segunda-feira, 17 de novembro de 2014
CAPÍTULO 4
Eu acordei no sábado de manhã com Cecília na minha cama, ao meu lado. No egoismo inconsciente do seu corpo, ela tinha ocupado o centro da cama e me empurrado para a beira; o rosto dela, descontraído e quieto, tinha a textura de um mármore denso e liso, no qual a luz penetrava um milímetro. A solenidade do rosto dela, a perfeição totalmente sem humor com que as sobrancelhas, as pálpebras, as pequenas voltas das narinas e as orelhas tinham sido forjadas me assustavam naquele momento, enquanto ponderava a possibilidade de falar com ela sobre aquele sujeito. Em todo caso, era como se, durante a noite, uma obra-prima roubada tivesse sido atirada na minha cama, e eu ouvisse barulho de sirenes longe dentro da minha mente. ----- Eu vou mesmo me divorciar(: o Ricardo já não está morando lá em casa(: se mudou para Juiz de Fora(.) ----, eu fiquei calado, por um instante, levemente assombrado com as fissuras que iam se alastrando na terra de todos os meus dias. Mas Cecília parecia feliz. ---- Está vendo (: eu te disse que você ia gostar de dormir sozinha naquela cama de vez em quando(.) ----, sem esperar resposta, eu me levantei da cama. ---- Então quer dizer que você passou a última semana pescando(?) DUVIDO(!) ----, o dia estava bonito e límpido, apesar de frio, mas um dia para se estar fora de casa. ---- Quem é aquele sujeito que estava dançando com você na boate(?) ----, perguntei, inopinadamente, enquanto Cecília olhava a simplicidade das coisas no quarto como se fossem formas extravagantes que a erosão tinha formado numa gruta. ---- É o Luís Carlos Marion, amigo de infância do meu marido(: sempre foi apaixonado por mim, coitado(.) ----, fiquei escutando à espera de mais informações, e por um instante achei que estava rezando; mas ela parecia distante, desinteressada no assunto. ---- Você ficou com ele (?) ----, perguntei, e ela respondeu de pronto: ---- Não(!) pelo amor de Deus(: você tem uma idéia fixa cacete mesmo(: não fiquei com ninguém, além de você(: ainda estava casada até uns dias atrás, lembra(?) e estava me desfazendo do meu casamento, na última semana(: dá um certo trabalho, certo(?) tenho um filho com o Ricardo(: tente pensar agora um pouco em ''NÓS'', pra variar(: e a sua ninfeta colorida, quem é ela(?) ----, pensei que aquele filho da puta talvez pudesse parar de me ameaçar, se eu não tivesse aparecido de novo tão rápido: conseguia cheirar uma encrenca das grandes, agora. ---- Ela não é daqui, se chama Janice(: costuma ficar com um daqueles playboys fumados que a gente vê na praça o dia e a noite inteira(: na verdade, o ficante dela não é tão novo assim, tem quase a minha idade(: mas parece que ele viajou por uns tempos, pro Sul(.) conheci ela solteira, na praça, naquele mesmo dia em que nos vimos na boate(.) ----, eu disse, e esperei Cecília se levantar, debruçada na janela. A jabuticabeira enchia o pátio gramado com pequenas folhas douradas, reassumindo a nudez em que seus arabescos e traços ficavam todos revelados, levando meus olhos para cima e para dentro, para o quarto, formando um todo unido de vagas aspirações matinais. ---- Interessante(.) ela não é nada feia(: vocês transaram(?) ----, era a independência emocional de Cecília o que eu começava a amar mais do que tudo (certo de que ela poderia agora viajar à qualquer lugar para me encontrar: falei um pouco sobre Janice com ela, antes de tentar mudar de assunto: ---- Segundo Janice, Daniel, seu ficante na cidade, nunca foi exatamente grosso com ela (: era até doce, de certa forma (ela acrescentou), e sempre tratou ela como uma boneca valiosa(: ele sempre virava pra rapaziada na praça e dizia ''EI, OLHEM SÓ O QUE EU TENHO(!)'', sabe (?), uma coisa assim, como tirar onda andando com ela de mão dada na rua(: ele não tinha trabalho até uns tempos atrás, nem dinheiro, e vivia de mesadas do pai(: mesmo sem gostar muito de filhinhos de papai, Janice achou que se divertiam juntos(: depois de alguns meses, ela ainda lhe era fiel(: estava tentando ajeitar suas loucuras sexuais (me disse: aos dezessete , já tinha morado junto com um homem, na cidade dela(: ia do excesso ao insuficiente(: mas disse que nunca tinha conseguido gozar com aquele homem, e nem com Daniel, enquanto namoravam(: e além do casamento precoce, havia ainda um outro segredo que nunca tinha contado à ninguém, exceto Daniel(: aconteceu logo depois de abandonar o cara com quem tinha ido morar(: uma amigo dela a convenceu a vir da casa da mãe para cá e fumaram maconha (: ela estava a fim daquele amigo e ele a mimava, dava muita atenção e sempre ficava perto dela (: e gostou do desempenho dele na cama, naquela pequena festa de apartamento que começou devagar mas acabou durando dois ou três dias(: Janice estava mesmo gamada no amigo, mesmo depois que ele começou a dar indiretas sugerindo que ela podia trepar com seus outros amigos(: Janice me confessou que sentia muitas coisas diferentes enquanto tudo aquilo acontecia (: observava um pouco a si mesma, do fundo de algum lugar deserto (: e parecia orgulhosa, sabe(?) falando sobre aquilo como se fosse uma façanha (todos queriam come-la(: os caras a fodiam de alto abaixo, mas com seu consentimento (: tinha sido excitante (ela repetiu), esbanjava, achava-se um símbolo sexual, acabou com quase todos os caras que foram na festa (: talvez tenha ficado uns dois dias seguidos, no apartamento, dando sem parar(.) nunca saía (: no meio daquilo tudo, conheceu Daniel pela primeira vez (: ele entrou no quarto e lá estava ela sozinha na cama, no segundo dia, sentindo-se pirada (: ''VOCÊ NÃO TEM QUE FAZER ISSO'', ele disse, mas só um mês mais tarde começaram a ficar juntos realmente(.) ----, Cecília se levantou da cama e me fez tomá-la nos braços, rente à janela: estava se sentindo afogueada, erótica. Embora eu tenha olhado para ela desconfiado, pareceu divertir-se com a história de Janice (para mim, era uma história triste). ---- O que foi, K(?) por acaso ficou com saudades dela(?) a mocinha parece ser quente mesmo, hein(?) ----, o céu estava de fato azul como nunca se consegue pintar, uma cor que engoliria todas as cores, tubo após tubo, mais escuro que o carbono e mais brilhante que branco titâneo. ---- Vamos comer (eu disse), vou trazer um banquete pro nosso quarto(: você prefere pão ''sem manteiga'', '' sem geléia'' ou ''sem requeijão cremoso'' (?) ----, nos abraçamos e Cecília me pareceu divertir-se com aquilo (não tinha nada naquela casa para se comer), e ao mesmo tempo rendida, aberta e lubrificada: tinha pêlos púbicos ralos, extraordinariamente finos, macios como seda; os bicos dos seus seios eram macios e rosados, e ficavam vermelhos assim que eu os beijava e chupava; e a delicadeza e suscetibilidade do corpo dela jamais deixou de me impressionar e de suscitar em mim uma violenta paixão. Ela apertou meu braço: ---- Ah, K, você é doido(.) -----, e assim se deixou (me intimava a) ser consolada de um certo sofrimento: não por remover o motivo (o recente fracasso do seu casamento), mas por cerca-la momentaneamente com minha paixão e presença física, de modo que a consciência que ela tinha de si mesma e da amarga incerteza a respeito do futuro começasse a se dissipar lentamente, da mesma forma como o contorno de um portão se dissipa no crepúsculo ou uma carta se torna ilegível na penumbra crescente. Nos meus braços, Cecília sentia a incerteza dela recuando e o meu rosto surgia de algum depósito distante dentro dela e aflorava por toda a pele das suas entre-coxas; fiquei com o rosto e uma mão entre suas pernas, com um dedo entre os lábios da vagina: um líquido quente recobria meu dedo de modo tão cerrado como se fosse uma nova pele translúcida. Ela puxou minha cabeça dentro, mais fundo, com força; segurei as coxas dela enquanto minha boca se enchia de carne viva e molhada, sentindo o quão violentamente estávamos agora (os dois) expostos ao mundo, privados de qualquer exceção: lembrei, de súbito, da estufa de rosas ali embaixo, no quintal do casarão: ontem tinha passado por ela, distraído, e reparei nos desenhos feitos no vapor da parede de vidro: dois corações de amantes transpassados por setas e uma mulher deitada de costas, pernas abertas, com a vagina visível: era inconcebível que algum daqueles velhos tivesse desenhado algo assim: não sei porquê, mas imediatamente voltei a pensar na aparição espectral, que ainda não tinha voltado a se apresentar diante de mim, desde que voltei: ---- DONNA MÍA(!) ----, exclamei alto, tirando meu rosto lambuzado de entre as pernas dela, enquanto ela se contorcia de êxtase na cama. Naquele quarto fantasmagórico, muito mais apropriado para se desovar um cadáver do que para se deitar sobre um corpo vivo de mulher, os filamentos do desejo se enroscavam em nossos corpos abrasadoramente, quentes e isolados como fios numa resistência elétrica. Cecília gemia, pedia para ver o meu pau, encostava os bicos dos seios nele, lambia, chupava, até que posicionei a cabeça dele onde queria e enfiei; ela segurou meus ombros com as duas mãos, depois baixou uma delas para endireitar-me dentro dela; a mão subiu para o meu peito, quando comecei a enfiar pra valer: tive uma visão da minha infância de um coleguinha meu falando da vagina de uma tia dele, na quadra de futebol de salão (depois, meti e voltei, meti de novo, etc, estava em outro mundo dentro de Cecília: metade amante penetrando sistematicamente o hipnotismo do amor, metade curioso, condenado a observar a mim mesmo no ato, entrando e saindo dela cada vez mais rápido, intenso, ela cada vez mais melecada embaixo (visões da vagina dela piscaram no meu cérebro, ao lado da imagem da sua bunda que eu comprimia com as estocadas, e depois de tanto tempo comecei a gozar de fato, com as duas metades separadas de mim, e vislumbrei uma vez mais (COM QUE PRAZER!) a queda interminável que pode mesmo ser encontrada em nosso caminho para a ILUMINAÇÃO. Assim que começamos a dividir um cigarro, Cecília me pediu para contar mais sobre Janice. ---- Só por curiosidade (...) -----, e eu me senti aliviado, diante daquela sua indiferente curiosidade saudável, era quase que por esporte que eu falava, tinha feito minhas anotações sobre aquilo: ----- Ela disse que só conseguiu gozar com Daniel depois de um tempo, e que o sexo com ele era bom, mas às vezes parecido com o do homem com quem tinha morado (: no começo namoraram sério, mas ela não conseguia ser assim tão feliz (: quando estavam andando na rua e por acaso ela sorria para algum cara, Daniel sabia que Janice tinha ido pra cama com ele (: um dia Daniel procurou o pai, um ex-policial, e arrancou-lhe uma bolada, dizendo que uns caras tinham passado um pouco de droga pra ele revender, e ele acabou consumindo tudo e estava com acorda no pescoço(: tempos depois Janice percebeu que Daniel tinha aplicado um golpe no próprio pai, e que a encrenca era uma farsa (.) algum tempo depois (ela me disse) começou a ficar com outros, geralmente rapazes que não pegavam muitas garotas, porque Daniel tinha insinuado que ela não era boa de cama, e assim Janice preferiu trepar com caras que lhe dessem valor e se sentissem gratos(: ''NÃO SOU MAIS SUA BONECA E VOCÊ NÃO É O MEU PRÍNCIPE ENCANTADO'', ela disse à ele, mas Daniel começou a vender um pouco da melhor erva da cidade, e agora parecia um playboy próspero, comprou uma moto e disse que queria Janice de volta(: ela riu e disse que talvez ele não estivesse conseguindo endurecer com qualquer uma, e por isso a queria de volta (rimos muito quando ela falou aquilo, aqui no quarto) ''ACHO QUE AGORA PREFIRO FAZER O QUE ME DER NA TELHA'', ela disse à ele de novo, mas foram morar juntos mesmo assim (: ela devia estar realmente possuída pelo sexo (: e Daniel queria ser o Grande Cara, o BAm Bam Bam, gostava de ser conhecido como passador de drogas entre a juventude da cidade(: mas logo surgiram problemas(: Daniel tinha um amigo, Victor, de quem Janice começou a gostar, e ele tinha ido morar com os dois, no mesmo apartamento, para dividir as despesas(: uma noite (Janice me contou, rindo) sentiu-se tão excitada quanto a noite quente, e perguntou à Daniel: ''PORQUE VOCÊ NÃO DORME HOJE NO SOFÁ E DÁ UMA CHANCE AO VICTOR(?) '', ele ficou muito puto, é claro, quase fora de si, mas entendeu que ELA NÃO ERA MAIS SUA BONECA, de modo que se deitou no sofá e Victor foi com ela(: Daniel ficou tão fora de controle que saiu de moto de madrugada, voltou depois de meia hora e disse ao amigo que sumisse dali(: o namoro sério acabou (.) -----, agora eu e Cecília ríamos loucamente de todo aquele absurdo, e eu tentava encontrar uma brecha na conversa de onde pudesse tirar mais informações sobre Luís Carlos Marion, sem levantar a desconfiança dela: decidi não falar a respeito da nova carta-ameaça. Queria apenas saber onde poderia ficar cara a cara com ele, sem correr um risco excessivo, para poder estudá-lo melhor: de acordo com a prática do nagualismo, a fonte primordial de energia psíquica é o governante absoluto do universo, e por isso chamavam-no (sugestivamente) de TIRANO; o restante dos opressores humanos, para eles, encontravam-se infinitamente abaixo da categoria de TIRANO; comparados à fonte de tudo, de toda a pressão cósmica, os homens mais assustadores e tirânicos não passavam de idiotas dementes (como os colonizadores espanhóis), por isso, no nagualismo, esse tipo de sujeito é classificado como PEQUENO TIRANO (pinche tirano); os praticantes de nagualismo (rastreadores de energia psíquica) então elaboraram uma estratégia mortal de auto-aperfeiçoamento, na qual o Pequeno Tirano é usado como o pico de uma montanha e os atributos que um rastreador de energia vai acumulando no enfrentamento do Pequeno Tirano são como alpinistas que se encontram no topo. O que transforma uma pessoa num Pequeno Tirano é a manipulação obsessiva da realidade e das pessoas. No nagualismo, o rastreamento energético é um aprendizado progressivo, que se afunila dramaticamente diante do Pequeno Tirano: nada pode temperar mais o espírito de um rastreador de energia do que o desafio de lidar com pessoas intoleráveis e perigosas em posições de poder: apenas sob essas condições pode um praticante adquirir sobriedade e serenidade para suportar a pressão do contato com outros planos da realidade, como a iniciação e a iluminação. Por isso, insisti no assunto com Cecília: queria saber o que Luís Carlos Marion fazia, quem era, por onde andava, quem eram seus amigos, que tipo de vida ele levava, etc... acumular informações silenciosamente enquanto se está sendo oprimido, é a disciplina de um praticante de nagualismo. E não era o primeiro tipo assim que cruzava meu caminho. Sem esconder um certo desprezo pela obtusidade da mente daquele sujeito, Cecília não pareceu inteiramente desconfiada diante das minhas perguntas insistentes. Eu disse que era porque tinha ficado com ciúmes.
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