quarta-feira, 19 de novembro de 2014
CAPÍTULO 5
----- Ele tem postos de gasolina e empresta dinheiro à juros(: é praticamente tudo que sei, e tem uma fazenda de café na Serra do Caparaó , que eu e o Ricardo visitamos umas duas ou três vezes, perto de uma cidade chamada Espera Feliz(.) ----, Cecília disse: Luís Carlos Marion era um agiota, um gangster que sabia o que fazer com seus rendimentos e com quem não rendia o bastante; aquela sua fazenda era uma casa para ocasiões raras que ele pouco visitava, quando estava sozinho (nunca ia lá no inverno, quando a Serra do Caparaó se transformava numa confusão mercenária de cachaça da roça, canjicas com costelas de porco fritas e couve refogada no azeite com alho ( de bar em bar, até o parque nacional (excursionistas universitários com paçocos de fumo metidos nas barracas de camping de alpinistas que subiam o Pico da Bandeira para fotografar o nascer do sol ( batalhões de bichas e regimentos hippies pós-modernos); Marion deixava a casa reservada para raros fins de semana no verão, e, pelo que a maioria das pessoas sabia, a casa nem mesmo era sua (apenas a terra), cedera-a em empréstimo para o mais eficiente dos seus braços armados, um ex-funcionário negro que agora vivia rodeado das putas antigas do próprio Marion, que agora (tendo vários investimentos disfarçados) era um rico anfitrião de certa reputação (inclusive entre políticos) em muitas partes de Minas Gerais ligadas ao narco-tráfico (com festas realmente tão bem montadas que sua rede, feita de cocaína enfiada em vaginas de éguas quarto-de-milha, logo capturou o que havia de melhor em matéria de prostituição profissional de luxo); ---- Ele vem me telefonando com certa frequência (: às vezes usa a desculpa de ser amigo do Ricardo, pergunta do que estou precisando, outro dia pegou meu filho na escola pra mim (sempre foi um tio e tanto pro Leozinho), acho que sempre quis ter um filho mas nunca se casou, sabe(?) acho que as pessoas do clube andaram falando com ele que eu e o Ricardo estávamos nos separando, e ele se encheu de esperanças(: conheço ele há mais de dez anos, sempre me pareceu uma boa pessoa(.) -----, ela disse de novo (mas não foi o que eu deduzi, após uma pesquisa de quase cinco horas na internet: o pouco que havia naquela cidade elétrica agonizante, em termos de festas, era devido aos eventos que Marion ajudava a promover, e em cada link em que aparecia seu nome completo eu visualizava uma série de personalidades estranhamente paralelas, e com isso participava do destino hermético de muitas putas da alta sociedade mineira e divorciadas cocainômanas, isolando aquele cisto de caráter naquela prisão de músculos não-perceptíveis, que atraía e isolava todas elas na auto-complacência, na histeria e no desprezo pela vida características dos ritmos congestionantes dos seus corpos e narinas à venda. ---- Inclusive, me convidou para uma festa, nesse fim de semana, na sua fazenda no maciço do Caparaó (: sinceramente, não confirmei presença, mas enquanto você estava fora eu cheguei a cogitar de ir com meu filho (: ele está precisando se distrair, para não sentir muito a separação (: muitos casais aqui da cidade irão, com seus fílhos (: haverá festas de agro-negócio na região inteira e a minha vontade era de me hospedar no melhor hotel-fazenda que já conheci, perto de Espera Feliz (: estou precisando, sabe(?) -----, claro, era um convite à minha companhia, mas Cecília foi embora sem ter uma resposta definitiva da minha parte, apesar de ter me parecido uma forma segura de espreitar Marion no seu próprio terreno ( ---- Diga-me agora, K, qual é a arte de espreitar? ---- ela perguntou. ---- O Nagual anterior à mim era um espreitador ---- eu disse , e ela olhou para mim. Ocorreu-me que aquilo a que ela se referia era o que Dom Juan chamava de ''caçador''. Certamente ele me ensinara a ser caçador. Eu lhe disse que Dom Juan me ensinara a caçar e fazer armadilhas para capturar animais. Porém o uso que ele fazia do termo ''espreitar'' era mais preciso. ---- Um caçador apenas caça ----- eu disse . ----- Um espreitador espreita qualquer coisa, inclusive a si mesmo. ---- Como é que ele faz isso? ---- Um espreitador impecável pode transformar qualquer coisa em presa. O Nagual me disse que podemos espreitar até as nossas próprias fraquezas. Parei de escrever e procurei lembrar-me se Dom Juan algum dia tinha me apresentado uma possibilidade tão nova: espreitar as minhas fraquezas. Não me recordava que ele jamais tivesse dito a coisa nesses termos. ---- Como é que podemos espreitar nossas fraquezas? ----- Do mesmo modo que você espreita uma caça. Você estuda os seus hábitos até conhecer todos os atos (peças) de suas fraquezas e depois salta sobre elas e as pega como coelhos dentro de uma gaiola. Dom Juan me ensinou a mesma coisa sobre os hábitos e os vícios. Dom Juan disse que qualquer hábito era, em essência, um "ato", e que um "ato" precisava de todas as suas partes para poder funcionar. Se faltassem algumas partes, um ato se desmoronava. Por ato ele queria dizer qualquer série coerente e significativa de ações, como os vícios. Em outras palavras, um vício precisava de todas as suas ações (peças) componentes para poder ser uma atividade viva e absorvente. A espreita é a atividade central de um RASTREADOR DE ENERGIA. O homem comum não sabe que espreita porque seu caráter foi subjugado pela socialização. Está convencido de que sua existência é importante; dessa forma, suas ações estão a serviço de sua importância pessoal, não do aumento de sua consciência. Controle, disciplina e paciência são como um dique por trás do qual a energia necessária é represada. O sentido de oportunidade é a abertura do dique. Paciência significa reter com o espírito algo que o rastreador de energia sabe que, por justiça, DEVE FAZER. Isto não significa que um rastreador de energia saia por aí planejando causar prejuízos a alguém ou acertar contas passadas. A paciência é algo independente. Desde que o rastreador tenha controle, disciplina e sentido de oportunidade, a paciência assegura dar o que se deve a quem quer que o mereça). ---- Nenhuma mulher conhece os homens melhor do que eu(: eu me aproximo de um pretendente como um enigma da lógica, um labirinto magnético(.) ----, foi algo que Cecília disse, após folhear meu caderno de anotações no capítulo intitulado A ARTE DA ESPREITA (citações de Carlos Castaneda); antes de ir embora, ela ainda me detalhou melhor alguns traços de caráter de Marion ( e talvez essa tenha sido a razão pela qual escolhi esta maneira de apresentar um homem tão ativo como ele: para quem, como eu, uma de suas possíveis vítimas, estava interessado em compreender a vida daquele homem, o primeiro dos axiomas úteis era o que dizia que o gênio está presente em todas as ocupações e, particularmente, nas ocupações ilícitas, e como criminoso Luís Carlos Marion era nada mais do que isto: um gênio. A prova é que ganhou milhões em poucos anos. O modo como o conseguiu é uma questão de tamanha complexidade que dela não nos ocuparemos detalhadamente aqui, pois tais minúcias só podem ser exploradas descortinando-se toda a anatomia psíquica da nossa república corrupta: muito bem, ainda jovem, Marion era um milionário, tinha várias casas em diferentes partes do país e um apartamento em Miami, tinha um avião particular num angar no Aeroporto da Pampulha, em Belo Horizonte, e vários carros, equipamentos, maquinário agrícola, empregados, jóias, galpões de café e investimentos em ações; para não falarmos em várias empresas em atividade e duas das mais belas garotas de programa do estado que o acompanhavam em suas viagens de negócio; havia conseguido tudo isto em poucos anos, depois de ter saído da prisão (bem antes de conhecer Cecília) sem um tostão furado no bolso, mas, sabe-se lá porque, não estava nem um pouco satisfeito até o momento dos acontecimentos que descrevo aqui: ele queria alguma coisa e meu temor se concentrava no fato de que tal coisa fosse Cecília, e um casamento saudável e admirado pela sociedade, com uma mulher bem dotada física e intelectualmente. Sem ela, ao que parecia, e como vinha acontecendo, seus poderes o estavam abandonando. Sua força vinha da decisão e da ação violenta, era um homem supersticioso , acreditava na existência do Inferno e de que iria queimar lá, bem no fundo, e agora parecia ter chegado num ponto da vida em que o fluxo do seu desenvolvimento existencial, a descoberta das novas belezas da auto-expressão que sua trajetória homicida prometia, dependiam inteiramente do assassinato de um homem, um certo rapaz, forasteiro e desconhecido, talvez não tão excepcional quanto ele, mas certamente mais jovem e bonito, que escrevia as coisas mais estranhas da literatura contemporânea, um rapaz chamado Kalki que, a essa altura, dificilmente deixaria de estar ciente de que seu próprio desenvolvimento, como homem de letras e praticante de nagualismo, também estava num impasse que igualmente poderia ser solucionado, embora no sentido oposto , pelo assassinato de Luís Carlos Marion, na única hipótese do ato estar protegido legalmente pelo dispositivo penal da legítima defesa, o que agora demandava engenho e cautela. ----- ''Enigma da lógica(... -----, eu disse --- Francamente, Cecília(: você já leu alguma coisa de Jorge Luís Borges(?) ----, apresentei à ela o conto A Aproximação à Almotasim, antes de ela voltar para casa, naquela noite. Passaram-se horas, e ela me telefonou no meio da madrugada, para falar sobre o conto, tinha amado; mas vou pular essa parte da conversa e ir direto para o final do telefonema: ---- Ok (eu disse) vou querer ir ao Caparaó com você e o seu filho(.) -----, e desliguei o telefone ( do instante em que encerrei o telefonema e desci para o gramado para me exercitar (já eram quase quatro da manhã, e fumei um baseado antes) , foi como se a sequência dos meus atos constituísse, a partir dali, um único ato contínuo. Um único lance de dados, que jamais aboliria o acaso: agora eram oito da manhã e vi um carro estacionar na frente do casarão (quanto tempo se passou entre meu banho gelado no segundo andar e o café da manhã, não sei); debaixo do seu xale, a pele de Cecília era mais macia do que qualquer coisa que eu pudesse imaginar, naquele momento: fiz um gesto na direção do menino no banco traseiro do carro, Leonardo, dançando no espaço interno do veículo introspectivamente com um pingo de luz de sol nos cabelos loiros. ---- Alô --- Cecília disse ao celular, era a voz de Ricardo, seu ex-marido ---- Já estou saindo da cidade(.) ----, ela disse e desligou. Passavam das nove da manhã, o telefone tocou inesperadamente, de novo: sem pensar, ela atendeu, e agora estava ali com a voz de Ricardo de novo, profunda, oca, pomposa e terrivelmente deprimida em sua mão. A voz estava em seu ouvido, não havia mais onde pô-la, nenhum meio de inverter aquela corrente, nem fechá-la, o que parecia estar carregando, de um em um, os elementos ansiosos das entranhas dela. ---- É assim mesmo que você quer jogar esse jogo, Cecília (?) -----, ela hesitou, no auge do silêncio recíproco ficou pensando se seria correto pronunciar a palavra ''amante'' ou ''namorado''. ---- Que jogo (?) ----, ela perguntou. Ricardo suspirou na outra linha, talvez até aliviado por não haver nada a fazer senão ''deixar rolar''. ---- Não estou mentindo, nem jogando com você (ela disse) já conversamos o que tínhamos que conversar, acabou (.) ----, ele queria ver os dois, antes da viagem, mas Cecília disse que não, e desligou o telefone. ---- Entra, K (: esse é o Leozinho, meu filho(.) diga oi para o tio K, meu anjo (.) ----, o menino, nove anos de idade, sacudiu a cabeça e deu de ombros, mudo. Tirei um boneco do homem-aranha do bolso, desses que grudam na parede, e entreguei à ele. O menino o colocou de lado, no banco do carro, mas ficou olhando para ele intensamente, em silêncio. Depois que Cecília deu a partida, alguns metros à frente olhei pelo retrovisor e ele estava com o boneco na mão, ajudando-o a escalar o vidro da janela, em meio à um diálogo de histórias em quadrinhos (pareciam feitos um para o outro). De repente, Cecília sorriu, tranquilizando-se. Achou possível que eu tivesse compreendido aquilo que ela gostaria de deixar implicitamente estabelecido: isto é, que todos os nossos assuntos, a partir de agora, fossem tratados levando-se em consideração o menino (CORTA ---- a cidade, Espera Feliz, era fria, mas ainda assim sensual, ou assim me pareceu, da primeira vez (já a conhecia, de tempos atrás; uma ex-namorada minha ainda vivia lá: era uma cidade a quase mil metros acima do nível do mar, na Zona da Mata, em pleno maciço do Caparaó; a Serra do Caparaó é uma região montanhosa do Brasil, localizada na divisa sudoeste do Espírito Santo com Minas Gerais. O ponto mais alto da região é o Pico da Bandeira, com 2.892 metros, que possui a maior cota de altitude do Brasil. Em 1966-67, a região foi palco de uma ação guerrilheira contra o regime militar. Atualmente, a região sobrevive do cultivo do café e do comércio, despontando no panorama turístico do estado. Em volta da cidade de Espera Feliz há matas, brejos, rios e uma incrível quantidade de cachoeiras, sendo a mais famosa a Cachoeiro do Chiador e o maior atrativo o Parque Nacional do Caparaó. Fazia sol, quando chegamos, e as ruas eram um festival de saias curtas, refeições ao ar livre e picadas de insetos. Um clima de paquera e assédio persistia nas praças ao longo da primavera e do verão. Obviamente, a cidade não era para todos: não havia clubes campestres, as diretrizes políticas não eram edificantes, as escolas eram apenas satisfatórias ou ruins, a base para a tributação injusta e alarmante. Jovens que viajavam diariamente para Caparaó, Alto Caparaó e Carangola, mudaram-se para essas cidades, mais adequadas. A beleza natural da cidade beirava o estado selvagem e podia facilmente transbordar para a violência. Escândalos conjugais de repente estremeciam o conselho administrativo das escolas públicas, da igreja batista ou do Rotary Clube. Um suicídio passional ocorrido de madrugada lançava uma maldição sobre uma casa verde clara até então inofensiva na fileira de casas do centro. Etc... Mas Cecília não deixou de ser elevada por aquele ambiente exótico à um estado sensual e alegre (telúrico, por assim dizer: mesmo seu modo de andar se tornou mais juvenil, ao tirar o menino do carro, e a fricção de sua blusa contra os seios adquiriu uma sugestiva tensão nervosa. Na rua, nos deparávamos com a homogênea proporção dos prédios baixos, pelo traçado caprichoso das ruas de pedra e pelas inesperadas recordações do meu passado: uma loja de antiguidades ainda oferecia, aparentemente, os mesmos móveis na vitrine; um carteiro de cabelo grisalho continuava fazendo a mesma rota; um gracioso e velho ipê amarelo ainda não tinha morrido; um desgarrado trecho de um passeio da praça ainda não tinha sido calçado. A cidade era desigual, informal, com suturas através da qual o verdadeiro conteúdo da vida (sujeira, sexo, água desperdiçada, necessidade de dinheiro e morte) não parava de vazar. Até os cães e as crianças da cidade, como o menino de Cecília podia reparar, eram mais ladinos e matreiros do que os das cidades mais bem organizadas e anti-sépticas. O velho hotel-fazenda que Cecília tanto gostava ficava numa das saídas da cidade, que não levava a parte alguma. A estrada para lá continuava sobre uma pequena ponte de madeira em arco que transpunha um rio, passava por outras poucas casas e então se transformava num amontoado de cavalos da raça mangalarga-marchador soltos num pasto verdejante atrás de um enorme casarão colonial de três andares restaurado com luxo. A estrada era pavimentada depois da ponte e parecia sensual, como a entrada de um motel campestre (me trouxe de volta aos dias da minha infância, à fazenda onde cresci (Espera Feliz era uma cidade de mulheres, como a maior parte das cidades da Zona da Mata mineira, dominada pela energia feminina: encontrar-se, num dia de semana de tarde, na cama com a mulher de outro homem, era como entrar para um quadro de associados, um valor básico numa tribo canibal discreta e silenciosa. Em festas, até onde eu podia me lembrar, havia somente quatro tipo de pessoas: mulheres que conheciam vários homens, homens que conheciam várias mulheres, e homens e mulheres que eram inocentes. O cultivo pessoal egoísta era o estilo ali, e a negligência dos jardins diante das casas um sinal de liberação moral (CORTA ---- o foco do desejo sexual é preciso e nítido, e naquele momento os seios de Cecília podiam ser encarados como um modelo para semelhante foco, surgindo de uma forma suave, macia e indefinida, até a demarcação da auréola e, dentro dela, chegando à ponta precisa do mamilo. Num mundo indeterminado e fluente, o desejo sexual é realçado por uma ânsia de certeza e precisão: ''AO LADO DELA MINHA VIDA FICA ARRUMADA''; mas num mundo hierarquizado e estático o desejo sexual é realçado por uma ânsia de certeza alternativa: ''COM ELA AO MEU LADO SOU LIVRE''. O único poema a ser escrito sobre sexo é AQUI e AGORA, o que sempre me fez duvidar do valor de todos os poemas sobre sexo: meus olhos voltaram a focalizar Cecília (é noite, o menino dormia), e o olhar dela é para mim algo tão permanente e específico quanto uma casa ou a porta de um templo (é um olhar para o qual a menina com quem perdi a virgindade, aos doze anos, me preparou vinte anos atrás, no meio do mato). Por trás de semelhante olhar existe uma confiança total (da minha parte) de que exprimir algo naquele momento (sem pensamentos, sem palavras, mas através de nossos olhos incontroláveis) é ser instantaneamente compreendido. Naquele momento, no quarto do hotel-fazenda, SER É SER COMPREENDIDO. ----- Não pare, K, não pare(.) ----, é basicamente tudo o que pode ser dito, num momento como aquele, pois nele o desejo é sua satisfação ou talvez não se possa dizer que nem desejo nem satisfação existam separadamente, já que não há antinomia entre eles : toda aquela experiência se torna então uma experiência de liberdade, e a liberdade naquele momento exclui tudo que não seja ela mesma. Um pouco mais tarde, Cecília acaricia minhas costas e sussurra: ---- Está vendo (?) está vendo(?) ----, o lótus guarda a semente, e sua flor desabrocha na superfície, no ar do quarto de hotel. É por isso que o lótus é o símbolo da sabedoria ao mesmo tempo que é o símbolo da mulher. O lótus é o símbolo de Lakshimi, a mulher de Vishnu. O mundo não é tal como nos acomodamos à ele: dentro de nós existe algo agudo e afiado que nos capacita a realizar uma cirurgia. Dentro, se tivermos coragem de lidar com ela, existe a lâmina afiada para seccionar o mundo inteiro conforme ele é: mundo que finge fazer parte de nós, mundo ao qual, por meio do costume balofo e conciliatório, dizem que pertencemos. ---- Diga agora(.) diga-me, meu amor(.) ----, ela coloca a mão sob meus testículos, meu pau encosta na sua boca. Lakshimi é a deusa mãe. Ora, que faz uma mãe? Manda as crianças irem brincar, depois as chama de volta, para a terra. O lótus é o NADA. De um longo e apertado broto se desprendem as pétalas: suas pontas começam a se separar de modo que na extremidade mais distante da flor haja uma boca aberta: no Ocidente nós nos acostumamos a temer o NADA. ''Protege-nos do NADA, Ó grande e barbudo Jeová(!)''. Fools! Então, libertas, as pétalas giram lentamente como hélices, e assim se abre um ciclâmen: mas no Ocidente teme-se a beleza do lótus e o NADA: a sensação do meu pau duro e do prepúcio a se retrair da saliência coronal, para cultuar o que a mulher tem em sua raiz. O ''rajas'', que não significa apenas sangue, mas todas as secreções femininas. Os rajas são néctar; são o alimento dos anjos. Rasa, a Felicidade, também significa seiva. A seiva divina que brota da mulher, isto é raja. Prakriti antes de pronunciar o som do ''eu'' que a densifica (aham: Cecília é o bom senso, e eu inalo todo seu aroma: miro seus olhos e vejo a vermelhidão da boca dela quando ri ; Buda e Brahma estão em tudo: em ''Kama'', prazer; em ''rasa'', seiva. Não diga não à nada. Você faz parte do mesmo mistério. Quando o ego se dissolve, o som do ''eu'' se extingue e Purusha está ali! Coma o lótus! Nenhum Deus barbudo e irado irá esmagá-lo com ódio. Buda é seu: você o carrega como um pequeno feto nas sombras da sua mente, e dessa maneira é ele mesmo quem te carrega. OM. Estamos largados na cama do hotel, de noite, lado a lado. O ar da janela aberta refresca nossos corpos e faz com que nos demos conta de como estão úmidos, de como estão molhadas nossas barrigas. ---- Devíamos continuar para sempre(.) ----, Cecília diz, e agarra dois dedos da minha mão (juntos, atravessamos um limiar além do qual o espaço, a distância e o tempo não existem mais: um limiar quente, úmido, vibrante, animado à um ponto em que a densidade inanimada do mundo não possui equivalente qualitativo, a não ser o Pico da Bandeira, cravado no maciço do Caparaó adiante: animado à um ponto em que a substância do mundo parecia feita únicamente de som. OM. O som do infinito . ---- Devíamos continuar para sempre (.) ----, ela repetiu, mas insistir nessa conjugação logo se tornaria algo literariamente muito complexo e cansaria a atenção concentrada do leitor (a), por isso vamos deixá-la de lado e voltar novamente à fria e palpável casa de fazenda de Luís Carlos Marion, em Espera Feliz, aquela construção pesada no ar rarefeito da altitude que foi a primeira coisa a me dar a tese de que as casas nessa região possuem uma natureza polar, com a tendência de se tornarem alcovas ou templos tibetanos de magia negra. Caso esteja certo o que eu pude averiguar, a casa com uma enorme sala de estar era semelhante a um templo ou castelo, de mogno muito escuro por dentro; a sala de jantar, a cozinha, a dispensa e os aposentos da criadagem encravadas no que havia sido um porão, e quartos, estúdios, um laboratório improvisado para refino de pasta base e solários encacheados como crustáceos esbranquiçados pela mica e o caulim, cubículos por todas as alas superiores dessa mansão de dois andares com janelas de curvas góticas e iluminação sombria: tão grande, tão fria, tão pouco prática (era necessário descer uma escadaria para se preparar um sanduíche); e tão escura, tão ecoante, tão sepulcral que para Luís Carlos Marion era como uma pirâmide egípcia. Uma casa para ocasiões raras (eventos, festas) e ele pouco a visitava (ok, estou me repetindo um pouco, certo? Continuo a história depois. A campainha tocou aqui. Será que é ela?
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