terça-feira, 11 de novembro de 2014

Não confundir com o niilismo ocidental...

A nova fase da filosofia japonesa moderna, que surge com Nishitani, marca também o momento decisivo da passagem para a terceira geração da Escola de Kyoto que dialoga com Heidegger. Com Nishitani são preparados os fundamentos para uma nova geração de pensadores japoneses, que estarão em contato direto com todas as questões filosóficas importantes para Heidegger. Ele é o último filósofo japonês da Escola de Kyoto que pode ser considerado interlocutor de Heidegger, marcando tanto o fim do diálogo direto com Heidegger, como também a passagem de Nishida e Tanabe para uma nova geração, que surge com Ueda e Tsujimura, este último, considerado o primeiro “discípulo” japonês de Heidegger e também o representante mais importante da terceira geração da Escola de Kyoto.
A análise de Tsujimura sobre a relação entre a “Pergunta sobre o Ser” em Heidegger e o “nada absoluto” da Escola de Kyoto permanece ainda dentro da perspectiva de Hisamatsu e Nishitani9. Porém, a radicalidade de sua reflexão se mostra ao admitir que com Heidegger a perspectiva zen-budista se depara com a eminente necessidade de se propor a pensar, também, a questão da essência da técnica no mundo moderno (Tsujimura, 1983, p. 165). De acordo com Ohashi, nenhum outro filósofo japonês teria sido tão fortemente influenciado pela filosofia de Heidegger como Tsujimura (Ohashi, 1989a, p. 35), tendo ao mesmo tempo permanecido vinculado à perspectiva inicial da escola de Kyoto.
Em 1969, quando Heidegger comemora seu aniversário de 80 anos, Tsujimura é escolhido como orador da comemoração. Quase 50 anos depois do encontro com Miki e Tanabe, quase meio século de constantes contatos entre Heidegger e o pensamento oriental, será um filósofo japonês quem terá a palavra na festa comemorativa do aniversário do mais influente filósofo alemão do século XX. O motivo para isso não poderia ser de cunho pessoal, pois Tsujimura não pertencia ao restrito grupo de amigos íntimos de Heidegger. A relação entre os dois pensadores se limitava ao plano profissional. Portanto, não existe outro motivo para este convite, a não ser o reconhecimento de uma intensa e frutífera discussão filosófica que Heidegger manteve, permanentemente, com o pensamento japonês.
Em seu discurso Tsujimura ressalta a importância do pensamento de Heidegger para a filosofia japonesa. Ele fala ainda sobre o perigo de uma pura europeização do pensamento japonês, que recebia, há mais de um século, fortes influências da filosofia européia. Para ele, a europeização do Japão foi um passo necessário na direção do mundo moderno, da inevitável difusão da ciência e da técnica ocidental. Em seu discurso, ele fala de um “perigo” que deve ser combatido, o perigo da pura substituição da tradição japonesa, do zen-budismo, pelos valores europeus. Neste sentido o pensamento de Heidegger significa, para Tsujimura a possibilidade de uma profunda discussão entre o mundo tradicional oriental e a filosofia moderna ocidental.
Ainda no discurso, Tsujimura trata da questão referente às proximidades e às distâncias entre o pensamento de Heidegger e o zen-budismo. Esta abordagem mostra que Tsujimura tinha claro a fronteira entre as duas correntes de pensamento. Para ele, a filosofia de Heidegger não apresenta influências consideráveis do pensamento oriental, mas o pensamento japonês, especificamente o zen-budismo, pode alcançar, em diálogo com o pensamento de Heidegger, um novo plano. Tsujimura ressalta tanto as semelhanças como as diferenças entre o pensamento de Heidegger e o zen-budismo, para mostrar que, com a filosofia heideggeriana o pensamento tradicional japonês pode problematizar também a técnica moderna do mundo industrial.
Como agradecimento ao discurso de Tsujimura, Heidegger menciona o fato de ter tido a sua conferência de1930, O que é metafísica?, traduzida para o japonês pelo então estudante do ciclo básico Yuassa, e que esse mesmo estudante teria sido o único que não confundira sua reflexão sobre o “nada” com o niilismo ocidental (Heidegger, 1989, p. 166). A afirmação de Heidegger de que um estudante japonês tenha compreendido com excelência sua conferência aponta o reconhecimento, por parte de Heidegger, de certa proximidade de sua filosofia com o pensamento japonês. O fato de que essa conferência tenha sido interpretada como niilismo pelos pensadores europeus representa para Heidegger um mal entendido. Suas reflexões sobre o nada, no entanto, tornam-se tema principal para muitos outros pensadores japoneses que estiveram em contato com o seu pensamento.

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