sábado, 29 de novembro de 2014

CAPÍTULO 8

 Veja, a única frase dita pela VOZ foi ENTRE. Na sacada, ela abriu a bolsinha prateada. Combinando com o vestido prateado. Trocou de roupa para me receber. Tira um cigarro da bolsa. Aproximo um isqueiro. Acende. Traga. Momento de devoção contínua: penso no capelão episcopalista de St. MatheW, ele costumava fazer o sinal da cruz tão concentrado na agonia do Nosso Senhor (sua expressão demonstrava isso) que a gente sentia a mesma agonia no peito. Impressionei-me com a solenidade do encontro entre o cigarro e a chama do isqueiro. VOZ. Tão profundamente feminina! Como se eu me deparasse, finalmente, com a imagem de uma sacerdotisa da antiguidade, e com as descrições da intimidade antecipada entre nós, sob o olhar de um oráculo tântrico. Deturpo tudo pela violência cômica implícita na minha narrativa. Até agora não disse nada de muito relevante. A não ser que isso tudo era uma VOZ. Um súcubo é uma VOZ.  Apenas digo que as artes de todas as mulheres atraentes que conheci na vida pareciam agora absorvidas pela pessoa dela. Pela pessoa dentro daquela VOZ.  Não consigo tirar os olhos dos seios. Sob a luz que chega na sacada, parecem muito bem-feitos. Misteriosos no decote profundo como sua voz. Em seguida, percebo que ela está perfeitamente consciente do meu exame. Não importa, ela parecia pensar que ( uma placa de DIAS DEPOIS resolveria o problema do período de despersonalização e êxtase, na companhia daquela VOZ. Captação de forças psíquicas. Captar uma força psíquica, através de práticas ocultas, é tornar sensíveis forças invisíveis e inaudíveis, e libertar a vida  de uma prisão (a personalidade) traçando linhas de fuga dentro da consciência, ampliando sua tela de captura indefinidamente . Uma VOZ dessas é um INORGÂNICO. Um SÚCUBO não é uma mulher, é um organismo psíquico parasitário (sendo Domingo de manhã, havia feira e a praça e as ruas do centro da cidade estavam cheias: eu seguia meu caminho em direção às barracas de verduras frescas. Ao ver Janice andando adiante, não me surpreendi. Ela trajava uma jaqueta lilás cinzenta, seu passo era ligeiro e insólito; usava na cabeça uma boina preta com uma flor de pano branca, inclinada para frente. Seu cabelo preto estava preso atrás num coque. Eu advinhei que a apurada elegância dela logo de manhã cedo nas ruas daquela província significava que tinha dormido  mal (existem cabeleiras com tendências a serem frias, outras que parecem gerar seu próprio calor nas mais frias condições. No ar friorento daquela manhã de Domingo, enquanto ela permanecia totalmente alheia à minha presença atrás dela, fui capaz de prever (com exatidão paranormal) que o cabelo de Janice estava inusitadamente quente. Ela parou para olhar uma barraca de uvas e eu peguei abruptamente seu braço por trás. Ela virou-se. Suas feições demonstravam alívio, ao ver que era eu. Continuava franzindo a testa, mas um sorriso apareceu na sua boca. ---- Ainda tá morando aqui(?) ----, perguntei. ---- Estou (: aluguei uma casinha na Vila S.F (.) ----, me pareceu uma mudança para melhor. ---- Sozinha (?) ----, sim: ela queria viver sozinha agora e a nova casa facilitava isso. Quando uma garota (uma mulher) está sozinha em sua casa (ou quarto) e segura quanto a isto, pode se olhar no espelho e mostrar a língua (uso aqui um símbolo para outras coisas: isso a fará rir e, em outras ocasiões, chorar. O mundo subjuntivo da mulher, reino de sua própria presença, onde uma parte dela VIGIA outra parte VIGIADA. Naquele momento, isolo essas duas partes dela no meu pensamento para seguir meus próprios olhos com mais fidelidade. Meus olhos se mexem, tento decifrar algo ( o novo testemunho de cada parte , de cada nova visão dela, contribui agora para que eu perceba um todo, um todo pulsante como um jovem coração. ---- É bem  pequenininha, numa rua quieta no começo da colina (.) -----, na verdade, era a mais antiga construção do bairro, e perto de todos aqueles bangalôs alinhados na calçada como quadros num supermercado (um desenho num conto de fadas: do lado de fora era de estuque num tom lavanda pálido, com molduras de janelas marrons, e dentro apenas uma sala, quarto, cozinha e banheiro. Havia uma banheira velha ao lado do chuveiro; o teto curvava-se no meio, e a porta da frente ficava praticamente em cima da calçada. ---- He he (: fiquei apaixonada à primeira vista(.) ----, ela disse. ---- Por mim (?) ----, perguntei, rindo. ---- Não, pela casinha(: rsss(.) -----, no quintal, havia um velho pé de romã arruinado, com alguns arames enferrujados sustentando alguns ramos. Janice realmente a adorou. Janice, olha pra mim: eu te vejo, olha pra mim olhando pra você, e você se verá sendo vista tal como é, pois  meus olhos estão atravessados pelo vazio cósmico. Ela me olha: minha imagem nos seus olhos recobrem a superície inteira do corpo dela como uma segunda pele. É um olhar intimista.  Eu jamais me vi assim: é a primeira vez que converso com alguém depois de muitos dias meditando. Ela me reconhece, seu reconhecimento não pode ser apagado. Queima aquilo que reconhece. Combustão de olhos e desejo em que tudo fica tão claro que ela reconhece como familiar aquilo que jamais o foi. ---- Acredita que uma semana depois que mudei minha mãe se separou e sumiu de novo (?) isso teria me deixado deslocada por aqui se não tivesse alugado a casinha (: é bem melhor do que um namorado ou um marido(.) ----, ela disse. ---- Quem, eu (?) ----, perguntei, rindo de novo. ---- Não, a casinha(: como você é bobo, K(!) ----, Janice se divertia, pelo jeito; eu também. Ela não parecia ter transado com ninguém por semanas (parecia, mas teve: apenas talvez não estivesse com tanta vontade até então, estava com uma cara saudável de uma jovem aprendendo a digerir a própria vida : o homem com quem morou, o ex-namorado na cidade e mais ficantes do que se poderia contar. Bem , a rotina continuava. ----Agora eu tenho um emprego de garçonete no Nemo´s(.) ----, talvez não fosse de todo ruim para ela, no momento. Meu Deus (!, ela enchia meu coração de ternura e piedade. Seu rostinho lindo brilhava e seu olhar era tão macio quanto translúcido, enquanto ela percebia algo no meu jeito de olhar pra ela: a maioria dos homens, quando olha para uma garota que os atrái, já deu início ao processo de seduzi-la e despi-la com a imaginação ( já a vê em determinadas posições e com certas expressões no rosto (já começou a sonhar com ela, como eu, naquele instante. ----- Acho que o dia mais feliz da minha vida foi quando fugi do homem com quem morava e dormi numa praça, numa cidade desconhecida (: e também uma noite por aqui, tomando ácido com o Daniel (: não digo feliz, mas bom no carro a noite e o céu (: nossa haxixe ---- (pensei que ela começava a fantasiar ou... ou oquê? ----- (: quase tive um colapso(!) tomei outro(: rádio ligado na represa, tocando funk ou sei lá o quê (: -----, entendi o que ela queria dizer: provavelmente , de súbito, os flúidos de Daniel, do carro e da noite começaram a se confundir (reino subjuntivo das cores) UUAAM! , e ela sentiu-se arremessada na estrada, em pleno vôo. Daniel disparou atrás dela, pegou-a, arrastou-a de volta, mas ele próprio pirado demais. Com Daniel, às vezes, ela ficava com os seios hiper-sensíveis pelo excesso de carícias, como quando era criança. E às vezes enjoava dele na cama. Mas ela tinha sido louca por ele, de fato. Rapaz bondoso. ---- O Daniel não deve voltar do Sul tão cedo(.) ----, deve ter sido um namoro engraçado: eram felizes e miseráveis ao mesmo tempo. Depois que terminaram o namoro sério, Daniel esfriou-se tanto que quis vendê-la. "Já que você se acha tão boa assim(...)'', ele disse, bancando o inabalável. Mas era um comerciante nato e precisava de algo para vender, quando a banca quebrou. ---- Quer tentar (?) ----, ele perguntou à ela na época (ela me contou: talvez isso tenha lhe proporcionado um monte de sensações malucas, que não podia ficar me contando detalhadamente. Cruas demais. Ela acabou preferindo não brincar de novo com o ego sensível de Daniel. Ciumento demais.  ----- Você vai ficar por aí, K(?) ----, me perguntou. ---- Não sei (.) ----, respondi, imaginando-me nu diante dela. Janice se dá conta disso: percebeu que o homem diante dela não tem nenhuma necessidade de esconder nada. ---- Você vive de quê, K(?) ----, perguntou. ---- Tenho dinheiro no banco(: ouro, ações, vou e volto do garimpo (: até outro dia não tinha nada, mas hoje posso andar por aí sem ficar na mão(.) ----, sinto que ela há de guardar a informação para si ( magnífica imprudência de K. ---- Éééé´você é um artista na arte de viver assim(: nunca vi, se não te conhecesse um pouco ia achar que você é sinistro (.) ----, dessa vez, a escolha não era entre encorajar ou desencorajar (se ela baixar ou desviar os olhos, será praticamente admitir que ela me viu tal como sou: uma vez uma garota me disse olhando nos meus olhos que nunca tinha olhado dentro de olhos tão vazios ( mas se Janice olhar para o lado, direi que apreciou uma certa vontade louca minha de ficar com ela hoje. ---- Quer me ajudar a colher amoras(?) ----- (me perguntou) meu Deus(!), essa é a vida mais estranha que já conheci, pensei: o que prometer à alguém como ela(?) Amor, logo mais e (porém isso ainda não se cumpriu: por Deus, eu vi coisas dentro da meditação e senti que era um nevoeiro tão extenso que era inútil fixar a atenção em qualquer coisa determinada, depois de fixar distantes filamentos de luz envoltos por uma luminosidade opaca passiva: mas se fizer amor com Janice hoje seria completar algo que já tinha acontecido entre nós. Quando descrevo algo, quando o nomeio, CRIO ou  SEPARO-ME desse algo ( mais ou menos, certo? Foder é como nomear algo que aconteceu na única linguagem adequada para exprimi-lo (somente  quando nada aconteceu é possível separar o sexo do amor, a não ser que seja tão pedante ao ponto de compor uma canção idiota sobre isto. O tempo melhorou de repente. Fizemos compras e guardamos na casa dela. A colina atrás da casa convidava à uma caminhada na floresta. ---- Gostou do meu quartinho, K(?) ----, ela me perguntou. ---- Amei (: espero que aquela cama não se torne apenas um leito para bad trips (.) ----, disse, ela riu: ----- Agradeço à Deus por essa brisa gelada e as árvores e bordos copados (: aqui vamos nós(.) não é romântico(?) -----, ela diz, com um farfalhar ao fundo que podem ser as batidas no meu coração. Fricção dos olhos e tato amplificado. A voz dela é feminina e difícil de se distinguir do vento nas árvores. O sonho da noite anterior cospe um pedaço de diálogo nos meus ouvidos (aquela mulher imaterial do sonho, aquela VOZ que abafa a de Janice por um instante, reaparece na minha cabeça: ''OUÇA A MOCINHA FALAR AGORA(: EU SOU APENAS UMA PRINCESA CRIADA EM BERÇO DE OURO , MAS ELA NÃO(: É FÁCIL PRA TODO MUNDO DIZER NÃO FAÇA ISSO OU AQUILO(: PRA VOCÊ, K, ISSO É SÓ MAIS UMA CURTIÇÃO(: EU NÃO FICARIA PREOCUPADA, NO SEU LUGAR(: QUANDO TUDO ISSO FOR POR ÁGUA ABAIXO VOCÊ VAI VOLTAR PRO GARIMPO E EU VOU VOLTAR PRA SALVADOR E PEDIR AO PAPAI PRA FINANCIAR SEIS SEMANAS NA COSTA DO SAUÍPE(.) ''. Não era a VOZ de uma coleguinha, era uma VOZ arrogante, sugestiva, afetada, preocupante, invejosa, comprometida com seu ARTHA pessoal ( o próprio KARMA e o PADMA de alguma coleguinha de quarto: mas logo respiro fundo e me pergunto se não seria possível pedir àquela VOZ para ficar de boca fechada em assuntos de que não entende bosta nenhuma. Volto para Janice. A luz penetra na floresta quase horizontalmente. Cada entrada, entre as árvores, na profundeza da floresta adquire, nessa luz, um exagerado aspecto estereoscópico. As árvores aparecem, à contra-luz, inteiramente pretas. As árvores iluminadas pela luz do sol são cor de mel acinzentado. A mesma luz se derrama sobre a jaqueta lilás de Janice. À medida que caminhamos, os pés dela, em suas botas com presilhas, pisam leve porém profundamente num tapete de folhas de pinheiro, pinhões apodrecidos, musgo e ramagens de flores. Cada superfície está mais do que normalmente vívida, porém na floresta tudo perde algo de sua substancialidade. Até agora, com Janice, eu não fui mais do que ''polido'', mas ciente da força do conluio inconsciente que agora nos ligava. ---- Não lembro de ter visto você por aqui esses dias(.) ----, Janice disse. ----- Estava entocado, enfrentando a confusão que aprendi nos livros(.) -----, e enquanto isto, Janice tinha andado brincando com o rapaz sardento da segurança do banco. Sei, o seu tipo de diversão (as árvores são espruces ou lariços; o musgo cresce com mais facilidade nas primeiras; muitos galhos mortos exibem uma decoração de cabelos verdes entrelaçados, como algas secas; em outros galhos, listas e grumos de líquens estão grudados como tachas de prata branca embaçada. A maneira como Janice finca os pés sobre tudo isso, o exato comprimento das costas dela à minha frente, o tom rascante e feminino da sua voz, tudo me parece significativo como um milagre. ---- Que confusão(?) ----, ela me pergunta, meio atrasada; a dos livros certamente ( não há fim no que podem oferecer, apenas determinação infinita (e eu não estou me iludindo: a importância dos menores movimentos dela, o poder daquilo que a diferencia de todas as outras mulheres, me faz arriscar alguma explicação: ----- A confusão do próprio Universo, certo(?) uma ordem tão grande que numa cabeça pequena de ser humano vira uma confusão(: por isso, eu medito e busco dominar as imagens dentro dos meus sonhos (.) ----, e isso é o mundo. Sinto que Janice me envolverá, se demonstrar alguma curiosidade pelo que digo. ---- He he (... legal(.) -----, ela se virou no caminho e empurrou meus lábios para cima com os seus, talvez menos um beijo do que uma imitação dos beijos vistos em revistas ou na televisão ( tinha deixado de ser uma pessoa, e agora haviam apenas histórias: a pequena peça clara da calcinha de Janice saiu para o lado entre os meus dedos (contorção e uma costumeira dança imóvel e sensual da musculatura, executada com um sorriso meio de desafio. ---- Você não vai me comer aqui, K(: está frio demais (.) ----, ela disse, me pareceu então pouco menos nua que com minha mão entre as suas pernas . Acrescentou: ----- Fala mais aí das imagens dos sonhos, como é isso(?) -----, os mamilos, discos de pele de uma leve cor rosa, haviam-se enrijecido com a exposição ao ar e aos meus olhos. ----- Tá frio mesmo(: o controle dos sonhos é um procedimento ocultista antigo (xamânico, para ter acesso à poderes mentais (: cada novo praticante de nagualismo , à medida que avança no treinamento e endurece sua disciplina, sente muito claramente os ecos desses antigos conhecimentos e as revelações continuam vivas por trás do mundo cotidiano(.) -----, a luz que, ao recair sobre Janice naquele momento, revelando-a, é exatamente como a luz que recái e revela cidades e oceanos: os fatos do seu ser físico, agora, são as únicas ocorrências do mundo para mim e isso é delicioso ( o espaço no qual Janice se move é o espaço do Universo inteiro. Ela pergunta: ---- E pra que servem essas coisas, na prática(?) -----, é como tentar explicar a poesia de Mallarmé : ----- O propósito de um praticante de nagualismo é arder de dentro para fora e desaparecer, devorado pela força da percepção (: alguém assim se prepara a vida inteira para isto (: claro que não há muita gente assim(: são pessoas tocadas profundamente pelo contato com outros planos, é idiotice querer convencer uma pessoa comum a aprender nagualismo ou ocultismo em alto nível (.) ----, acentuar a unidade da minha energia total, vencer a morte. ----- Está começando a ficar frio(: quer comer mais amoras ?)  já são cinco da tarde (.) -----, sim, chegando a noite, nuvens voltam a se formar sobre a cidade. A luz plúmbea faz com que a igreja à distância pareça um gigantesco estilhaço de metal. Os canais nos subúrbios parecem ter se tornado pretos. Os espaços abertos na floresta parecem agora carecer de ar, como se tivessem sido colocados numa caixa. ----- Vamos voltar, o céu já está estrelado (.) -----, numa de suas tiradas oportunas, Carlos Castaneda fala de um dos mais poderosos mananciais do universo: a ENERGIA ESCURA ( o mar escuro da consciência) como fonte de alimento espiritual de um praticante de nagualismo; na minha adolescência, quando supunha que o mundo tinha sido minuciosamente ordenado para meu próprio benefício, com uma eternidade virtual levada em conta para inspeção de suas inúmeras partes vastas e misteriosas, eu dava as ESTRELAS, como as nuvens no alto, como CERTAS. Conhecia a Ursa Maior e Órion, e numa noite de verão fui capaz de mostrar à uma menina na praia, com uma voz cheia de inexplicável excitação, Vênus (uma luminosa perfuração branca no azul que se aprofundava no sangrento pôr-do-sol) e Sírius ( a ardente). ----- O ''mar escuro da consciência'' são emanações de uma fonte todo-poderosa de energia consciente (: a Águia ( -----, como uma espécie de buraco negro, essa FONTE também absorve de volta a vida e a energia dos seres que não alcançam poder suficiente para preservar sua consciência depois da morte física (.) ----, num momento e noutro, eu me dava conta, assim como um esquiador se dá conta das águas escuras nas quais desliza, de um firmamento pontilhado, uma partícula de mundos distantes, entre as silhuetas maciças das copas das árvores que atravessávamos, no caminho de volta. ----- A Ciência hoje admite que tudo aquilo que percebemos, incluindo as ESTRELAS, ocupa tão somente míseros 4% de tudo o que existe no Universo, sendo que 70% corresponde à ENERGIA ESCURA e 26% representa MATÉRIA ESCURA, ainda de natureza misteriosa para os cientistas(.) -----, mas no quintal, onde minhas revelações realmente começaram a surpreender Janice, ela se apressou em fazer um baseado e sentir o pulsar da minha respiração controlada enquanto eu falava. De fato, era uma casinha humilde, mas espetacular, com a janela iluminada atrás das nossas cabeças. ----- Sabemos hoje que o Sol navega na direção de uma estrela chamada Vega, que significa ''Águia'', em árabe, situada na constelação de Lira(: algo atrái nosso sistema solar para aquela região do espaço(.) -----, a imagem pareceu perturba-la, com o baseado na mão, olhando para o alto e sentindo um fervilhar de atividades que prosseguiria sem ela ou eu, a noite inteira: o impacto intelectual das minhas observações foi momentaneamente amortizado pela passagem de algumas garotas em frente à casinha (corpos femininos com seus pesos maleáveis, auras empoadas e perfumadas, blusas sedosas e calcinhas elásticas: houve um verão, há poucos anos, em que aluguei uma casa de praia com um deque, comprei um guia de bolso da abóbada celeste e aprendi a localizar o triângulo de verão das estrelas luminosas: Denébola, Altair e Vega, e algumas constelações proeminentes: o V voador de Andrômeda, o Cisne cruciforme, a pequena Lira retangular, e Cefeu, com o formato de uma casa em um desenho de criança. Naquelas decifrações (as pranchas do deque rugosas sob meus pés descalços, a casa de madeira toda iluminada e as vozes das pessoas conversando na varanda da casa vizinha) eu me senti unido à antigas gerações de astrônomos e astrólogos ( o homem mal alcançou a postura ereta e já começou a tentar explicar as estrelas, a dar-lhes nomes a partir de deuses e animais (a Águia é o animal de Zeus / Júpiter e veículo do deus Vishnu, através de Garuda (sempre mostrada dominando uma serpente) e logo depois começou a construir  enormes círculos e pirâmides de pedra, como que para demonstrar uma harmonia aplacadora com os ciclos da máquina celeste ( foi também uma águia com serpente que assinalou para o deus-sol asteca Huitzilopochtli o local de sua nova capital, Tenochtitlan; na Hierarquia dos Pássaros, a Águia representa o Adeptado, o dom da Quintessência, o Alquimista consumado com acesso às Leis da Natureza. ----- Quem foi o primeiro homem (talvez um pouco mais que um macaco) a compreender que o borrifo congelado no céu atravessava a noite como um disco fora do centro? E quem foram aqueles vigilantes homens sábios que notaram os planetas pela primeira vez, os nômades que mantinham as próprias trajetórias lentas e arcadas ao longo da superfície desse disco (?) as ESTRELAS foram os pais da especulação, da filosofia. Sob o olhar fixo de Janice, como se ela estivesse suspensa pelos calcanhares acima de uma tigela abissal, as estrelas agora pareciam cantar, gritar em coro ressonante. Na realidade, após o primeiro  trago no baseado, eu também ouvia aqueles sons solitários aglomerando-se num zumbido dentro da minha cabeça ( também grilos grisalhando no capim seco do quintal sob nossos pés: estar apaixonado é um complicado estado de expectativa por uma troca contínua de determinados tipos de dádivas  (pela manhã, eu a ouviria tomando banho na velha banheira ao lado do chuveiro, e lembraria da noite de hoje, e do nosso banho); o quintal da casinha, sob a luz da janela atrás de nós, é agora um emaranhado de capim e flores silvestres da altura do meu joelho: pétalas desbotadas pelo sol até ficarem quase brancas, porém não brancas-argila como os minúsculos caracóis encontráveis no solo poento; delicados gladíolos silvestres da cor de ametistas, transparentes e menores que um nó de dedo; e o vermelho dos gerânios (a cor pela qual uma criança visualiza o fogo); papoulas desbotando, úmidas, suas corolas pendentes da cor de manchas de vinho; extensões rasas de pedra plana, lisas e acinzentadas como flancos de golfinhos. O quintal cercado por visões e audições. Temos consciência de um gosto doce em nossas gargantas. Olho para Janice (o baseado está no fim, graças a Deus) e percebo os olhos de uma garota desconhecida me olhando: ela olha para mim sem que seus olhos me focalizem inteiramente, como se eu, tal como a natureza ali presente, pudesse ser encontrado em toda parte. Fico meio zonzo, agora, olhando para cima; meu pescoço começa a doer; meu senso de relações espaciais volta a ficar limitado e, dando-me por satisfeito com umas poucas identificações notáveis, ou tendo, pelo canto de um olho, aparentemente visto a queda de um meteoro, pego Janice pela mão e deixamos o quintal. Voltamos para dentro da casa, a calidez feminina, a luz elétrica. Ponho sem hesitar a mão nos cabelos dela e abro os dedos para deixa-la pular entre eles. Ela abre as pernas e empurro a mão naquela direção. Ela segura meu pau com as duas mãos como se fosse uma garrafa que estivesse prestes a despejar em si mesma. Agora, se move para o lado para ficar embaixo. Sua vagina começa no ar que respiro: seus seios estão dentro dela e os olhos também. Fui abduzido. A facilidade. Janice me brindou com uma de suas especialidades: a felação. Assim que subimos na cama seus dedos voltaram a segurar meu pau como uma garrafa, e ela conduziu sua boca por uma montanha russa de subidas e descidas longas, lânguidas e lentas; não gozei solto, na primeira vez: uma teimosia residual recusava-se a cruzar a ponte até sua boca. Gozei depois de várias idas e vindas dentro dela. Ela gostava de sentir o gosto da própria buceta na minha boca e no meu pau. Minha virilha puxava um pouco, quando terminei. As torneiras do chuveiro dentro do cubículo de mármore eram inúmeras, por causa da banheira, e produziam vários tipos de jato (um buquê de finas agulhas ou um esguincho de cordas dágua mais grossas em rápida pulsação. Junto dela sob a catarata vagamente aquecida, ensaboando-lhe a pele de modo a fazer com que a seda se recobrisse de uma graxa branca, ela sente novamente o punhal transformar-se em espada,  sob a água, estourando de tão pesado. Janice ensaboa-lhe naquele ponto com uma expressão séria, curvando a cabeça sob o martelar da água para ver melhor as veias saltadas, a pele rosa, roxa e vermelha, a glande em forma de coração. No espelho trincado da pia, levanto-me e vejo-me retalhado em fatias. Tenho um rosto severo de guerreiro evadido fotografado na parede. Quando ela se curvou sobre o limiar de mármore da banheira, para pegar a toalha no chão, expôs as nádegas  brancas e ondulantes, que se abriram levemente, mostrando uma linha rósea vertical no meio, assim como a pele em torno do ânus. Rubro brilho da jóia! FARFALHAR. SUA ESSÊNCIA É ILUSÃO. ISSO SERIA PRAZER DEMAIS. MAS NÃO PARA UM MESTRE, K. AO CONSENTIR EM SER UM GURÚ, VOCÊ ESTÁ PERMITINDO QUE A PRAKRITI CONTAMINE SEU PURUSHA, PARA TORNA-LO DENSO E PESADO. ESTÁ BARGANHANDO SEU ATMAN. VOCÊ É MUKTA (LIBERADO, IMORTAL SALVO) MAS TAMBÉM É JIVAN (VIVENTE). ESSA É A SUA TENSÃO. ESSA É A SUA DUPLICIDADE. UMA MULHER É CHAMA. É FUMAÇA. É RADHA, SUADA DE AMAR. SUADA DE RASA. SEUS SEIOS... FARFALHAR. VOZ. PULSAÇÕES MAIS FORTES. ----- Não, K (: por hoje já chega(.) ----, Janice diz (risos. ----- Desculpe (: que tal voltar lá pra fora, então(:  queria olhar um pouco mais as estrelas(.) ----, 

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