quinta-feira, 27 de novembro de 2014

''Kafka: por uma literatura menor...

Segundo o livro de Gilles Deleuze ''KAFKA: POR UMA LITERATURA MENOR'', atingir um DEVIR é ''atingir um contínuo de intensidades que só valem por si mesmas, encontrar um mundo de intensidades puras, onde todas as formas e todas as significações, significantes e significados, se desfazem em assignificantes. A intensidade diz respeito à partículas e à relação de movimento e repouso. DEVIR é o enlace de duas sensações sem semelhança que cria uma ZONA DE VIZINHANÇA (zona de indistinção, de indeterminação ou de indiscernibilidade entre elas ----

citando DIÁLOGOS, do mesmo autor: '' DEVIR não é imitar, nem fazer como se, nem se conformar a um modelo... Não há um termo do qual se parta, nem ao qual se chegue, ou ao qual se deva chegar. Não se trata também de dois termos que trocam de posição... Pois, à medida que alguém se torna, aquilo que ele se torna muda tanto quanto ele. O DEVIR não é um fenômeno de imitação, nem de assimilação, mas de DUPLA CAPTURA, de evolução não paralela, núpcias entre dois reinos.

Esse ''encontro entre dois reinos'', essa ''desterritorialização conjugada'', características do DEVIR (linha de fuga) , pode ser notada , por exemplo, na interpretação de Deleuze do ''devir não humano'' do Capitão Ahab no livro Moby Dick, de Herman Melville: ''O Capitão Ahab não imita a baleia branca, não quer ser semelhante à ela; vive um devir-baleia irresistível, e ,diferentemente de Bartleby , que não preferia nada, demonstra uma preferência monstruosa, faz uma aliança monstruosa com Moby Dick, infringindo, desse modo , a lei dos baleeiros segundo a qual toda baleia sadia é boa para ser caçada. "Ahab não imita a baleia, ele torna-se Moby Dick, ele entra na zona de vizinhança onde não pode mais se distinguir de Moby Dick, e fere-se, ferindo-a. Moby Dick é a ''muralha próxima'' com a qual ele se confunde.

Assim, para se compreender a classificação delleuziana dos DEVIRES, sobretudo o que significam DEVIR-MINORITÁRIO e DEVIR-IMPERCEPTÍVEL, é preciso partir da idéia de que expressão como ''tornar-se- baleira'', ''tornar-se criança'', ''tornar-se poeta'', ''tornar-se revolucionário'', ''tornar-se índio'', ''tornar-se um nagual'', ''tornar-se um gavião'', ''tornar-se invisível'', são maneiras de formular sua crítica do modelo e sua proposta de um pensamento capaz de dar conta do DIFERENTE sem subordiná-lo à IDENTIDADE com isto ou aquilo, como vexatoriamente faz a crítica literária despreparada do nosso país, nos jornais de circulação nacional (todo sábado

TODO DEVIR É UM DEVIR MINORITÁRIO (porque homem é maioria qualitativa, modelo de identidade, entidade molar, forma de expressão dominante, por isso não há um DEVIR-HOMEM.
DEVIR é se ''desterritorializar em relação ao modelo. E quando Deleuze diz que numa LINHA DE FUGA há sempre traição, isso significa trair as potências fixas, as significações dominantes, a reflexão pasteurizada dos jornais, a ordem estabelecida ---- o que exige ser um CRIADOR.

Quando se pensa a questão da literatura relacionando-a com o tema do DEVIR, isto significa que escrever é um PROCESSO, uma LINHA DE FUGA: tornar-se diferente do que se é, como também pesava Foucault. E quando Deleuze levanta a questão ''O QUE SE TORNA QUEM ESCREVE?'', sua resposta é que, se escrever é TORNAR-SE, trata-se de se tornar OUTRA COISA que não ESCRITOR, tornar-se estrangeiro em relação a si mesmo e à sua própria língua. E uma das maneiras como Deleuze aborda a questão é pensando o PROCESSO DE MINORAÇÃO do escritor através da relação entre a literatura que ele chama de MENOR e o que também chama de POVO MENOR.

Esse tema do MENOR está no âmago da filosofia de Deleuze, explicitamente desde KAFKA: POR UMA LITERATURA MENOR. Ele aparece com clareza num pequeno artigo de 1978, ''Filosofia e minoria'', publicado na revista Critique, retomado na apresentação do teatro de Carmelo Bene (''Um manifesto de menos'')e depois integrado em a Mil Platôs. Esse texto expõe MAIORIA e MINORIA qualitativamente, e não quantitativamente. Maioria implica uma constante, um modelo, uma medida pela qual a maioria é avaliada. O que é ser maioria hoje? Ser homem, branco, ocidental, americano do norte ou europeu, adulto, racional, morador de cidade... O que é ser minoria? Desviar do modelo, ao mesmo tempo teórico e político. E Deleuze salienta que DEVIR jamais é DEVIR MAJORITÁRIO, que ser MAJORITÁRIO nunca resulta de ou num DEVIR.

É isso o que se dá com as LÍNGUAS MENORES, que, existindo em função de línguas maiores, são agentes potenciais para fazer a língua maior entrar num DEVIR MINORITÁRIO , num DEVIR REVOLUCIONÁRIO. MAIOR e MENOR não são dois tipos de língua, são dois tratamentos possíveis de uma mesma língua, dois usos ou funções da língua. Assim, MENOR diz respeito não a uma outra língua ou a uma língua de minoria, mas a um PROCESSO DE MINORAÇÃO, à invenção de um USO MENOR de uma LÍNGUA MAIOR:

----- ''servir-se do polilinguismo em sua própria língua, fazer desta um uso menor ou intensivo'' (Deleuze)

Um dos principais exemplos de Deleuze: Kafka, judeu tcheco, escrevendo em alemão, dá ao alemão um tratamento criador de língua menor, ao montar, em função da situação línguística dos judeus em Praga, uma MÁQUINA DE GUERRA contra o alemão ou fazer passar sob o código do alemão algo que nunca tinha sido ouvido antes. Dar um tratamento menor, intensivo ou revolucionário à língua, fazer um uso menor da língua, não é misturar línguas, é introduzir LINHAS DE FUGA CRIADORAS em sua própria língua. O uso menor é o USO CRIADOR ( devir criador ----
Minorar uma língua maior, extrair de sua própria língua uma língua menor é fazê-la escapar do sistema dominante, do regime vigente, é desterritorializar a língua maior, standard, padrão, modelo, oficial, colocando-a em estado de VARIAÇÃO CONTÍNUA. Se é por um modelo político que a língua é homogeinizada, centralizada, standartizada, tornando-se língua do poder, língua do jornal, língua do tédio e da morte, MAIOR OU DOMINANTE, é a VARIAÇÃO CONTÍNUA que constitui o DEVIR REVOLUCIONÁRIO da língua.

Em suma, uma literatura de minoria (como a de Kafka) não é a de uma língua local; é a que dá um TRATAMENTO CRIADOR à uma língua MAIOR tornando-se MENOR. Escrever é criar sua própria língua.

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