva-nos ao maior grau do conhecimento humano. Acima da fuga das galáxias, vemos o êxtase incessante, desde as noites dos tempos perdidos,início de uma grande explosão que abrange um ponto minúsculo, para sentir a comunhão de tudo nos planos da consciência. Scriabin tem o dom de transmutar as sensações passageiras numa contemplação paradisíaca. O Poema do Êxtase reúne o sonho e a poesia na música das esferas resplandecentes. Os planetas, as estrelas, as galáxias percorrem o mesmo ciclo de vida imantado em tudo para constituírem outros aglomerados siderais. Se há um parto animal, parto planetário e até mesmo de uma galáxia... Ó alma que não conhece todas as suas possibilidades! Os quasares – núcleos luminosos de galáxias distantes – possuem luminosidade superior a um bilhão de vezes a do Sol de nosso sistema planetário. Na Via–Láctea há mais de cem bilhões de sóis. Em bilhões e bilhões de galáxias, a afirmar que o Universo é luz, e a luz , inteligência.Luas e sóis, galáxias e nebulosas, poeiras luminosas que irradiam o mundo dos poetas, revelando os sonhos, tecido em túnica inconsútil. Luas cor-de-prata, alaranjadas, azuladas, cor do pôr-do-sol, vestidas de arco-íris, luas cor-de-mel, luas da luminosidade do olhar de cada mulher, em órbitas que o homem ainda não conhece. Restos de cavalo, restos de amazona, restos de avião restos de aeromoça, restos de perfume, restos de Natal, restos de pincel, restos de colagem, restos de gargalo, restos de garganta, restos de Brasília, restos de Cuiabá, restos de artesão, restos de cadeira, restos de oceano, restos de lagosta, restos de ascensor, restos de cidade, restos de jornal, restos de repórter, restos de nazismo, restos de opressão. Desdobrar de planos. As mãos veem, os olhos ouvem, o cérebro se move e a luz desce das origens através dos tempos e caminha desde já na frente dos meus sucessores. Os mundos nascem, crescem, envelhecem, contraem-se, explodem e renascem, numa incessante transformação. As hipóteses permanecem ainda em aberto porque tudo se passa em Egitos de corredores aéreos, em galerias sem lâmpadas, á espera de que Alguém desfira o violoncelo - Ou teu coração- azul das novas muralhas de quasares. Numa visão além dessas muralhas, àqueles que se libertaram do ciclo da morte. Estamos falando da consciência, consciência dissociada da terceira dimensão que está indo embora, no dizer da tradição hindu. Maya. Nos reinos do amor, a sabedoria se expande em profusão, como a luz do sol que aquece e as vibrações ligadas umas as outras, na mais perceptível revelação da unidade. Nível de consciência mais profundo, dentro da unidade e não mais dentro da dualidade que gera a separação. O céu cai dos ecos de uma orquestra sinfônica neste final dos tempos, para ancorar a consciência unificada. É o retorno da luz pela seta de Sagitário (Nostradamus). A nebulosa de Sagitário ou a constelação de Sagitário é o centro da Via-Láctea, a galáxia que abriga o sistema solar, onde a Terra gira. A descoberta dos raios adamantinos, raios-gama dos cientistas e o alinhamento das Plêiades, uma ideia fortíssima entre todas, menos uma que ainda habita meu cérebro, noite e dia: o homem já tem a visão do início dentro de si. E na derrocada dos milênios, ele chegará lá. E se ele existe ou é um segundo mais tarde, acima de qualquer manifestação humana, todo feito de vontade cósmica, como cristais que irradiam vibrações que despertam beleza, a muralha de quasares ilumina os mundos paradisíacos. Com a força dos astros e estrelas que igualmente iluminaram o rosto do compositor russo do Poema do Êxtase, Alexander Scriabin.
Eu sou meu filho, meu pai, minha mãe, e eu mesmo.
Os Deuses se abrigam no Zero.
O Fogo pilota o Universo transitivo.
O grifo é meu.
Silenciosa aguardente dos Deuses.
O Mito aqui se mantém pela pureza da Luz continuada.
Levanta-te.
Move teu pé, grande como eu próprio já me levantei.
Acende-te que eu te acenderei.
Ao largo do Universo circulam Águias.
Os Deuses as pegam com a mão.
Eles se abrigam no Zero.
Tampão da Gnose que explode.
K.M.
Embora sentisse que estava inexplicavelmente ligado àquela antiga tradição, ele se considerava um dos videntes de um novo ciclo. Quando lhe perguntei certa vez qual era o caráter essencial dos videntes do novo ciclo, respondeu que são os guerreiros da liberdade total, mestres da consciência, espreita e intento, a tal ponto que não são colhidos pela morte como o resto dos homens mortais, mas escolhem o momento e o modo de sua partida deste mundo. É então que os consome um fogo interior e desaparecem da face da terra, livres, como se nunca tivessem existido.
Carlos Castaneda
Talvez a visão do meu corpo dobrado, a linha curva do meu queixo aninhando-se na cava do meu ombro protuberante, minha retalhada silhueta curvada na tarefa de fazer aquela fogueira, tenha hipnotizado Isabel o suficiente para emudecê-la. Eu estava agachado junto à fogueira, sentado sobre meus grossos calcanhares, para examinar uma língua de fogo ao vento, convidando para um longo baile anônimo as outras línguas, lá das profundas da noite, línguas de esfinges, gárgulas, medusas, chacmoles, máscaras de cães cérberos, gigantas, figuras de proa, demônias, participantes das metamorfoses de Shiva ou Vishnu, exercendo seus sábios sacerdócios inorgânicos paralelamente às pessoas de carne e osso, na pele de figuras e pessoas míticas que só enxergam o mundo através do fogo, enquanto lesmas frias amuram-se nas nossas consoantes labiais. ----- Sim (: um perito em alquimia espiritual em pleno século XXI (: o real é apenas um caso do possível, de um possível e misterioso mundo(: a vontade é um centro de percepção, um modo de ação, um modo que se atualiza e realiza, graças à fluidez perceptiva do iniciado, certo(?) ----, Isabel disse, empolgada, e pela expressão dos olhos dela, percebi que naquele momento ela estava próxima de algo como uma sagração definitiva. ---- Sim sim (respondi, levando meu corpo de volta à sua presença) os resguardos, escudos, fachadas, limites da vida em sociedade, são modos de agenciamento do Tonal, modos de individuação, de modulação da velocidade da percepção (: modos que os homens comuns chamam de corpos, que interpretamos e experimentamos como corpo e, muitas vezes, como objetos sólidos, delimitados a um espaço, e imóveis no tempo (: mas o iniciado fluido não pode mais datar o mundo espacial e cronologicamente, e para ele o mundo e ele mesmo já não são objetos(: os homens comuns manejam a fala e a razão dentro de um pequeno espectro de percepção, mas também sentem, intuem outras realidades, apesar de fazê-lo de modo vago e superficial, como os poetas(: já os bruxos manejam o sonhar, o ver e a vontade diretamente(: diferença nada simbólica que, se alegorizada a outros contextos, nos permite compreender a impossibilidade de explicar a magia pela ciência e a palavra(: em todo caso, modos diversos de ação, só isso(: o Nagual não pode ser explicado ou entendido pelo Tonal, pois explicar é um modo de percepção e interpretação do Tonal(: a razão é um centro de ensamblagem, um espelho, um modo de testemunhar o Tonal (:o centro de testemunho do Nagual, o modo de presenciá-lo, é outro: o INTENTO, a VONTADE(.) -----, mas minha mente também era excepcionalmente treinada em sair pela tangente, em meio a conversas fiadas, como uma barata dágua, por isso me limitei a acrescentar: ----- Como diria Manoel de Barros, parafraseando William Blake: ''Existe um êxtase em cada cisco'' (: e há um milhão de conchas dentro de nós ouvindo os hinos do além(: um infinito ser consciente, constituído de infinitas emanações, ou átomos (supercordas) de consciência(: a matéria prima de tudo que existe é a consciência, tudo é feito de consciência, TUDO É CONSCIÊNCIA(: a esse ser infinito no seio do qual estamos, Don Juan chamava de Águia(: o processo aqui descrito apresenta todos os traços característicos de uma compensação psicológica(: sabemos que a máscara do inconsciente não é rígida, mas reflete o rosto que voltamos para ele(: nas palavras de Nietzsche: ''Se miras o abismo, o abismo te devolve a mirada''(: a hostilidade confere-lhe um aspecto ameaçador, e a benevolência suaviza seus traços(: não se trata aqui de um mero reflexo ótico, mas de uma resposta autônoma que revela a natureza independente DAQUILO que responde(: assim pois o “filius philosophorum” não é a mera imagem refletida do filho de Deus numa matéria imprópria(: esse filho de Tiamat apresenta os traços da imagem materna originária, a Águia(.) ----, Isabel quase cantava em sua estranha alegria, alegria porque era ela, e não um pseudônimo qualquer de escritora fantasma, que estava diante daquela luz cegante e quente naquela várzea deserta e sussurrante, aquecendo suas jovens fibras moles e dando definição à vida do seu espírito. Fiz uma pausa, de repente, sinistra na imobilidade da minha posição, ou melhor dizendo ''pose'. A sensação que ela experimentava era de curiosidade e apreensão. Quedou-se absorvida naquilo: todo detalhe emocionante da evasão extra-sensorial no lampejo de um gênio gaseificado instantaneamente; tudo sem nenhum outro fim que não o ETERNO, visto assim em detalhe, e belíssimo justamente por isso: solidão identicamente animada por um espírito de inutilidade e delícia, enquanto ela via-me movendo estranhamente, executando exóticos movimentos marciais de águia, achando que eu não sabia que estava sendo vorazmente observado, sentindo à distância aquele gás fluorescente à minha volta agitar-se magnetizado e invadir suas entranhas, de modo que elas se embrulharam lá por dentro ao longo da miração, liquefeitas, como uma multidão em seu estômago, rindo sem pensar. Miscelânea de algas, cordões, caules, detritos e firmamentos de peixe. Era como se ela avaliasse, estupidificada, a inconcebível situação de duas pessoas superpostas à sua frente. Que espécie de argumento poderia oferecer uma simples moça da cidade à um... espectro?! Qual poderia ser a moral de um espectro Nagual, Isabel não tinha a mínima idéia. Ninguém nunca tem. À não ser a de que mais tarde cresceria uma ascese no seu caderno de poemas, com um arame eletrificado por visões esticado através de seus olhos, procurando reconstituir racionalmente o que estava presenciando sem o uso da razão. ----- Sinto-me compelida ao trabalho literário, K (ela diria depois) por sofrer diante da enorme confusão do mundo atual, que torna Kafka um satélite da Condessa de Ségur(: pela minha tristeza em não poder conversar com esquimós e mongóis(: pelo charme operante das cabeleirosas e pernilongas putas da alta sociedade, das sexy a jato e das menos sexy a pé(: pela fúria galopante dos quadros e colagens de Max Ernst(: pela decisão de Casimir Malevich, ao pintar um quadrado branco em campo branco(: pela vizinhança através dos séculos, malgrado as sucessivas técnicas e rupturas estilísticas, de Schönberg(: pelo meu amor platônico às matemáticas(: pelo dança do destino e incríveis distrações da saudade(: porque atraem-me a variedade das coisas, a migração das ideias, o giro das imagens, a pluralidade de sentido de qualquer fato, a diversidade dos caracteres e temperamentos, as dissonâncias da história(: porque sou contemporânea e partícipe dos tempos rudimentares da matéria – desde 900 bilhões de anos? –, do dilúvio, do primeiro monólogo e do primeiro diálogo do homem, do meu nascimento, das minhas sucessivas heresias, da minha morte e mínima ressurreição em Deus ou na faixa da natureza, sob uma forma qualquer(: porque o minúsculo animal que sou acha-se inserido no corpo do enorme Animal que é o Universo, que alimenta-se dum foco de energia em contínua expansão, travestida pela montagem teatral da Roma barroca-poliédrica(: obsedada pelo Alfa e o Ômega(: bêbada de literatura, religião, artes, música e mitos(: imbêbada de política, economia e tecnologia(.) -----, Isabel disse tudo isso coando café na cozinha, para recuperar nossas forças dispersadas pela experiência visionária. Mas, naquele momento, ela ainda estava situada onde podia ver o corpo transparente do espectro, duplicado sobre o meu, lambendo meus olhos por dentro através de um oco fluorescente no centro da minha testa, em meio a uma maceração de sílabas ininteligíveis, inflexões, elipses e refegas como as que Antonin Artaud proferiu em sua transmissão radiofônica de Para Acabar com o Julgamento de Deus. Palavra primordial ferozmente estilhaçada na recepção de um rosto atônito. Atordoada, Isabel procurava a calma nas poucas cores familiares que restavam da pobre realidade precedente, mas seu coração batia com violência dentro do peito, tentando recobrar a certificada calmaria que aquela várzea sempre lhe havia transmitido desde a infância. Mas não conseguiu, de jeito nenhum: alguma coisa desconhecida havia sido atraída até ali, desde os confins do universo, pelo fogo daquela fogueira e as poses letárgicas e hipnóticas em que meu corpo se alternava, mudo e impassível, revelando em detalhes as patas amarelas de um gás super-consciente, que chapinhava os lenhos da fogueira a todo momento, deixando no ar à nossa volta um rastro etérico de bolhas sussurrantes na noite doidamente animada por fosforescências lunares. Assim que avancei, em transe, pela trilha de mato fechado adiante, meio escondido pelos arbustos laterais, a impressão dela ficou ainda mais acentuada. Ela não pulou imediatamente de onde estava e saiu desesperada no meu encalço, mas agora tinha certeza de que alguém, além de mim, estava ali entre nós: certas sutilezas de uma presença atual, que só uma moita de arbustos sacolejando na escuridão pode refletir ( salpicos de areias esverdeadas e braços assentados no fundo amorfo das sombras de galhos entrelaçados: agora sim Isabel percorria sobressaltada e ofegante os cem ou duzentos passos da trilha de mato da várzea onde estava a fogueira até a casa da fazenda, ouvindo o titubeio ensurdecedor das rochas em volta tremelicarem os cantos vítreos nas extremidades dos seus olhos, pelos quais pareciam deslizar peixinhos velozes e ariscos, como vaga-lumes decepados em pleno vôo por golpes de ar fantasmagóricos. Suava frio e corria como se esperasse a chegada de um furação ameaçador à qualquer momento, no curto trajeto até a casa. Entrou e trancou a porta, no limite do que lhe permitia sua percepção. Perdido no meio do mato, eu sentia em devaneio um gosto agradável de moças na boca, e orientava meus olhos pelo alfabeto das árvores escuras, desmanchando no ar enormes gaviões feitos de fumaça. No caminho de volta, os casebres dos pescadores pobres, com o rio ao fundo, adquiriram na minha boca um forte gosto de infância. Passei por uma pequena plantação de maconha, cortando uma procissão de formigas com a força de um jato de mijo. Besouros nadando em querosene, perto de algumas hastes já cortadas de cannabis (finas letras que escreviam no orvalho versos iluminados com pontas de verde chuva, regras simples e estritas dos ramos retos sendo alterados pelos meus sorrisos de amor incondicional incompleto. Os tocos remanescentes estavam inclinados para a terra pela força da chuva (só então percebi que estava chovendo, de fato, o que proporcionava-me cópulas balançadas e refrescantes no rosto, a cada passo. Lembro-me da pressa com que cortei alguns galhos, logo depois, sentindo-me embaraçado como se estivesse revendo um amigo do qual tivesse roubado a esposa, e parei como se estivesse prestando satisfações à terra, e não à ele, tirando da minha própria língua um paladar de vinho, usp, usp, ante-chupando os dentes como um cretino. A pequena plantação de maconha tinha a aparência de um cemitério de anões, e as frases desnudas (sem boca de origem) que eu ouvira lá atrás, no caminho, ainda se moviam à minha volta como braços e pernas de mulheres à toa, sob o tecido sigiloso do desejo de estio, acima das palavras surdas ( e bucais) que minha memória freava agora à minha frente, como cavalos abrutalhados pelo serviço rural. Mas já não tinha muito tempo, e estava mais ou menos em pânico, portanto apressei-me na trilha pela clareira, com o rosto alegre de quem voltava a encetar viagem. Entrei e saí das moitas de arbustos e pinheiros-anões, e ali, a poucos passos, encontrei a árvore mais curiosa de todas. Olhando para ela, era como se eu tivesse passado anos procurando por mim mesmo em lugar nenhum, até que não me encontrei definitivamente diante dela. Às primeiras carícias da folhagem a vulva cindia: uma palmeira-anã erguia-se de um pequeno monte de areia, rodeado pelo barro da várzea. Uma árvore pequena, forte e estranhamente deformada ao luar ( as raízes agarradas ao monte de areia, as folhas como leques contorcidos para o lado e inclinados para baixo pelo vento, mas, afinal, erguendo-se para o céu como braços em oração. Aos pés dela, entre as raízes, onde acabava a areia e recomeçava o solo do pântano, havia uma pequena caverna onde não caberia nem um filhote de onça, e a porta que me dava acesso à ela era uma rocha cujo musgo muitas vezes fora levantado e recolocado no lugar, as bordas nuas como uma atadura suja erguida pela inchação de um ferimento. Retirei a pedra e passei a mão pela terra na frente da cava, meus dedos arranhando e procurando entre o barro macio como ratos do mato perto do alimento; minhas mãos afastaram terra suficiente para retirar um saco de lixo, cujo conteúdo logo examinei, vendo o bastante para dar um pavoroso grito de asco: estava olhando para a parte posterior de uma cabeça de homem (os cabelos, à despeito da lama, eram loiros como os meus, mas quando tentei ver o rosto, a cabeça decepada rolou para dentro do saco novamente, sem resistência. Não pude continuar: recoloquei o saco de lixo na cavidade e depois a pedra, sem tentar recompor o musgo, e fugi daquela várzea correndo alucinadamente. Só depois de entrar novamente na casa da fazenda, e encontrar Isabel afundada numa poltrona da sala, tentando acalmar os nervos com um copo de whisky, me veio a idéia de que minha vida poderia estar por um fio, caso eu não atuasse como o mais gelado dos atores de filmes policiais. ---- Acabo de chegar à conclusão (Isabel disse) de que pertenço agora, em definitivo, à categoria não muito numerosa das pessoas que se interessam igualmente tanto pelo finito quanto pelo infinito (: você conseguiu me convencer definitivamente, com aquelas coisas que fez perto da fogueira (.) -----, naturalmente, eu não sabia também se devia ter medo de Isabel ou de alguma outra pessoa, nem tampouco se, quando o sono batesse (o que não aconteceu até de manhã) e tentasse dormir, seria assaltado por um terror que ultrapassava toda imaginação e medida. ---- Que mal te pergunte, Isabel (eu disse), do que vivem seus familiares(?) ----, ficamos algum tempo em silêncio (ela com um risinho rasgado no canto da boca, pensativa) enquanto nos servíamos duas xícaras de café preto e forte, e finalmente ela disse, sem pestanejar: ----- Meu pai é um dos maiores narco-traficantes do Brasil(.) -----, felizmente, aquela era a última noite que dormiríamos ali, após uma semana inteira de Pantanal. Não é necessário descrever o resto da viagem. Nos despedimos amigavelmente no aeroporto de Cuiabá, com um beijo na boca que gelou minha espinha. Nunca mais vi Isabel na vida. Graças a Deus.
Domingo Delgado Solórzano, em O Nagual de Cinco Pontas, considera que há várias Águias habitando um local, local este que seu benfeitor Don Chema chama de Zero. A nossa é a Águia Aura Negra. Os Nanahualtin de cinco pontas são parte do sistema de reprodução das Águias, e estão engajados na criação da Águia Aura Âmbar. É uma descrição muito complexa, o texto de Domingo é todo para a consciência alterada, mas, neste estágio, penso que ele nos conta que naguais de três e quatro pontas se aliam e juntam na Hexápoda, gerando o nagual de cinco pontas, o qual, ao entrar para a quarta atenção, se torna um ponto de encaixe gigante da Águia, podendo, ao entrar na quinta atenção, se tornar o OVO de uma nova águia, assim fazendo a reprodução cósmica.Em Castaneda, a Águia é o todo da energia, que inclui todos os universos paralelos. Lembremos que Don Juan lhe diz: ''não tente transformar isto que estou lhe falando no que você já sabe ou pensa que sabe. Então, não faz sentido falar no lugar das águias, a águia é o todo da energia, o criador máximo, o controlador de tudo''. Se bem que o problema do lugar é um paradoxo milenar, a chora de Platão, o todo da energia está em algum lugar, mesmo que não haja lugar, o ser já funda um lugar! Por outro lado, a ideia de infinito é rica e se desdobra, o universo é infinito e, no entanto, há infinitos universos paralelos, para a física “dura”, a física “científica”, com suas equações e funções. Assim, a Águia também se torna fractal, e parece fazer todo o sentido que haja infinitesimais águias, e sempre mais, como num caos-criador, um caosmos (James Joyce), como na proposta da física quântica de que, ante qualquer alternativa, as duas possibilidades se realizam concomitantemente, fundando mais e mais universos paralelos.Os toltecas da época de Don Juan se chamavam de novos videntes, ou guerreiros da liberdade total. Porque os toltecas anteriores ou antigos videntes estavam muito entusiasmados com o controle da segunda atenção e com o poder daí resultante, o que implicava inclusive em se tornarem seres inorgânicos e manipuladores de grande poder sobre seus semelhantes. Os eventos que levaram ao fim dos antigos videntes, e ao seu escondimento, e à formulação das técnicas de espreita e o estabelecimento da meta como liberdade total (terceira atenção) pode marcar o fim dos tempos pré-clássicos e início do clássico, na escala histórica da Toltequidade. O sumiço em massa dos toltecas no século IX pode significar não uma repressão, mas sim que “populações de cidades inteiras entraram juntas na terceira atenção”, como disse Don Juan para Carlos Castaneda. Os guerreiros da liberdade total consideram a possibilidade de se mudar para a segunda atenção, mas, mesmo se a assumirem, ela fica sendo só um ponto de manobra, um lugar de repouso temporário, para continuar intentando a terceira atenção, realização que , de fato, demanda um nível de intensidade de concentração muito além do humano e sobre-humano.
(1ª Atenção = mundo orgânico, 2ª Atenção = mundo inorgânico, 3ª Atenção = ambiente da Águia).
K.M.
http://www.youtube.com/watch?v=rTD7oGIwVEQ
Alguém observou que cada vez mais o ano se compõe de 10 meses; imperfeitamente embora, o resto é Natal. É possível que, com o tempo, essa divisão se inverta: 10 meses de Natal e 2 meses de ano vulgarmente dito. E não parece absurdo imaginar que, pelo desenvolvimento da linha, e pela melhoria do homem, o ano inteiro se converta em Natal, abolindo-se a era civil, com suas obrigações enfadonhas ou malignas. Será bom.
Então nos amaremos e nos desejaremos felicidades ininterruptamente, de manhã à noite, de uma rua a outra, de continente a continente, de cortina de ferro à cortina de nylon — sem cortinas. Governo e oposição, neutros, super e subdesenvolvidos, marcianos, bichos, plantas entrarão em regime de fraternidade. Os objetos se impregnarão de espírito natalino, e veremos o desenho animado, reino da crueldade, transposto para o reino do amor: a máquina de lavar roupa abraçada ao flamboyant, núpcias da flauta e do ovo, a betoneira com o sagüi ou com o vestido de baile. E o supra-realismo, justificado espiritualmente, será uma chave para o mundo.
Completado o ciclo histórico, os bens serão repartidos por si mesmos entre nossos irmãos, isto é, com todos os viventes e elementos da terra, água, ar e alma. Não haverá mais cartas de cobrança, de descompostura nem de suicídio. O correio só transportará correspondência gentil, de preferência postais de Chagall, em que noivos e burrinhos circulam na atmosfera, pastando flores; toda pintura, inclusive o borrão, estará a serviço do entendimento afetuoso. A crítica de arte se dissolverá jovialmente, a menos que prefira tomar a forma de um sininho cristalino, a badalar sem erudição nem pretensão, celebrando o Advento.
A poesia escrita se identificará com o perfume das moitas antes do amanhecer, despojando-se do uso do som. Para que livros? perguntará um anjo e, sorrindo, mostrará a terra impressa com as tintas do sol e das galáxias, aberta à maneira de um livro.
A música permanecerá a mesma, tal qual Paganini e Mozart a deixaram; equívocos e divertimentos musicais serão arquivados, sem humilhação para ninguém.
Com economia para os povos desaparecerão suavemente classes armadas e semi-armadas, repartições arrecadadoras, polícia e fiscais de toda espécie. Uma palavra será descoberta no dicionário: paz.
O trabalho deixará de ser imposição para constituir o sentido natural da vida, sob a jurisdição desses incansáveis trabalhadores, que são os lírios do campo. Salário de cada um: a alegria que tiver merecido. Nem juntas de conciliação nem tribunais de justiça, pois tudo estará conciliado na ordem do amor.
Todo mundo se rirá do dinheiro e das arcas que o guardavam, e que passarão a depósito de doces, para visitas. Haverá dois jardins para cada habitante, um exterior, outro interior, comunicando-se por um atalho invisível.
A morte não será procurada nem esquivada, e o homem compreenderá a existência da noite, como já compreendera a da manhã.
O mundo será administrado exclusivamente pelas crianças, e elas farão o que bem entenderem das restantes instituições caducas, a Universidade inclusive.
E será Natal para sempre.
Carlos Drummond de Andrade
Organiza o Natal
A Transpantaneira é uma estrada de chão, cujo nome oficial é MT-060, cortando o Pantanal do Mato Grosso e ligando a pequena cidade de Poconé ao distrito de Porto Jofre, já na divisa com o Mato Grosso do Sul (quase 150 km seguindo por uma reta interminável, cercada pela planície alagada onde arraias enterradas ocultam um agroval latejante de vermes, cascudos, girinos e tantas outras espécies de insetos e parasitas. Aparecem jacarés, veados, capivaras, garças, gaviões, martins-pescadores e tuiuiús gigantescos. Formigas de roseiras dormem nuas ao relento. A alegria daquela manhã, dirigindo o Captiva preto ao lado de Isabel, era ter chovido de noite. A chuva havia encharcado tudo, apesar do sol claro do momento: baguarís e caramujos tortos ( a chuva encharcou os cerrados até a raíz dos pentelhos; lagartos espaceando com olhos de paina sobre pedras lisas e borboletas melando-se em desovas enquanto biguás engoliam bagres perplexos sob o ninho encharcado dos tuiuiús. Na fazenda do pai de Isabel, o gado estava com a pelagem limpa e lustrosa sob o sol da manhã , assim como a alma dos vaqueiros, as vozes rachadas de verde sob o vôo das araras e a pregação de saliva dos caracóis nas roseiras (todas as coisas por ali aconteciam paradas: era no uso de todo aquele desacontecimento que o pantaneiro encontrava o seu ser. Estacionei o carro rente ao jardim-pomar da casa-sede paterna, na fazenda do pai de Isabel, limite traçado ao meu incipiente saber: sabor de frutas, estórias, parlendas, orações, o fogo interior subindo no meu corpo. Subversão da vista e idéia primordial do cosmo; o caminho até ali, alargando-se e estreitando-se entre sombras irregulares de árvores, fulgia azulado sob nossos pés quando saímos do carro e entramos no velho casarão, largo e baixo. Passaríamos uma semana ''acampados'' naquela velha casa de fazenda, a fogueira (que sempre faço em qualquer lugar) estralejando e a escuridão em torno a fervilhar de criaturas e espíritos. Até as árvores pareciam ter vozes e uma intenção predatória ao estender os galhos na direção da casa; uma pequena festa levantada dos ecos , frutos vermelhos e amarelos orvalhando redondamente à distância (o vácuo expulso do mundo) na evaporação da mágoa das cidades e seus habitantes e um sub-céu incorporado à curva dos cavalos próximos à casa. Olhando para Isabel, agora, acomodando sua bagagem nos armários da suíte onde ficaríamos, não me vinha de Renata a não ser um vestígio de vazio existencial vociferante. Tomei um gole de licor. Não combinou com a maconha, num primeiro momento. Contudo, Isabel parecia gostar da combinação: acendeu um cigarro e me pediu um trago do baseado. ----- Sayonara (ela disse) cái da sombra das árvores esse desejo de obscuridade, certo(?) ---- , a maconha reforçou um pequeno espasmo na minha garganta, até quase atingir a força de um orgasmo intelectual feito de puro rítmo molecular. ----- Pássaros galopando elementos de fundo céu irrompem nuvens equestres (: a velocidade dos seus neurônios se opõe à nudez essencial, meu caro(.) ----, de fato, durante toda a primeira noite ali gritaram vozes, à medida que um vento de diamantes percorria seu caminho nos pântanos desabitados da noite. ----- Impossível ir mais longe do que isso em pensamento (.) ----- , eu disse à ela, rodeados de distâncias e lembranças, botando enchimento nas palavras, olhando para ela como um feiticeiro urbano capaz de assustar o mato com sua mirada silenciosa e implacável, saída do mundo de plásticos e computadores da cidade grande. Observava o rosto de Isabel sem piedade, ao dizer: ---- Os atos de um iniciado em mistérios antigos são uma forma de passar entre as descrições que nos fazemos do mundo(: a continuidade do homem social carece de sentido nesse mundo de pavor e mistério sem fim, na Eternidade que nos rodeia, cerca, pressiona e espreita a todo instante(: a arrogância , a excessiva importância que atribuímos à nós mesmos e nossas invenções, nos impede a percepção de que o mundo à nossa volta é um mistério indecifrável, mas que deve ser explorado incansavelmente, pois só assim é possível afinar a vibração de nossa consciência, para vibrarmos em sintonia com a evolução da consciência unversal(: cremos o tempo todo que somos os únicos que podem inventar os modos como queremos estar no mundo(: ficamos isolados em nosso cubículo de frágeis verdades opacas, dialogando com nosso próprio diálogo, alheios à diferença radical dos outros modos de ser e estar, que prescindem do entendimento racional (:agimos como se fôssemos imortais, quando na verdade temos pouquíssimo tempo nessa terra para aprender o essencial, que já é um trabalho hercúleo, quase excessivo para uma única vida(.) ----, o ar lá fora parecia dar tiros, com a aproximação de uma tempestade: fecharam-se portas e janelas, formando um redemoinho de assovios arrepiantes nos desvãos da casa. ---- Para merecer o rompimento dos selos é necessário trabalhar a coroa de espinhos(: senão te abandonam por aí, sozinho, com os cadáveres de teus livros(.) -----, ela disse, lenta mas inexoravelmente; nela haviam deixado seus rastros os sentimentos e paixões, afetos e rancores, a fé, a ilusão e os desencantos, os outonos que a entristeceram ou desalentaram, os amores que a haviam enfeitiçado, os fantasmas que em seus sonhos ou em suas ficções a visitaram e acossaram; e naquelas sobrancelhas que se contraíam por inquietude ou estranheza, se levantando na interrogação ou na dúvida , naquelas veias que inchavam de raiva ou sensualidade, ia se delineando a móvel geografia que uma alma quilometrada acaba por construir sobre a sutil e maleável carne de um rosto. ----- O iniciado é aquele que aprendeu a se comprometer com uma cognição extra-sensorial e aceitou o fato de que morrerá num piscar de olhos, por isso não tem mais tempo a perder , vivendo displicentemente(: sabe que morrerá , que vai variar a duração de sua consciência inevitavelmente, e que nada há em ser humano algum que esteja pronto para tal, por isso assente com a morte e ao fazer isso está assentindo com o principal mandamento do Infinito(: 'SEJA IMPECÁVEL COM SUA ENERGIA, É SUA ÚNICA OPÇÃO'(: nós, ocidentais, homens modernos, atores mascarados, falsos sábios, mestres do falso verbo, verdureiros poéticos, armazenadores de óbito, diplomados ignorantes, temos uma relação negativa com a MORTE(: como disse Foulcault, escolhemos acreditar que a poeira em que se desfazem as grandes arquiteturas funcionais é poeira sem vida(: QUANTA PRETENSÃO(!) a poeira, as partículas, os elementos em que nos desmembramos , as mônadas, o infinitesimal infinito de que nos fala Tarde, testemunham o fim da finitude, a cegueira de perspectiva da duração comum(: a variação infinitesimal é o movimento do aparentemente imóvel, a fluidez imanente do sólido, a passagem do durável, percepção do imperceptível, aos olhos do fantasma que (segundo Kopenawa) nos caracteriza (: o modo de ação do iniciado (bruxo ou xamã) é aquele que lhe dá a velocidade consciencial necessária para vibrar em sintonia com múltiplas consciências, e assim enriquecer a sua própria(.) -----, o olhar de Isabel, naquele instante, era como um pêndulo marcando o compasso do desengano, segundo a fatalidade que lhe era própria, pois só acreditava poder existir encarnada, através da matéria que era ao mesmo tempo sua prisão e única possibilidade de existência. Mas os olhos líquidos com que sua alma observava de relance o Universo, agora, pareciam querer ceder lugar aos tubos do órgão soberano que ultrapassava o tempo. ----- Tudo isso me parece inacreditável, mas, como você sabe, nos últimos três dias eu tenho evitado pensar(: e assaltam-me todos os sonhos que existiram desde o princípio dos tempos(: o crescimento do MITO em que você vem me introduzindo , nas últimas setenta e duas horas, já não pode dispensar minha inteligência privilegiada(: é preciso continuar a trama fluida de K, o POETA DO FUTURO(!) ----, a discussão continuava, ou melhor, eu continuava argumentando e ela tentando não se opor a algo que estava em jogo dentro dela, flertando dramaticamente com o Universo inteiro à sua volta. Na manhã seguinte, Isabel já me indicava embevecida a abundância de pássaros nas árvores e no céu: pirequitos verdes, as brancas íbis e lavandeiras, as colhereiras cor-de-rosa, os jaburus da altura de um homem, bentevis de papo amarelo e vistosas graúnas, cujos ninhos se amontoavam entre as orquídeas roxas que floresciam nas majestosas palmeiras uauaçu. Onde uma lagoa pantanosa reluzia como uma miragem, coágulos coloridos, ilhas vermelhas e brancas, de tuiuiús e garças reais, refulgiam no calor, abastecendo de pernas compridas a distância. Aquilo tudo parecia suficiente, ao menos momentaneamente, para matar dentro dela a centopéia cancerígena do consumismo; já eu, particularmente, era a própria esquisitice deslumbrada mamando na eterna paciência do céu, envio nato e anti-óbvio de energia vital. Um crespo ardor de chuva extinta há horas criava raízes no nada glorificado em que avançávamos, ouvindo nossas vozes humanas causarem surdas explosões de pássaros em revoada, que ao passarem por cima de nossas cabeças faziam o ar tilintar de uma maneira emocionante e elétrica. ----- O POETA DO FUTURO já se encontra entre vós (declamei) , ELE nasceu da TERRA, preparado por gerações de sacerdotisas sensuais e místicos celibatários (: surgiu do UNIVERSO em crise, encerrando no ESPÍRITO épocas superpostas em agonizante intercâmbio(: ELE manifesta o EQUILÍBRIO de múltiplas direções, e não permitirá que ALGO FUNDAMENTAL para a humanidade se perca, de jeito nenhum (!!) ----, Isabel calou-se , por um demorado momento, enquanto fumava. ---- Não vá ficar pensando (disse ela depois) em se atribuir ares de diferente, comigo(: prontamente eu te corrigiria, com carinho (é verdade), mas com firmeza(.) ----, o que será que ela estava tentando me comunicar(?) Por um instante, lembrei-me das fotografias que Isabel tinha tirado de Renata nua, há alguns meses, e me mostrado no avião: era como se Isabel ainda possuísse exclusivamente as chaves de algumas masmorras da minha consciência. ---- A dona da cidade maldita penteia seus cabelos no relâmpago(: Lilith anda solta ao microfone(: uma eternidade vermelha na tua boca de concha, suspensa entre céu e chão (.) -----, eu disse, sentindo a força das lembranças dela nos erguer acima do chão, ameaçando despencar o que fazia peso morto dentro de nós; assim, quando terminamos nosso passeio pela várzea quilométrica, todos os heróis gregos da minha imaginação já haviam se transformado em rochas de anêmonas dágua, e não estávamos em condições piores de consciência do que quando saímos de casa , com uma garrafa de 43 na mochila e um resto de haxixe marrom no minúsculo cachimbo metálico rosa-choque de Isabel. O nível do rio estava baixo e a areia trazia até nossas narinas o cheiro do pântano, mas os imensos lagos temporários ainda apareciam, formando aqui e ali grandes grupos de animais selvagens por todos os lados: os pantaneiros já haviam aprendido a conviver com isso: águas cheias de crocodilos e piranhas onde destemidos pescadores pobres se arriscam para tirar o pescado da sobrevivência. Especialmente ao cair da tarde é comum ver famílias inteiras sentadas nas prainhas com equipamentos de pesca artesanais. À noite, sob a lua, as algas e os musgos meneavam nas poças deixadas pela atividade da água, enfeitados de prata. As estrelas haviam encostado no chão, onde vespas de conas frondosas produziam um mel azulado e brilhante. ---- Filtrarei um dia (Isabel disse) os séculos que se acumulam no seu olhar vazio e infinito, até que as pedras cantem e suspirem os segredos iniciáticos da atmosfera, para todos ouvirem(: pois as pedras são essa música, cristalizada num silêncio impenetrável e indiferente(.) ---- o estranho amor de Isabel por mim, agora, parecia ter assumido uma nova forma, uma forma alongada como um grande anel a girar no céu, na incansável vastidão acima e abaixo, e depois voltando, surpreendendo-me com sua força, uma força antes adormecida , despertada por algum súbito ângulo raramente visto ( de cima, digamos, a alta testa séria e quadrada dela escondendo os olhos negros que pareciam janelas por onde sair das trevas. ----- Cedo começou minha fascinação pelos dois mundos (eu disse), o visível e o invisível(: não escreveu São Paulo que este mundo é um sistema de coisas invisíveis manifestadas visivelmente(?) há uma grande diferença entre a DURAÇÃO dos homens comuns e os ENCONTROS COM O PODER dos iniciados, mesmo que tenhamos o costume de sacrificar os ENCONTROS à DURAÇÃO(: muitos santos afirmaram, ao longo da história, que os ataques mais poderosos do Demônio ocorrem logo após um iniciado receber uma Revelação(: mas a LUZ é a mensageira da vida comum tanto quanto dos encontros com o poder dos iniciados, porque ela retém a vida em si mesma, como afirmou Jesus, e contém todas a informações e durações imagináveis em seu âmago, como representado na idéia hindu do Akasha(: mas embora estejamos todos feitos da mesma substância das estrelas (a LUZ), nós não somos essas estrelas(: SOMOS O QUE EXISTE ENTRE ELAS(: chamemos as estrelas de TONAL e o espaço entre elas de NAGUAL, e perceberemos que a harmonia e o espaço entre elas é criado pela força da consciência, o INTENTO, que é a LUZ(.) a percepção humana é apenas a LUZ que percebe a LUZ(: o verdadeiro NÓS é PURA LUZ e INTENTO(.) CONSCIÊNCIA PURA(.) -----, já em casa, ficamos colados um no outro a noite inteira. Acho que os pensamentos de Isabel devem ter passado para mim através dos nossos dedos entrelaçados no sofá da sala; e meu coração levantou-se como uma grande onda. Uma onda noturna, é preciso dizer: o Universo inteiro agora podia ser reduzido à uma grande metáfora, não apenas literária, mas plástica, anatômica, musical e científica: todas as coisas implicando signos, intersignos, alusões, mitos e alegorias. Deus era de fato o único ator que não repetia diariamente seus papéis, e assim o Universo nos alargava em todas as direções, tirando meu apetite para qualquer trabalho comum, ordinário, ofício, carreira ou profissão. ''QUE SÉCULO MANUAL(!)'', exclamava o poeta adolescente Arthur Rimbaud, antes mesmo dos vinte anos de idade. ---- Eu sou o olhar que penetra as camadas do mundo (Isabel disse) andando debaixo da pele e sacudindo os sonhos(: tirando o cheiro dos corpos das meninas sonhando, não desprezo nada do que tenha visto (: ando nos quatro cantos da vida, fazendo as ruas estalarem com meus passos, deslocando as consciências (: múltiplo, desarticulado, longe como o diabo, nada me fixa nos caminhos do mundo(.) ----, Isabel Lareine, nos seus melhores momentos, me proporcionava emoções quase iguais à luz do sol; soltei as mãos dela e beijei-a levemente nos lábios. Voltou-me a lembrança do gosto da sua boca, e do quanto ela parecia uma rosa de açúcar. Um som longínquo, rouco e sensual como a própria terra alvoroçou-se em sua garganta. ---- Nasci no plano eterno, de mil vidas superpostas, de mil ternuras desdobradas(: vim para sofrer as influências do tempo e para afirmar o princípio eterno de onde vim(: apresentaram-me o livro de tua vida , escrito por dentro e por fora, e logo na primeira página parei três anos em êxtase(.) -----, era maravilhoso ouvi-la, tão cheio da adrenalina provocada pela idéia do que me esperava adiante, na vida: o prazer, a sabedoria de VER, justificando cada segundo da minha existência. O olho armado para VER me dando a força de sua própria extensão e continuidade, vaso comunicante de estrelas para receber na boca talhada o VERBO sem igual. ---- Fica essa substância de luta, de onde se descortina a Eternidade(: o homem, a luta e a Eternidade, matéria em convulsão ardendo para se definir(: o mundo ainda é pequeno para te preencher(.) ----,
"Sempre, em todos os tempos, a poesia corrigiu a crítica."
(Murilo Mendes)
Não se escandalize o leitor se a minha digressão soa como um mito gnóstico. Movemo-nos aqui no terreno supra-psicológico em que está enraizada a gnose. A mensagem do símbolo cristão é gnose, e a compensação do inconsciente o é ainda mais. O MITOLOGEMA é a linguagem verdadeiramente originária de tais processos psíquicos e nenhuma formulação intelectual pode alcançar nem mesmo aproximadamente a plenitude e a força de expressão da IMAGEM MÍTICA. Trata-se de imagens originárias cuja melhor expressão é a imagística.
(Kalki-Maitreya)
Parece uma gema de ovo o nosso por do sol do lado da Bolívia.
(Manoel de Barros)
O ovo é um monumento fechado, automonumento; plano-piloto, realizado agora, do germe inicial da criação.
A exemplo da torre de Pisa, o ovo não costuma sustentar-se em pé. Ninguém ignora que a torre gosta de emigrar durante a noite. De resto, ela subsiste somente porque amparada por uma pena num quadro de René Magritte.
O mesmo pintor em outro quadro Les vacances de Hegel mostra um guarda-chuva aberto: em cima pousa um copo contendo um líquido. Evidentemente todos os observadores sofrem uma ilusão de ótica, trocando o copo por um ovo, de resto mais vizinho ao pensamento do filósofo.
O ovo, objeto concreto de alto coturno, caríssimo, quase inacessível: diamante do pobre.
No meu tempo de infância, indo a noite alta a dois metros, eu já não ouvia mais o tique-taque do relógio; antes, o pulsar do ovo na sua gema, nunca sua clara.
(Murilo Mendes)
Para os habitantes indígenas da América, toda a natureza é como um SUTRA sempre aberto no qual sepode ler a mensagem multiforme do Grande Espírito.O Dharma das formas é como uma ciência de recordatórios em ação recíproca; neste sentido nossa sensibilidade veio se atrofiando gradualmente pelo peso de uma modernização industrial e tecnológica crescente. O trabalho de se reexercitar a ler os signos da natureza dia após dia e hora após hora ao estilo Pele Vermelha constitui uma Upaya de grande poder e sutileza. Essa qualidade cultural, cosmogônica, se traduz em um respeito para com o entorno (incluindo a natureza, nossos semelhantes, os objetos materiais e a si mesmo), fortalece a tolerância como princípio de interação, e de algum modo impregna tudo com um sentido transcendental, mais além do cultivo massivo do ego.
Este tema chama a atenção para a necessidade de voltarmos a ritualizar nossos atos, e de perceber em tudo um porção da Divindade... durante essa travessia imaginária, a ressacralização de tudo e todos, há certos pontos cruciais que devem receber mais atenção:
Por exemplo: A ARTE,
historicamente uma ferramenta fundamental para o desenvolvimento do ser humano, e que por diversas razões se viu nos últimos séculos aprisionada em sofisticadas abstrações, ecos de glamour, mercantilização, e fórmulas pré-estabelcidas.. por isso deveríamos, além de honrar sua potencial natureza como catalizadora de fluxos conjutos, como recurso para questionar e como superfície privilegiada para interpretarmos a nós mesmos, retomar sua função histórica de veículo para se conversar em alto nível com a Divindade, para explorar as fronteiras de outros planos, e para comunicar com entusiasmo os resultados de tais explorações.
Outro exemplo: O SEXO,
A prática do sexo, uma das forças dominantes da natureza humana, teria que, longe da sua satanização moralista ou, por outro lado, da sua mortificação através de uma libertinagem frívola e deprimente, reencontrar-se com sua essencia sacra, em sintonia mesmo com os preceitos eternos de diversas tradições espirituais,desde o Tantrismo até a Alquimia Medieval, que sempre atribuíram ao sexo uma condição de portal para se acessar a fonte ou origem unitária do Todo
Em todo caso, podemos lembrar aqui das palavras de Ralph Waldo Emerson, o sagrado começa na nossa própria mente
Isabel tinha a mais danada das vozes. Vou descrevê-la detalhadamente num momento, mas agora tinha o rosto dela acima do meu. Como todas as pessoas desajeitadas, quando falava com alguém que estivesse sentado, ela tinha o hábito de inclinar-se para a frente, colocando a cara no espaço imediatamente próximo ao rosto do interlocutor, de modo que sempre se ficava preocupado, temendo receber na cara o orvalho de seus nobres perdigotos. Com o sol que entrava pela janela do quarto no rosto, Isabel parecia, especialmente de tão perto, um mingau de aveia de tão branca; e pareceria aparvalhada se não fosse tão cuidadosa com sua aparência, pois os cabelos castanhos flamejantes estavam penteados e os traços, vistos isoladamente, eram naquela hora da manhã, sem força e inexpressivos, mas os olhos pretos de piche líquido eram realmente espantosos. Tinham uma luminosidade extraordinária e o dom estranho de se arregalarem caleidoscópicamente a uma observação qualquer sem importância. Tínhamos dormido os três (Renata, Isabel e eu) juntos na cama de Renata, mas elas ficaram bem ruins com o bolo de haxixe e a bebedeira da noite anterior, e não aconteceu nada. Naquele momento (Renata ainda dormia) a visão de Isabel, sentada na beira da cama, me isolava da realidade: ela me parecia perversa e sonolenta, lendo ou simulando ler um grosso livro de crítica de arte. Estudando Isabel de perfil, eu indagava o abismo que muitas vezes existe entre a idade cronológica de uma pessoa, e a outra, que resulta dos desastres e paixões; porque enquanto o sangue faz seu percurso de células e anos, a alma pode sofrer (ou evoluir) décadas, séculos e até milênios, por obra de implacáveis poderes; ou porque esse corpo herdou a alma de outros corpos moribundos, de homens ou peixes, pássaros ou répteis, de modo que sua idade pode ser de milhares de anos. Motivo pelo qual se pode observar mesmo em crianças olhares, sentimentos ou paixões que só se pode explicar por essa turva herança de morcego ou rato. Porque aquela calcinação interna, aquele encalhamento da alma era possível detectar em Isabel: em certo tremor ao caminhar, em alguma falta de jeito, numa peculiar dobra da face. Do canto onde ela estava, me era possível reconhecer esses indícios no seu rosto, e bastava acompanhar os lentos, apenas esboçados movimentos das suas longas pernas ao se acomodar, de sua mão ao levar o cigarro à boca, para notar que aquela garota tinha infinitamente mais idade que os vinte e poucos anos do seu corpo: ''experiência proveniente de alguma serpente-gato pré-histórica'', pensei, com vontade de anotar alguma coisa à respeito no meu caderno: ''um animal que aparentava indolência, mas que tinha a sigilosa sexualidade da víbora, pronta para o bote traiçoeiro''. De fato, à medida que passava o tempo e meu exame se fazia mais minucioso, senti que Isabel estava à espreita, com aquela típica virtude que têm os felinos de controlar, mesmo na escuridão, os mais insignificantes movimentos da presa, de perceber rumores que para os outros animais passam inadvertidos. Tinha um cabelo castanho liso muito cheio, que chegava até os ombros, que se descolava a cada movimento que fazia com mórbida lentidão. Fumava com tragadas lentíssimas mas muito fundas. Havia algo em seu rosto que me causava desagrado, até que entendi que era causado pela excessiva separação dos olhos: grandes e rasgados, quase defeituosamente separados, o que lhe conferia uma espécie de inumana beleza. ----- Acho que nem sequer nos desejamos bom dia (Isabel disse, virando o rosto para mim ), deve ser por isso que você está a tanto tempo aí parado, me olhando com essa cara de TO BE OR NOT TO BE(.) ----, sim, era evidente que ela também tinha estado me escrutando, através de suas pálpebras semi-cerradas, como que sonolentas, em lentos e imperceptíveis olhares de soslaio, que fazia como que sem olhar, como se unicamente levantasse a vista do livro para pensar. ----- Que bom ser despertado com Hamlet, Isabel (respondi), segundo Mallarmé ''la pièce par excellence'' (: já meditei muito no problema do protagonista, menos indeciso do que em geral se pretende (agora, Isabel riu pra mim): Hamlet encarna o escritor , sabe agir mas não à medida do homem comum, (: rico de elementos auto-biográficos, muitas das suas ''remarques'' são indiscutivelmente ''remarques'' de um típico escritor (: o personagem Hamlet exerce continuamente uma auto-crítica, a força da sua consciência põe-no em estado de alerta(: devolve à si próprio os golpes do Destino, circunscreve-se em relação a um DRAMA UNIVERSAL, crise próxima e catástrofe(.) ----, assim que acabei de falar, Isabel colocou o livro que estava lendo de lado, na cama, e espichou as pernas voluptuosamente, até quase encostar a ponta do pé esquerdo na minha canela, e disse: ---- Homem de ação(: ajuda (não fosse ele Shakespeare) os comediantes a montar a peça em cujo texto faz inserir palavras suas que desvendarão o crime do seu tio e da sua mãe(: mata Polonius, resolve adiar a morte do rei que encontra rezando, não vá ele ir para o céu(: liquida-o mais tarde (: não suportando a vaguidão do espírito de Ofélia, indica-lhe o caminho do convento (: revista os bolsos de Rozencrantz e Guildenstern e troca a ordem do seu próprio assassinato pela do assassinato daqueles dois(: mata Laerte(.) inflexível consigo mesmo Hamlet vive obsedado pela ação que tem a cumprir(: este corpo, diz, é tão duro como os nervos do leão de Neméia(: quando fala ao espectro declara-se aflito para voar à vingança, como raptado em êxtase ou em sonho de amor (: tem a consciência de ser destinado a pôr o século em ordem , embora tal missão o aborreça(: decide na quinta do primeiro ato fazer tábula rasa do passado, deixando apenas o mandamento do pai a ocupar seu cérebro , já agora expurgado de qualquer matéria vil (.) ----, quando Isabel acabou de falar, lançou um olhar distraído sobre Renata, adormecida na cama como uma pedra no fundo de um lago, parecendo deter-se um instante para avaliar a situação, para logo voltar à mergulhar em seu impenetrável véu gato-ofídico. Era inegável que aquela misteriosa substância dos olhos dela havia gotejado nas águas profundas do meu espírito e, desde lá, enquanto coagulava visões, desprendia odores promissores que certamente chegavam à superfície da minha consciência. Sensações obscuras, mas que para mim, eram sempre anúncios de acontecimentos decisivos, ou quase, e que produziam um certo nervosismo em mim, como o que sentem os animais no momento em que um eclipse se aproxima. ---- Qual será afinal a origem do caráter enigmático de Hamlet (?) (pensei alto) Creio que Mallarmé ao informar ''Penser étant écrire sans accessoires'' se avizinhou à Hamlet (.) -----, silenciosamente, Isabel seguia enviando suas radiações sobre mim ( as pálpebras caídas e as longas pestanas que deviam velar-lhe ainda mais a pouca luz de que dispunha). Mais com sua pele, e seu pé, agora encostado ao meu, do que com a própria cabeça, ela devia estar sentindo minha presença através de miríades infinitesimais de receptores no extremo de seus nervos: sinais que através de complicadas redes chegou naquele momento às suas vísceras, não só a excitando como a alertando angustiosamente de que ela estava diante do seu novo mestre, e amante: ---- Teria Shakespeare intuído a proposta de certa filosofia atual (ela disse, aproximando o rosto do meu) que nos descreve o homem cedendo o passo ao ''SISTEMA'' (?) teria ele também a intuição da modernidade, em vez da antiguidade do homem, como matéria de estudo(?) em todo caso, hoje podemos situar o monólogo TO BE OR NOT TO BE , isto é, as ruínas do discurso, num outro espaço que já organiza sua própria arqueologia, ligando-se à palavra final do herói: ''THE REST IS SILENCE'' (.) -----, ao nos beijarmos, senti que os olhos negros por trás daquelas pálpebras esforçavam-se para me conquistar, o que aliás já havia acontecido, de certa forma. Isabel tinha o hábito de olhar fixamente para o rosto da gente como se fôssemos a primeira alma que encontrava que se parecia remotamente com a dela. E aquela voz! Deus usava a voz aristocrática de Isabel para mostrar sua impessoalidade e sua inteligência: tudo o que faltava nela era compensado por seus ditongos. Um esnobe se derreteria ao ouvi-la. Eu estava encantado... rs. Se me demorei um pouco na descrição de Isabel, é porque ainda estava em estado de choque depois daquele beijo, quando ela me perguntou: ---- Você vai ficar aqui em Brasília até quando , K(?) ----, há muito tempo que eu acreditava no longo braço das coincidências; na verdade, chegava a pensar que sempre devemos estar prontos para elas quando ocorrem fatos extraordinários, demoníacos ou angelicais. ----- Na verdade, estava pensando em ir embora hoje mesmo(: estou há muito tempo longe de casa, e cansado(: só vim mesmo dar um alô para Renata(: passei um tempão sem responder os e-mails dela, vim tentar me redimir(.) -----, (conceito bizarro que pretendo tentar explicar um dia: tenho absoluta fé em encontros fortuitos. Isabel assentiu com a cabeça , e disse: ----- Chamei Renata para viajar comigo pra fazenda do meu pai, no Mato Grosso, mas ela disse que de jeito nenhum(: quer ir comigo(?) -----, naquele momento, pensei que se eu tivesse uma santa, seu nome agora seria Isabel. Isabel Lareine. Pensei um pouco ( o olhar de Isabel era irônico, os olhos fixos nos meus. ----- Quer saber (eu disse), porque não(?), não conheço o Mato Grosso, à não ser pelos livros de Manoel de Barros, meu poeta preferido(: seria um honra, e com certeza uma delícia, se você for continuar me beijando desse jeito até lá (.) ----, ela se levantou da cama, antes que acordássemos Renata (o que foi um alívio: agora já não precisávamos nos olhar constantemente nos olhos: sua coxa, porém, que tinha parado a minha frente, estava agora encostada na minha boca: um objeto de carne sinuoso, macio e quente; sua carne tinha o tipo de passividade núbil que pedia para ser explorada: ----- Acho que não estou com uma boa aparência, né(?) bebi demais ontem à noite(: pois bem, que tal agora acordarmos Renata e conversarmos civilizadamente sobre assuntos vitais(?) ----, sim, mas por favor, que Renata não nos levasse à mal ou então viesse ao Pantanal conosco. Quando Renata acordou, eu e Isabel estávamos muito sem jeito de tocar no assunto com ela, e evidentemente nos arrependemos, depois, de ter decidido tudo tão rápido. Renata se negou veementemente à nos acompanhar, dizendo que aquilo era literalmente ''programa de índio'' e que enlouqueceria depois de dois ou três dias olhando o nada à sua volta naquela fazenda. No mais, não nos recriminou, e aceitou resignadamente nossa despedida naqueles termos, prometendo me visitar em Salvador algum dia. Sim, já sei... é algo difícil de explicar: todos somos contraditórios, mas talvez os escritores sejam mais ainda que os outros (por isso, aliás, são escritores: a escuridão em que narro minha estória é quase total: a noite de 25 de dezembro de 2008 havia baixado na ponta dos pés: no aeroporto de Brasília , havia uma fila longa, muito que esperar e a situação de Isabel era a de uma garota de ressaca. Eu estava confuso, mas extremamente animado ao seu lado. Quando enfim decolamos rumo à Cuiabá, mais ou menos à meia-noite, as luzes de Brasília vistas do alto desenhavam a forma de um avião com longas asas curvas na vasta lousa negra do interior do Brasil , parecendo flutuar no vazio como uma constelação, e depois arremeter , como se manobrasse para partir em relação à posição íngreme em que estávamos no espaço. Era um lugar onde poucos querem estar, além dos políticos em campanha, mas aonde muitos têm que ir. Ao longo do vôo, Isabel acessou seu e-mail e encontrou uma cômica mensagem de Renata, que nos tranquilizou (as batidas de tambor se fazendo dramaticamente tensas em nossos corações culpados até chegar àquele ápice redentor. A mensagem de Renata dizia o seguinte: ''ISA, VOCÊS DOIS AGIRAM COMO DOIS PERFEITOS FILHOS DA PUTA COMIGO, MAS QUERO QUE SAIBAM QUE NÃO GUARDO RANCOR. JÁ FIZ ALGO PARECIDO COM ELE E A VIDA É CURTA DEMAIS PARA ISSO. AMO VOCÊS(.) ''. Aquilo me fez lembrar de como perdi um dos últimos amigos verdadeiros que ainda tinha na vida: afinal, sua esposa me encontrou quase sem um único tostão no bolso num bar da Lapa, no Rio de Janeiro ( a primeira vez que ela me via em quase cinco anos; me deu um emprego de motorista na sua agência de turismo, me levou pra cama debaixo do nariz dele, retomando assim as românticas possibilidades que havíamos começado naquela noite em Juiz de Fora, MG, e depois me motivou com todo tipo de mimos até eu imaginar um modo seguro de convence-lo de que nada tinha acontecido, apesar dos boatos. Tendo me recusado, limitei-me a testemunhar contra ele (depois) na ação de divórcio (havia uma bolada em jogo) , jurando perante a lei (e em parte era verdade) que ele tinha me pedido para testemunhar contra ela em troca de uma boa soma. Acrescentei em juízo que ele me havia proposto levar sua esposa à uma casa de praia em Cabo Frio, RJ, onde tinha tudo preparado para um flagrante, com um detetive particular e um fotógrafo. ----- Renata também (disse Isabel) tem um dom inato para as ''boas maneiras'' (risos), como você ela também diz as coisas como elas são(.) ----, naturalmente, Isabel estava querendo insinuar alguma coisa ironicamente. ----- Você não imagina como já tentei dar as pessoas uma idéia poética do que significa ''boas maneiras'' (.) ----, ela riu, com o prazer demonstrado pelas pessoas que passam a vida rindo alto quando estão sozinhas, como eu, e se havia muita solidão naquele riso, havia também uma extraordinária individualidade, forte e superdotada como a de Rimbaud, desenvolvida até alturas perigosamente megalomaníacas, como se não importasse o quanto as outras pessoas pudessem ver dos defeitos e armadilhas que haviam em seus encantamentos. A verdade é que todos caíam encantados num primeiro momento, e só depois ficavam ressentidos. Entendia perfeitamente a questão.. . rs. Mas a liberdade de ser absolutamente o que se é valia todo o resto. Quando ela terminou aquele riso, e eu comecei a imaginar o que poderia ser tão divertido, ela disse: ----- Já que você, eu e Renata trilhamos esse curto caminho juntos até há pouco, vou ser breve(: o que você acha dela como escritora(?) -----, falou com expressão de entusiasmo, como se estivesse propondo o roubo de um diamente da Coroa Britânica. ----- De verdade(?) um DIÁRIO de uma garota de dezenove anos, nada mais (.) -----, ''naturalmente'', completei, e ela observou: ----- Você acha que a literatura ainda tem algum sentido(?) li recentemente numa revista um artigo batendo nesse ponto, que a literatura havia de certa forma morrido, que não tinha mais sentido(.) ----- Quê(?!) ---- Perdão (eu disse) mas o autor desse artigo quem era (?) um operário de construção civil, um metalúrgico ou jogador de futebol(?) certamente o que vem ganhando destaque no campo literário hoje em dia é de qualidade bem ruim, mas a Alta Literatura, a Literatura Culta e Vertical, Iniciática e Temida, não tem nada haver com isso(: seguiremos escrevendo um livro atrás do outro, indiferente às ruínas da cultura celebrada nos jornais e revistas, e os eunucos da crítica literária analmente estabelecida que bufem(!) -----, quanto mais desimportante o assunto era para mim, mais demoradamente Isabel parecia querer abordá-lo. ----- Não, claro que não(: era um escritor 'renomado' (.) dizia que a literatura tinha se tornado um tipo de mistificação narcisista(.) ----, sei, de outro modo, minha própria auto-importância pesou sobre mim naquele momento, e eu disse: ----- Diga-se de passagem, já estou farto da palavra desmistificação, que muitos crêem que é o mesmo que ''desmitificação'', como se MITO e FALSIFICAÇÃO fossem a mesma coisa (: isso começou com os teóricos marxistas da União Soviética e o realismo socialista, falando que era preciso ''desmistificar '' a literatura (: e à eles, quem os desmistifica(?) ----, estava claro, depois de um ou dois minutos, que Isabel deixava a opção de comentar a idéia inteiramente a meu cargo. Tentei desenvolve-la um pouco, até sentir sono, mas foi ela quem acabou dormindo: ----- É explicável que a ânsia de absoluto, a vontade de poder, o impulso à revolta, a angústia ante a solidão e a morte são problemas universais, e não mistificações da podridão burguesa(: a totalidade do homem inclui esses problemas, e ela só pode ser alcançada pela Literatura(: diga-se de passagem de novo, isso não é dito apenas por solistas de saxofone literário como eu, mas inclusive por marxistas do porte de Kosik (: todos os filósofos, quando quiseram tocar o absoluto, tiveram de recorrer à alguma forma do MITO ou da POESIA(: pense nos mitos de Platão, ou lembre-se de Hegel recorrendo aos mitos de Don Juan e Fausto para tornar perceptível o drama da consciência desgraçada(: dos existencialistas, nem se fala(!) -----, quando terminei de falar, Isabel estava dormindo reclinada na poltrona do avião. Comecei a rir sozinho. Tinha que rir. Achei que, quando terminasse de falar, Isabel Lareine seria mais delicada comigo do que tinha sido com Renata, mas talvez tenha sido uma ilusão (CORTA ----- O Aeroporto Internacional Marechal Rondon está situado em Várzea Grande, a oito quilômetros do centro de Cuiabá, capital do estado do Mato Grosso. Eu e Isabel não trazíamos mais do que nossas mochilas entupidas até a boca, inclusive com meu quilo de ouro e três ou quatro baseados. Passamos por duas grandes obras de arte, no interior do aeroporto, mostrando um índio e a outra uma arara-azul (típicos do Pantanal: entramos rapidamente num táxi, sentindo um opressivo bafo quente pesando sobre a cidade e nossos corpos ( eram duas da manhã e Isabel queria ir até o condomínio da sua família, entrar na garagem e pegar um dos carros do pai sem nem ao menos subir para falar com os parentes (clima tropical e úmido, UFA!, o ar condicionado, a corrida do táxi não foi exatamente rápida , embora eu não seja capaz de reconstituir o trajeto do aeroporto até o bairro Jardim das Américas, talvez o metro quadrado mais caro da cidade, rente às avenidas Fernando Corrêa da Costa e Miguel Sutil, a mais importante da região metropolitana (ou não). As ruas daquele bairro (reparei) tinham todas nomes de capitais da América do Sul, como Rua Buenos Aires, Rua La Paz, Rua Caracas, etc. Praticamente só se via mansões modernas e condomínios residenciais de luxo, além de um enorme Shopping Center. Ainda devia ser umas duas e meia da madrugada, quando entramos no condomínio onde ficava a casa (nada modesta) da família dela: os carros ficavam em frente à casa, que tinha um formato modernista interessante, com imensos quadrados de vidros enfiados uns nos outros, formando três andares. O carro que Isabel abriu com um clique no chaveiro que tirou do bolso era um Chevrolet Captiva 2.4 16V., desses que vem do México e são vendidos em versão única no Brasil. Quando entramos no veículo, o ar- condicionado já estava ligado e eu reparei que o velocímetro só ia até 180km. ---- Sei o caminho até a fazenda do meu pai em Poconé de cor, mas é você quem vai dirigir (.) ----. Isabel disse. ---- Tudo bem(.) ----, respondi. Dirigi durante quarenta minutos com ela dormindo ao meu lado e decidi parar num posto de gasolina, na saída de Cuiabá, para fumar um cigarro, um baseado e tomar um café preto, forte e sem açúcar. ---- Fala sério, K(: se você continuar cantando essa música brega durante a viagem eu vou acabar me atirando do carro em movimento (.) ----, hehe: ''Ela mora em Mato Grosso fronteira com o Paraguai'', de Jorgebenjor (https://www.youtube.com/watch?v=drtTBC7JG8U) . Eu estava curioso, sedento depois do vôo, do táxi e daquelas poucas manobras na estrada, e me ocorreu que não entrava num bar desde aquela noite no Widow´s, em Anápolis. Isabel ficou assustada ao perceber onde eu tinha escolhido parar. Disse que o bar Peixe Frito tinha sido recentemente rebatizado de Balde de Sangue, em homenagem às brigas que sempre aconteciam ali de madrugada; um bom bar, eu pensei, no entanto, mas talvez não ótimo, pois nada tinha da impetuosidade da classe trabalhadora, o que muitas vezes torna os tira-gostos únicos e viscerais por pressão psicológica do proletariado sobre o dono (a burguesia) do estabelecimento. O Peixe Frito se limitava a ser escuro e sujo o bastante para que todos os viajantes em trânsito se sentissem à vontade: a maioria parava ali só para cagar e fumar um cigarro, mas podia-se beber cervejas e vodka confortavelmente instalado como um feto dentro de um útero. Poucas lâmpadas fluorescentes, no fundo, e uma velha jukebox fraca demais para atormentar os ouvidos dos fregueses. Fui até a máquina de música e procurei a ''pérola'' hilariante de Jorgebenjor, não tinha. O bar estava cheio (mesmo sendo de madrugada) porque era verão: ---- Não quero ferir seus sentimentos ou fazer você se sentir culpado, mas acho que você não compreende a Renata muito bem (Isabel disse): ela finge não dar a mínima ao que o mundo pensa dela, mas posso garantir que ela é a própria matéria-prima básica de que são feitos os estandartes da sociedade (: só é orgulhosa demais para subir os degraus comuns, então finge não se interessar muito por nada (.) ----, o café estava ótimo, como calculei que devia estar pela entrada arruinada do bar, e foi servido por uma felina mameluca de vinte e poucos anos, como a da música. Naquele momento, Isabel me fez pensar na primeira festa a que levei Renata, logo que a conheci em São Paulo (disse que eram amigos meus, mas menti: fiquei sabendo da festa pela internet, na última hora: assim , levamos apenas bebidas como Acapulco Gold e Jamaica Prime. A lua estava cheia e Renata estava desconfiada, antes da festa (sempre ficava nervosa antes de uma festa) , mas acabou sendo a própria vida daquele casarão alugado por playboys. Mal tinha perdido a virgindade, e já se considerava uma pecadora desesperadamente perdida, com simulação de hábitos auto-destrutivos harraigados há anos: a inquietação dela, por viver em São Paulo , era tremenda. ---- Eu a vigiei muito bem (disse Isabel), sei de quase tudo que ela andou fazendo em Brasília no último ano (: algumas pequenas obras de arte erguidas para o demônio, meu caro(: nem te conto(!) o pai dela tem razão de querer contratar um zelador para cuidar das glórias vazias dela (.) ----, comecei a rir de novo. O nublado amanhecer encontrou-nos intactos, saindo do Peixe Frito´s Bar, livres para limpar a garganta e os olhos dos resíduos de fleuma noturna e arrastar o entusiasmo da estrada. Poconé ficava à 100 Km de Cuiabá, e a estrada era bem esburacada (enormes retas quase sem veículos) nenhum galo ainda se arriscando, apesar da Transpantaneira se abrindo à cada segundo em seu vasto buquê de pássaros, jacarés e outros bichos. Portão de entrada do Pantanal: estávamos em cima de uma enorme pedra branca que o Rio Paraguai, lá embaixo, bordava e lambia; em todo o percurso havendo dezenas de pontes de madeira, algumas em péssimo estado, ou mesmo apodrecidas, principalmente após o Km 80 da rodovia. ---- Você tem carteira de motorista, K(?) ----, Isabel perguntou, colocando pra tocar um disco de Chet Baker que parecia trilha sonora de filmes da Disney, Chet Baker and Strings, belíssimo, mas que tinha a única função de me fazer dirigir mais devagar. ----- He he(... claro... QUE NÃO(!) ----, ela engoliu em seco, primeiro, só depois começou a rir. ---- Fui reprovado no psicotécnico, aos vinte e um, e nunca mais tentei (: ''um homem corajoso, enfrentando com dignidade sua derrota''(: nada mal, hein(?) kkkkkk(!) ----, ela ria, mas finalmente disse: ----- Você não prefere passar o dia num hotel, hoje(?) amanhã vamos para a fazenda(: de repente (risos) me deu preguiça de sacolejar na estrada de chão até lá(.) -----, nos hospedamos num hotel às margens do rio Pixaim, que na verdade é um lago sem afluentes que se enche formando um rio com correnteza na estação chuvosa. O atendimento do hotel era extraordinário, à ponto dos garçons tirarem côco do pé na hora para nos servirem na beira da piscina, logo às nove da manhã: R$ 190 para duas pessoas com pensão completa e um passeio de barco. Por Deus,nada mal mesmo! A internet funcionava até no meio do rio, as águas esticadas de rãs até os joelhos, com um rumor de útero vegetal nas várzeas que nos repercutia intensamente sobre o ondulante e interminável planalto do Mato Grosso. O céu, ali, havia-se tornado imenso, como se Deus desse um suspiro de alívio e desistisse do intenso labor da Criação, contentando-se com a mata rente ao rio e os inumeráveis rendimentos extra-sensoriais do silêncio. Ali, nos monótonos matagais alternando-se com fiapos de rios escuros, o homem retomava sua posição no oceano de faminta proteína animal, no delírio intocado e espumante de empeixados rios cor de chumbo. ---- Quase duas horas de passeio em lombo de água(!) ----, exclamei, saindo do barco para a prancha de atraque do hotel, de mãos dadas com Isabel. ---- Deu para aproveitar a paisagem e a luz na água(?) você tirou poucas fotos (.) ----, ela disse ----- Mas foram umas fotos e tanto, minha flor(: o verdadeiro fotógrafo é como o Arqueiro Zen do livro de Eugenie Eriguel, só dispara quando tem certeza, quando ele e a paisagem se fazem uma coisa só(.) ----, a lancha apitou em despedida, um cheiro de curral exalando por perto; animal que desse pêlo por ali, bentevi vinha cagar em cima dele. ---- Portão de entrada para o Pantanal(.) ----, eu disse, vendo insetos compostos de paisagem se esfarinhando na luz do meio dia, contra a língua ácida do repelente e protetor solar. Depois de quase quatro horas seguidas na piscina, comendo iscas de peixe e bebendo batidas de todas as frutas exóticas imagináveis, Isabel Lareine deslizou para o meu lado na cadeira de praia: estava bêbada, o que me parecia raro, e animada, o que me parecia mais raro ainda. ----- Nós dois ainda não fodemos, K(.) ----, ela disse, e eu me inclinei para beijar seu biquini na altura da ponta do seio. ---- É verdade (: mas nós dois já trepamos com a Renata (: a propósito, sabe porque existem dois sexos(?) a reprodução sexual é um método elegante de garantir máxima diversidade biológica, mas separar o fluxo de energia em feminino e masculino sempre me pareceu uma forma de isolar à todos nós da intrincada dança de energia e atração que podemos sentir por árvores, flores, pedras, mares, um livro ou uma pintura, um soneto ou uma sonata, ou uma estrela distante, etc(: pois a energia erótica inerentemente gera e celebra a diversidade e a religião da Deusa, em seu âmago , é precisamente a Dança Erótica da vida atuando através da Natureza e da Cultura(.) a obra do poeta Manoel de Barros é um exemplo cabal (torneiral) disto (.) -----, o que eu dizia combinava com o hotel onde estávamos; fiz questão de rir e abraçar a cintura dela, e os olhos negros atrás dos óculos fixaram-se nos meus com um brilho distante e elétrico (aquele cheiro de sol na boca desejante de uma fêmea prestes a se abrir em flor, o ermo à nossa volta se tocando em sanfona. ---- Não (eu disse) ainda não trepamos, vamos subir(.) ----, a melada boca iluminada pelo sol tinha agora uma expectante fragilidade: a idéia estava mesmo molhando a beira da calcinha do biquini dela. Deixamos para trás a piscina do hotel e subimos para o quarto, as cortinas claras caindo na sombra da cama como cristais brancos da espuma de um rio. O passo de Isabel tornou-se lânguido e hesitante quando paramos para nos beijar e acariciar, enfiando a mão sob o biquini dela para arranca-lo da pele receptiva ( pela janela do quarto, víamos plantas de todo tipo, e a mata atrás do rio, árvores de enormes folhas protetoras entremeadas com esparto em luminosa floração, como lírios; o rio Pixaim derramando-se e destramelando-se à toa. ----- Depois vou escrever à Renata dizendo que você não sabe distinguir direito entre uma bunda e uma xota(.) -----, Isabel disse, dobrando o joelho na cama à minha frente. Dei um soluço de riso, e disse: ---- Os poetas iniciados em misterios antigos estão sempre repletos de uma intensidade apaixonada, certo(?) ----, e ela me olhou com uma expressão decididamente lasciva. Deitados, podíamos ver o rio pela janela pontilhado pela mata atrás, espraiando-se amoroso como eu sobre as nádegas de Isabel, libidinoso animal de água abraçando e cheirando a terra fêmea, para logo elevar-se numa tromba-dágua estourante, arrombante, carregando barrancos acima do chão, vazando por dentro do suco da buceta, cavando novos leitos a cada estocada e destampo. A vagina dela era para mim como unguento despejado sobre dois doídos dias de espera insone. O leve cheiro adocicado de batida de frutas e cloro de piscina rodopiavam nas minhas narinas expondo meu membro rijo à sua boca e macio ventre nu. Depois de um tempo, voltei a beijar sua nádega esquerda e ela encolheu-se instintivamente, sentindo a intenção séria no domínio das minhas mãos sobre seus quadris. Eu era um rio transbordante cujos estragos agora compunham uma paisagem de carne feminina derramada na cama, instaurada numa química pantanosa, de cios e gosmas adesivas em ebulição.
“O caminho para a liberdade algumas vezes é um sussurro no ouvido''.
Para Don Miguel Ruiz, nome de peso da Toltequidade, ''mitote'' é o nome de um barulho ensurdecedor que ouvimos o tempo todo na nossa cabeça, as vozes das pessoas da sociedade, com suas falsas certezas e seus preconceitos, que aprisionam o indivíduo. Carlos Castaneda falava em “parar o diálogo interno”, o que leva a “parar o mundo”, isto é, mover o ponto de encaixe da percepção para fora da estreita faixa de atenção na qual ela se encontra aprisionada pelo ego e a auto-reflexão. É o primeiro passo para liberar os excedentes de energia presos em nós, necessários à iniciação autêntica. Todo incremento de energia psíquica te tornará uma pessoa mais inteligente e saudável.
''Não temais!
Don Miguel Ruiz propõe a obtenção da felicidade, pela liberdade em relação ao diálogo interno, libertar-se do mitote. Para isso, suas técnicas se baseiam em quatro compromissos: 1 - Ser impecável com sua palavra; 2 - não levar nada para o lado pessoal; 3 - não tirar conclusões; 4 - sempre dar o melhor de si.
----- Gostei muito do que li (eu disse à Renata ---) , sinceramente (: você sabe mesmo examinar ''superfícies'' de forma minuciosa, como John Updike (: adjetivos exigem precisão, e além do mais, John também era pintor, como você (: a publicidade alimenta-se de adjetivos(: ''uma nova embreagem super-eficiente, silenciosa, sensual, com cinco velocidades, etc'', coloque vinte adjetivos na frente ou atrás de um nome e ninguém vai saber que estamos descrevendo bosta de cachorro (: e pelo menos uma única vez na vida (tenho essa teoria) um escritor (a) deve ser capaz de guiar seu leitor ao interior de uma vagina (o aveludado do mel na junção fechada da colméia, etc) -----, Renata nao se deu por satisfeita com meus cometários, e disse que eu me escondia atrás daquela 'embromação' , só para não ter que emitir um verdadeiro juízo de valor sobre seus DIÁRIO. ----- E você já guiou seus leitores ao interior de alguma (?) ----, ela me perguntou ,ainda contrariada. ----- Você já leu algumas coisas que eu escrevo, certo(?) ----, respondi. Apesar de tudo, trepamos, à princípio com Renata de quatro , as magras nádegas empinadas parecendo lisos e oleados arcos de mármore italiano, e depois com ela por cima, eu recostado no travesseiro contra a cabeceira acolchoada da cama (os lábios roçando o mamilo esquerdo no círculo rosa toda vez que o seio passava pelo meu rosto; ela subia e descia, um cilindro no meu pistão. Demorei um pouco a gozar no pegajoso envolvimento da camisinha , e quando consegui, Renata deu um sorriso de satisfação quase profissional. Quando ela saiu de cima de mim, ouviu-se um pequeno som de sucção num dos cantos de mínimos pêlos, e ela disse: ---- Você leu no meu DIÁRIO, mas não sei se ficou claro(: recentemente , acrescentei um romance lésbico ao meu currículo(: delicioso e reconfortante, mas um pouco sem fibra(: e ela vai estar aqui amanhã(: sabe, acho que isso me ajudou a perceber o que os homens de fato vêm nas mulheres, ou não(..) ----, eu não estava certo de que acreditava na história dela, mas assenti com a cabeça e disse, só por dizer: ----As mulheres são energia divina(: sem Shakti, Shiva é só um cadáver(: as mulheres realmente tentam o peregrino a descansar da busca e por essa razão que os homens santos revelaram , ao longo da história, a tendência à evitá-las(: os homens santos, não os DEUSES(: Zeus, Cristo, Buda adoravam as mulheres, e praticavam moderadamente a FODA tântrica com elas, ao contrário dos seus seguidores- filósofos (: nesse momento, por exemplo , estou imaginando as diferenças entre as descrições que fiz de tantas vaginas e essa na qual estou pensando agora (: e uma vez que ela está aqui ao meu lado, tudo que tenho a fazer é estender a mão direita e sentir com a ponta dos dedos o úmido objetivo correlato (: e se tento descrever mentalmente a sua agora com palavras escolhidas, crio um padrão único de prosa na grande praia da literatura culta(: assim, eu não perderia tanto tempo na descrição dos mínimos pêlos em volta da sua, escuros contra o branco da sua pele (: e ela tem uma pequena boca rosada dentro da boca maior (flor arquejante no orvalho dos seus calores, que, quando excitada, parece crescer pra fora das nádegas, enquanto a pequena boca permanece rosada, por mais que você escancare as pernas ( a grande boca fica coberta de secreção oleosa, e o períneo é uma plantação cintilante (fico sem saber se como, devoro ou apenas me estabeleço nela tantricamente (: não me movo, por um instante, apenas você, e bem devagar(: seu abdômen, seu útero é você(: muitas mulheres sentem vontade de rasgar as costas dos homens com as unhas, ao fazer sexo lentamente (: toda essa gama de prazeres saponáceos, untuosos e lúbricos é fruído mais nitidamente, em câmera lenta(: sua avidez, sua busca pelas trigueiras ambições do Cosmo (: e só Deus sabe por meio de que desígnios do Carma meu prazer foi realizado pelas suas entranhas agora há pouco(: sua vagina se tornou mais real para mim do que seu rosto (.) -----, Renata olhou para mim como se perguntando se eu seria realmente capaz de escrever essas coisas a seu respeito . ----- Talvez eu não seja tão boa para retribuir à altura, e saber descrever com justiça e arte o que realmente estou sentindo (.) estou me sentindo bastante bem fodida(: você estava necessitado, hein(?) não tinha mulher no garimpo(?) ----, ela perguntou, por fim, e subitamente os portais dentro da minha memória despejaram uma luz elétrica doentia num amontoado de pessoas adormecidas no chão entre trouxas e bagagens: aquela rodoviária de São Paulo parecia um focinho, naquela noite, cheirando o vasto interior do país, esticado até a borda da metrópole: na noite em que fui embora de São Paulo , a rançosa umidade do sono humano elevou-se dentro do piso, em meio à cabeças cansadas numa dança de torções: os caipiras haviam enchido os desvãos por trás de escadas e bagageiros: o que à primeira vista me parecia cantos cheios de lixo revelou-se serem pessoas adormecidas cobertas com sacos, jaquetas e jornais, como proteção contra as luzes intensas e piscantes. O guichê, naquela madrugada, iria abrir em uma hora, e a fila já era longa. Nela, viajantes de terno amassado e estudantes de sandálias, barba, rabo-de-cavalo e camisetas com foto de Che Guevara misturavam-se aos caboclos e sertanejos pobres do interior, que tinham sido atraídos para São Paulo como cães famintos à carcaça já comida de um boi. ----- Na noite em que nos despedimos, eu nem sabia direito pra onde ir(: as prostitutas são apenas mulheres negociando um produto de mulher, uma situação de mercado(: as rainhas da sociedade, as Grace de Mônaco, apenas negociam em condições diferentes(: kkkkkkkk(!) brincadeira, não penso assim, de jeito nenhum(.) ----, eu disse, rindo. Talvez ela já não estivesse me levando à sério desde o começo. ----- Isabel não é uma prostituta, K(.) e da última vez que eu a vi, na semana passada, ela estava com uma aparência fantástica, de jeans lilás e jaqueta de brim tingida para combinar com a calça e um lenço lilás no pescoço, como um para-quedista inglês (: agora, ela passou a fumar cigarros coloridos numa longa piteira de marfim e sua cabeleira continua espetacular e flamejante; olhos pretos como petróleo e uma pele leitosa, ligeiramente sardenta, que me enche de tesão, quando ela diz que ''não existe vida inteligente no Brasil desde que Gilberto Gil parou de fumar maconha''(.) ----, bem, de certa forma, Renata estava me preparando para a noite seguinte, quando aquele apartamento de político se transformou no epicentro rabelesiano de um Natal tecno-xamânico de primeira linha: como poderei jamais abrir essas palavras para libertar seu significado original e ainda em potencial? Todas ainda estão aqui comigo em sua própria hora e ao mesmo tempo: é uma questão de suprema indiferença para mim se a doce garganta vociferante era ainda a dela ou já a minha; e aqui, agora, deixe a palavra soberana alcançar sua soberania. Não importa mais de quem seja o quê: todas as partes são UMA, e eu junto-me à elas , e ponto (s) (é assim... que os sons se dispersam numa página como essa. ----- Ah, não (: NÃO (.) ----, positivamente (ela disse: ---- O quê(?) ---- (perguntei) ---- Positivamente isso foram passos do lado de fora, no corredor (.) -----, de fato. ---- Agora alguém está mexendo na porta (.) ----- (tio Estênio!) ---- Nossa, K, que é que eu faço(?) -----, de fato. ---- Ele está entrando (: rssss(.) ---- (sons amplificados de batidas e arranhões como se uma gaveta fosse aberta e fechada várias vezes; conversa subsequente fraca e aqui transcrita com dificuldade; voz masculina alcoolizada grifada abaixo como 'anteriormente': ---- Perdão (tio Estênio disse), acordei só para fumar um cigarro e dormir de novo, mas acabaram os meus (: será que podiam me arrumar alguns(?) -----, Renata concentrou toda sua ternura na voz e rolou alguns cigarros até ele, rindo ( ri também: quando ele bateu a porta, ouvimos um tropeção do lado de fora (ela ria, ria (CORTA ---- Dormi bem, e profundamente como uma pedra, mas juro que ao acordar (às 05:37 da manhã) eu tinha certeza absoluta de que era uma das primeiras pessoas de pé naquela hora num raio de quilômetros, de modo que experimentei a cena com a qual me deparei na sala do apartamento como uma desconcertante visão mística, apocalíptica, que anunciava como uma trombeta ensurdecedora o que seria nossa noite de Natal. Acordes de violão suaves; duas vozes completamente bêbadas, agudas e fracas, desenhando no ar algo parecido com uma melodia de samba antigo. No sofá da sala, só de cuecas, tio Estênio (ele não tinha dormido) segurava um violão apoiado numa coxa incrivelmente magra e peluda, enquanto na outra havia a cabeça de uma loira precocemente envelhecida e borrada de maquiagem, esticando o pescoço para ler uma letra de música num encarte de vinil, na barriga flácida dele. ---- Bom dia (.) ----, eu disse, estupefato, e imediatamente ele me saudou com os versos iniciais do famoso samba de Ismael Silva: ---- ''É necessário uma viração pro Nestor / Que está vivendo em grande dificuldade'' ( ----- eu ria; ainda protegendo o rosto com o encarte do vinil, a loira começou a silvar, um ruído estranho, que saía por entre os dentinhos amarelados virados para dentro, até saírem as primeiras palavras: ----- ''Ele está mesmo andando na corda bamba'' (.) -----, ela disse, completando a canção, e apontou o tio Estênio com o polegar, rindo. A resposta dele foi uma histriônica expressão vazia. Porém, ela (Luciana) prosseguiu: -----Você tinha um emprego babaca de jornalista num grande jornal do país, e virou um cara tão frouxo que não conseguiu mais nem sequer segurar o traste da sua ex-mulher (.) -----, tio Estênio parou de dedilhar o violão e a agarrou pelo pulso, que era frágil como giz. Senti que, mesmo no tom lúdico daquela discussão, ele teve vontade de quebrá-lo, ou senti-lo estalar duas ou três vezes, doídamente, e depois manter Luciana absolutamente imóvel e muda em seus braços , durante meses (falando sem parar nos ouvidos dela) até o pulso dela ficar bom. ---- Escuta aqui, eu ainda ganho meu próprio dinheiro como ''frila'', milhares de reais de cada vez, e é esse dinheirinho que vem sustentando você e eu (: mas se por acaso você quiser voltar a viver às custas dos seus amigos da esquerda caviar, pode ir (: aliás, estamos no apartamento de um deputado da base (um líder do partido(: pode ir, vá embora, ou espere meu irmão chegar e capriche na língua(: quanto à minha ex-mulher (deixe ela em paz!, ela dava o rabo melhor do que você me dá a buceta (.) -----, para mim, era indescritível o ar cômico e experimental com que eles discutiam diante de mim (tinha certeza que só estavam falando daquele jeito por que tinham à mim como platéia: ---- Dar o rabo pra você não é vantagem , pelo menos ela não tinha que olhar pra sua cara(.) ----, o tom de Luciana era tranquilo, apesar de tudo, tranquilo e superior. ---- A propósito, esse é o K(: K, essa é a Luciana, minha namorada (: o K é o mais novo ficante da minha sobrinha, conheci ele ontem e fiquei sabendo que ele é garimpeiro e escritor(: no mínimo, um tipo em extinção, hein(?) -----, tio Estênio disse, e a discussão com Luciana subitamente se desintegrou o ar. Ela se levantou e veio me cumprimentar: ----- Raro mesmo, comparado com essa putada esquerdista acadêmica de hoje(: eu tenho nojo dessa garotada rica e tagarela , tanto dos seguidores acefalados do Olavo de Carvalho , quanto dos acadêmicos, quanto dos que ficam jogando pedras nos pobres dos policiais (: esses babacas vivem protegendo a grana que os pais desses riquinhos juntaram passando o proletariado pra trás(.) -----, de novo, após ela concluir, o tio Estênio apertou-lhe o pulso de giz com mais força, enquanto falava: ---- Ah, olha pra você, Luciana(: você é já um bagaço amargurado, menina(: quarenta anos de idade e já virou um bagaço(: já provou de tudo, não tem mais medo de nada, hein(?) e não compreende mais porque as coisas estão tão mortas, no mundo (.) porque toda inciativa polítizante rapidamente se torna patética(.) no seu ex-petismo de rebanho, você acreditou que ia mudar a porra do mundo(?) com todo esse medo de mudanças disseminado no povo(.) o próprio Lula chegou ao poder dizendo que não mexeria muito em nada(.) com toda essa paralisação de classes-médias sem finalidade, segmento aderido à burguesia ou defecado por ela, um pouco mais embaixo, reduzidos à função de objetos inanimados (.) -----, agora, ele lhe aperta o pulso até imaginar as silhuetas dos ossos se curvando, e ri. ---- Chega de medo, então(: vamos tentar o amor, pra variar(.) ----, Luciana diz. Tio Estênio responde, súbito: ----- Então é melhor você procurar outro universo(: a lua é fria, menina(: fria e feia, aqui (: e se você não está a fim de olhar fixo essa feia lua em forma de foice, os petistas estão(: eles não são tão sensíveis quanto você(: para eles, a lua é uma COISA, como voce e eu (no máximo, o abismo entre Estado e Sociedade(: eles governam apenas o poder, não o país(: um triste amanhecer que nunca alcançará a plenitude do meio- dia(.) ----, e assim, com uma risada sem graça, Luciana continuou esfregando os pulsos, a mão ligeiramente doída. Fisicamente, aquele casal me fascinava como uma única criatura bicéfala saída de um filme de terrorismo dostoieviskiano: fiquei parado , imóvel, diante deles. Sem concordar nem me mexer, eles olhando pra mim em busca de algum indício de posicionamento: ora! não acreditem em mim, senhores: sou um poeta de esquerda, de direita ou de centro, de acordo com quem eu esteja conversando: ''Hypocrite Lecteur, je suis un Hypocrite Poète''. Participar seriamente do debate político de hoje em dia, pra mim, é aceitar a condição abjeta de COISA . Os olhos de tio Estênio estavam fundos e brilhando como radiação (Meu Deus, pensei, ainda são só 06:30 da manhã). ----- Deixe eu pegar mais uma cerveja (: você aceita uma, K(?) ----, agradeci, mas disse que guardaria forças pra noite de Natal . ---- Quero chegar vivo, obrigado(: não foi Jesus quem disse: ''Nosso Deus é um Deus de vivos, não de mortos(?) ---- eu falei, e acendi um cigarro. Aquela falação parecia que não teria fim tão cedo: ---- Sob qualquer ponto de vista, só há degradação e coisificação sob o governo do PT(: tampouco acredito que o PSDB faria algo melhor(: incapazes de comandar uma vasta empresa cultural , única coisa capaz de desenvolver uma nação, toda essa farinha do mesmo saco (PT e PSDB) seguirá girando em torno de 'minorias aristocratizantes' do aparelhamento estatal, em cima, com a atuação desorientada de uma classe-média amorfa e medrosa, embaixo(: o resto simplesmente não conta, não existe(: o Estado jamais deixará de ser um ''núcleo colonial'' inflado com os hormônios da corrupção e um vasto rebanho de tecnocratas autômatos em perpétuo retrocesso(.) -----, de fato, eu comecei a rir na janela, depois que o tio Estênio disse aquilo e comentou que Luciana trabalhava com moda (---- O quê?!) ----, perguntei, achei que ele estava de sacanagem: não conseguia imaginar uma criatura humana mais desprovida de estilo no mundo: ---- A propaganda seguirá a mesma, para sempre(: falando no nego graduado e feliz, comendo melancia diante de um tablet, e agradecendo ao Sinhô Vermelho e Barbudo (que não é o Papai Noel) por impedir que algo diferente e assustador (como um paradigma cultural elevado) venha estragar seu plano existencial bovino (: porque nem Jesus disso isso pra eles, porque o Jesus que eles inventaram aqui é o Jesus mais sacana que Deus já soltou nesse mundo(: é o Jesus do medo, eis tudo(: eu tenho medo de você, você tem medo de mim, a Luciana tem medo de nós dois , e a pobrezinha da Renata tem tanto medo de tudo que é bem capaz de se afundar nas drogas pra se esconder desse mundo horroroso se a gente não proteger ela direito, caro K(.) e como disse Hitler: ''O cristianismo que resta por aí é só uma religião de maricas'' (.) -----, seguia ouvindo em silêncio o tio Estênio, afagando a testa, tentando apagar aquele zumbido que talvez surja na cabeça dele de vez em quando. Era sem dúvida um homem inspirado por um estranho tipo de entidade. Continuou: ----Nesse livro aqui ----, ele disse, tirando um livro de uma mala de couro no sofá, chamado Los Deshabitados, de Marcelo Quiroga Santa Cruz , o maior parlamentar boliviano do século XX, que morreu assassinado em função da violência das suas críticas ao regime---- Esse livro aqui resume bem o que estou dizendo(.) ----, era por sinal um romance que eu admirava, talvez o melhor fruto do modernismo literário boliviano: nele, os personagens se caracterizam pela incapacidade de exercitar a função humana de produzir e desenvolver uma sociedade, em meio à acontecimentos políticos anômalos que refletem a intranscêndecia do cotidiano dos cidadãos. Ele prosseguiu: ---- Aqui, Quiroga Santa Cruz mostra um sistema dissolvido em movimentos sem sentido de corpos que vagam pela cidade desolada, retratando fielmente o comportamento desequilibrado das classes-médias pós revolucionárias de 1952, na Bolívia(.) ----, de fato, aquilo me motivou a participar mais ativamente da tagarelice matinal: ---- Certamente, e um retrato fiel do que vem acontecendo no Brasil desde 2002, devido à intensificação do esgotamento cultural sob o governo do PT(.) ----, o tio Estênio, agora, estava tentando gargalhar com cerveja na boca (que estranho! ----- Porra, isso é demais (!) grande K(!) aprazíveis despojos de uma guerra perdida, certo(?) ----, com o livro colorido na mão, ele olhou pra mim, rolando um cigarro nos dedos, em busca de uma réplica: ---- De fato (eu disse) não há saída (: o Sr. me perdoe a economia de palavras, mas acordei meio burro hoje(.) ----, concluí, debruçando-me na janela, sentindo vontade de voltar para a cama, ao lado de Renata , e dormir até a hora da festa de Natal. De repente, emergindo do abraço maciço do sofá, estendendo uma mão fina e trêmula para pegar o isqueiro da mão do tio Estênio, Luciana disse ( em sua voz não havia o mais leve tom de paródia, dessa vez: ---- Sei lá, acho que mais cedo ou mais tarde, alguma coisa vai acontecer, de qualquer jeito(: certamente não serão os negros quem vão soltar as bombas, mas os filhos dos brancos ricos(: não será mais a injustiça batendo em nossas portas, mas o ÓDIO, a IMPACIÊNCIA e a INTOLERÂNCIA (: se você põe a sociedade inteira como ratos dentro de uma gaiola de aço soviético, os ratos gordos ficam mais nervosos que os ratos magros, porque eles é que se sentem mais espremidos e oprimidos(.) ----, he he, sublime piada essa, nunca vai acontecer nada disso: por falar nisso, havia uma intenção notória no livro de Quiroga Santa Cruz para separar o consciente do inconsciente, por reprimir este último e afastá-lo da consciência discursiva e do ''controle reflexivo da conduta'', de que fala Anthony Giddens; assim, os personagens de Quiroga Santa Cruz se viam de fato incapacitados de obter aqueles controles de ansiedade que necessariamente ordenam a constituição da personalidade. A materialidade distorcida da história se atém à falta de confiança que a classe-média tem na continuidade ou não do seu mundo exterior e na manutenção ou não de vagos privilégios, mesclando a tragédia e o fracasso cultural dessa mesma classe-média sem destino com a distorção grotesca de uma ordem social essencialmente perversa. ---- Você tem vontade de saber como um negro de classe-média se sente no Brasil de hoje, K(?) ----, tio Estênio me perguntou. ----- Não muita, rss (.) ----, respondi, rindo , o que suscitou um protesto de Luciana e uma estrondosa gargalhada no tio Estênio. ---- Ah meu Deus, parem com essa idiotice(.) ----, ela falou. ---- Amigos, acho que vou dormir um pouco (: segundo tempo, certo(?) ----, nenhum deles protestou ou ficou ofendido com minha retirada, mas o tio Estênio, na sua incansável agitação bêbada, perguntou de novo: ---- E o que você acha daquele pessoal de São Paulo, amigos do meu irmão (?) ----, não entendi: ---- Que pessoal(?) ----, perguntei: ---- Todos aqueles caras do partido, ou ligados ao partido, vivendo do partido de algum modo(: vivendo naqueles casarões enormes , estilo pseudo-Tudor, da elite branca e vermelha, amarronzada até, verde sei lá, com carrões coreanos parados na frente dos canteiros de hortências(?) aqueles gorduchos que controlam a verba do partido e os institutos de magia negra marxista, que antes eram sindicalistas magros ou donos de firmas de consultorias e agora têm um monte de papéis suspeitos que garante à eles os cargos de confiança, os charutos cubanos e convites para dar palestra para o empresariado ligado à eles por ratearem os grandes contratos públicos (: o que acha deles (?) pense antes de responder, pode ir dormir (.) ----, e eu fui mesmo: ---- Pensarei, alcaide (: salam(.) ----, ''pensarei porra nenhuma'', disse comigo mesmo, entrando no quarto de Renata (CORTA ---- nada de proêmios, prólogos, prefácios e rodeios introdutórios: quando acordei de novo, já eram nove horas da noite, o que me fez suspeitar que toda aquela discussão com tio Estênio e sua namorada tivesse sido um sonho. Renata não estava mais na cama, ao meu lado, quando abri os olhos (tomei banho e passei perfume, antes de chegar à sala e visualizar a figura exótica de Isabel, sentada no sofá ao lado de Renata, conversando com tio Estênio e Luciana (o tom acusador com que ela me cumprimentou fez com que eu sorrisse espontaneamente: na lenta contrariedade com que expôs os dentes perfeitos, ela me olhou novamente, dessa vez impressionada com algo no meu rosto (eu sabia o quê, mas não vou explicar) , e pareceu reconhecer em mim agora um amplificador do seu melhor e mais profundo eu. A testa dela, muito quadrada, era alta como uma barricada erguida acima dos olhos fundos, nadando tristonhamente em seu próprio pretume de piche líquido. Ela estava tentando concluir um pensamento, para o tio Estênio: ---- Acho que o Brasil é não romântico o suficiente, mas só pra ser a bosta que é(: por exemplo, vejam quem foram nossos revolucionários(: um dentista que escrevia maus poemas e o filho regente de um rei procurando manter-se no cargo (: há um certo pragmatismo nisso tudo que lembra os esquemas de corrupção do PT e sua sub-intelectualidade parasitária, certo(?) ----, o tio Estênio fechou e abriu os olhos (vermelhos, estranhamente vermelhos, supus) e só então pareceu me ver ali parado, em pé, afagando a nuca de Renata no sofá. Luciana estava na cozinha, preparando um chester apimentado e comendo os quitutes que Isabel trouxera numa cesta de piquenique. Pelo clarão de um momento, todos ficaram calados, esperando o tio Estênio dizer alguma coisa. No fulgor dos rubros olhos pasmos dele, pareceu duvidar de que me conhecesse. A emoção nos olhos dele parecia um estranho tipo de pânico mudo. ---- Está sentindo alguma coisa, Seu Estênio(?) ----, perguntei, intrigado. Para surpresa de todos, ele disse: ---- Estou me sentindo esquisito(: acho que comi alguma coisa estragada(.) -----, subitamente, Isabel pulou do sofá e exclamou: ----Ah meu Deus, o Sr. por acaso comeu algum pedaço daquele bolo na frasqueira azul (?) ----, Renata trocou um olhar conspirador e sarcástico com Isabel, na outra ponta do sofá, enquanto que junto de Luciana o tio Estênio fitava com olhar vítreo o chão, esperando que o marxismo lhe dissesse o que fazer. ---- Comi(.) mas o que tinha de errado com ele(?) estava uma delícia, e eu estava precisando ingerir um pouco de glicose(.) ----, nesse instante, Renata dobrou-se sobre si mesma, de tanto rir, batendo as palmas das mãos nos joelhos com força. ---- É um bolo de haxixe(.) ----, Isabel disse, tentando rir calmamente, sem parecer perversa. ---- Não diga(!) ----, exclamei, rindo junto com elas ---- Acho que vou aceitar um pedaço e me juntar ao tio Estênio em seu transe natalino (: não é Amanita Muscaria, mas é haxixe, certo(?) ----, disse eu, fui até a cozinha e apanhei um dos maiores pedaços do bolo e comi; em menos de um minuto, compreendi o que era comer um bolo de haxixe: olhei pela janela e a cidade lá fora me pareceu uma gigantesca árvore de Natal desfocada ao ar livre da noite. A voz do tio Estênio subiu de tom, ao ouvir minhas palavras entrarem em seu cérebro com um considerável atraso: ----- Sabe, minha sobrinha querida e diabólica, eu adorei conhecer esse seu amigo(: ele reavivou em mim, hoje cedo, a certeza de que o capitalismo não vai durar nem mais uma década, e de que ele levará embora consigo todas as religiões populares que ainda existem(: acho que a religião (não a espiritualidade) já está tão morta quanto afirmavam Marx e Mencken (: há todo um tom sombrio e apocalíptico nas ruas desse dezembro, e nas estatísticas que nos chegam pelo jornal , que vem fazendo os cânticos de Natal parecerem obscenos(.) -----, o cabelo ondulado e desgrenhado do velho tinha um castanho suave que naquele momento não estava mais parecendo tão cinzento quanto de manhã. ----- O tom obsceno dos cânticos natalinos (eu disse) , pelo menos, eu creio ser devido à re-midiatização de Santa Claus ( o Papai Noel) pela magia negra da Coca-cola(: a origem dessa figura emblemática (Santa Claus), que cruza os céus do mundo com a celeridade de uma divindade do raio, data de uma tradição sagrada muito antiga, relacionada ao xamanismo (: a Coca-cola parece ter convertido num ícone de fantasia consumista obsceno o Santa Claus, uma figura xamânica do norte da Europa(: esse mito possui elementos xamânicos ligados ao consumo da Amanita Muscaria (o fungo alucinógeno preferido das renas daquela região) e o Axis Mundi (o Eixo Cósmico) através do qual o xamã se movimenta entre os mundos (.) ----, o efeito do bolo de haxixe vinha mesmo num crescente muscário, tanto em mim quanto no tio Estênio , que acendeu um cigarro e disse, apontando para mim: ---- Maese K(!) andei pensando quem você me lembrava, nos últimos segundos, e tentarei explicar (com esse bolo fermentando meu cérebro) porque acabo de associá-lo à figura de Jean Arp, um homem-relâmpago trazendo sua nobreza consigo como quem traz o próprio corpo para um eterno rito de passagem(: é isso o Natal, também, não(?) Arp era um Espaço(: um Espaço nutrido por diversas culturas que, tocando seu corpo, acabaram por absorver-se na universalidade, como uma galáxia tragada por um buraco negro(: suas esculturas fundiam-se ao mesmo tempo na arte e no cosmo(: mas todas as verdadeiras criações do Espírito , mesmo as aparentemente impessoais, mesmo as equações de Einstein, não se resolvem afinal em autobiografia(?) ----, a idéia de acompanhar o tio Estênio no seu vôo extra-sensorial do momento foi minha (Isabel, Renata e Luciana agora conversavam entre si na cozinha, em volta do bolo de haxixe), à nova luz que a menção à Arp lançava sobre nossa conversa; Arp, o inventor da flor-martelo, da flor-tecedeira, da mesa-floresta, da cabeça-bigode, do umbigo-alado, da simetria patética, das constelações, das concreções, dos papéis rasgados, da geometria ageométrica; impelido primeiro pelo acaso, creio ter atingido em seguida o verdadeiro vértice da consciência criadora experimental, dizendo : ---- Não é estranho que Santa Claus tenha uma fábrica mágica de joguetes , operada por duendes (: gnomos, duendes e elfos tradicionalmente foram associados pela literatura antropológica com os xamãs e a ingestão de enteógenos (: um caso moderno são as explorações reportadas pelo tecno-xamã americano Terence Mckenna, que fumando DMT (primo molecular da psilocibina), constantemente entrava em contato com entidades inter-dimensionais que o ensinavam a fabricar objetos feitos somente de linguagem (.) ----, não ocorreu ao velho que agora, aparentemente, ele mesmo era um objeto feito somente de linguagem, num momento pianíssimo de enlevo poético, abraçando a árvore de Natal de joelhos ao lado do sofá, enquanto murmurava o resto daquelas palavras que vinham rasgando dentro dele uma parede (um Muro de Berlim) que aprisionava algo precioso demais para continuar preso, invadindo um frágil e recém-nascido espaço brilhante em sua consciência (segundo ''São'' Samuel Taylor Coleridge, todos os nossos insights e discursos provêm do Espírito Santo, e para Meister Eckardt, como a Virgem Maria estamos sob a sombra do Espírito Santo e podemos parir o Menino Jesus das entranhas de nossa alma; assim como em Monfort, que dizia que como Jesus podemos entrar na Virgem Maria para que Ela nos dê à Luz. O tio Estênio prosseguiu: ---- Jean Arp, que extraía do frio o calor(: guardando na simplicidade a majestade, transpondo a lição de Heráclito: ''O SOL é largo como um pé de homem''(: Arp , doutor em ciências mágicas, operador de metamorfoses(: Arp, mestre do reino animal, vegetal e mineral, espantoso poeta de ''Jours Effeulliés'', resumindo a quintessência do Dadaísmo e do Surrealismo, ultrapassando-os por certa dinâmica em relação com sua idéia de uma estrutura tridimensional(: Daimon criador sempre em ato, caminhando pelo mundo, levado por suas pernas grandes e sua cabeça de alta frequência(: conhecedor da técnica propícia à encantar as eumênides e os elfos, devas e para-devas, Arp sorria, pois ''aujour´hui comme au temps des premiers chrétiens il faut proclamer l'éssentiel'' (: a Arpíade pertence-lhe, e a todos nós(: inimigo mortal da mecanização e excesso de racionalismo do mundo moderno, decidido à reinventar o espaço, ampliar a idéia de realidade, elevar à altura de uma constelação o mais belo ''MITO'' terrestre, o CORPO FEMININO(!) -----, cada mudança de posição, cada movimento do tio Estênio no sofá soava agora como uma tosse mágica, com seu catarro neon impregnando o ar da sala como um pigmento metafísico desconhecido da humanidade. ---- Com o característico efeito da Amanita Muscaria e o canto tradicional do Santa Claus (HO! HO!) e a onomatopéia de sua celebração psicodélica, a viagem do nosso Papai Noel à todo o mundo em um único dia distribuindo presentes pode ser (seguramente) equiparado à uma viagem astral ao redor do Axis Mundi (o Eixo Cósmico) na carruagem celestial dos deuses, encontrada em outras mitologias (: fica claro que as renas de Santa Claus não são renas comuns, mas renas que comeram o fungo alucinógeno e começaram a saltar enlouquecidas na neve (o que de fato acontece com esses animais (fly agaric) e por isso são representadas como renas voadoras; seguindo os estudos do grandioso historiador das religiões Mircea Eliade, os xamãs , autênticos tecnólogos do êxtase espiritual, fundamentalmente comandam um ritual iniciático de morte e ressurreição em suas tribos(: e o Natal, muito além de representar o nascimento de Cristo, representa a morte e a ressurreição do SOL (:Buda, Jesus, Odin, Ramana Maharshi, São Francisco de Assis são alguns indefinidos exemplos desse SOL(: Ele é como uma AUTO-CRIAÇÃO(: uma força espiritual que avança através do nada, sem se escorar em nada, sem se esconder atrás de nada, auto-propulsão e ipseidade, do início ao fim... com relação à Ele não há antes, nem depois; nem alto, nem baixo; nem perto, nem distante; nem como, nem o que, nem onde, nem estado, nem sucessão de instantes, nem tempo, nem espaço, nem ser. Ele é tal como é, do início ao fim. Ele é o Único sem necessidade da Unidade. Ele é a afeição e o presente pois fez a casa aberta ao inverno espumoso e ao rumor do verão. Ele é o singular sem necessidade da Singularidade. Ele que purificou as bebidas e os alimentos, Ele que é o encanto dos lugares fugidios e a delícia sobre-humana das estações. Ele não está composto de nome, nem de denominador, porque Ele é o nome e o denominador. Ele é a afeição e o futuro, a força e o amor que nós, de pé sobre os ódios e desgostos, vemos passar no céu de tempestade e nos estandartes de êxtase. Não há nome que não seja Ele, não há denominador que não seja Ele. Ele é o Primeiro sem necessidade de anterioridade; Ele é o Ultimo sem necessidade de posterioridade. Ele é o AMOR, medida perfeita e reinventada, razão maravilhosa e imprevista, e a Eternidade (máquina amada das qualidades fatais! Ele é Evidente sem exterioridade; Ele é Oculto sem interioridade. Porque não existe anterioridade, nem posterioridade, nem exterioridade, nem interioridade, que não seja Ele. Tivemos todos o espanto de sua Concessão e da nossa: Ó fruição de nossa Saúde, impulso de faculdades extra-sensoriais, afeição egoísta e paixão por Ele, Ele que nos ama para sua Vida infinita. Nada, além Dele mesmo, pode Ve-lo. Nada, além dele mesmo, pode Conhece-lo. Ele se ve e se conhece a si mesmo. Seu véu impenetrável é sua própria Unidade, e ele mesmo é seu próprio Véu. Seu Profeta é Ele mesmo. Seu Mensageiro é Ele mesmo. Sua Mensagem é Ele mesmo. Sua Palavra é Ele. Ele enviou sua Ipseidade com Ele mesmo, D´Éle mesmo e para Ele mesmo, sem intermediário ou causa exterior que não fosse Ele mesmo. E nenhuma diferença de Tempo, Espaço ou Natureza há entre O que envia a Mensagem, a Mensagem e o destinatário da Mensagem. E se nós o invocamos e ele viaja... e se a Adoração vai embora, sua promessa ressoa: ---- Para trás essas superstições, e os corpos antigos e idades. Foi essa época que soçobrou! ----, Ele não irá embora, não tornará a descer de um céu, não cumprirá a redenção das cóleras das mulheres e das falsas alegrias dos homens e de todo este pecado: porque isto já foi feito, Ele existindo, e sendo amado. Suas respirações: a terrível celeridade da perfeição das formas e da ação. Ó fecundidade do Espírito e imensidão do Universo! Seu Corpo é o Universo: a libertação sonhada, a arrebentação da graça cruzada de intensidade nova ! Seu olhar são todas as estrelas: todas as penas resgatadas após sua passagem! Seu dia é o Universo do começo ao fim: a abolição de todos os sofrimentos sonoros e o movimento da alma na música mais intensa do Cosmos. Seu passo são as migrações mais enormes que as antigas invasões. O orgulho mais benévolo que as caridades perdidas. Ele nos conheceu a todos e a todos amou. Saibamos pois, nesta noite de Natal, de cabo em cabo, do pólo tumultuoso ao ar condicionado, da turba à praia, do shopping ao esgoto, de olhar em olhar, forças e sentimentos cansados, chamá-lo à FALA e VÊ-LO, e mandá-lo embora, e, sob as marés humanas ou no alto dos edifícios mais elegantes, seguir suas Vistas, suas Respirações, seu Corpo, sua Luz. Amém.