sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

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----- E ocorreu tudo bem, K(?) ----, Rafaela me perguntou pelo celular, assim que cheguei em Belém, um dia antes de voltar para Juiz de Fora. ----- Não deu pra conseguir tanto dinheiro quanto eu imaginava, mas um bom dinheiro deu sim (: mais o que eu ainda tenho no banco, dá pra atravessar o ano inteiro na boa (.) ----, eu disse, fiz uma pausa, fechei os olhos e pensei: ''Toda minha vida... uma estranha vocação (.) '', e acrescentei ao telefone: ---- Viu, não disse que seria tranquilo(?) ----, e pouco depois desligamos. Quando finalmente cheguei no nosso apartamento, em Juiz de Fora, ela tomou um susto: ---- Cê tá forte hein(!) e esse bronzeado surreal(?) hahahah(: se você sair na rua aqui em Juiz de Fora assim, vão achar que você veio de outro planeta(: só na Bíblia tem personagens dessa cor(.) ----- , ela disse, mas eu não pretendia sair de casa tão cedo, a não ser para ir até a faculdade, quase na esquina da minha rua. Precisava passar agora um bom tempo descansando no aconchego do lar, tomando banhos quentes, praticando meditação, escrevendo e fazendo amor com ela, e tratar de voltar a ser um ser humano o mais rápido possível. Extremamente econômico nas descrições da minha viagem, eu olhava por cima do ombro para Rafaela com um sorriso estranho que, riscando-me no rosto linhas longitudinais, fazia-me parecer usar uma máscara de cobre com uma expressão diabólica de fatalidade. E ao estimar o poder da minha nova fisionomia imaginosamente, ela conferia à cada resposta vaga que dava sobre a viagem um conceito justificador, algo de significado profundo e impalpável, como a manifestação de um princípio espiritual superior. Não abria os lábios durante muito tempo, após as perguntas de Rafaela. Na ambiguidade encontrava mil justificativas para manter-me omisso: através dela espiava o cosmo inteiro, que agora parecia morder a si mesmo por todos os lados. ---- Você voltou com alguma coisa estranha nos olhos, K(: alguma coisa que não havia antes(.) -----, Rafaela me disse, alguns dias depois, com uma voz que parecia encerrada num frasco de vidro com formol, buscando nos meus olhos um ponto frágil naquela superfície falsamente transparente e inexorável, onde parecia agitar-se um homúnculo liliputiano de dois centímetros de altura, fazendo movimentos de ameaça contra o mundo. Andei de um lado para o outro, acuado, mas de repente parei olhando o céu pela janela, enquanto ela observava o que me acontecia como num filme mudo. ----- Há um centro de Santo Daime aqui em Juiz de Fora, não é(?) ----, perguntei à ela, e ela me devolveu como resposta uma expressão facial pavorosa. ----- Ah, meu Deus(: era tudo o que faltava, K(.) -----, ela disse, um minuto depois, e acrescentou: ---- Desde que começamos a namorar, minha depressão desapareceu(: tem dias que eu já nem me lembro de tomar meus remédios(: será que justamente agora você vai começar a ficar esquizofrênico(?) ----, e eu me senti completamente perdido, um mero estudante de Direito portando as insígnias de algumas traumáticas tribulações, traumáticas e inconfessáveis tribulações que me obrigavam a perguntar-me que páginas, nas dezenas de livros que comecei a comprar e ler compulsivamente, poderiam ajudar-me à anestesiar aquela ansiedade que se tornou um pano de fundo permanente da minha existência, após a viagem ao Pará, e explicar a presença daquela mancha de energia azulada que eu via no escuro antes de dormir. Mas de um momento para o outro, eu fechava o livro que estava lendo e me parecia que a realidade ia explodir se eu não me deitasse no escuro e ficasse fixando aquela mancha viva e luminosa no teto. Em vez de assinalar meus erros e descuidos, ou tentar refazer o que eu tinha feito pela metade, ou juntar meus cacos, ou simplesmente me conter, passei a aprofundar intensamente aquele sentimento, buscando todo tipo de droga que me ajudasse a recapitular, reviver minhas recentes experiências na selva e passá-las para o papel. E, meu Deus, deu ''certo''(!) Meu caderno de anotações avolumava-se numa velocidade vertiginosa, enquanto eu tentava convencer Rafaela à me acompanhar ao centro de Santo Daime do bairro da Floresta o quanto antes. Precisava rever urgentemente o que eu tinha visto no alojamento da currutela sob o efeito do Daime. ----- Che Guevara (eu disse à ela) hahahahaha (: o que eu disse para guerrilheiros vale também, e com maior força, para poetas e escritores autênticos, já que a ficção, como o sonho e as visões místicas, e por motivos parecidos , são em geral um ato de guerra contra a realidade, não um mero reflexo passivo (: assim acontece muitas vezes que a grande literatura (raríssima!)  seja hostil à sociedade do seu próprio tempo(: uma dialética, ainda assim, mas no sentido de Kierkegaard(.) -----, vestindo um quimono azul escuro de seda, bordado com papoulas vermelhas e roxas, Rafaela se sentou na mesa da cozinha uma noite, preocupada com minha saúde mental, e disse: ----- Comecei a trabalhar no escritório-escola da universidade(: hoje à tarde conheci as garotas com quem vou compartilhar o plantão(: não senti nenhuma admiração especial por elas, e menos ainda pelos advogados e estagiários de Direito(: um bloco humano cimentado por privilégios de remuneração duvidosos e rivalidades mesquinhas, indiferentes ao povo destroçado pela miséria que vem até ali buscar socorro e orientação (.) ----, de fato, um pequeno abismo de interesses começava a se abrir entre nós, mas mesmo assim eu ainda me mostrava profundamente interessado no ambiente que ela me descrevia: a lubricidade de alguns ''doutores'', atiçada pela proximidade da morte, da pobreza, da loucura, da violência e da humilhação, tinha sobre mim um efeito repulsivo. E ela nada queria saber das confidências e intrigas das colegas de plantão, do retorno das férias, nem das estúpidas rivalidades com os estagiários de Direito: desprezava todos, antes de mais nada, e não apenas por temor de que a julgassem incompetente em algum caso, de um hora para outra, ou simplesmente tentassem puxar seu tapete. O ambiente de intriga e o decorrente asco de Rafaela: o recente temor, cem por cento infundado, de ser tecnicamente inferior às outras e, logo, a necessidade de dirigir contra elas a antecipação do seu julgamento. ----- Nos últimos três dias, trabalhei in loco, com visitas, num deslocamento constante (.) -----, Rafaela me disse, uma semana mais tarde, procurando confessar-me algo em tom de autocrítica: ---- Às vezes sinto a indignidade do meu embaraço diante da desgraça alheia(: sinto-me tão absorvida em meus próprios problemas , que às vezes tenho dificuldade de compreender o caso  que tenho nas mãos (: minha depressão tá voltando, K, acho melhor reduzir com urgência meus contatos humanos e procurar viver em paz comigo mesma (: queria que meu período no escritório-escola fosse um refúgio de concentração profissional em meio ao caos da minha cabeça e do mundo, mas meus nervos me traem constantemente(.) ----- , depois disso, devidamente banhada, penteada e perfumada, ela estava pronta para descansar depois de fazer ginástica (agora, ela malhava em casa, numa esteira elétrica que eu a ajudei a comprar e numa barra de pressão que pendurei na porta da cozinha, na qual eu também me exercitava; pela primeira vez na vida, cogitei procurar uma escola de artes marciais, motivado por toda aquela maldita confusão homicida na Serra do Cachimbo, mas não ousei dar aquele passo ainda: estava absorvido demais nos meus papéis, o sonho contraposto à realidade, cada vez mais agressivamente: ---- Veja, por exemplo (eu disse à ela, uma noite ) os Estados Unidos (: o cúmulo da alienação mental consumista, e no entanto produziram uma das mais notáveis literaturas de todos os tempos(: e a Rússia Czarista, o mecanismo secreto de seus dois cumes de genialidade, nesse conde Tolstói, aristocrata até a medula, que no entanto nos deu um dos testemunhos mais tenebrosos da condição humana(: e no outro, aquele reacionário chamado Dostoiévski, que nos explicou psicologicamente o homem da cabeça aos pés, a ponto de despertar até mesmo a admiração de Nietzsche, com quem se correspondia(.) ----, mas não foram a natureza cortante das minhas palavras nem o silêncio pensativo de Rafaela o que me intranquilizava, naquele momento, mas o olhar de apaixonado companheirismo dela, resistente à tudo, que senti de repente fixo em mim. Sentia-me inquieto e maravilhado, ao mesmo tempo, por sua presença poderosa, poderosa ainda em meio à nova crise depressiva dela que começava, poderosa por sua pureza, ou porque minhas palavras, às vezes ditas ao acaso, faziam seus olhos resplandecerem em silêncio no seu rosto tornado abatido e dolorosamente desconcentrado nos últimos dias, como duas brasas subitamente concentradas em uma sofrida terra seca. Ao meu lado, eu a sentia como um bondoso anjo triste que agora cuidava de um ser forte e indefeso num mundo apocalíptico e podre. ----- Trouxe para tentar te alegrar (.) -----, eu disse, segurando uma caixa de papelão com dois coelhos pequenos dentro, que eu tinha acabado de comprar no caminho de casa, voltando da faculdade de manhã (um branco e outro preto: ela começou a rir compulsivamente: ---- Não podia ser um gato ou um cachorro, K(?) hahahaha(: pelo menos não é um porco(!) você bem que seria capaz(: veio carregando eles pela Avenida Rio Branco (?) ----, perguntou-me ela, ainda rindo, e depois: ---- Você gosta de Paulo Coelho(?) ----, usando uma fisionomia expressiva, criando uma mini-mitologia instantânea do 'humour'', gerando, pela mímica poderosa e a linguagem inventiva do momento, o anticorpo da situação oposta, depressiva e inimiga que assim exorcizou temporariamente: ----- Não o detesto, como boa parte dos pedantes (: mas também nunca o li, não falo sobre o que não conheço(: ele tem a seu favor, em relação à mim, a influência que carrega do nagual Carlos Castaneda, com quem também compartilho a linguagem cifrada (: mas certamente o Coelho mais importante entre minhas leituras, é o Coelho Hangstrom da balzaquiana tetralogia de John Updike, uma colossal realização literária contemporânea, que impregnou minha maneira de escrever para o resto da vida(: adoro suas descrições interminavelmente rendilhadas e os pontos mortos de seus romances, verdadeiras criptas de quatro ou cinco páginas que interrompem completamente a ação para torturar o leitor com uma overdose de detalhes insignificantes, de onde ele extrai a mais alta poesia(: Coelho Corre, Coelho em Crise, Coelho está Rico e Coelho Cai (como eu ri no final deste último!) são livros que eu simplesmente aprendi a amar, ao longo dos anos, pois John, assim como eu, não consegue separar a poesia da pintura(: rompe a linha convencional do discurso realista, criando uma espécie de prosa cifrada, um número verbal, uma sustentação do puro estilo no ar, plástico, radicalmente plástico, a alusão que sacrifica a espessura à sutileza (.) -----, tudo era excepcional naquela manhã, não só os coelhos na caixa e o sorriso de Rafaela que voltava a iluminar nosso apartamento após alguns dias de choro lamentáveis; ela se trocava diante do espelho do nosso quarto, animada a ir comprar ração na rua, enquanto observava meus largos ombros que gostava de morder. Eu também a observava: não lhe faltavam atrativos físicos, de fato, ''Mas, eu pensava ''de que serve um charme tão insistente que não protege contra a infelicidade usual, bioquímica, mística, da bipolaridade depressiva(?)''. ----- Obrigada, K(: não estão sendo fáceis os últimos dias pra mim, mas seriam bem piores se eu não tivesse alguém como você do meu lado nesse momento (.) -----, ela disse com o coelho preto no colo: depressões, descarnações da alma, esculpindo em seu espírito anatomias tristonhas e abissais cartografias (havia dias em que ela amanhecia estranhamente animada, efusiva, sem aquele pesado corpo a corpo de pensamentos mórbidos que a depressão lhe obrigava a portar; e noutras quase não conseguia abrir os olhos, na cama, apesar de já acordada, e fazê-la sorrir se mostrava uma tarefa acima das minhas forças: nada adiantava. ----- Tem uns dias, no escritório-escola, que o olhar das pessoas me esgota, me rouba de mim mesma(.) ----, ela confessava, em meio aos esforços internos do dia-a-dia. Eu pensava que talvez seu natural exibicionismo fosse uma faca de dois gumes e que ela se enchia desnecessariamente da exigência de perfeição física, que um mundo profano e decadente como o nosso prescrevia como fórmula de sucesso. ----- Sinto que para você eu nunca estou deslumbrante o suficiente, e para as outras pessoas, sempre passo da conta(: é assim, confuso e infernal, quando minha depressão ataca(.) ----, ela me informava, me remetendo à cânones inacessíveis, que fustigavam uma frivolidade inexistente em mim. ---- Tente reclamar para si  o direito de ser linda apenas em alguns momentos ,mesmo sabendo que você é linda o tempo todo(: busque entre as pessoas do estágio mais momentos de prosa, de banalidades(: você tem tantas amigas fúteis, Rafaela, que vivem infernos por algumas gramas de excesso na balança, e no entanto elas não desmoronam como você(: elas engordam e você é que se sente feia e insegura(?) Krishnamurti costumava dizer que o medo é a antecipação dos resultados(: pare de tentar ver sua vida a partir do final, conhecer o resultado dos seus atos antes de realizá-los (: incoscientemente, isso é uma pulsão de morte (: você está desejando ser velha e feia para não ter que tomar decisões e fazer escolhas nunca mais(.) assuma a responsabilidade de todos os seus atos, use a morte como conselheira(.) ---- , eu disse à ela. Aquela noite foi longa, monótona, fértil em alertas nos claros mistérios da cozinha: em matéria de ''osteria'', eu preferia a sabedoria clássica, as sólidas tradições, os pratos que gozavam de livre entrada nos labirintos do estômago e intestinos, isentos do ataque dos minotauros que são certos ingredientes picantes. Estávamos, naquele mês de março de 2003, caminhando sobre uma ponte de pilares abalados, divisando no horizonte a constante ameaça de uma tempestade. ----- Temos recebido ladrõezinhos, meu Deus, tantos ladrõezinhos, e aquele balé de guardas e réus dando uma tonalidade carcerária às minhas tardes de plantão(: muitas vezes eu pego um café na máquina de expressos e fico esperando ansiosamente a entrada daquelas figuras desconhecidas, saídas do fundo de algum inferno social (: tenho agonia sobretudo dos adolescentes agressivos que cospem palavrões por segundo, daqueles que não caminham, mas gingam, e parecem saídos de algum clip de rap dos Racionais MC´s (: ah, K, tô começando a ficar atormentada por ter que fazer os diagnósticos no calor da hora, a partir de um número tão reduzido de informações,correndo sempre o risco de subestimar um pequeno caso que logo depois acabe em assassinato e cadeia (: me sinto quebrável, manipulável, nunca no ponto certo para dosar a desgraça alheia com os mecanismos do Estado(: o protocolo exige que eu ouça os atendidos, proceda à um breve exame e decida em seguida acolher o caso ou encaminhá-lo ao setor jurídico(: e essa triagem, ou distribuição, me parece coisa de campo de concentração nazista (.) ----, ela disse; e aquelas divagações filosóficas exasperadas de Rafaela rapidamente se convertiam, na minha cabeça, num motivo de vergonha frente à solitária reticência de alguém surgido sabe-se lá de que distrito rural miserável, vítima e testemunha de infintas injustiças e humilhações. ----- Não parece coisa de campo de concentração nazista, Rafaela (eu disse) É coisa de campo de concentração nazista(: aliás, o livro mais premiado do sociólogo Zygmunt Bauman, Modernidade e Holocausto, explica isso detalhadamente(: como o Estado nas modernas democracias ocidentais  herdou subrepticiamente a 'alma' administrativa da burocracia nazista (.) -----, com voz baixa, quase como se falasse para mim mesmo, olhando para o chão enquanto acendia um cigarro, eu já não estava contribuindo para aliviar a agonia dela; feria, desiludia, ao mesmo tempo que me obrigava a explicar, esclarecer os pontos que ela me trazia do mundo lá fora, pensando ''É preciso anotar tudo isso no meu caderno'', enquanto buscava dentro de mim a acuidade de um prático experimentado e a aridez de um relatório de polícia. Ela comia PROZACs como se fossem bombons ( a maior parte dos atendidos por Rafaela eram pessoas fragilizadas, que vinham pedir o conforto de um ouvido sério e diplomado, ou de uma caixa de tranquilizantes, mas só encontravam estagiárias cumprindo carga horária e playboys de terno e gravata. Ela se compadecia de tal forma ouvindo as desgraças que aquelas pessoas lhe contavam que, quando chegava em casa, no fim do dia, desabava na cama e começava a chorar. Alguns, segundo ela me contava, se aviltavam até o prazer masoquista narrando seus infortúnios; mas a maioria eram moradores de favelas ou distritos rurais buscando se livrarem de si mesmos, serem assumidos pelo Estado como um encargo. ----- O problema é que se eu parar, não cumpro a carga horária e não me formo, e além do mais, tenho medo de parar com o estágio e sentir vontade de me suicidar de tanto desgosto, pelo meu fracasso(.) -----, ela disse, uma noite. ----- A máquina do Estado é amoral, Rafaela, está além dos valores éticos (: não adianta passar da calamidade do subdesenvolvimento para a calamidade do superdesenvolvimento (: da miséria humana à sociedade de consumo (: o efeito nefasto da racionalidade funcional sobre a sociedade ocidental já foi estudado a fundo por Max Weber, é que as pessoas tem dificuldade de compreender sua obra aqui no Brasil(: olhe para a juventude dos Estados Unidos, por exemplo(: a alienação mental em massa é uma servidão pior do que a miséria(: nem supercapitalismo, nem supersocialismo(: o Vietnã venceu uma guerra contra o país mais desenvolvido do mundo com fé, espírito de sacrifício e amor à terra(: enfim, valores espirituais(: nossa guerra nacional, que não é militar e destrutiva, mas civilizatória e criadora, só poderá ser vencida recorrendo a esses valores, e à nada mais(.) -----, eu disse à ela, e percebi, nos seus olhos desiludidos, que se eu não tomasse outra direção, seguiríamos discutindo o assunto até que o desastre total tornasse simplesmente ridícula a espera de uma conversão milagrosa da situação dos seus nervos. Passaram-se semanas, e eu me perguntava se uma criança poderia resolver aquele impasse psicológico que já se aproximava de um tipo suicida de loucura... ---- Você ainda é muito novo, K(: e eu também (.) e somos apaixonados demais pra ser pais agora(.) ----, mas depois ela me confessou que entre suas amigas nós tínhamos muitas vezes sido descritos como um jovem casal de namorados muito charmoso: cultos, bem vestidos, inteligentes e engraçados ( sobretudo em comparação com outros casais, com todos os casais conhecidos... diziam que tínhamos sido feitos para sermos felizes um com o outro, e que um filho era questão de tempo... mas a vida agora estava simplesmente se tornando um inferno. Com o pouco ânimo que ainda me restava, naqueles dias, sugeri mais uma vez: ----- Vamos procurar o centro de Santo Daime , no bairro da Floresta (.) ----, e, para minha surpresa, dessa vez Rafaela topou. Acho que ela saía dos seus plantões sociais tão cambaleante, abatida, como se o fato de ficar tão próxima à fragilidade humana confundisse as fronteiras dentro dela. Rafaela já não ia ao escritório-escola orientar o desatino dos outros, mas constatar a vulnerabilidade da própria razão.  E quando sua perturbação se tornou a regra, foi a saúde mental dela que, num estranho movimento para dentro do abismo, pareceu uma anomia. ----- Pelo que você diz ( eu disse) você passa a tarde inteira atrás daquela mesa, esperando novos casos, como aqueles marujos que vêm à terra apenas tomar um trago antes de enfrentarem um novo furacão em alto-mar (.) ----, enfim, naquela altura, poucos dias antes da sexta-feira à noite em que fomos ao Centro de Santo Daime, já apenas permutávamos banalidades e metáforas. Nas manhãs de aulas na minha faculdade de Direito, no entanto, eu examinava meus colegas de sala com um olhar crítico, como se olhasse para manequins inanimados expostos numa vitrine, e rezava: ---- Deus, faça com que eu jamais fique parecido com eles(.) ----, e concluía que a alienação mental da sociedade de consumo, ignorante de cima até embaixo, às vezes pudesse ser evitada com um uso minimamente menos hediondo das inclinações humanas. Fora da sala de aula, nos intervalos em que eu participava de alguma roda de conversa, enquanto fumava, meu comportamento era tão ensimesmado que entre os colegas corria o rumor de que eu andava drogado o tempo todo. Mas os mais próximos à mim diziam: ---- O K. se casou, pessoal, foi o amor que deixou ele assim(.) -----, e , na verdade, me ocorriam certos devaneios em plena aula, de repente tão numerosos quanto irreprimíveis, e tão obviamente inspirados pela ânsia de uma solução miraculosa e alucinógena para minha precoce vida de casado, que compreendi que, quando você ama de verdade, ao pensar sobre esse amor, deve começar pelo que está acima e é mais importante que a felicidade ou a infelicidade em suas acepções comuns... ou então é melhor não pensar nele nem um pouco.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

7

Seu Adamastor tinha dito aquilo de um jeito pavorosamente parecido com o de Don Juan Matus: Me garantiu que o truque para ter eficiência e abandono em situações de alta tensão era enfrentar o adversário abertamente: ''Sempre olhe dentro dos olhos do homem com quem estiver disputando um cabo de guerra. Não se limite a puxar o cabo como um jumento. Levante os olhos e procure os olhos dele. Então você saberá que ele é um homem, igual á você. Não importa o que ele diga, não importa o que ele faça, ele está tremendo dentro das botas igualzinho á você. Um olhar como esse torna seu adversário incapaz, mesmo que seja apenas por um instante: e é exatamente nesse instante que você deve desferir o seu golpe'', parecia que eu tinha lido isso há cinco minutos, enquanto Seu Adamastor andava pelo alojamento como um profeta lunático tomado pela ira de Deus, praguejando tanto sozinho quanto comigo que também estava em pé andando em volta dele e da bagagem espalhada chão: "Puta que pariu mô fio, como cê foi se metê num apuro desse por causa de uma mulhé dessa(...) aquilo ali não vale nada, mô fio: é quenga crackenta de currutela(...) até eu já comi aquela mulhé(!)'', eu comecei a rir e imediatamente interrompi Seu Adamastor e disse que não tinha nenhuma relação com ela e que tinha me limitado a defender a pobre coitada de uma agressão injusta, não sentia nenhuma vontade ou atração física por ela, eu não teria coragem de toca-la nem sob a mais enlouquecedora necessidade sexual: olhava para ela e sabia que a chance dela estar com alguma doença venérea contagiosa era imensa. "Ela faz tudo que eu peço a ela com a maior boa vontade, Seu Adamastor(...) graças á ela eu não preciso ficar entrando toda hora naquela porcaria daquele bar(...) o senhor mesmo viu como aquela gente não foi nem um pouco com a minha cara de filhinho de papai(...)no meio dessa gente daqui eu sou um playboy, Seu Adamastor(...) é isso que eu sou aqui(.)''. Mas a exasperação dele era perfeitamente compreensível: tínhamos ido parar naquele lugar amaldiçoado por Deus em busca de gasolina para poder voltar para casa. Seu Adamastor tinha exagerado na quilometragem subindo rio acima para fazer novos testes, a maldita ganância é sempre o maior inimigo de um garimpeiro, muita gente perde a vida nesse meio querendo aumentar em uma grama o produto exaustivo de quarenta dias de trabalho. E assim apareceu aquela CURRUTELA no nosso caminho, como o único lugar possível onde podíamos agora encontrar gasolina: a gasolina que tinha não era mais suficiente para voltar ao município de onde tínhamos partido. Espalhada arruinadamente em ambas as margens, a currutela era um amontoado de casas marrons de bambu, esteiras e folhas, uma arquitetura tipo material-vegetal, brotando do solo marrom ás margens do rio lamacento. Algumas daquelas cabanas eram verdadeiras ocas indígenas, embora não houvesse índio nenhum ali, e sim garimperios arruinados, doentes deixados para trás, garotas de programa cadavéricas e todo tipo de foragidos da justiça. Os alojamentos eram como ninhos de uma raça aquática contaminada. Aqui e ali, amontoadas como pequenas cordilheiras de telhados marrons caindo aos pedaços sob os inclementes raios verticais do sol, que pareciam entrar pelos pulmões infectados das pessoas com o inspirar das narinas e embeber-se nos membros esqueléticos do corpo de cada infeliz habitante daquilo que eu tinha certeza se tratar do lugar mais próximo do inferno que eu já tinha pisado. Assim que nossa tripulação se acomodou toda espremida num daqueles alojamentos vazios, logo depois Seu Adamastor voltou do armazém da currutela dizendo que íamos ter que aguentar firme por ali quinze ou vinte dias, porque a gasolina deles tinha acabado e só voltariam para reabastecer dentro daquele prazo. "'Que azar, mô fio(...)'', ele disse e acendeu um cigarro, parecia já estar esperando pelo que aconteceu logo em seguida. Um dos caboclos da tripulação (ele já estava doente há dias e á todo momento interrogava Seu Adamastor sobre quando voltaríamos para casa, cada vez mais fora de si) se levantou do chão onde estávamos sentados, tirou uma faca da algibeira e partiu pra cima do velho , nitidamente disposto á matá-lo: ''DESGRAÇADO(!)'', e caiu por cima de Seu Adamastor, que deixou o cigarro rolar para o chão e fechou as duas mãos em volta do pescoço do sujeito. Em menos de dez segundos o sujeito já parecia ser apenas um peso inanimado sobre o corpo trincado de nevruras e veias saltadas no pescoço de Seu Adamastor. Antes de eu e os outros caboclos chegarmos para tentar separar a briga Seu Adamastor rolou o corpo do sujeito para o lado e levantou sem fazer esforço absolutamente nenhum. O cara estava morto, com uma repulsiva espuma escorrendo dos cantos da boca. Seu Adamastor passou a mão pela camisa para desamassa-la e antes de acender um novo cigarro fez o sinal da cruz e cuspiu em cima do morto. Ninguém falava nada. Ninguém falou nada. Meia hora depois tiraram o defunto dali e sumiram com ele dentro de um barco rio acima. Fiquei os quatro dias seguintes trancado dentro de um quarto escuro, sozinho, em estado de choque. Ninguém conversava mais absolutamente nada. Seu Adamastor tinha desaparecido, os outros homens passavam a maior parte do tempo embriagados no bar da currutela, jogando sinuca e aguardando a sua vez com alguma das garotas cadavéricas da espelunca caindo aos pedaços do outro lado do vilarejo. Eu não comia, nao bebia água e nem dormia direito. Meus cigarros tinha acabado logo no primeiro dia do meu confinamento. Ninguém vinha me chamar ou colocar á par da situação. Ao que parecia, uma epidemia de malária vinha derrubando toda aquela gente do lado de fora da porta do meu quarto. Até que uma enrouquecida voz feminina irrompeu através das paredes do quarto, desferindo leves pancadinhas na madeira oca da porta. "O Seu Adamastor mandou eu vir aqui conversar com você'', ela disse por trás da porta. Abri a porta mais por uma questão de desespero, para não morrer de fome ou enlouquecer completamente. Mas isso aqui é uma boca de garimpo, mô fio, então rebentamos por dentro como melões podres e nada sucede. Vomitamos as proprias tripas e disputamos quem consegue ter a febre mais alta sem morrer e nem por isso o curandeiro vem correndo; delírios, desmaios, reações alérgicas violentas e nada. Talvez já estejamos até mortos. Como podemos ter certeza. Ela trazia um prato de comida, um garrafão de água e um pacote de cigarros: ''O Seu Adamastor mandou eu trazer pra você(...)'', ela disse, colocando tudo em cima da cama. Ela era uma morena pardacenta dos seus trinta e poucos anos, muito magra e de olheiras pretas afundadas no rosto que pareciam buracos negros que a qualquer momento iam engolir os seus olhos: um verdadeiro defunto animado. Aquilo me comoveu a ponto de eu tirar um dinheiro da mochila e dar para ela sem nem pensar no que estava fazendo. Os olhos dela brilharam com o presente e então ficamos amigos. Eu não precisaria mais sair daquele quarto até a gasolina chegar, esse era o meu único pensamento. Durante aqueles dias de epidemia, ninguém entrava no meu quarto. Eu tinha decidido. As poucas vezes que batiam na porta, eu costumava não atender de jeito nenhum. Mas sabia que só poderia ser ela ou Seu Adamastor. Atendi ele uma vez e era como se nada tivesse acontecido. Sétimo, oitavo dia. "Morreu mais um(...) se continuar assim, vamo voltar com a balsa vazia pra cidade(..) eu e você somo os unico que num adoecero ainda, mô fio(...)'', ele disse, e esbugalhou aqueles olhos injetados que pareciam estar vasculhando cada pensamento meu naquele momento. Eu procurei me apegar mais á preocupação com a saúde da tripulação que tentou demonstrar, mas eu sabia que por trás daquelas palavras de preocupação estava fervilhando a maldita ganancia do velho em todas as direções do seu espírito de pirata com uma bandeira de caveira soterrada em cada um dos seus dois olhos de lunático."Trouxe pra você(..)'', ele disse, e me estendeu uma garrafinha plástica com um líquido verde escuro meio barrento dentro. ""Que diabo é isso, Seu Adamastor(?)'', perguntei, hesitando em tomar a garrafinha da sua mão. "Daime(...)'', ele disse, e empurrou a garrafa contra o meu peito. Segurei ela no susto e ele saiu pela porta afora sem dizer mais nenhuma palavra. Por ali circulavam os homens mais mal encarados e casca grossa que eu já tinha visto na vida. Podia-se dizer que uma boa parte era mesmo de foragidos da justiça ou marginais psicotizados pela vida de vício e sofrimento da cidade grande que vieram afundar o resto das suas miseráveis vidas no meio daquele galinheiro de maus elementos. Eu me limitava a sair de manhã até a frente do alojamento para tomar um pouco de sol, para não adoecer. Ela sumia e reaparecia dias depois com o olho roxo, me trazendo bananas, batatas cozidas e cigarros. Eu já não estava nem aí, relendo pela sétima vez seguidao único livro que tinha dentro da mochila: um livro de contos policiais de Raymond Chandler. Voltava do banheiro pensando que nem todo garimpeiro daquela currutela devia ser espancador de putas drogadas, e olhava de longe o calombo grená despontando da testa e maçã do rosto dela. Não tinha absolutamente nenhum assunto para conversar com ela. Eu estava deitado na cama comendo as frutas que ela tinha trazido e folheando revistas e jornais velhos jogados numa cesta. Eram datados do início da ocupação, dez anos atrás. Não fiz nenhuma menção explicita aos machucados. Ela também não. As frutas abundavam e eram emblemas naturais de sonho á nossa volta no quarto mergulhado em lombeira e luz picotada, quando de repente um indivíduo visivelmente transtornado invadiu o quarto com um canivete na mão e berrando uma confusão de palavrões e ameças de morte tão violentamente contra ela que a pobre coitada se encolheu num canto atrás da cama como um ratinho. Agora eu tinha ficado entre os dois, sem tempo de pensar em nada. ''Sái da minha frente, viado(!)'', ele gritou pra mim, encostando as pernas na beirada da cama. Quase vomitando de tanto ódio, abaixou de forma quase imperceptível a mão com o canivete na minha direção e eu imediatamente chutei sua mão e o canivete voou longe, levantei de um pulo e soquei a boca dele com as costas da mão. Ele caiu. Corri e apanhei o canivete do chão. Aqueles dias confinado dentro de um quarto escuro enquanto todos vomitavam as proprias tripas com febre do lado de fora tinha mexido com a minha cabeça, eu tinha ficado mau. Ele ainda estava de quatro no chão, tonto com a pancada na boca, quando eu corri na sua direção e bati um tiro de meta bem no meio da sua cabeça. Uma grande quantidade de sangue e alguns dentes podres voaram contra a parede do quarto. Naquele momento, eu desejava sinceramente que ele estivesse morto. Não sei como ele conseguiu, mas se levantou e saiu correndo do quarto e sumiu pela porta do alojamento. Ela continuava encolhida atrás da cama, mais calma agora. Na currutela só havia aquilo, todo dia era dia de morrer em vida no abafamento do quarto. Antes das dez da noite, só havia uma espécie de limbo escaldante insuportável do lado de fora. Um ou outro vulto de garimpeiro vagando á esmo em busca de uma dose violenta de qualquer coisa, ou de cair duro na sua rede ou leito ou entrar em coma com febre. Há dias sem receber gasolina, barcos da cidade, nada nem ninguém. Hoje a caminho do vazio quente e inerte em que a abstração agourenta do quarto me dragava como uma draga de balsa á diesel. Depois do almoço, instalava-se aquele tétano vespertino dentro da alma e não tinha jeito. confraternizar porra nenhuma com ninguém, e seria capaz de jurar que meus colegas de balsa também não. A agonia se arrastava lentamente pela tarde, atingia uma espécie de redenção nervosa no crepúsculo... e tudo se desfazia em febre, cachaça e morte novamente. Pela janela, lá embaixo, cachorros entre os canteiros de palmeiras e latões de lixo em frente ao alojamento.. O sol poente vinha aliviar a inflamação da paisagem escaldante e colorir tudo com seu alaranjado digno de um pêssego descarnado ali, onde a natureza destilava o mundo dos homens com um fórceps virulento. Aquela vasta extensão de água brilhando a nossa frente como um fogo perdido no fundo do horizonte vermelho. Mas havia algo de apocalíptico naqueles entardeceres agourentos que eu via cair lentamente sobre a currutela e colorir um pouco a passagem do tempo. O quarto era um dramático quadrado de irrealidade apreensiva desafiando o crepúsculo com seu nada semi-naufragado na boca da noite. Eu estava debulhando toda aquela nauseante rotina do alojamento, quando súbitamente ela entra no quarto com as sacolas transbordando de mais frutas. Repito-lhe dez vezes obrigado e pergunto se o sujeito voltou a ir atrás dela. ''Não(..)'', ela disse... ""Mataram ele ontem á noite(.)''. Não deu tempo de absorver aquilo direito, viro o rosto para o lado e limpo o sangue imaginário da minha mente com a mão. Limpo o sangue imaginário da mão na perna imaginária dela e ela me dá um tapa imaginário no peito. Várias descargas soam ao mesmo tempo no alojamento, cujo som vai sendo engolido rapidamente pelo bafo repulsivo da sua boca semi desdentada. É qualquer coisa de embrulhar o estomago. Olho o relógio no pulso dela. São dezoito e vinte e um. Levanto, fecho a cortina e acendo um cigarro para mim e um para ela. Ela solta um grunhido de expectativa baixinho, esperando que eu diga alguma coisa, quer que eu diga o que, filha? 'Não diga(...)'', falei abrindo um riso rasgado de nervosismo no canto da boca... ''E como, quem foi(?)'' Do momento em que entrou pela porta do quarto até o momento em que deixei ela com a cara paralisada com os meus movimentos indecisos e abruptos de quem já está ficando meio maluco, não deu tempo de falar nada. Nenhuma novidade, da minha parte. Só a dela. ''Seu Adamastor(.), ela responde secamente. Ou é simples indiferença. Aceitação integral da dura e fria objetividade dos fatos. Mas ela parece estar contente. "SEU ADAMASTOR(!)'',eu repito num berro surpreendente e explodo numa diabólica gargalhada que inunda o quarto com a substancia contagiosa da minha loucura...Seu Adamastor havia eliminado o álcool para sempre por haver matado um homem na juventude com uma chave de braço na saída de um brega, numa cidade do Norte. A briga foi unicamente em função do álcool, me disse ele um dia. Com essa, até onde me era dado saber, já eram três mortes nas costas. QUALQUER UMA ME SERVIA, MÔ FIO. UMA QUE LEVANTASSE A SAIA E AGUENTASSE FIRME, ENTENDE... E ELE VEIO PRA CIMA DE MIM JUSTO NA HORA QUE EU TAVA MORDENDO O CANGOTE DA PRETINHA. ERA A TERCERA VEZ QUE EU JÁ IA COMENDO ELA DE NOVO QUANDO, FILHO DE UMA CADELA, ELE CAIU COM A MAO FECHADA NUM CACO DE VIDRO DO LADO DO MEU ROSTO. ABRIU UM ESGUINCHO DE SANGUE NA MINHA BLUSA, MAS NO SUSTO SEGUREI O PUNHO DELE E ESTIQUEI ELE EM VOLTA DO PESCOÇO NA DIAGONAL... NA VERDADE, O GOLPE NÃO ERA BEM ASSIM, E FOI JUSTAMENTE POR ISSO QUE ELE MORREU, O PESCOÇO QUEBRADO ‘’ACIDENTALMENTE’’... Eu não podia mais acreditar em tudo aquilo, já era demais para os meus nervos. Era como um pesadelo saindo de dentro do outro á cada dia, num ritmo lento e enlouquecedor. ''Quer saber, moça(...)'', eu virei para ela e disse inadvertidamente ""Obrigado por tudo que voce tem feito por mim, mas agora eu tenho que ficar sozinho(...)'', eu disse á ela da maneira mais educada que consegui e ela compreendeu imediatamente e saiu pela porta do quarto sem nenhum sinal de ressentimento pela minha abrupta reação de distanciamento. Três dias depois a gasolina chegou e nós fomos embora com três homens á menos na tripulação e sem despedir de ninguém.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

6

Rafaela ficou olhando para mim durante um longo tempo. Ninguém jamais tinha visto minha verdadeira índole tão de perto. ---- Se você for mesmo viajar para o Pará no fim do ano, então nós não devemos começar a namorar agora (.) ----, ela disse. Mas aquela possibilidade, de combinar as duas coisas, me atraía como um ímã. Ela olhava para mim, naquele momento, e via em mim o que ninguém jamais tinha visto: o investimento radical da minha existência em disparates como aquela expedição à bordo da balsa de Seu Adamastor, na Serra do Cachimbo, era visto por ela com respeito e alguma admiração, de fato, mas também como tema de uma preocupante tragi-comédia; era o capricho de um jovem Indiana Jones gratuito e irresponsável. Eu quis conhecê-la melhor porque sentia que assim conheceria melhor também à mim mesmo. ----- É claro que devemos começar agora (: talvez só não devamos nos casar, antes de eu voltar vivo(: você é muito nova para ficar andando por aí de preto, viúvinha negra (.) ----, eu disse, rindo, com um mapa do Pará aberto no colo, e por longo tempo ela ficou revirando a excitante idéia, até que eu falei: ---- Quero começar o ano de 2003 com mais de cem mil na conta, amor(: e talvez desistir da faculdade para sempre(: tenho planos muito sérios de me dedicar à outras coisas, não só à literatura (.) ----, eu sabia que um êxito em toda aquela loucura me traria uma liberdade inédita na vida, e motivos estimulantemente novos para dar as costas à sociedade para sempre, mas, do outro lado daquele mesmo sentimento, cabia-me abandonar toda a operação, sem demora, ao primeiro sinal de fracasso. ---- Não vou demorar mais do que um mês no Pará, amor(: talvez nem isso (: e além do mais, Seu Adamastor é um gênio e também tem uma família esperando por ele em Belém (: voltaremos com uma boa grana, e isso é tudo(.) ----, eu disse, e então percebi plenamente, pela primeira vez, quem eu realmente era, e aquilo talvez representasse mais ou menos a verdade. Eu estava deitado na minha cama de casal, comprada com dinheiro do ouro do Maranhão, ao lado de uma garota que eu julgava perfeita para mim, e nada havia de assustador nisso: era apenas uma maneira jovem de sentir a vida. ''Quem sabe a que tipo de vida ainda mais estimulante tudo isso poderá levar-me(?)'', eu pensava, acreditando que a companhia de Rafaela, naquela segunda noite juntos, já começava a me conduzir por novos caminhos: os pensamentos dela eram uma dália gigante que se desfolhava nos meus braços, escondendo algas vermelhas nas unhas; nas pálpebras dela nasciam luzes desconhecidas da minha mente atraídas por abelhas-rainhas dentro dos seus olhos, e eu caminhava para os seus grandes seios perfumados, ciumento até mesmo do orvalho da madrugada. Estudei por um momento o perfil dela. Rafaela tinha um ar de concentração, e eu disse: ---- Um real pelos seus pensamentos(.) -----, ela riu, quieta: ---- Estava apenas pensando uma bobagem (.) ----, esfregou os lábios nos meus, e por um instante não pude respirar. ---- Que bobagem você estava pensando(?) ----, perguntei. Eu respirava agora o ar de outra dimensão, pensando o que aconteceria comigo na Serra do Cachimbo enquanto ela estivesse sozinha em Juiz de Fora ou no sul de Minas. ''Deus olhou com ira para essas nações americanas, pois de outra forma Ele teria permitido que um raio de esperança se filtrasse por um rasgão no atordoante negrume da intriga, do ciúme, do medo, da efusão de sangue e criminalidade que pairava sobre os garimpeiros clandestinos''. ---- O que você diria se eu te pedisse em casamento agora (?) ----, Rafaela me perguntou, e riu alto e alegremente. ---- O que eu diria se EU te pedisse em casamento agora(: isso sim(.) ----, respondi, e meu riso fez companhia ao dela, depois ela ficou rindo sozinha e levei um longo minuto para perceber que ela esperava uma resposta (que ela estava falando sério. ---- Eu gostaria de te tirar pra dançar (.) ----, eu disse, sentindo que procurava meu próprio rosto, dentro de mim, e não o encontrava. A solidão sem ornatos me apresentando à mim mesmo: onde o homem e a mulher eram UM, se fundiam VERBO e AÇÃO, noite transparente e sem febre, e formas desnudas empurravam a lua para dentro do quarto, pela janela. ---- Eu faria o que você quisesse (: às vezes sinto até que venho pensando em você há anos antes de te conhecer, Rafaela(.) ----, falei. ---- Só às vezes, K(?) ----, perguntou-me ela, esforçando-se por fazer com que parecesse uma brincadeira. ---- Sempre imaginei uma certa mulher(: não me lembro quando começou, mas lá pelos doze ou treze anos(: e ela andava igualzinha à você (: por isso você me perturbou tanto a primeira vez que te vi (.) ----, respondi, e vi os olhos dela cintilando na meia escuridão do quarto. Senti que agora ela esperava que eu fizesse algo extraordinário, e não sabia bem o que fazer. Então, cheguei o rosto para perto dela, ela o beijou de leve e tornou a encará-lo . ----Casa comigo, Rafaela (.) ----, implorei, rindo, mas me pareceu um apelo algo teórico. ---- Está bem, K, eu me caso com você(.) ----, concordou ela. Não pude mais aguentar a posição esquerda por mais tempo, de modo que larguei a mão dela e tornei a me deitar de costas na cama. Pouco depois, ela perguntou: ---- E quando vai ser (?) ----, Armilavda, ó doce Armilavda, lembras-te do tempo em que descobríamos o universo, em que ficávamos na varanda à espera da lua chegar, retendo a respiração diante do movimento das folhas das árvores (?), pensava, antes de responder:  ---- Quando você quiser, amor (.)  ----, eu não conseguia esquecer a aparência teórica daquilo tudo, mas , de repente, tudo me pareceu inevitável e perfeito. ---- Ok, quero que você vá comigo em Varginha, conhecer minha família (.) ----, ela disse, e nas semanas seguintes continuei sentindo dificuldades em acreditar que (malgrado o diminuto Buda de pedra sabão que comprei para sua mãe no caminho para Varginha) Rafaela tivesse decidido ''embarcar nessa'' contra uma séria oposição do pessoal em sua casa. Obviamente, eu sabia que os lugares fora do mapa civilizado do mundo em que eu adivinhava o cenário das minhas próximas aventuras e os romances de Joseph Conrad que eu recitava de cor, tinham algo a ver com isso; como também sabia perfeitamente que certos ''personagens'' de carne e osso continuavam atravessando as paisagens mais estranhas e nocivas do norte do país em busca de ouro e que talvez eu fosse mesmo uma dessas pessoas para sempre. ''Mas qual será o personagem que não merece fé(?)'', eu me perguntava, vendo-me obrigado, após conhecer a família de Rafaela, a manter bem viva dentro de mim a idéia da riqueza, ainda que alimentada como um meio e não como um fim. ''No entanto'', continuava a pensando sozinho ''garimpeiros clandestinos com frequência se tornam tão otimistas e imaginativos quanto os amantes mais românticos, e agora eu era as duas coisas, havendo em meio à tudo isso um livro de seiscentas páginas obrigando-me à escreve-lo à cada respiração minha ''. Assim que voltamos de Varginha, começamos a pensar na mudança de Rafaela para o meu apartamento. ---- Uma justiça maior virá mais tarde, amor (: viva o raio da esperança(.) ----, eu disse à ela, me referindo à fria acolhida com que eu e nossa possível e eminente união amorosa tínhamos sido recebidos no seio da sua família. E acrescentei : ---- E quem sabe se até nesse sentido minha excursão com Seu Adamastor à Serra do Cachimbo não poderá vir a ser esse pequeno rasgão de luz nas trevas que sua família perdeu a esperança de contemplar na nossa união, assim que eu expliquei quem eu era  e o que fazia para ganhar dinheiro(?) -----, Rafaela olhou para mim com admiração e bom humor: talvez fosse a única pessoa no mundo que acreditasse na minha competência e louca expectativa ( dando, a cada beijo que trocávamos, uma formulação cada vez mais vasta à vagueza obscura das minhas ambições materiais e literárias. Mas pouco antes de começarmos a morar juntos, acabei tornando-me algo incomodado e crítico de sua beleza feminina exagerada, ou melhor, da importância que ela parecia atribuir aos seus grandes olhos pretos esverdeados, seus nariz pequeno e empinado, seu pescoço francês, seus grandes seios espanhóis, seus quadris e pernas de modelo ( até mesmo seus pés pareciam ter para ela pequenos encantos únicos que deviam ser louvados em tempo integral. ''De onde vem essa indomável postura de rainha(?)'', eu me perguntava ''esses modos orgulhosos e excludentes, aristocráticos e desafiadores, que pareciam derivar inteiramente do acetinado da sua pele, do terrível magnetismo dos seus olhos, do comprimento perfeito de seus braços e pernas, da largura e desenho da boca(?)''. Eu não estava nem mesmo minimamente acostumado com garotas que portavam sua beleza com tamanho senso de triunfo e majestade. Para Rafaela, aquela sua cabeleira castanho avermelhada, âmbar avermelhada, cujo tom mais se assemelhava ao do pêlo de um setter inglês, era algo comparável a uma tocha olímpica, posta ali não apenas para embelezar, mas também para simbolizar algo absolutamente divino. ''É por isso que os monges shaolin raspam o cabelo (.) '', eu pensava ''porque, para eles, o cabelo representa o símbolo por excelência da vaidade''. Talvez isso refletisse realmente o poder de atração que emanava da sensação que Rafaela tinha de si própria : quando ela prendia o cabelo num rabo de cavalo atrás e desenhava uma linha negra acima dos cílios, ou quando calçava os tênis de ginástica e saía para malhar naquela roupa preta e alaranjada colante, eu não ficava imune ao efeito. Sentia-me terrivelmente inseguro, alarmado e ciumento, totalmente subjugado pela autoridade com que ela assumia sua beleza, enquanto suspeitava das prerrogativas que tal beleza lhe conferia em sua própria imaginação. ---- Você talvez devesse ler o livro São Bernardo, e Graciliano Ramos (.) ----, eu disse à ela, uma noite, vendo ela chegar no meu apartamento com aquela maldita roupa de malhar. ----- E talvez você devesse parar um pouco de ler tudo que já foi escrito até hoje(.) ----, ela respondeu, mordendo alegremente minha isca com seu sorriso confiante. Estávamos travando aquele pequeno duelo de nervos que passou a constituir uma espécie de aquecimento dos nossos atos sexuais mais intensos. ---- Talvez o ciúme (eu disse à ela) transforme algum dia minha cabeça num lindo quadro surrealista (.) -----, havia momentos em que eu não ousava dizer-lhe certas coisas, ou fazer perguntas demais, pois aquilo a aborrecia tremendamente, e eu sabia no meu íntimo que ela me era perfeitamente fiel. O que me desestabilizava era saber que ela não me levava cem por cento a sério, como poderia levar um homem maduro e empregado . Mas à noite... passei a viver à esperá-la para nossas noites, em que fodíamos até passar mal e ainda conversávamos até de madrugada (era o antídoto para meu ciúme: ---- Eu é quem devia ter ciúmes, K(: tudo em você tem um quê de mentira, um passado nebuloso, uma família incomunicável, ex-namoradas desconhecidas espalhadas por áí, um rastro impossível de seguir (.) -----, ela me disse, e era verdade: ela se expressava de um modo muito vívido, e reparava muito nos meus olhos (quando olhava prolongadamente para eles, era como se enfiasse a mão numa pia cheia de água fervente para tirar a tampa, no fundo. ---- O ponto de equilíbrio, essa noite, pode ser talvez você me contar qual foi a última idéia que te fez pensar no seu clitóris (.) -----, eu sugeri. ---- Ontem de manhã, no chuveiro, eu me masturbei antes de ir pra aula (.) até gozar(.) ---, ela disse. ----- Meu Deus, mas nós transamos na noite anterior(.) ----, eu protestei. ----- Pois é, a noite anterior foi a última coisa que me fez pensar no meu clitóris(.) ----, ela confessou. ---- Sempre o chuveiro, hein(?) ----, eu disse, como um patético detetive. ---- Adoro o chuveiro do seu apartamento (.) ----, ela. ---- 'Nosso', nosso apartamento, amor(.) ----, corrigi. ---- Pois é, para mim é sempre o melhor lugar para me masturbar (: e o daqui é ótimo, de mármore, cheiroso, e a água, a forma de cada gota dágua é perfeita, gotas gordas e redondas, aos bilhões (.) -----, ela disse, o que me deixou intrigado. ----- As fantasias sexuais sofrem uma pressão evolucionária muito grande, não é (?) se não funcionam, ou se não se transformam em algum coisa que funcione, não conseguem sobreviver (.) -----, observei, atento à expressão fisionômica dela. ----- O seu pau é uma delícia (.) ---, acrescentou ela. ----Que bom que você gosta dele (.) ----, agradeci. ---- Mas é isso mesmo (observou ela), até o momento em que o orgasmo começa, na masturbação, fica acontecendo uma espécie de seleção natural das imagens (: você pensa(: dois paus, um enfiado em cada axila, os dois jorrando esperma em mim(.) sim ou não(?)  NÃO(.) eu era uma professora de geometria medindo os paus dos meninos (.) Sim ou não(?) NÃO(.) eu era enfermeira numa clínica especializada em fertilidade, e meu trabalho era tirar a roupa para os clientes que tinham dificuldade de gozar, depois chupar os paus deles e deixar o esperma pingar da minha língua num tubo de ensaio(.) sim ou não(?) NÃO(.)  eu estava na cabine de um loja de roupas, você era um guarda de segurança havaiano me vigiando pelo monitor do vídeo enquanto eu experimentava uma calça jeans (.) Oooooohhhh, pode ser(!) na verdade, é como se eu estivesse escolhendo um vestido para usar numa festa, sem saber ao certo o que vou usar até o último instante, experimentando freneticamente uma imagem atrás da outra como se fossem roupas, sem saber qual é a combinação que pode dar certo, e vai ficando cada vez mais tarde(: finalmente, eu encontro um vestido lindo, sensual, com o padrão harmônico certo, visto ele correndo e, ah, já posso gozar(.) ----, quando ela concluiu, pensei que, de fato, uma diferença original sempre presidia o amor entre dois seres humanos: mais profundamente, era uma imagem longínqua, além de nossas experiências, um TEMA que nos ultrapassava, uma espécie de ARQUÉTIPO. Imagem, idéia ou essência bastante rica para diversificar-se nos seres que amamos, e mesmo em apenas um único ser amado; exatamente como se repetia em nossos amores sucessivos e em cada um de nossos amores tomados isoladamente. Rafaela era a mesma e também era outra, tanto em relação aos meus outros amores como em relação à ela própria. ---- Faz tempo que eu ouço falar (eu disse) nesses estudos que dizem que as mulheres gostam mais de histórias e os homens de imagens (: as histórias são 'representantes' das mulheres, e é por isso que são sexualmente mais carregadas, na minha opinião(: e por isso que a pornografia escrita pode ser elevada ao nível de arte e os filmes pornô, dificilmente (: é porque a literatura pornográfica produz no cérebro um orgasmo vaginal (: ela registra pensamentos em lugar de imagens, ou pelo menos cerca as imagens de pensamentos, algo assim, e por isso consegue ser uma forma de expressão tão forte (.) -----, a imagem ou o tema contém o caráter particular de nossos amores, mas nós repetimos tanto mais e tanto melhor essa imagem que na realidade ela nos escapa e permanece inconsciente; quando muito, eu pensava, a este amor, terá Rafaela , a quem tanto amo, acrescentado um cunho tão particular, que me obrigará a ser-lhe fiel até mesmo na infidelidade, se isso vier a acontecer algum dia, mas tenho certeza de que não virá. ----- Você é tão cheio de si, K, mas acho que, no fundo, eu te amedronto um pouco (.) por isso você sente tanto ciúme(.) ----, ela disse, tentando me pegar de surpresa, no dia seguinte, após eu falar de forma grosseira com um professor dela que encontramos na rua, enquanto andávamos de mãos dadas. Ele elogiou sua beleza e eu pirei. ---- Ah, não me simplifique tanto assim, amor (.) nem romantize tanto meu 'medo', está bem (?) ----, eu disse, passando de um termo amado à outro, para levar em conta uma diferença acumulada dentro de mim, como uma razão de progressão que se acentuava à medida que íamos chegando à novas regiões do nosso relacionamento, sob outras latitudes de vida. ----- Eu me divirto muito dormindo com você todas as noites, K(: e você mais do que se diverte comigo, pois agora você tem o que nunca teve com ninguém (.) -----, Rafaela advertiu-me, espreguiçando-se langorosamente quando chegou a manhã seguinte. ----- Foder com você é uma coisa deliciosa (.) ----, respondi; nossa paixão era frenética e inesgotável, alimentava-se de si mesma e havia criado uma atmosfera ricamente hipnótica em nossas vidas ( comecei finalmente a abandonar parte do meu ciúme, diminuir o número dos meus interrogatórios e entender suas performances exibicionistas como um subproduto do próprio arrebatamento que tanto me atraía nela: na esteira de uma série interminável de orgasmos, minha concentração no objeto puro do amor passou a ser total: a grande borboleta verde do fundo do mar que só nasce de mil em mil anos adejava à minha volta, para servir meu coração no que fosse preciso. ---- Sua capacidade de renúncia maníaco-depressiva, aliada ao dom do abandono erótico, é o que torna sua atração irresistível para mim (.) ----, eu disse à ela, sentindo que minha inteligência era forçada, que sofria uma coação que já não lhe deixava livre para escolher: uma coação de toda minha sensibilidade, a do próprio símbolo no nível do amor . ---- Nossa, muito, muito inteligente mesmo, hein(?) às vezes eu acho que o que há de errado ainda entre nós, apesar do nosso amor, é que você não compreende nem um pouquinho o que existe entre nós (.) ----, meu Deus, ela era realmente a mais bela, desejável e cativante criatura humana que conheci em toda minha vida; não conseguia afastar os olhos dela nem quando ela estava apenas bebendo uma xícara de café  ou estudando na mesa da cozinha. ----- Acho que se nos casarmos logo de uma vez, o lado contencioso da nossa relação minguará por si só(: então, o que você acha(?) ----, propus à ela, e a imagem servia bem ao que eu queria dizer: o que se fazia necessário entre nós, naquele momento, era uma lei, confiança, ordem e estabilidade (e, ainda por cima, eu punha uma enorme quantidade de fé em interesses materiais, relacionados à minha expedição à Serra do Cachimbo, no final do ano, que já se aproximava. ''Se estes se concretizarem'', eu pensava ''será inevitável que eles imponham as condições suficientes para continuarmos a existir juntos para sempre (.)''. Era assim que eu justificava para mim mesmo tanta preocupação em ganhar dinheiro rápido, em face da anarquia e da desordem da minha mente. ---- K (Rafaela disse) você é maravilhosamente irresponsável e gratuito (.) ----, seu rosto refletia a natureza resoluta de seus pensamentos, e ela acrescentou: ---- Decidido, amanhã venho morar aqui com você (.) ----, então, prevendo um futuro maravilhoso, movimentado e agradável num momento e o mais duvidoso no momento seguinte, nos casamos após três meses inteiros devotados à dúvidas, orgasmos, esperanças e temores. Casei-me com Rafaela quando o peso da experiência necessária para chegar à decisão de abandoná-la se tornou tão imenso e angustiante que não consegui mais maginar a vida sem ela. Assim, o sofrimento pelo qual passaria minha sensibilidade caso eu me separasse forçou minha inteligência à procurar a essência que nela se encarnava; e porque aquele sofrimento volta e meia ameaçava-me, reproduzindo-se e entrelaçando-se na minha mente, minha inteligência passou a extrair dele um princípio geral de ação, que também era a mais perfeita forma de alegria que já tinha experimentado na vida. Assim eu transmutava o sofrimento em alegria, como uma máquina sentimental emperrada que começava a pegar no tranco. Aquilo tudo passou a ser também parte da minha Grande Obra alquímica (após três meses de arranjos demarcados e labirínticos envolvendo noites de amor perfeitas, apartamentos separados, feriados conjuntos, crises de ciúme, festas abandonadas com alívio à cinco ou seis dias e alegremente esquecidas por setenta e duas horas, e ainda mais noites de amor perfeitas retomadas frequentemente com um frenesi sexual delicioso... nos deitando para dormir, depois, na cama de casal, no meu quarto, onde uma ávida e carinhosa criatura amiga , deitada já nua sob os lençóis... etc, etc, etc. ---- Você disse, agora há pouco, que ia me contar que tipo de imagens passou pela sua cabeça ontem à noite, quando gozou mais de uma vez junto comigo(.) -----, eu disse, procurando repassar os encantos da noite passada, enquanto colocava para tocar na vitrola um LP de Victor Jarra que ela tinha amado. ---- As imagens que me ocorrem quando estou gozando são coisas muito inusitadas, como, sei lá, leões marinhos esticados sobre pedras molhadas, um carrossel feito de capas de discos famosos, uma cabeça de cavalo de ferro embrulhada numa lona preta, pássaros mergulhando de ponta cabeça no mar espelhando o céu(: minha mente fica tão enlouquecida que não dá para prever qual é o tipo de coisa esquisita que vai passar por ela quando as lâmpadas dispararem(: mas quase nunca são imagens sexuais(: e você (?) ----, ela me perguntou, ao dar por encerrada sua digressão. ---- Também não sei ao certo, mas me sinto como uma espécie de nevoeiro, uma sensação de ter me transformado numa espécie de vapor consciente(: ou então numa espuma de folhas espedaçadas(: ''eu te direi: mergulhando sem pavor nestas fundas regiões onde dorme o veleiro, à espera que o irreal não se levante em aurora sobre nossos corpos que retornam à água do Paraíso'' (: Murilo Mendes(.) ----, eu devia estar meio sem saber se devia continuar olhando para ela, pois ela tinha começado a se masturbar ao meu lado; olhava mais com o canto do olho: vi quando ela apertou um dos bicos dos peitos com um movimento dos dedos, e depois a mão dela correu para o outro seio. Era a mão esquerda (e sem nenhum OOOOHHHHH ou AAAAHHHHHH, tudo em absoluto silêncio, só se ouvia a respiração dela, às vezes com a boca um pouco aberta, às vezes fechada. Numa certa hora, ela apertou os lábios e mordeu-os, e depois mordeu as bochechas por dentro, e depois disse, sem se virar pra mim: ---- Me chupa, K(.) ----, a luz do abajur, ao lado da cama, ainda me permitia ver exatamente em que posição estavam as pernas dela (um pouco abertas, com o cobertor pendente entre elas, as costas da mão dela faziam o cobertor mexer bastante. mas o que me deixou mais eletrizado foi que o braço dela tinha ficado totalmente visível, o cobertor fazendo uma interseção com o pulso, que estava arqueado, sempre fazendo um movimento circular, enquanto eu podia ver perfeitamente o lindo tendão do ante-braço dela se contraindo, controlando os movimentos dos dedos. ---- Acho que vou gozar(.) ----, ela disse, poucos segundos depois da minha língua entrar em sua vagina como uma sonda, lambendo as paredes de carne por dentro. Imediatamente ela começou a gozar na minha boca, puxando meus cabelos com tanta força e concentração, que pela respiração dela deu para sentir que suas pernas tremiam. Foi uma experiência maravilhosa aquela visão do cobertor, depois, escorregando de cima dela devagarinho, enquanto ela juntava os joelhos sobre minha cabeça. ---- Não sái não(: fica aí, por favor(... ----, foi algo que ela disse, naquele momento. ---- Você não quer que eu te coma(?) ----, perguntei, meu cérebro me dando ordens para enfiar e alcançar aquele primeiro momento paradisíaco, e depois me concentrar em segurar os seios dela, trabalhar os quadris e o tronco, segurando os quadris macios dela. ---- É que quando eu gozo, desmonto (ela disse) meu clitóris é muito traiçoeiro (: ele fica dizendo ''Pode gozar, Rafa, não tem problema, depois você consegue gozar de novo em mais alguns minutos, eu aguento mais três ou quatro vezes'' (: mas eu sei que não, não sou do tipo que tem orgasmos múltiplos (: um segundo depois de gozar, fico desativada, por mais tesão que esteja sentindo, e começo a pensar em outras coisas(.) ----, eu compreendia, mas gozar dentro dela para mim era sempre um sentimento místico insubstituível.  ----- Coisas como leões marinhos estendidos nas pedras, certo(?) ---, perguntei, e disse: ---- Qualquer mulher fica deslumbrante quando se masturba, mas prefiro meu pau se derretendo dentro de você (: sentindo apenas a estrutura técnica interior da minha tubulação, e aquela vontade de gozar ficando cada vez mais forte, só que também gosto de ver você tendo esses pequenos orgasmos dedilhados, da pequena e fácil alegria que eles te trazem (: sabe, quando penso que ficarei um mês inteiro sem te ver, no final do ano, isso é algo que me traz certa tranquilidade, saber que você aguenta um tempo na mão, pois eu também atravessarei minha aventura inteiramente na seca (: espero que você também (.) -----, eu disse, e bati na ponta da minha orelha, malicioso e ciumento. ''Esta noite eu te encontro nas solidões de coral onde a força da vida nos trouxe pela mão. No cume dos redondos lustres em concha uma dançarina se desfolha''. ----Como você é bobo, K(.) eu te amo(.) ----, ela protestou. ---- Lembre-se, amor, de que eu não estou indo para Las Vegas(.) ----, eu falei, já podendo distinguir na mente aquela tripulação silenciosa e agourenta de rostos chapados e sem alegria, que à Seu Adamastor pareciam todos iguais, como que vazados no mesmo molde ancestral de sofrimentos e paciência, mas, aparentemente, também pelas sua tonalidades moreno-avermelhadas, negras ou acobreadas, no momento em que na proa daquela balsa amaldiçoada se misturavam os mergulhadores dos dois turnos, insuficientemente equipados, com nossas roupas de mergulho rasgadas e cheias de remendos; era um instante de pausa cheio de alívio, no fim do dia, quando os lavadores de cascalho se acocoravam junto aos ralos, fumando compridos cigarros de maconha, para verem se amarelavam de ouro o carpete encharcado: os grandes condutos de madeira se projetando silenciosos, inclinados sobre a proa, e nos permitindo escutar o jorro da água lamacenta nos canais abertos. ---- Pense num lugar infestado de cobras venenosas, mô fio(: É AQUI(!) ----, Seu Adamastor dizia, pelo menos umas cinco vezes a cada vinte quatro horas, apontando o dedo para as margens borbulhantes do rio,  onde um interminável cordão de vegetação rasteira serpenteava entre grupos de bananeiras, raízes de palmeiras e outras árvores frondosas que eu não sabia o nome.  ---- Vou ficar tão preocupada, K(: rezarei por você todas as noites(.) -----, Rafaela disse, mas eu procurei tranquilizá-la de todas as formas possíveis (desce dos pensamentos de maldição, Amada! Desce da fronteira do tédio agonizante. Eu te dedicarei uma vida de espanto! Eu te dedicarei um buquê de estrelas. Espero-te continuamente no limiar do universo com todas as formas acesas. Porque não prendes ao pescoço o colar da aurora para vires em pensamento até mim, Amada minha: sei que procuraste o infinito no finito. Vem e encontrarás em mim o amor que não tiveste. Encontrarás em mim, fundidas para sempre, a Loucura e a Lucidez. ---- Vai dar tudo certo , Rafaela (eu disse...) PODE CONFIAR EM MIM(.)