sexta-feira, 30 de janeiro de 2015
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Sexta-feira de 2002, não lembro qual. A impressão da minha primeira leitura foi a de que o diálogo entre o músico dodecafonista Adrian Leverkuhn e o Demônio, no livro Doctor Faustus, de Thomas Mann, eram certamente as páginas mais brilhantes da literatura produzida no século XX; mais tarde, coloquei ao seu lado naquele altar diabólico o ''Informe sobre Cegos'', de Fernando Vidal Olmos, escrito por Ernesto Sábato. Eu estava pensando em páginas, não em livros. Meu coração dilatou-se angustiado ao longo daquela tarde de leitura, sozinho no meu apartamento, e minha respiração acelerou-se enquanto uma excitação causada por presságios de perigo real dançava na minha mente, empurrando-a para uma encruzilhada. ''Eu era Adrian Leverkuhn?'', me perguntava, como se acabasse de assistir uma luta entre duas sombras sangrentas dentro de mim. Pela janela, na rua, o tráfego rodava tranquilamente, enquanto que nas copas das árvores uma ventania gelada e selvagem fluía sombriamente, deixando um rastro de folhas secas no asfalto. Fiquei estatelado na cama durante horas: nada do que até então havia lido tinha me apanhado com tanta força de sugestão, com a força de uma ameaça ou séria advertência. ''Afinal, é essa a recompensa(?) que digam que K.M é um escritor brilhante(?) meu Deus, não é isso que eu quero da vida(: disso já sei há muito tempo(.)'', pensava, conferindo à mim mesmo uma oferta sacrificial incruenta. ''O drama dialético do confronto de uma grande personalidade criadora com a natureza, a sociedade e os destinos adversos, avançando através do nada de forma ininterrupta(: auto-propulsão e ipseidade, é isso o que eu quero da vida(.)''. Ao ''organizar os pensamentos'' dessa forma, naquela tarde solitária de sexta-feira, não demorei muito a começar a lembrar da noite anterior, quando Amanda veio conhecer minha nova residência. ---- É meio vazio seu apartamento, K(.) ----, ela disse. ----- Não enquanto você estiver aqui comigo, cherry(.) ----, respondi. ----- Então, é aqui que você escreve seu livro de seiscentas páginas (?) -----, ela perguntou, olhando para o quadro de Van Gogh na parede da sala. ----- Na verdade, cheguei à conclusão de que terei que passar os próximos anos apenas fazendo esboços e anotações Emoticon smile quando eu estiver pronto, publicarei ele na internet, na medida em que for escrevendo os capítulos, como Dostoiévski fez com Crime e Castigo e outros livros no jornal(.) -----, sempre me vinha um presságio de ação, quando eu falava do meu livro de seiscentas páginas. Algo trovejante e estimulante, pois eu já sabia que nada na história da literatura poderia chegar aos seus pés. ----- Mas assim você não vai ganhar nenhum dinheiro com ele(.) ----, ela observou, inquieta com a natureza excepcional do meu plano. ---- He he(... mas isso está completamente fora de cogitação, minha flor(: ele só será compreendido uns duzentos anos depois(.) -----, eu disse, orgulhoso, repuxando para baixo os cantos da boca. De noite, naquela época, minhas olheiras costumavam estar tão fundas, de tanto ler, que a luz elétrica feria um pouco meus olhos. ---- Bom, você deve saber o que está fazendo, e eu não vim até aqui pra conversar sobre literatura(.) -----, ela disse, e andou até a porta do meu quarto, parou, disse HUMMM de novo, e entrou. Agarrou com os dez dedos o edredom da cama e, no seu sotaque caipira encantadoramente musical, admitiu que tinha vindo até ali porque queria que eu a comesse por trás, enquanto ela estivesse curvada sobre a mesa da cozinha. Minha resposta a satisfez: eu não disse nada, apenas desafivelei o cinto na minha calça, rindo para ela. ---- Quero que você amarre minhas mãos atrás, antes de começarmos(.) ----, foi a última instrução dela. ''E o que mais(?)'', pensei, enquanto abria o botão da braguilha. Já tinha amarrado as mãos dela com a fronha de um travesseiro. Ela sacudiu um pouco a cabeça, quando comecei a enfiar. Apesar de tarada, Amanda não era chegada em sexo anal, ou não se animou de faze-lo comigo. Quando o ritmo aumentou um pouco, aquele barulhinho aquoso se fez ouvir, embaixo, e eu levei as mãos aos ombros dela, até o pescoço, e pude sentir que, mexendo os seios pra frente e pra trás, sobre a mesa, ela esfregava os mamilos, que estavam duros, nas pedras frias e pendentes do seu enorme colar vermelho. Basicamente, foi só isso. Depois ela foi embora satisfeita e rascunhei , de improviso, um pequeno parágrafo de especulação sexual a ser incluído na minha obra futura e imensa ainda embrionária naquele momento. Na verdade, com os recursos verbais e modelos literários que possuía na época, eu tentei de fato compreender se estava sendo com Amanda o que os cristãos chamariam de pecaminoso ou desumano. No entanto, essa parecia ser a lei de satisfação imediata dos desejos sob o qual eu, Amanda e sabe-se lá mais quem estávamos tentando viver. Adrian Leverkuhn dialoga com o Demônio, cuja resoluta indecência estava tendo efeitos extraordinários sobre a detonação do meu sêmen dentro de Amanda. Mas quando finalmente chegou a tão aguardada manhã de sábado, no ponto de encontro do projeto na antiga reitoria da UFJF, e eu reencontrei Rafaela, as habilidades diabólicas de Amanda já não pareciam me servir para nada. À cinquenta metros de distância, eu já a tinha avistado chegando quase no mesmo instante que eu: os lábios vermelhos dela mexendo espasmodicamente como se em busca de uma posição de compostura no rosto. Ao nos encontrarmos no portão de entrada, porém, seus lábios pareceram desabrochar, quase sorrindo, e quando entramos na vã e ela me percebeu preocupado em garantir um lugar ao seu lado, eles definitivamente sorriram, abriram-se ao ar como que a pedir alimento, com um levíssimo traço de sarcasmo. ---- E então, K(: em que página do livro de seiscentas páginas você está(?) -----, na verdade, me deu vontade de dizer à ela que eu tinha passado a semana inteira sob o domínio de uma paixão intensa, cuja impiedosa energia nunca antes eu tinha me permitido sentir, mas... ----- Nem tive tempo de começar ainda(: andei estudando para um prova de Direito Civil(.) ----, eu disse. Mas continuava escrevendo -o mentalmente a todo segundo, o que me levou a acrescentar: ---- Em meu interior há um livro aberto, esperando ser escrito, mas minhas opacidades me impedem de passá-lo pro papel(.) ----, cuidadosamente, descansei as mãos nas minhas coxas e pela larga janela da vã eu fingia olhar a cidade, fixando o rosto de Rafaela com a visão periférica. O frio daquela manhã nos petrificava, e eu trajava um casaco branco bem chique que tinha comprado há três dias. Eu esperava que ela dissesse alguma coisa, olhando pela janela mas enxergando seu rosto como um borrão de energia com o rabo dos olhos. Meus pensamentos formavam cadeias que me levavam longe, tentando sondar a mente dela. ---- E você(?) ----, perguntei, para quebrar o silêncio. ----- Nem me pergunte (ela respondeu) terminei o namoro, tirei uma nota baixa e minha depressão voltou a atacar(.) ----- , eu devia ter feito algum tipo de macumba inconsciente enquanto dormia naquela semana. Adrian Leverkuhn aperta a mão do Demônio. Aquilo superava todas as minhas expectativas. Não, meu Deus, mas só o rosto dela tão perto do meu já era lindo demais. ''Olhe para ela'', eu pensava comigo mesmo ''Olhe agora, idiota(!)''. Dentes que não podiam ser mais brancos, as curvas deliciosas das maçãs do seu rosto, os enormes olhos pretos esverdeados, os cabelos de um castanho avermelhado, âmbar avermelhado, sei lá, ACREDITEI, e eles caíam lisos como os das princesas dos contos de fadas, e aquelas pernas de modelo, toda ela muito comovente após confessar que sofria de depressão; que rosto doce, tão cheio de uma felicidade acumulada e esquecida na infância, no sul de Minas Gerais. Como seu sorriso abatido, naquele momento, era efervescente pra mim! A inocência dopada que ainda arrancava confiança para ser charmosa e atenta aos olhos admirados de todos. Essa foi a garota que me derrubou, no meu lado na vã, ao dizer: ---- Minha depressão voltou a atacar(.) -----, como me pegou desprevenido aquele seu desarmado olhar melancólico. Nem parecia a garota sarcástica de sábado à noite, brincando de Jogo da Verdade com o olhar dopado de agora transmutado num fino rosto de raposa, um nariz ligeiramente empinado, um lábio superior algo proeminente, uma boca sempre pronta para responder alguma acusação do ficante ou formular algum desafio às colegas da república. Uma jovem dama blasé com quem agora, tive a certeza, eu passaria cerca de um ano e pouco casado em meio à um turbilhão de experimentos eróticos e lisérgicos. ----- Eu sou bipolar(.) ----, ela explicou ainda: ---- Vivo dopada à base de remédios de tarja preta, atualmente PROZAC (.) ----, naturalmente, tudo que podia fazer até aquele momento era conversar (o rosto tão perto do dela que seus olhos pareciam o fundo de um piscina para a qual eu olhava procurando peixinhos dourados: o que me excitava, porém, era que ela me dava realmente a impressão de que nosso primeiro beijo já estava a caminho, protocolado e com trânsito em julgado, aguardando apenas a expedição da sentença; que se eu lhe propusesse beijá-la ali mesmo, dentro da vã, ela provavelmente diria: ''Mais tarde, K (--- ''. ---- Eu não tenho depressão , Rafaela (eu disse) nem sou bipolar, mas também tenho vivido dopado(: atualmente, maconha e LSD(.) -----, e ri. Com a minha paródica confissão, senti que algo de essencial à nossa futura relação já se fundava, funcionando como lubrificadas engrenagens amorosas. Tornei a olhar pela janela da vã, meu pescoço latejava de excitação. ''Que aconteceria comigo'', eu pensava ''se um rapaz como eu simplesmente caísse na estrada e desaparecesse(?) jamais chegando onde era esperado(?) se simplesmente vagasse pelo país em busca da felicidade... bem, da garota adequada(?) eu era exatamente assim(.)''. Enquanto esperava pela minha própria resposta, me distraía com o espetáculo de um milhão de lembranças desencadeadas no pequeno espaço entre os meus olhos, me dizendo que eu tinha feito exatamente isto, nos últimos anos. Meus ouvidos estavam alarmantemente aguçados, e eu percebia que as vozes no banco de atrás cochichavam indiscrição sobre nós dois, como: ''Só estão aqui pra namorar e pegar a bolsa no final do mês''. Fechava os olhos e nada mais via do que um mundo aquoso de mercúrio e ouro derretido com as cores de uma chama azul. Via balsas de garimpo vazias navegando fantasmagóricas à minha frente, de repente voltando atrás para me resgatar do fundo do rio, depois avançando outra vez. Algo estava sendo fabricado no subsolo do meu espírito: podia sentir o zumbido e a força dos motores embaixo, naquele subsolo. Uma textura escura de medo esvoaçou no meu pescoço e, aflito, bani aquelas imagens da minha mente e voltei a me concentrar no rosto de Rafaela. ''Pagamos nossa morte a prestações, longas ou curtas, conforme negociações clandestinas ou inconscientes com a própria morte''. A viagem de ida para Lima Duarte. O passeio, lição ótica, havia terminado. Gilberto, o coordenador do projeto, me perguntou se eu havia tido alguma notícia de Marcos, durante aquela semana: ----- Agora que eu percebi(: ele não pareceu de novo(: telefonarei para ele essa semana, ok(?) -----, eu disse, parado ao lado de Rafaela, que novamente formaria dupla comigo à bordo do carro da Câmara Municipal. ----- Quer dizer que essa semana você entrará em contato com seu cunhado, K(?) ----, ela me perguntou, sarcástica, me pedindo um cigarro. Eu ri e alisei o queixo com as pontas dos dedos, procurando um breve comentário, ao modo chinês. Encostei nela e disse: ---- Ele não é meu cunhado, Rafaela Emoticon smile essa não é uma boa descrição(: como sempre, você costuma ficar exibida ao ar livre(: por falar nisso, como anda seu quarto escuro(: preciso conhecer , né(?) ----, eu disse, procurando diverti-la com aquele constrangimento, com a impressão de que sozinhos, nem eu nem Rafaela éramos suficientemente espertos ou razoáveis, mas que em dupla reforçávamos mutuamente nosso espírito transgressivo e, com o correr das horas, nos tornaríamos mais e mais hábeis na sedução um do outro. ----- Ontem à noite gostei de gozar no chuveiro (.) ----, ela respondeu. ---- Sozinha(?) ----, eu quis saber logo. ---- Sim , mas pensando em você, e naquela barulhada que vocês fizeram no quarto da Amanda(.) ---- , ela disse, e agora eu sentia que podia perguntar qualquer coisa sobre ela, que talvez ela respondesse. ----- Preciso ouvir mais seus segredos(: pode confiar em mim, amor(: cada vez que você goza sozinha e não conta pra ninguém, é um segredo sexual(: e cada uma dessas milhares de vezes em que você goza sozinha constitui um momento único, precisamente com a mesma ordem de imagens, e com você passando o dedo médio naquela dobra exatamente daquele jeito, mordendo o lábio inferior exatamente com o mesmo grau de força, tudo totalmente privativo, pessoal e intransferível(: já cheguei a pensar, inclusive, que cada vez que uma mulher goza sozinha na vida , esse orgasmo continua a existir como uma esfera em outro espaço-tempo, uma esfera com meio metro de diâmetro, em alguma dimensão ideal, mais ou menos como os óvulos que você tem enfileirados dentro de você, só que são(... bem, são óvulos de orgasmo do passado, sendo eu o único espermatozóide viável que está passando por perto, e adoraria passar toda minha vida flutuando de uma para outra dessas esferas orgasmáticas únicas, olhando para elas, e podendo ver sempre dentro de cada uma delas você se masturbando até gozar (.) -----, eu disse, rindo, enquanto ela também ria, me encarando com uma expressão de tamanha incredulidade, que julguei que jamais havia conversado tão à vontade com uma garota tão bonita; mas ela fingiu meditar sobre o fato, e ficou calada. Era de fato uma imagem e tanto para ser meditada, a das esferas. E, olhando para o rosto dela apaixonadamente, agora, de algum modo eu soube que também era o primeiro confidente real da sua vida. Um momento de tranquilidade pareceu chegar, junto com o carro da Câmara Municipal, um momento de silêncio interno perfeito. Então, pela primeira vez, senti que nada mais havia na presença de Rafaela que ainda me deixasse tenso e inseguro, e considerei aquela pausa na nossa conversa com gratidão e expectativa. Quando ela voltou a falar, o que eu estava ouvindo já era a VOZ ÍNTIMA dela, tão certo como estava vendo pela primeira vez o relaxamento aliviado de suas reluzentes pálpebras. ----- Quando entrei na universidade, fiquei logo apaixonada pelo Che Guevara(.) ----, ela disse, aparentemente do nada, e continuou: ---- Mas desde então, só namorei playboys e mauricinhos, uns estudiosos, outros menos, mas todos igualmente vazios, egoístas, sem graça e ignorantes Emoticon smile e agora, que eu pretendia dar uma guinada de 180 graus à esquerda na minha vida amorosa, estou prestes a me apaixonar por um indivíduo politicamente indecifrável, que parece uma máquina paranóica de criticar e debochar de tudo e todos, nunca contente com nada Emoticon smile o que você deve pensar do Che Guevara (?) ----, ela perguntou, assim que descemos do carro e encontramos a associação de moradores do distrito de São Domingos, que deveria estar lotada à nossa espera, de portas fechadas e sem uma única pessoa nas redondezas para pedirmos informações. ----- Não entendi(: eu admiro profundamente Che Guevara, apesar de considerá-lo um pensador sem nenhuma originalidade e um revolucionário fracassado Emoticon smile mas, como diria Terence Mkcenna: ''A Natureza ama a coragem'' Emoticon smile e, você sabe, se algo sobrava no Che era coragem Emoticon smile quando se faz parte de um grupo de guerrilheiros na selva há sentimentos que a gente da cidade não pode compreender, mesmo que seja comunistaEmoticon smile a emboscada de La Higuera é algo que me impressionou tremendamente(: uma vez , li numa biblioteca de Belo Horizonte o trecho de um correspondente de guerra que dizia o seguinte: '' Calcula-se que o Comandante Ernesto Guevara deve cair de um momento para o outro, pois está cercado há vários dias por um círculo de ferro. A terra e os mosquitos aqui transformam a pele de qualquer homem num manto de miséria. A vegetação inextrincável, seca e coberta de espinhos, torna impossível qualquer deslocamento, mesmo de dia, a não ser pelos arroios que estão todos fortemente vigiados. Não é possível compreender como os guerrilheiros podem suportar esse cerco de sede, fome e horror. 'Esse homem não sairá vivo daqui', disse um oficial (.) ----, eu narrei, do jeito que me lembrava, o desfecho daqueles onze meses de guerrilha para ela ---- e de uma fonte militar: ''Às oito da manhã um camponês chamado Victor foi ao posto militar de La Higuera para informar que homens desconhecidos se moviam entre os matagais próximos ao seu rancho (... o Capitão Prado foi com seu destacamento à canhada de Yuro, e seus homens fizeram contato com os guerrilheiros ao meio-dia. Dois soldados resultaram mortos no primeiro encontro. O tiroteio continuou esporadicamente por três horas. Lentamente, os Rangers foram ganhando terreno, chegando a uns setenta metros do inimigo. Às quinze e trinta os guerrilheiros sofreram a primeira baixa visível ----, Rafaela me olhou e disse ---- O Che foi assassinado da maneira mais(... ----, e se interrompeu, pedindo que eu continuasse: ---- Willy chegou com o corpo do seu chefe sobre os ombros, e quando se deteve para recobrar suas forças e dar algum cuidado ao Che, que ainda estava vivo, os soldados emboscados lhe deram ordem de rendição. Mas os Rangers atiraram primeiro. Che tinha graves feridas e a asma lhe impedia de respirar. Então transmitiram a mensagem cifrada: ''OLÁ SATURNO. PEGAMOS PAPÁ'' ---- , eu disse, e,não por maldade ou sadismo, comecei a rir discretamente, o que me valeu uma dura repreensão por parte de Rafaela. Prossegui: ---- Guevara foi levado em uma manta por quatro soldados até La Higuera, distante vários quilômetros do local de captura, e ali se fez um inventário do que havia em sua sacola: dois diários, um código, um livro de notas com mensagens cifradas, um livro de poemas copiados à mão, um relógio e outros três livros. O Coronel Selich esteve muito tempo falando com o Che, que por sua vez falava da AMÉRICA com ele. O Coronel berrava, tentando arrancar-lhe informações estratégicas. De repente, o Che desferiu uma bofetada na cara do Coronel. No helicoptero que transportava os prisioneiros, o Che reclamou de muitas dores , e pediu ajuda. ''No peito, por favor''. Mais tarde, no lugar em que estavam encarcerados o Che e Willy, Terán apareceu e Willy o insultou, e então Terán lhe atirou na cabeça. Mário Terán tinha sido assinalado pelo destino para matar o Comandante Ernesto Guevara, e pediu ao tenente Pérez um M-2, que descarregava rajadas automáticas. ---- Vens para matar-me(.) ----, disse o Che, os olhos brilhando intensamente. Segundo relato do próprio sub-oficial Mário Terán: ''Fechei os olhos e disparei a primei rajada. O Che , com as pernas destroçadas, caiu no chão, se contorceu e começou a perder muito sangue. Eu recobrei o ânimo e disparei a segunda rajada, que o alcançou em um braço, em um ombro e finalmente no coração'' Emoticon smile depois, as mãos do Che foram cortadas a machadadas, para impedir a identificação, e seu corpo esquartejado em várias partes (.) ----, a palavra: eletrocutada no rito do terror. A larga e clara entrada da igreja estava tão deserta que podíamos falar à vontade, ela tinha ficado um pouco nervosa com aqueles detalhes todos que narrei, e me pediu um cigarro. Depois, fez o sinal da Cruz no peito e disse: ---- É, não sou o que se pode chamar de uma menina de coro, mas fiquei um pouco atrapalhada com isso(.) -----, dei uma olhada profunda para seu rosto, e observei: ----- O homem é o único animal que, segundo Rimbaud, perde a vida 'par délicatesse' Emoticon smile oh, pense o que você quiser, amor (.) ----, Rafaela agora riu como se fosse capaz de aturar muito mais do que isso. Ela me fez ficar sedento pela sua boca vermelha quando disse OUI, e se assustou um pouco quando a puxei pela cintura e a beijei, afastando os cabelos dela para o lado com a mão. Enquanto nos beijávamos, eu pensava o tempo todo ''Será que isso está realmente acontecendo (?)'', e imaginava Rafaela amanhecendo linda no meu apartamento todos os dias, cada dia um sorriso radiante e renovado por uma longa noite de amor. Era isso que as pessoas queriam dizer quando falavam das possibilidades da juventude... mais possibilidades da juventude: ----- Se eu me casar com você algum dia, K, vou estar casando com um estranho tipo de ator(.) ----, e riu comigo, não muito alto. Respondi: ---- Ou com um estranho tipo de Artaud Emoticon smile bem, deixa pra lá(.) ----, uma hora depois, após sermos informados de que a reunião com a associação de moradores tinha sido cancelada por causa de um ''showmício'' eleitoreiro num distrito vizinho, sentamos frustrados em frente a um boteco miserável e pedimos uma cerveja. ----- Estava pensando nas últimas horas que você é uma garota de temperamento meio suicida(: como você pôde decidir estudar Serviço Social tendo um problema tão grave de depressão(?) como vai poder ajudar a orientar aquelas pessoas miseráveis cheias de problemas existenciais e financeiros insolúveis, se não consegue nem mesmo se manter de pé sem remédios de tarja preta (?) meu Deus, eu te amo(!) ----, ela não largava mais a minha mão, nem quando acendia o cigarro. Aqueles súbitos momentos filosóficos dela me agradavam, quando silenciava com o olhar perdido no horizonte. Poética, terrivelmente poética. ---- É verdade, eu creio Emoticon smile mas hoje em dia sou também uma garota bastante dura na queda, signor(.) agora, me fala mais sobre você(.) nunca namorou sério na vida (?) nunca trabalhou (?) ----, perguntou-me ela, e eu subitamente fiquei calado, enquanto ela olhava para mim interrogativamente. ---- Te dou uma nota de cinquenta se me disser o que cê tá pensando agora(.) ----, acrescentou ela, fingindo rir. A cerveja já estava fazendo efeito em nós, e em mim, acrescido de suas perguntas, produziu um desespero semelhante ao da borracha, quando enxerga pela frente um caderno inteiro a apagar. ---- ''O anteontem é póstumo'', cherry ( eu disse: Murilo Mendes(.) ----, uma ligeira inquietação, ou calma exaltada, desceu sobre ela: ---- Sem essa de Murilo Mendes comigo, mocinho, não estou brincando, quero saber tudo sobre você(: ou será que você não concorda(?) ----, a leoa do sol sacode a cabeleira invencível que desorienta o olho desarmado. Examino o camaleão dentro de mim, mudo de cor. ---- Aprendi a garimpar ouro há alguns anos, na fazenda do meu avô, e decidi que era algo divertido, quando dava certo (.) ----, respondi, e segurei o braço dela meio sem jeito, como que para ajudá-la a descer um degrau na escala do do meu passado. Mas ela não percebeu nenhum degrau ali e eu já não sabia se devia dizer mais alguma coisa naquele sentido. A igreja do distrito estava sob o sol à pequena distância e os reflexos dos vitrais pareciam responder à leve pressão que eu fazia no braço de Rafaela. Prendendo a respiração, puxei ela levemente pra perto de mim; beijei -a de novo e continuei: ---- Claro que já namorei sério, só não durou muito tempo(.) eu só tenho vinte anos, né(?) ----, agora minhas palavras entravam num caminho escuro, que descia sinuoso para uma pequena sala de espelhos adolescentes à beira da praia, na cidade de Salvador. O tempo redescoberto. Imaginei se seria apropriado convidá-la para visitar ou passar a noite comigo no meu apartamento, ou se ela ficaria insultada. Ela não era nenhuma Amanda. Veio-lhe um movimento brusco do rosto e um sussurro apressado: ---- Péssimos antecedentes, né, K(?) e o problema é que eu sinto que você acha isso excitante(: sair por aí largando uma garota em cada porto, como um marinheiro sem destino(.) ----, ela disse. ---- Mas isso nunca me aconteceu, Rafaela Emoticon smile eu não sou assim, você é que está tirando conclusões precipitadas, por causa do sábado passado e da Amanda(: mas eu não sou assim o tempo todo(.) ----, era como se eu tivesse sempre desejado ir atrás de coisas que me apareciam no caminho só para abandoná-las depois, em meio à GRANDE DERIVA; como se Rafaela tivesse descoberto essa ânsia em mim e a julgasse incurável. ---- Você acha mesmo que podemos ter um futuro juntos (?), eu, particularmente, acho que depois do sábado passado e dessa história de garimpeiro, vamos ter que subir muito as apostas(.) -----, disse ela, e eu amei-a pela desconfiança que demonstrava tão escancaradamente em relação a mim. ----- Mas eu farei o que você quiser(: não sou do tipo que se agarra à uma idéia fixa, em matéria de amores(.) ----, eu disse, mas só um diplomata de escol, agora, poderia enfrentar com desenvoltura o fato consumado de que eu me perdia a cada declaração. ----- Como é que você pode mudar de idéia sobre o que é a sua verdadeira natureza, K(?) eu quero segurança, paz, amor, companhia,carinho, conversas com conteúdo altas horas da noite, e tal Emoticon smilealgumas dessas coisas eu sinto que você pode me dar, mas outras(... ----, meu Deus, que floresta de objeções indulgentes e fantasiosas, agora eu entendia o que a cabeça de uma pessoa deprimida e desenganada. Ela não conseguia alimentar esperanças além de certo ponto, apenas roía sonhos vagos pelas beiradas, como um ratinho com medo de ser devorado de um instante para o outro. Não, nenhum debate desafiador sobre minha ''natureza'' era necessário para que eu a modificasse de acordo com minha vontade e abrisse caminho para o nosso amor em meio à sua imaginação mórbida; pelo menos não ali e naquela hora. ----- Sabe porque eu gostei tanto de você (ela me perguntou) porque você é um garotão culto muito doido, e eu nunca achei que existisse um assim por aí Emoticon smile já conheci garotões muito doidos, doidos muito cultos, até mesmo garotões relativamente cultos, mas nunca um que fosse tão doido quanto você Emoticon smile foi por isso, K(: sou deprimida assim desse jeito porque acho as pessoas completamente sem graça, previsíveis, adaptadas à um mundo igualmente tedioso e sinistro (:eu já tinha perdido as esperanças de encontrar alguém especial, agora só a LOUCURA me parece capaz de alegrar um coração como o meu numa sociedade como a nossa(.) ----, e nisso se resumiu a discussão sobre meu duvidoso caráter , sendo tudo o que a dignidade dela parecia exigir ou permitir. Nenhuma admiração especial por mim como uma intrépida força carnal que quase tinha quebrado a cama da sua colega de apartamento, no sábado passado; nem pelo precoce escritor megalomaníaco de um livro de seiscentas páginas; nem muito menos pelo diletante escarnecedor do marxismo acadêmico ou pelo ''místico em estado selvagem''. Não, simplesmente um ''garotão culto muito doido''. E então, com cuidado, com muito cuidado, convidei-a para ir ao meu apartamento naquela noite. ---- É claro que vou, K(: passei a semana inteira pensando em você (.) -----, Adrian Leverkuhn se levanta da mesa, e se despede do Demônio: está pronto para iniciar sua obra. ---- Eu também, amor(.) ----, eu disse, rindo e nitidamente emocionado, porque, embora ela fosse certamente uma garota que gemia na cama quando seu cabelo era puxado por trás, e pedisse mais quando sua pele sofresse alguma pequena dor, e gostasse de ''ouvir coisas'' enquanto fodia, apesar de sua experiência ilimitada dos mais profundos abismos da depressão e os nervos de aço que demonstrava no mundo arriscado dos remédios de tarja preta, sem falar no impressionante senso de direito inalienável com que fazia o que bem entendesse, a despeito daquela total imunidade ao remorso ou à falta de confiança em mim que tanto me excitava, ela era também linda, cortês, respeitosa, inteligente e engraçada, filha perfeitamente educada de uma família de classe média do sul de Minas Gerais. Quando o carro da Câmara Municipal nos levou de volta e entramos na vã para retornar à Juiz de Fora, Gilberto nos questionou e cobrou o dia de trabalho perdido, dizendo que deveríamos ter voltado imediatamente. E acrescentou: ---- Tá vendo, senhor K, depois eu digo que os escritores atuais são todos uns pequenos burgueses e que a literatura é uma fuga solipsista dos problemas sociais, e você vem atirando do pescoço pra cima em tudo que se mexe na sua frente (.) -----, todos na vã começaram a rir, inclusive eu e Rafaela, e os Che Guevaras de apartamento logo me pegaram para Cristo. Me xingavam de ''playboyzinho'' pra baixo. Quando se acalmaram um pouco, iniciei a minha defesa, atacando frontal e indiscriminadamente a todos, claro: ---- O que acontece é que nenhum de você sequer chegaram a compreender o marxismo algum dia Emoticon smile se a literatura fosse inimiga da Revolução, ou pelo menos uma espécie de masturbação solipsista, não se poderia explicar porque Marx admirava Shakespeare Emoticon smile e o cortesão monárquico Goethe Emoticon smileeu lhes pergunto se no momento em que Marx ia à Biblioteca de Londres, nos dias em que se exploravam barbaramente nas minas de carvão crianças de sete anos, se era o momento ideal para a literatura e a poesia(: porque não só Charles Dickens escrevia naquela época, também escreviam Tennyson, Browning, Rossetti Emoticon smile e em plena Revolução Industrial, um dos fatos históricos mais impiedosos de que se tem notícia, houve artistas como Shelley, Byron e Keats Emoticon smile muitos dos quais Marx admirava e lia (.) grande favor fazem ao mestre de vocês atribuindo à ele asneiras desse tamanho(!) e, além disso, essa outra idéia falsa e superficial da arte como reflexo da sociedade, da classe a que se pertence(: e não só da arte, mas também do pensamento Emoticon smile de acordo com os critérios de vocês, Marx então não poderia ser marxista, já que era um burguês Emoticon smile o marxismo teria que ser inventado por um mineiro de Cardiff Emoticon smile me parece, inclusive, que sequer entendem a 'dialética' Emoticon smile suponho que todos aqui nessa vã leram QUE FAZER?, de Lennin, não (?) pois bem, a classe operária por si própria teria sido incapaz de chegar ao socialismo, não teria nunca passado do gremialismo amarelado e analfabeto, senão fosse a burguesia Emoticon smile o socialismo foi criado por burgueses como Marx e Engels, aristocratas como Saint-Simon e Kropotkin, intelectuais como Lennin e Trotski (.) ----, quando terminei de falar, Rafaela era a única que ainda prestava atenção em mim e no meu discurso. Olhando pela janela da vã através dos galhos das árvores eu via a claridade que a luz da cidade rodeando o Museu Mariano Procópio mandava ao céu estrelado. O corpo de Rafaela parecia desligado do mundo , ligado somente à força que meus olhos irradiavam do fundo do universo. ---- Deus (!) ----, foi praticamente a primeira palavra que ela falou em meia hora; o senso de mistério que minha figura humana irradiava nela era agora inseparável da sua impressão da realidade concreta. Quando descemos da vã e nos despedimos amistosamente do pessoal, a cortina pesada das suas pálpebras aludia à um cenário desconhecido onde logo mais ALGO seria 'representado'. São assim as 'dramatis personae'. Eu me virei ao lado dela na rua e, olhando ela de perfil, tentei compor algumas palavras. ----- A mulher foi feita enquanto o homem dormia Emoticon smile Deus é surrealista(.) ----, a sensação de fome que eu sentia pelo seu corpo era tão intensa que me paralisou. ---- Deus (.) ----, disse ela de novo, e virou a cabeça para mim: ----- De onde você tira todas essas coisas(?) ----, me perguntou. ----Eu (... ----, mas antes que eu começasse a tentar me explicar, o rosto dela se aproximou do meu como uma flecha, e nos beijamos longamente no meio da rua, como se estivéssemos bêbados, enquanto eu me perguntava se era aquilo que queriam dizer sobre deixar uma garota doida. No entanto, no caminho para o meu apartamento, eu pensava que livrar-me do que eu era ''por natureza'' talvez fosse uma tarefa mais difícil do que eu imaginava. Adrian Leverkuhn desiste de invocar seu bom senso em favor de uma vocação séria. O Demônio lhe sorri de um canto.
terça-feira, 27 de janeiro de 2015
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---- E você, K(: você também é desses caras que curtem pés(?) ----, Amanda, uma das estudantes de Psicologia que dividiam a república com Rafaela, me perguntou, e só então eu percebi que aquele papo furado de Jogo da Verdade era 'verdade'. Enquanto eu estava na cozinha abrindo uma cerveja vermelha que tinha colocado no congelador logo que cheguei, ela, Rafaela, seu ficante Alexandre e Rita, a outra estudante de Psicologia que morava naquele apartamento na Avenida Santo Antônio, começaram a brincar daquilo sentados no chão da sala. ---- Não não não não(: você diz os pés das mulheres(?) não(.) para mim são neutros(: mais ou menos a mesma coisa dos cotovelos(.) ----, ela riu: dispondo de um pouco mais de tempo e concentração, eu teria entendido melhor a razão do divertimento, e tirado mais proveito das minhas respostas e perguntas. Em vez disso, não conseguia nem mesmo me aproximar da 'verdade', ou mesmo entrevê-la, nas perguntas que começaram a dirigir a mim e nas poucas que dirigi à elas. ---- O que mais te deixa excitado, K(?) ----, Rita me perguntou logo depois. ---- Sei lá (respondi) Júlio Cortázar costumava dizer que SEM VERBO NÃO EXISTE EROTISMO Emoticon smile mas confesso que a avalanche de exibicionismo feminino do mundo atual, com lábios carnudos e topless, às vezes me deixa interessado(.) ----, eu ia continuar meu raciocínio, para chegar onde queria, mas Amanda logo me interrompeu: ---- E os modelos masculinos também são bem bonitos(: pode continuar(.) -----, ela disse, o que me fez pensar que o rumo da minha resposta não estava agradando de jeito nenhum. Continuei, mesmo assim: ---- Recentemente, vi numa revista a foto de uma garota usando uma blusa branca larga em V, sem sutiã, deitada de costas, com as pernas para o ar cruzadas nos tornozelos, mostrando uma meia-calça(: eu fiquei(... HIPNOTIZADO pela foto(.) lembro que cheguei em casa e, invés de estudar para uma prova do dia seguinte, fiquei lendo a descrição da meia-calça como se fosse um poema simbolista hieroglífico, e olhando para aquela foto(: que pernas lindas, nem musculosas demais, nem finas demais, simplesmente lindas e perfeitas, naturalmente torneadas, sem exagero (.) -----, naquele momento, houve um certo constrangimento na sala, quando Rita comentou: ---- Exatamente como as pernas da Rafaela, foi o que você quis dizer(.) ----, Rafaela sorriu, e levantou uma das pernas no ar, o que provocou um regurgitamento na altura do pescoço de Alexandre, seu ficante, e uma pronta acusação de Amanda, que disse: ---- O Alexandre não gostou nem um pouco disso, gente, olha a cara dele(: VOCÊ NÃO FALA QUASE NADA, ALEXANDRE(: DEVE TÁ MORRENDO DE CIÚMES, NÃO TÁ(?) ----, Amanda era uma garota loira e branca como leite, volumosa sem ser exatamente gorda, charmosa sem ser exatamente bonita, simples e com uma mania de organização muito doida, para quem não havia no mundo nada mais lindo no mundo do que uma folha de papel A-4 perfeita e intocada; a tentativa de desnortear Alexandre acusando-o de ser calado demais e ciumento não serviu para torná-lo mais doce e extrovertido (ele nem sequer respondeu, e não devia estar gostando de estar ali naquela sala conosco, ao invés de estar no quarto de Rafaela de portas fechadas. ----- Talvez, inclusive, eu também seja um pouco exibida demais(.) ---- , Rafaela disse, afagando a nuca de Alexandre, e perguntou à ele: ---- O que você acha, 'amor' (?) ----, confesso que, ao ouvir a palavra AMOR , ainda que descontextualizada e sem ímpeto nos lábios de Rafaela, quem ficou com ciúmes foi eu. Subjetivamente, o ciúme é mais profundo que o amor: ele contém a verdade do amor, pois vai mais longe na apreensão e na interpretação dos signos emitidos pela pessoa amada. Dirigidos à nós, esses signos exprimem mundos que nos excluem. Rafaela continuou, após sugar toda a cerveja do seu copo de um só gole : ---- Mas sempre que chego em casa e me fecho no quarto, a solidão toma conta de mim e eu sinto, feliz, que o exibicionismo está indo embora(: muitas vezes eu me masturbo no escuro, nessas horas(.) ----, ela disse, e eu e as duas estudantes de Psicologia começamos a rir alto. ---- A esposa de Freud também era assim, relaxa(.) ----, Amanda disse. Alexandre agora parecia a ponto de protestar e arrancar o copo da mão de Rafaela, mas não o fez. Há uma contradição no amor: o amante deseja que a amada lhe dedique todas as suas preferências, gestos e carícias, mas os gestos da amada, no instante em que se dirigem ao amante, exprimem ainda o mundo desconhecido que o exclui. Os signos de preferência que a amada emite exprimem ainda os mundos dos quais o amante não faz parte, como Alexandre em relação à masturbação de Rafaela (eu pensava), de modo que cada preferência que ele usufruía ao lado dela, ali naquela sala, delineava a imagem de um MUNDO POSSÍVEL onde outros eram preferidos à ele. Definitivamente, eu me agarrava à essa idéia com unhas e dentes, apesar de já estar encostado em Amanda de maneira a não deixar dúvidas quanto ao que eu pretendia naquela noite. Quando Rafaela terminou de falar sobre suas sessões de auto-erotismo, eu olhei nos olhos dela e disse: ---- Como diria Lord Byron(: ''ESTUDIOSA DE DIA, DISSOLUTA À NOITE'' (.) ----, por um segundo, pensei em substituir a palavra DISSOLUTA por ARDENTE, mas não deu tempo. Alexandre se levantou, visivelmente contrariado com minhas liberdades com sua namorada, e tirou o celular do bolso. Cheguei a pensar que ele me agrediria fisicamente, mas, afinal de contas, não estávamos ali num palazzo em Veneza, e sim numa república de garotas de vinte anos brincando de Jogo da Verdade, e eu não estava perturbando Rafaela mais do que aparentemente ela tinha me permitido perturba-la na vã do projeto, mais cedo, com meu ''vocabulário aristocrático'' e minha crescente fama de ''escritor de um livro de seiscentas páginas''. O que me deu coragem para acrescentar ainda, dessa vez recorrendo à Macaulay: ----- ''Uma libertina entre os doutos, uma douta entre os libertinos'' Emoticon smile PERFEITA(!) ----, exclamei, no fim, percebendo que todas elas ali, incluindo eu, já estávamos bem 'altos' de tanta cerveja vermelha. ----- Você costuma sair à noite aqui em Juiz de Fora, K(?) ----, Rafaela me perguntou, e eu respondi que tinha andado frequentando as festas do pessoal da minha sala, mas que não tinha muitos amigos na cidade. ---- Na verdade (comentei) , tenho apenas um Emoticon smile o Marcos, do projeto, que você também conhece(: um estudante de Direito feio, anti-social e desajeitado, com quem é possível conversar em alto nível sobre Dostoiévski, e nada mais(: andei ficando com a irmã dele, que ainda não entrou na universidade, mas ela é muito novinha coitada(.) ----, Rafaela ouviu atentamente minha explicação , depois se levantou e foi atrás de Alexandre na cozinha. Logo o ciúme, como se fosse a sombra daquele nascente amor, se completou com um DUPLO daquele novo sorriso que ela me dirigiu antes de se levantar, e que agora parecia debochar de mim e encher-se de amor pelo outro. Engraçado: Alexandre devia estar sentindo a mesma coisa, mas era como se eu já me considerasse namorado dela por antecipação. ----- De qualquer maneira (Amanda dizia para Rita) nosso apartamento ficou outro com minha nova arrumação(: apareceram novos bolsões ocultos de ordem logo que terminei o serviço, hoje de tarde(: tomei um banho de chuveiro, deitei no meu quarto, e(... não, não me masturbei (risos) porque ligar para o estágio e inventar que eu estava doente já tinha sido uma coisa DISSOLUTA, como disse o K, e me fez querer permanecer pura e virtuosa o resto do dia, para quando chegasse de noite(... ----, subitamente, Amanda parou de falar e cravou os olhos injetados em mim, com uma energia tão obstinada que beirava a hilaridade. Tarada. Na barriguinha de Amanda, que à medida que ela esticava o braço em volta do meu pescoço tornava-se mais e mais visível, havia a sugestão incendiária de um oferecimento, de um lascívia adolescente implorando para ser satisfeita. ''Procuramos a forma de uma emoção, surge-nos outra. De que ponto insuspeitado do espaço nos despontam certos pressentimentos, certas intuições, que poderíamos registrar num gráfico oscilante(?)''. Senti nela, de imediato, a veemência dificultosamente domesticada e controlada que meu pau levaria ao êxtase logo mais, no seu quarto. E certamente senti em mim também uma súbita ânsia de tocar aqueles quadris que ela começou a empurrar provocativamente contra os meus braços, agora de pé na sala. Rita foi dormir e Rafaela ainda conversava com Alexandre na cozinha: os dois agora discutiam, brigavam. Tarde demais: minhas mãos já passeavam nos longas e robustas coxas de Amanda, encostada contra a parede, que tremiam ligeiramente quando ela tensionava os joelhos e sua loira cabeleira encaracolada se despejava no meu rosto. Quando entramos no quarto dela em definitivo, eu ainda ouvia a voz de Rafaela, o que arrancou um pedaço da minha alma, que não entrou totalmente no breu do quarto de Amanda. ''Entre o tinteiro e o esgoto passa uma corrente subterrânea de entendimento tácito''. Eu me perguntava se era realmente possível que meu desejo pelas pulsações do corpo de Amanda fosse ''sem sentido'' ou ''trivial'', indigno de mim ou mesmo dela, enquanto nos animávamos mutuamente em busca de um orgasmo bêbado e oceânico. De todo desinibida, tarada, Amanda esperava que eu abrisse caminho dentro dela, agora só de calcinha na cama, para aqueles lancinantes prazeres eróticos que ela não parecia desconhecer. Eu beijava sua barriga, quando ela laçou meu membro com a mão e disse HUMMM, o que resultou numa rápida troca de posições em cima da cama. As luzinhas verdes e vermelhas do aparelho de som pareciam bóias iluminadas em alto mar, na escuridão do quarto, e comecei a me sentir muito excitado, frustrado, contente, bêbado e resignado, uma combinação de tudo isso, pensando ainda em Rafaela, enquanto Amanda lambuzava meu pau com a língua e ameaçava acender a luz do abajur para vermos o que ela estava fazendo. ---- Por mim, tudo bem(.) ----, eu disse, sem tirar os dedos da sua carnosa racha umidificada, cujo aroma eu espalhava nos seus peitos, quando trazia as mãos para a frente. Minutos depois dei uma rápida olhada dentro daquela carnosa flor de lava transparente, e não me pareceu errado retribuir a gentileza dela. Eu certamente estava trepando com o que outros considerariam uma jovem putinha na cama; mas, eu não pensava assim : talvez alguém dissesse ainda que Amanda fosse uma garota excêntrica e excepcionalmente desinibida em matéria de sexo devido à um pequeno distúrbio mental... mas eu também não pensava assim. Pensava pragmaticamente, que já não estaria mais tão sozinho na cidade, depois daquela noite, graças à bondade de Rafaela ao me convidar para conhecer sua república. A cama tremeu tanto e fez tanto barulho, enquanto eu dava duro em cima de Amanda, que uma luz se acendeu do lado de fora do quarto. Eu tinha a impressão de estar com todo meu peso apoiado nos calcanhares, na parte de trás das solas dos pés; a tensão dos músculos das minhas pernas e nádegas era tanta, que todos os meus nervos entraram em comunicação ao mesmo tempo, e quando gozei me pareceu que estava ejaculando com as pernas ( a hiperventilação provavelmente diminuiu o teor de cálcio ionizado do meu sangue, alterando a condutividade dos meus neurônios, e depois de resfolegar bastante, martelando bem fundo entre as pernas dela, tive um orgasmo de arrasar o quarteirão. Tivemos! Olhei para Amanda e ela também parecia estar sentindo aquele formigamento em todas as extremidades, na raiz dos cabelos, nos dentes, sei lá, tudo que tínhamos direito. Silêncio... a luz continuava acesa do lado de fora do quarto e agora eu ouvia o som de cubos de gelo girando num copo. A cozinha era em frente, e pensei: ''É ELA(!)'', de modo que cheguei a lamentar rapidamente cada prazer que tinha acabado de experimentar com Amanda, cada carícia inventada e cuja doçura e ardor tive a imprudência de elogiar , ao lado dela na cama, pouco antes de ouvir os cubos de gelo no copo de Rafaela. Dali a instantes, Amanda começou a enriquecer de novos instrumentos meu estranho estado de espírito: --- Um dia de madrugada (disse ela) eu estava ouvindo música aqui no quarto com os fones de ouvido plugados no aparelho de som(: o fio dos fones era bem curto, sabe, mas eu estava muito afim de dançar(: quase em êxtase, depois de saber que tinha conseguido o estágio na Amac Emoticon smile dançava como se estivesse seguindo os rastros de um animal no chão, dobrada para a frente, suando, sem fôlego, abanando os braços, dando pulinhos(: de repente, fiquei um pouco animada demais e sacudi com força a cabeça para o lado, e o aparelho de som inteiro veio abaixo Emoticon smile BOOOMMM(!) então, silencio, e comecei a ouvir esses mesmos sons de cubo de gelo girando no copo, vindo da cozinha(: até hoje não sei se é a Rita ou a Rafaela que sofre de insônia(: hi hi(.) ----, quando ela acabou de falar, tive certeza não só de que ela sabia que era Rafaela quem estava na cozinha, como de que estava com ciúmes dela. A contradição do amor consiste nisto (pensei, depois: os meios de que dispomos para nos preservar do ciúme são os mesmos que desenvolvem esse ciúme. Os signos do amor não são signos vazios, que apenas substituem o pensamento e a ação: são signos dissimulados que não podem ser dirigidos a nós senão escondendo o que exprimem: a origem dos mundos desconhecidos da pessoa amada, das ações e pensamentos desconhecidos que lhe dão sentido, e causam o ciúme na amante. Eles não suscitam uma exaltação nervosa superficial, e sim a tortura de um estranho aprofundamento, para o qual nada há em nós que esteja preparado. ---- Te incomodada(?) ----, perguntei à Amanda. ---- Não, mas acho que fizemos barulho demais(: já são duas da manhã(.) ----, ela disse. ----- Mas hoje é sábado(.) ----, respondi, e ela riu. ----- Pensando bem, FODA-SE(.) -----, ela respondeu e montou em cima de mim de novo e, de repente, deixou que a gravidade tomasse conta da situação. Subindo. Fôlego, eu tomava fôlego enquanto os seios alvos e volumosos dela colidiam como caldeirões em cima do meu rosto, e meu pau entrava nela sentindo por trás suas não menos volumosas nádegas cor de leite. Ela gozou rápido, dessa vez, e fui incentivado a alcançar mais um grand finale com a assistência não solicitada da sua mão branca de unhas roxas. Mão segura, rápida e nada sentimental . As molas de uma, como dizia Rimbaud, ''Mecánique Érotique''. Quando eu me levantei da cama e acendi a luz do teto, vi uma pilha de DVDs pornô em cima da televisão. ----- Dois desses filmes eu nunca vi, são de pornô lésbico(.) ----, Amanda disse da cama, observando meus movimentos através do quarto. ---- É mesmo (?) não quer me emprestar (?) sou entusiasticamente a favor da pornografia e pretendo escrever sobre sexo lésbico, um dia(... ----, eu disse, mas de repente me lembrei que não tinha televisão nem DVD em casa, e me imaginei fazendo aqueles filmes avançarem nas partes mais chatas, tentando encontrar alguma boa imagem que me fizesse gozar, e decidi que NÃO. A última coisa que eu precisava era me tornar um punheteiro. ''Quantos já não suicidaram-se por engano! O inferno é uma idéia alquimista: os pecados serão transformados em fogo; também o homem será mudado. Segundo os alquimistas, mais importante do que a transmutação da matéria é a própria mudança do homem que age sobre ela''. Peguei um dos DVDs de pornô lésbico e observei a capa: a fotografia pegava uma das garotas loiras no exato instante em que os peitos dela estavam no ponto máximo de expressividade, a alma 'deles' inteiramente revelada. Ela estava olhando diretamente para mim, e não para a parceira embaixo dela; de fato, dois belos peitos no ponto máximo de beleza, não com os bicos duros mas redondos, macios e cheios de paciência meticulosa (olhando pra mim com um olhar tão brincalhão, lúcido, alegre... ''Afinal de contas'', pensei, ''eu vim até aqui em busca de uma namorada e acabei a noite com uma tarada promíscua de apetites insaciáveis e propensões estranhas. Não era o que eu queria. E não deu pro gasto de jeito nenhum. Orgasmo nenhum substitui o que eu queria. Não estou reclamando de barriga cheia, estou sendo sincero''. Depois que me vesti e perguntei a Amanda se podia acender um baseado no quarto, ela respondeu: ---- Pode, mas eu nunca fumei(: aliás, só uma vez, com uma colega de sala, no primeiro período(: a Elizabeth, e advinha, ela é lésbica(: dei só uns tragos e ela fumou tudo sozinha, depois começou a me contar uma fantasia sexual dela, em que ela estava num lugar onde mandavam ela tirar as roupas e entrar num tubo(.) ----, eu comecei a rir, com o baseado queimando na mão. ----- Esses filmes de pornô lésbico são dela(?) entrar num o quê(?) ----, perguntei, ainda rindo. ---- São Emoticon smile entrar num tubo, num tubo comprido(: ela disse que entrava num tubo comprido e começava a descer por ele, deslizando numa espécie de corrente lenta de óleo(: a corrente não era tão veloz quanto a de um escorregador com água (ela seguiu contando: era bem mais lento, sem fricção ou atrito, e o tubo era de um neon rosa-choque(: à medida que ela ia avançando, uns pares de mãos entravam no tubo um pouco a sua frente, tateando às cegas, e os seus pés raspavam nela e tentavam agarrar seus tornozelos, mas os dedos estavam cheios de óleo, e escorregavam pelas pernas dela, segurando-a com força, e à medida que ela ia avançando pressionavam sua barriga com ainda mais força, e depois se viravam para encontrar os seios dela, deslizando muito devagar sobre eles, empurrando-os pra cima(.) -----, em linhas gerais, essa foi a primeira vez que ouvi falar em Elizabeth Castro (mas isso não vem ao caso agora: Amanda não quis fumar comigo, de modo que enquanto eu fumava ela ficou rolando de um lado para o outro na cama, às vezes dizendo como as outras duas meninas às vezes reclamavam com ela por cozinhar pratos com curry em altas horas da madrugada, e sugeriam que ela talvez devesse levar menos parceiros sexuais por semana no seu quarto, e quem sabe até ''voltar para o namoradinho dela''. ---- Então você tinha um namorado(?) ----, perguntei. Entretanto, Amanda tinha decidido aceitar de peito aberto as críticas das amigas e as pequenas afrontas silenciosas dos vizinhos nos corredores do prédio como parte da aventura de viver longe de sua família, radicada em Carangola. ----- Na verdade, ainda tenho um(: sou apaixonada por ele, sabe(?) -----, dessa vez, juro que não ri por maldade, mas de saturação. Ela continuou: ----- Mas ele perdeu a paciência comigo, coitado(.) ----, de fato, me pareceu algo longinquamente assemelhado à minha relação com Júlia (digo, ela também perdeu a paciência comigo, mas por outros motivos. ---- ''O vento liberta-se ventando (eu disse: Murilo Mendes (.) ----, mas quando me virei para a cama, Amanda estava com o rosto afundado no travesseiro, de olhos fechados, como naquelas batidas cenas de novela em que alguém para para pensar em alguma coisa profunda, ou agradável, e aparece um close-up do rosto da pessoa e depois ela estende a mão e apaga o abajur da cabeceira, CLICK, mas não deu nem tempo de ela fazer isto. Apagou antes do abajur, que eu desliguei antes de sair do quarto. Não creio que a excitação que eu senti ao abandonar o quarto de Amanda naquele momento tivesse a ver com a esperança de encontrar Rafaela acordada na sala, assistindo a tv com um copo de cerveja vermelha na mão, mas foi exatamente o que aconteceu: num primeiro contato visual, ela nem sequer tirou os olhos da tela para falar comigo, mas o risinho que pude identificar no canto dos lábios dela me deu a certeza de que ela não estava rindo de nada do que passava na televisão, pois era um noticiário. ''O mundo da mulher amada'', pensei ,''é sempre um mundo que nos exclui, mesmo quando ela nos dá mostras de preferência''. ----- Acordada até agora, Rafaela(?) ----, perguntei, hipnotizado pelo desenho das suas pernas cruzadas sobre o sofá. ---- Não mais do que você, K(.) essa cerveja vermelha que você trouxe é uma delícia(.) -----, ela respondeu, e seu riso se abriu totalmente, agora, revelando uma terra incógnita terrível que eu acabara de aterrar com minha súbita aparição na sala. Ela se levantou com o copo na mão e, ainda sorrindo, ajeitou a saia embaixo e disse: ----- A gente se vê sábado, certo(?) ----, o riso na face dela era qualquer coisa de oracular e impressionante, contendo toda uma nova fase de maravilhosos sofrimentos para mim, até há pouco insuspeitados dentro do meu peito. ----- Mas hoje é sábado(.) -----, eu disse, ela riu e respondeu: ---- Não, já é domingo(: são quase quatro da manhã (.) ----, Alexandre, meu rival, não era nem de longe semelhante a mim, talvez meu exato oposto, suas armas eram inteiramente diferentes das minhas, e eu não tinha absolutamente nenhuma condição de lutar no mesmo terreno que ele, proporcionar à Rafaela o mesmo status quo, nem mesmo concebê-los de modo exato. Uma pausa. ----- De fato (eu disse) é domingo(: mas ainda tô longe de fazer tudo que eu podia, e 'queria' (.) -----, e dei dois passos alucinados na direção dela, que interrompeu meu avanço colocando as pontas dos dedos de unhas vermelhas no meu peito: ---- A porta fica naquela outra direção, K (.) -----, ela disse, rindo ainda o mesmo riso oracular e magnético, e piscou o olho de um jeito tão auto-consciente e superior, que eu subitamente compreendi até que ponto inimaginável ela era senhora absoluta da situação, não só da presente, mas das futuras também, que ela certamente já tinha concebido em pensamento. ----- Quando as portas da percepção estiverem limpas, tudo será visto tal como realmente é: INFINITO(!), William Blake(.) -----, eu disse, rindo, e ela começou a rir copiosamente junto comigo, sem tirar ainda os dedos do meu peito, que eu tentei apanhar no ar mas ela recolheu no susto. Então afinal tomei o rumo da rua, como ela parecia estar querendo que eu fizesse. ---- Bons sonhos, K(.) ----, ela disse pouco antes de eu fechar a porta atrás de mim. Nem respondi, já me encontrava sonhando naquele momento. ''Einstein diz que na passagem do finito para o infinito há um desvio para o vermelho''. A luz dos postes no trajeto para meu apartamento estava formando aquele alaranjado escuro contra o céu azulando em meio à névoa matinal, tão gradualmente que não sabia ao certo se era o céu que estava acendendo e ficando mais brilhante ou se eram as lâmpadas da rua que estavam se apagando e ficando escuras. Mas é claro que eu sabia. ''Dir-se-ia fazer-me sinais com o auxílio de um farol''. Uma qualidade sensível nos proporciona uma estranha alegria, ao mesmo tempo que nos transmite uma espécie de imperativo. Uma vez experimentada, essa qualidade não aparece mais como uma propriedade do objeto que a possui no momento, mas como o signo de um objeto completamente diferente, que devemos tentar decifrar através de um esforço sempre sujeito ao fracasso. ''Assim é o ofício de um verdadeiro escritor'', pensava na rua, enchendo minha vista com a imagem dos mais estranhos objetos, que me atiravam signos que nada tinham haver com sua procedência. Naquele momento, eu caminhava mergulhado num frenesi tão egoísta por causa daquela coisa improvável que estava acontecendo comigo, que me sentia afogando em imagens desconexas a cada passo; um frenesi de afogamento, um bater de braços da minha consciência tão agitado para se manter à tona que me fazia sentir estar me divertindo tremendamente. Sentia que a revelação final do TEMPO REDESCOBERTO seria anunciada por uma multidão de signos como esses. Uma alegria intensa, na qual esses mesmos signos se distinguiriam dos anteriores pelo seu efeito imediato sobre meu espírito. Depois, o sentimento de obrigação decorrente disso, a necessidade de um trabalho poético e iniciático do pensamento. Recapitulação. Livro de seiscentas páginas. Mas meu esforço não podia terminar por aí, eu pensava (não podia me contentar com o simples ressurgimento do presente sob a forma de passado, ou com uma simples associação de idéias, mas com o rastreamento de um vida vivida sob uma forma inédita, captada na sua ESSÊNCIA, na sua ETERNIDADE. Assim funciona a grandiosa máquina literária de Marcel Proust. Mas isso é assunto para especialistas... como eu.
sexta-feira, 23 de janeiro de 2015
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''O município-universo. Santuário-universidade. Univercidade. O umbigo, o ânus do mundo''. Meu quarto na pensão na rua Marechal Deodoro da Fonseca parecia mais abandonado do que nunca ( e o rangido enferrujado da porta foi mais forte que nos últimos meses: o vazio escurecido pelas cortinas me recebeu com um entusiasmo que era impossível conter quando eu permanecia encerrado sem ninguém naquela tapera, como um vampiro no caixão. Com as as mãos cruzadas sob a cabeça, na cama, eu olhava para o teto, feliz: ''Cada um que descubra sua alçaprema. Sua turbina. Saiba parafusar e desaparafusar sua lira''. Naquele momento, tive vontade de ouvir o disco My Favorite Things, de John Coltrane, enquanto esperava Júlia, mas eu ainda não tinha notebook, e na minha cabeça tocava Beatles: ''Júlia, Júlia, oceanchild, calls me. Júlia, seashell eyes windy smile, calls me. Julia, sleeping sound, silent cloud''. Eu tanto esperava quanto temia ve-la de novo: ela certamente iria querer saber mais sobre minhas recentes experiências e quando ela chegou no quarto, encontrou uma maneira bastante discreta de insinuar que eu poderia ser preso do dia pra noite, e que eu ''poderia ser de fato uma pessoa perigosa'', ou mesmo ''um assassino''. ----- Ainda não arranjei tudo que preciso, minha flor(: mas arranjei o suficiente pra te levar pra jantar no Berto's, hoje à noite Emoticon smile o que você me diz(?) ----, ela ficou surpresa com o convite; antes daquela viagem ao norte maranhense eu não tinha dinheiro nem para pagar um cachorro-quente pra ela na saída do seu colégio. ---- Assim você me faz medo, K(.) ----, ela disse, deu um suspiro e olhou pela janela a porta da trattoria lá embaixo, onde um caminhão estava sendo descarregado. Os homens pareciam tão pequenos quanto tachinhas de metal e o caminhão , com sua carga de cais, não lhe pareceu maior do que um besouro. ''O operário e o poeta caminharão um dia juntos. A destruição das classes operada pela morte, deverá começar aqui mesmo neste mundo, concluindo-se no paralém''. Eu queria sair para jantar com ela e contar-lhe mais, não sobre minha recente experiência, mas sobre meus planos. ---- ''O poeta e o operário caminharão um dia junto'' (ela disse: Murilo Mendes(.) -----, nos levantamos, saímos e começamos a caminhar pela Avenida Rio Branco até a catedral. ---- ''Eu não fui feito para trabalhar(: Revolução dos homens: não me atrais porque falas em nome do trabalho Emoticon smile Foice e martelo, coisa pouca para um verdadeiro poeta(.) '' idem (.) ----, eu disse, rindo da cara de Júlia, às voltas com desconfianças não de todo ingênuas. Lá em cima, sua vista nublada começou a ver os primeiros e tímidos anúncios do crepúsculo, que com silenciosa modéstia iam se situando em alguma nuvem estilhaçada, sobre os vidros dos prédios comerciais, em algum teto distante. ----- Júlia, Júlia, oceanchild(.) ----, murmurei, aguardando as badaladas do sino da igreja, pensando, com tenebrosa esperança, que ela não recusaria jantar comigo, logo mais. Foi quando senti a língua dela entrar de novo na minha boca (só então compreendi com que intensidade ela havia feito seu pensamento seguir-me à distância, ao longo de todo aquele mês. Enquanto eu a contemplava mais uma vez, por um segundo me veio o fragmento obscuro de um livro eternamente adiado dentro da minha mente, mas o etc se levantava contra o resto do texto que, vencido pelo adiamento, caía no chão de uma página em branco, virando mais etc. No segundo subsequente, quis desaparecer e não ter que suportar mais o silêncio dela, nem seu silêncio nem, agora, as poucas coisas que começou a dizer de má vontade. ---- É muito estranho, francamente(: eu devo ser doida de andar com você por aí(.) ----, ela disse, me fazendo pensar que rejeitaria o convite. ---- Por eu não ser qualquer outra coisa além do que sou Emoticon smile ou talvez apenas porque não dou a mínima para a opinião dos outros(.) ----, respondi, dando um passo na direção da impaciência. ''O motorista dos carros de Apolo, o mediador das facções adversativas, o manipulador de notícias truncadas''. Perto da escadaria da igreja, ela ficou mais uma vez espantada com a plenitude do brilho nos meus olhos vazando pela névoa aérea das nuvens cor de salmão. Mais uma vez, senti uma pontada de desapontamento devido ao fato de que ela não confiava mais cem por cento em mim. Era sexta-feira. Então ela disse: ---- Você precisa me ensinar melhor como conseguiu ser assim(.) ----, e uma tênue cólera ainda mais demente que a anterior me lançou contra o animal disperso dos meus pensamentos. Por um instante, tudo se converteu num pequeno e confuso inferno na minha cabeça. VAMOS CONTINUAR TE ATORMENTANDO, SEU PUTO, ATÉ QUE SOLTES TUDO. Acendi um cigarro com uma mão que tremia, e decidi que iria jantar sozinho, se ela se recusasse a me acompanhar. Mas Júlia voltou atrás, e fomos até sua casa. Fascinado, agora, eu não podia deixar de observá-la um só instante enquanto ia se vestindo. Aproximei-me e tentei acariciá-la. ''O escanção. O aliciador de adolescentes. O podador da retórica''. ---- Eu queria muito te ver, Júlia(: durante todo esse tempo eu necessitava muito te ver(.) -----, eu disse e, em seguida, pedi perdão à ela e tomei uma xícara de café. Saímos. Ela trajava um vestido lilás e verde pálido, e seu cabelo castanho estava bem puxado para trás. Algo parecido com uma falsa elite social encostava seus automóveis na rua perpendicular à Avenida Santo Antônio , onde ficava o Berto´s. A imprensa da cidade, que se resumia à uma corja de viados feios, velhos e ignorantes, frequentava o estabelecimento assiduamente. No piso de parquet, traçamos nosso caminho à entrada daquela floresta de mesas e candelabros, onde uma medíocre fauna humana de endinheirados exibia suas figuras ridículas. Júlia dava suspiros, coitada, à medida que o garçom enchia nossas taças de Cartuxa Évora, se perguntando com os olhos se nós não éramos menores de idade. No fundo, eu não compreendia Júlia. Não compreendia Marcos, não compreendia Seu Adamastor, não compreendia aquela faculdade, aquela cidade, aquele mundo. Não compreendia nada nem ninguém, além do poeta adolescente Arthur Rimbaud... como ele, eu tinha ''perdido a inteligência das coisas''. Peguei na mão dela e disse que ela estava extremamente bela. Ela inclinou a cabeça sobre a taça sem dizer palavra; a parte de cima dos seus cabelos parecia fosforescente , sob a luz fraca, como se estivessem molhados do mar. Aos poucos, me convenci da fascinação suprema que exercia sobre ela. ''O hipnotizador de águias. O amante de Vênus. O amortecedor do vermelho. O domador de pombos. O espicaçador de tigres''. A voz dela, ao falar, era agora calma e monótona, talvez por causa do vinho: ---- Agora já não está me parecendo tão difícil entender como você foi parar naquele lugar, certo(?) então, não é a primeira vez(: mas se você não quer falar no assunto, que mais eu posso fazer, a não ser ficar desconfiada(?) -----, eu devia estar apaixonado por ela, e devia ter repetido isso durante aquele jantar, mas não o fiz. ---- Tá vendo(?) ----, comentei, como se aquilo fosse uma extraordinária explicação. ----- ''Quantas pessoas se abstém de prospectar sua auto-china, sua auto-índia, sua auto-jerusalém, sua auto-delfos Emoticon smile todas as palavras juntando-se formarão um dia uma coluna altíssima tocando as nuvens e decifrarão o enigma(: os deuses vingam-se dos homens, morrendo''(.) ----, ela havia pronunciado aquela advertência com um fulgor selvagem nos olhos que eu já conhecia bem, quando ela ficava subitamente tensa como uma mola a ponto de romper-se. ----- Não se preocupe tanto comigo assim, Júlia(: terá valido à pena, quando acabar(.) ----, ela me olhou com o rosto fixo numa máscara absolutamente inexpressiva, e retrucou: ----- Esse é apenas o seu lado artístico tentando me deixar em suspense(: faz parte da sua encenação bancar o maluquinho, e dar a impressão de que é capaz de tudo(: particularmente, acho errado você ficar brincando com isso o tempo todo(.) ----, naquele momento, eu rezava para que Júlia parasse de embaralhar as cartas à toda hora. ---- É necessário eleger previamente nosso campo de batalha, Júlia, sabendo de cada detalhe sobre ele(: por isso eu não te recrimino(: eliminar tudo que seja desnecessário e abandonar-se à situação com prazer(: esquecer de si mesmo , não ter medo de nada, só então os poderes que nos guiam abrem o caminho e nos auxiliam de fato(.) -----, eu disse, e comecei a pensar que aquele jantar, com uma superdotada de dezessete anos, marcava o que eu poderia chamar de ''o começo da minha vida adulta''; mas o que a marcava realmente eram os cinquenta mil na minha conta. Voltamos para casa dela, mais tarde, de táxi. ----- Estou louco pelo seu corpo , Júlia(.) ----, eu disse no pé do ouvido dela, entrando no seu quarto. Os pais dela estavam viajando e Marcos tinha ido à uma festa. ---- Acho que meu irmão finalmente perdeu a virgindade(.) -----, ela disse. Naturalmente, eu estava ainda nervoso e agitado por ter passado tanto tempo sem ter relações sexuais. ''O corredor do labirinto de Creta. O corredor dos mitos''. O vestido de Júlia era como uma íris, fechada antes de se abrir completamente, quando sua cor ainda está dobrada sobre si mesma, porém uma íris de cabeça para baixo, com as pontas de suas pétalas no chão. ''O invisível se esconde no visível''. Os atos sexuais, como os sonhos, não têm aparências óbvias; são vivenciados ao avesso ( o seu conteúdo é o que predomina, e aquilo que é normalmente visível se torna seu núcleo invisível: Júlia estava deitada, agora, de costas na cama, enquanto eu, com os braços em torno dos joelhos dela, enfiava a língua na sua pequena vagina latejante. Só conseguia me lembrar do gosto do vinho que tínhamos acabado de beber, enquanto sentia um tremor passar lentamente de uma de suas coxas para a outra, como uma onda. Virava, escorria de volta, contornava sua vagina com a boca, até senti-la receptiva o bastante para ferí-la com minha lança envenenada; seu clitóris era constantemente mexido, carregado pela minha língua, primeiro numa, depois noutra direção, pelo movimento alternado do meu rosto. Do calor entre as pernas dela nascia em mim o espírito de um cavalo de crina rebelde (lança grossa e comprida aquecendo uma jarra de leite entre veias azuis; sob a superfície do leite, invisíveis debaixo de sua brancura, havia árvores de uma floresta em chamas, árvores com folhas de fogo, pingando em sua boca e despejando leite dentro dela. Em algumas partes o leite permanecia branco em suas poças; em outras, escorria transparente na sua barriga, junto com o suor (gotas de leite pendiam como groselhas brancas em seu cabelo castanho: eu podia ver os galhos das árvores em chamas nos riscos feitos pelo leite em seu rosto, que ela colhia passando a língua em volta (CORTA ---- eu não esperava me ouvir chamando o gordo diretor da minha faculdade de Direito de ''doutor'': conquanto nunca me deixasse humilhar, tinha de lutar contra um forte sentimento de intimidação, o que em geral só conseguia falando de um modo infinitamente mais áspero do que a situação exigia: ----- Mas você não faltou uma única aula no primeiro semestre, K(: e suas notas são excelentes(.) ----, o diretor disse, acessando meu histórico na internet. Continuou: ---- Não é possível abonar as faltas que você teve no começo das aulas, nesse segundo semestre, mas nem por isso você será reprovado(: é só não faltar mais (.) ----, saí daquele encontro me censurando pela timidez inicial, ao tentar me explicar à ele que eu tinha me ausentado à trabalho, que precisava daquele trabalho para conseguir pagar a faculdade. Disse que trabalhava como mergulhador de uma mineradora, no Maranhão. He he... ---- Você está tirando proveito do curso, K(: apenas não falte mais(: qualquer dificuldade futura, me procure(.) ----, concluiu ele (mas achei que precisaria matar mais aulas, ao longo do semestre, pois pretendia iniciar a escritura de um romance de seiscentas páginas (a desnecessária franqueza com que superei a timidez inicial , ao citar minhas ambições literárias, o fez rir como um porco asmático diante de mim. Devia ter mantido a boca fechada: eu definitivamente não sabia onde estava pisando, quando decidi estudar Direito: todos os professores eram ou rígidos demais, ou ignorantes demais, e aqueles mestrados e doutorados nos currículos de todos eles não os tornavam, para mim, diferentes de nenhum dos animais que se podia encontrar numa fazenda como a que eu cresci. ''O tempo é refratário, apócrifo, redondo''. Quedei-me novamente pensativo, e depois voltei para a sala de aula. Era segunda-feira de manhã, e as pessoas da minha sala me perguntavam a todo instante aonde eu tinha estado. Após algum tempo em que eu parecia ter estado voltado para meu próprio interior, cavilando, disse: ---- No Maranhão, mô fio(.) ----, e abri minha pasta-fichário num papel pautado. ''As rodas da opinião nos redemoinhos da ágora''. A manhã estava bonita demais para que eu me sentisse à vontade preso ali dentro, esperando a Professora J. acabar de escrever a doutrina no quadro branco com o pincel-atômico, com aquele rebolado que já começava a ficar repetitivo demais. Tudo era bonito demais , lá fora, e eu era jovem demais , bonito demais, brilhante demais, e minha única tarefa no mundo (eu pensava) agora era me tornar o autor iluminado de uma obra prima literária de seiscentas páginas. Páginas demais! Continuei a escrever: ''A glória do diamante impede a borboleta de dormir * e as pessoas têm um cérebro bovino demais: os bois arrastam os pés, os chifres e o rabo. Arrastam o ar, o olho. O respiro das rodas dos deuses ficam em silêncio, constrangidas''. Sentia que estava a ponto de pegar minhas coisas e sair dali para iniciar meu livro logo: a aula inteira me senti como um cadáver acefalado. Eu sabia muito bem qual era o motivo de eu estar ali, com os outros alunos, e isso começava a me preocupar muito. Pois eu estava ali em busca de um passaporte para dentro do sistema, o que estragaria completamente a história que eu pretendia escrever: A HISTÓRIA DE MIM MESMO. ''Será que não estou bancando o bobo(?) '', eu pensava , e tinha vergonha da minha própria resposta. Arranquei a página do fichário furiosamente, como se fosse minha própria cabeça, e rasguei-a em pedacinhos. Definitivamente: dentro do meu espírito não existia a palavra NÓS. Inconscientemente, ao longo daqueles dias, percebi inclusive que vinha modificando minha maneira de vestir; uma bela manhã parei diante de um out-door da faculdade, no centro de Juiz de Fora, e notei que trajava quase a mesma indumentária do rapaz retratado na propaganda. Na foto, ele caminhava ao lado de uma loira gostosa que usava uma saia comprida e encorpada de tecido escuro e sapatos de salto alto reluzentes; ela sorria para ele enquanto andavam como se o rapaz lhe houvesse dito algo engraçado e inteligente (o que eu julgava absolutamente impossível, pensando nos meus colegas de sala. Mais tarde, percebi que havia milagrosas exceções. ---- Gostaria de conversar sobre isso com você, K(.) ----, Júlia disse, dois dias depois, e eu não pude deixar de sacudir a cabeça para todos os lados. ----- Claro que eu não vou procurar um psicólogo (!) ----, respondi, querendo exprimir aquela repulsa insultando ou desafiando-a; mas conhecia Júlia já bastante bem para saber que insultá-la abertamente só teria fortalecido seu ponto de vista (era viciada na teatralidade, assim como eu: meu desafio precisava ser persistente, brando, esperto e cumulativo. ---- O que você vai fazer ,então(?) sinceramente, K, acho melhor a gente dar um tempo(.) ----, cada momento agora era um momento de tensão e triunfo, para mim, pois eu já estava decidido a fazer justamente aquilo. ---- Pretendo alugar um apartamento e escrever um romance de seiscentas páginas(.) ----, eu disse, e imediatamente agarrei Júlia mais perto para sussurrar uma palavra perturbadora em seu ouvido: ---- Casa comigo(.) ----, e foi na expressão facial dela que procurei a misteriosa continuidade. ''Vênus-menina perturba o sono dos deuses; enquanto Penélope dentro de casa tece diariamente a história na sua roca, Ulisses fabrica o mito ao ar livre. Os deuses trazem sempre um horizonte portátil''. Mas para alcançar aquela continuidade, de modo a abrir espaço para toda sua vida adulta, entre o primeiro e o segundo rosto, Júlia teria que esquecer por um instante iluminado sua testa lambuzada de suor, sua boca em forma de O e seus intensos e silenciosos olhos, lembrando-se apenas do significado da minha expressão fisionômica metálica diante dela. E isso tinha se tornado difícil para ele, nos últimos dias. Difícil, preocupante, talvez perigoso. O que importava para mim agora era algo que ela não poderia confirmar de jeito nenhum, com seu rosto de criança. O que importava para mim era alugar um apartamento e começar um romance de seiscentas páginas. Definitivamente: dentro de mim não existia mais a palavra NÓS. O rosto dela estava impassível, naquele momento, mas seu busto arfava; de repente, ela se afastou e ajeitou seu vestidinho florido no corpo, abotoando dois botões prateados com suas pequenas mãos. ----- Preciso ir, K(: quando você voltar ao normal a gente conversa de novo(.) você está usando drogas, não está(?)----, ela disse, mas eu já estava decido a nunca mais voltar ao normal, e realmente estava andando drogado. Subitamente, no entanto, fraquejei e senti, num acesso de pânico, a urgente necessidade de me antepor entre todas as formas do seu ser físico, no meio da rua, e impedi-la de partir daquele jeito: seu busto arfante, sua linda cabeleira castanha que cheirava a sono perfumado, sua alva pele fresca, suas delicadas mãozinhas , seu rosto de criança, os poros da sua pele; antepor-me entre o corpo dela enquanto ela ainda estava ali junto de mim, no meio da rua, olhando as pessoas e carros à nossa volta e o fantasma vociferante de sua própria consciência. Eu queria tomar de assalto AQUILO para o que ela olhava, voltada para dentro de si mesma, e que estava atrapalhando meus planos. Toma-la de assalto e apresentar um substituto à ela como um presente dos céus mais turbulentos e incandescentes do meu espírito. ''As sombras de vez em quando perdem-se de si mesmas''. Mas era uma oferta infinitamente despida de virtude, pois era uma oferta que eu carregava em meu próprio corpo para satisfazer minhas próprias necessidades. ''Não se habituando ao novo modelo de vento, aquele pássaro resolveu emigrar; calçar sua sombra, caçar o mar, mugir a lua (trair aquela raposa''. ---- Que merda de um belo dia para esticar as canelas na rua (.) -----, eu disse, pouco antes dela se despedir de mim, friamente. Era mais fácil aceitar aquilo apenas como mais uma condição, como o frio sol daquela tarde, num mundo fundamentalmente inóspito para um gênio literário precoce, do que como uma encarnação cheia de promessas mentirosas. ''Duras estrelas, até mesmo as délficas(!)''. Voltei para casa abismado e antes de me trocar para sair de novo, deitei-me de costas naquela cama solitária mais uma vez, pensando: ''Esquece teus gostos e alegrias pessoais, prejuízos teóricos e ladainhas racionalistas(: põe-te em estado de abertura mental e confia na providência poética(: não se deixe levar pela corrente de jeito nenhum(: retira-se por um momento, se necessário, e deixa que teus pensamentos corram livremente(: ocupa-se de outra coisa qualquer, qualquer coisa serve, enquanto o silêncio se instala em teu interior e faz a limpeza(: a mente é água turva, um único segundo de silêncio interno ajuda a levar a poeira para o fundo e te devolve a clareza(: jamais deixe os outros verem teu jogo, e nunca se coloque na linha de frente de nenhuma situação(: pratica a LOUCURA CONTROLADA, se não tiver jeito de eliminar os contatos sociais temporariamente(: praticar a LOUCURA CONTROLADA não significa passar os outros pra trás, e sim aprender a nunca se levar a sério, a rir constantemente de si mesmo, não permita que te roubem esse talento de jeito nenhum Emoticon smile se você não se importa de parecer idiota, pode fazer qualquer pessoa de idiota, basta desenvolver uma paciência sem fim e ''perder a pressa de ter pressa''Emoticon smileisso invariavelmente resultará numa capacidade infinita de improvisação(.) ----, as folhas de acanto nas cortinas de renda recordavam-me como, um mês atrás, eu me antevira reconquistando Júlia, andando em meio àquela praia de areia branca com árvores mortas fincadas na água. Contraí o queixo e minha mandíbula estalou. Tomei um ácido. Assim, sem pensar. Meu Deus! ''Sonho: bombeiros munidos de mangueiras, vestidos de macacões vermelhos, galgam escadas enormes para apagar uma bomba atômica que explode às gargalhadas, gritando-lhes: IDIOTAS! Não sabem que já morreram no dia em que eu nasci?''. Não exatamente devido ao que me lembrava naquele momento, mas porque há cerca de uma hora tudo aquilo havia sido soterrado. De certa forma, eu alcançara o que havia desejado e desejaria a mesma coisa mil vezes de novo, se fosse preciso. Apenas o plano de fundo se desintegrou no ar. O que me pesava mais era a própria faculdade da memória ( aquela massa de lembranças me oprimia, e eu me vi obrigado pelo ácido a respirá-las uma a uma, para poder separá-las em pequenos blocos e assim abrir novamente caminho ao oxigênio dentro do meu cérebro. ''O Sol visto no microscópio esperneia. Empédocles de Agriento alude à alegria da esfera em sua solidão circular. Reverteremos ao ovo, ao osso, ao horto antigo, às estrelas esferóides, ao átomo-caverna, ao texto total que gira sobre si mesmo. Ao Tao''. Era como se minha cabeça houvesse se transformado num saguão de espelhos no qual, embora os reflexos se mexessem juntos, cada um representasse algo diferente. Por exemplo, em vez de aproximar minha infância, a simples massa de recordações desde a infância tornava minha infância absurdamente distante. Memórias de uma namoradinha de quando eu tinha treze anos, como eu não acreditava mais ter, enchiam minha cabeça, uma depois da outra, cada uma extremamente nítida, porém cada uma inseparável da memória de outras garotas, de modo que me parecia ter visto Júlia há um século; o fluxo de lembranças involuntárias, exatas e concatenadas que enchia minha mente naquele momento , parecia alongar minha vida passada indefinidamente, até que, sob essa forma de recapitulação, o tempo tornou-se de repente absurdo, e eu apaguei. Continuei a viagem do outro lado. Mais prático, né? ''Ver o céu no teto do confessionário constituiria provavelmente o acme do poder visual e místico''. No dia seguinte, saí para a rua depois da aula determinado a encontrar um apartamento ideal para se começar um romance de seiscentas páginas sobre minhas recordações, mais inspirado do que nunca, mas só uma semana depois encontrei aquele singelo imóvel de dois quartos e área externa na rua Silva Jardim com Olegário Maciel; comprei um fogão, uma mesa com quatro cadeiras, uma geladeira, um guarda-roupas, uma cama de casal, uma escrivaninha, uma vitrola e uma reprodução gigantesca do quadro Os Corvos, de Van Gogh, que pendurei na sala. Comprei também as obras completas de Dostoiévski traduzidas diretamente do russo em papel bíblia, quatro volumes da biografia dele escrita por Joseph Frank, somando mais de cinco mil páginas, e o romance Doctor Faustus, de Thomas Man. No sábado em que finalmente me reapresentei no projeto de cidadania ativa da UFJF, já estava perfeitamente instalado naquilo que viria a ser conhecido, algum tempo mais tarde, como minha gruta sexual intoxicada; fazia frio, e a vã com os outros membros do projeto estava estacionada na antiga reitoria da UFJF, atual Museu de Arte Moderna Murilo Mendes. Alguns daqueles estudantes haviam sido substituídos por outros, mas não conseguiram convencer nenhum estudante de direito a participar daquilo, que não tinha prestígio nenhum entre eles, de modo que o coordenador do projeto ficou satisfeito em me ver novamente, se limitando a apertar minha mão, dizer que eu não receberia a bolsa daquele mês e me convidar para me filiar ao PCdoB, o que jamais fiz. Era o ano de 2002, e eu vinha fazendo campanha telepaticamente para o candidato Lula com uma fúria apaixonada e conflituosa. Uma militante do PT , que distribuía panfletos no calçadão da Halfeld, havia me convidado para ir até o diretório de campanha, naquela mesma rua, e eu voltei para casa carregado de adesivos, panfletos e broches de estrelas vermelhas. Quando a vã partiu rumo à cidade de Lima Duarte, no caminho para a Serra de Ibitipoca, o único assunto eram as eleições presidenciais e a vitória do Brasil na Copa do Mundo. Marcos estava de ressaca e não apareceu. E como todos ali dentro da vã votariam no Lula, rapidamente me cansei de conversar e iniciei a escritura do meu livro mentalmente, olhando o pico enevoado das montanhas e voltando a me sentir oprimido pela abundância de imagens liberadas pela minha memória. Chegava ao ponto de me sentir condenado a viver mesmo o presente sob a conjugação do passado; o que ainda não tinha acontecido na minha vida era apenas uma parte do meu passado não revelada. Não importavam mais minhas escolhas, era como entrar de novo numa escolha que eu já tinha feito antes, uma escolha cujas consequências já haviam ocorrido: minha paixão necessitava se atirar contra o tempo. ''Os amantes fodem juntos o tempo (eu pensava), de modo que ele se abra, se adiante, recue sobre si mesmo e se dobre para trás: O TEMPO BOMBEADO POR NOSSOS CORAÇÕES ( o tempo cuja vagina está úmida de atemporalidade, o tempo que se consome ao ejacular sua auto-propulsão''. Eu me imaginava como um personagem de lenda tornando-se consciente de forma gradativa, até perceber que eu era um livro já escrito dentro de mim. A LENDA já estava pronta e não podia mais ser alterada, mas sua imutabilidade me oferecia, paradoxalmente, uma espécie de imortalidade. Porém eu, vivo e consciente dentro da lenda que estava narrando para mim mesmo, já repetida milhares de vezes, me sentia agora enterrado vivo. O que me faltava não era ar e sim TEMPO. Precisava começar logo! ----- E você acha que é algo que vale a pena, garoto(?) ----, Gilberto, o coordenador do projeto, me perguntou, ao me ouvir falando com uma estudante de serviço social que eu pretendia escrever um romance de seiscentas páginas. ----- Todos os escritores atuais são pequenos-burgueses(.) ----, acrescentou ele. Ele era um cientista social do PCdoB com doutorado em algo que não me lembro bem, e aguardávamos um carro da Câmara Municipal vir nos buscar para falarmos a respeito de Direitos Coletivos, Art. 5 da Constituição, Conselhos de Direito, audiências públicas e projetos de lei de iniciativa popular com os moradores de um distrito miserável no meio do nada, a trinta quilômetros dali. O resto do pessoal tinha seguido na vã para outra localidade. Rafaela permaneceu em silêncio, enquanto eu inspirava fundo para atacar a questão e defender a ''classe''. ---- Toda arte autêntica é individual, não individualista Emoticon smile é o que a torna diferente das ciências humanas(: o que importa em literatura é esse diagrama pessoal, único, expressão concreta da individualidade(: por isso há estilo em literatura e não há estilo em ciências políticas(: a ciência é a realidade concreta vista por um sujeito sempre prescindível, quase insignificante, enquanto que a literatura é a REALIDADE TOTAL vista por um sujeito sempre imprescindível, algumas vezes brilhante(.) -----, eu disse, e olhei para ele como Seu Adamastor costumava olhar a minúscula viatura da Polícia Militar, quando avistávamos ela passando à distância na rodagem . ----- Literatura é introspecção(: uma maneira dos intelectuais pequeno-burgueses fugirem dos problemas sociais(.) ----, ele retrucou, e Rafaela agora, para minha decepção, parecia inclinada a tomar o partido dele: o curso de Serviço Social era sabidamente uma fábrica de agentes difusores do marxismo ortodoxo, embora fosse acusado de ''atrasar a revolução'' pelos Che Guevaras de apartamento das Ciências Sociais. ----- Porque não levantamos um pouco o nível filosófico desse diálogo (respondi, alterado), claro, o paralogismo que vocês têm na cabeça é mais ou menos assim(: a introspecção significa fundir-se no EU, e o Eu solitário é um egoísta a quem não importa o mundo, um contra-revolucionário que tenta nos fazer crer que o problema está dentro da alma e não na organização social, etc Emoticon smile passam por alto um pequeno detalhe(: o de que o EU solitário não existe(: o EU só pode existir em uma sociedade, mesmo escondendo-se desta(: na solidão perfeita o EU deixa de existir e a consciência se abre ao DESCONHECIDO(: não se preocupem, um escritor sempre dará testemunho do mundo, mesmo que seja um testemunho medíocre, como o do Realismo Socialista(.) ----, eu disse, e logo Rafaela começou a rir e Gilberto tirou os óculos e passou a mão pelos olhos e a fronte estafada. ---- Não me parece tão nítido assim(: por alguma razão, Marx admirava escritores como Balzac(: aquelas novelas eram um testemunho de uma sociedade(.) -----, ele falou, mas eu acendi um cigarro e voltei à carga: ----- As novelas de Kafka não descrevem greves de ferroviários em Praga, e no entanto permanecerão como um dos testemunhos mais profundos do homem contemporâneo(.) ----, definitivamente, eu não era o tipo de sujeito que ''largava o osso'' com facilidade, quando o assunto era literatura, e Rafaela começou a achar isso excêntrico e engraçado, tendo-se em vista o inusitado que estava sendo discutido por um estudante de Direito e um cientista social. ----- Muitos críticos de orientação marxista já ousaram dizer, por exemplo (eu disse) que a Argentina não tinha uma ''literatura nacional'', alegando essas mesmas asneiras(: a carência de uma ''cor local'', diziam(: eles exigiam uma cenografia pitoresca para conceder o certificado soviético(: para esses ontólogos, um negro numa plantação de bananas é uma coisa real, enquanto que um estudante ginasial de classe-média alta que medita sobre sua solidão numa praça de Buenos Aires é apenas uma anêmica enteléquia(: e à essa idiotice, chamaram de realismo(.) ----, eu devia estar 'realmente' inspirado, naquela manhã de Sábato, pois agora não só Rafaela, mas o próprio Gilberto começou a rir copiosamente. ''Antiquíssimo, já nem recordo minhas primeiras letras. Sou clássico, barroco, romântico, surrealista, atômico, brilhante! A aurora dedirrósea, Helena número 2, abole seu inventor; o crítico Poleimos contesta-me a téssera da identidade; o vento analfabeto atira-me pedras''. ---- Cuidado, alcaide(!) quando a sua gente fala de realidade querem dizer realidade externa(: a outra, a interior, já sabemos que tem muito má reputação entre vocês(: mas só um alienado mental pensaria em documentar a agricultura nas cercanias de Paris em fins do ´seculo XIX consultando alguns quadros de Van Gogh(: é evidente que a arte é uma linguagem mais próxima do sonho e do mito do que das crônicas de jornal(: a arte é um ontofania(.) ----, continuei falando, dentro do carro, ao lado de Rafaela no banco de trás, que agora era a única que ainda prestava atenção no que eu dizia. ---- Onto o quê(?) ----, ela perguntou. Gilberto se sentou ao lado do motorista e ligou o rádio numa altura suficiente para abafar os sons do meu discurso. ----- Uma ontofania, uma REVELAÇÃO da realidade(: mas da REALIDADE TOTAL, por favor Emoticon smile não só da externa mas da interior, não só da consciente mas da inconsciente(: que sofre uma forte impregnação da objetividade, mas que mantém com esse mundo objetivo uma relação sutil muito complexa, e mesmo contraditória(: se a sociedade fosse realmente decisiva, ÚNICA, como se poderia explicar a diferença entre uma literatura como a de Balzac, que ele citou, e a de seu contemporâneo Lautreámont (?) ou como a de Paul Claudel e a de Céline(?) em suma, toda arte é individual porque é a visão de uma realidade através de um espírito que é ÚNICO (.) ----, concluí; antes de descermos do carro na associação de moradores do distrito, para coordenar aquela reunião, Rafaela me convidou para ir à noite numa festinha na república onde ela morava com mais duas estudantes de Psicologia. Eu me enchi de esperanças, e me auto-censurei: ''Quanta frivolidade, quanto exibicionismo alucinado(!)'', pensei depois, voltando com a turma toda para Juiz de Fora no começo da noite, naquela vã. Tinha sido a primeira vez que eu conversava prolongadamente com alguém daquele projeto, já na posse segura do meu novo EU, que, apesar de toda a afetação intelectualóide, revelou-se em momentos cruciais ser bastante refinado, magnético e absolutamente fiel às Musas e Daimons. Rafaela tinha os cabelos e os olhos tão escuros, suas pernas e seios tão redondos e bem desenvolvidos, que de início eu pensei que ela fosse descendente de espanhóis. Um mulherão, que fazia Júlia parecer uma criança de colo. ''Vou casar com essa garota(.)'', pensei comigo mesmo, quando cheguei em casa, tirei a camisa e acendi um baseado (só havia então dois vinis ali, naqueles dias, mas um deles era o Miraculous Mandarim de Bela Bartók, que enquanto tocou me fez pensar que ela era de fato uma jovem prendada, meticulosa e aplicada ao extremo, de uma competência incrível, dedicada de corpo e alma aos ideais socialistas aprendidos no curso de Serviço Social, o que na época a tornou ainda mais atraente para mim. Sozinho novamente, a julgar pela reação fria e negativa de Júlia no nosso último encontro , eu tinha agora como única companhia aqueles grandes autores que eu dizia serem ''os verdadeiros arquitetos da minha mente'', como Dante! ''O espanto, a libido, o urlo, o mal, o animal, o fantástico do real, o círculo, o orbe, o número, a luxúria, a dança cristocêntrica, o erro original de ser, o texto que fabricando o inferno se sustenta, o purgatório também tornado histórico, a idade mitológica do céu, a Idade Média daquele tempo, do atual tempo externo e do tempo por vir; BEATRIZ FORTEMENTE POLITIZADA (Par. XXX, 133-148); a contestação do mundo''. Mas quando cheguei na república de Rafaela, ela estava de mãos dadas com um modelo fotográfico do quinto ano de medicina, o que atrapalhou completamente meus planos. Embora tivessem surgido outros ao longo da experiência...
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