quarta-feira, 26 de novembro de 2014

CAPÍTULO 7

É errado, não é? Sim. Estamos certos, mas é errado. Não concorde comigo. Você me faz sentir uma foragida (a língua de Suzana lambeu a mão conhecida de Marion; as Três Marias de Orion brilhavam, límpidas e cintilantes, sobre a mansão e os bosques do morro: ---- Mas porque contar à mim (?) ----, agora eu tinha me lembrado, tinha visto aquela cantora de música sertaneja numa reportagem sobre festivais de música country e conhecia sua fotografia na internet. ---- Achei que você devia saber (Suzana disse) quero que você me conheça(!) se vamos nos apaixonar de novo, quero que você me ame como eu sou(... -----, Marion parecia medir as palavras, aquele matador de aluguel tinha vindo de uma das piores quadrilhas de Mato Grosso (algo que se percebia pelo seu jeito de andar: havia nele algo de independente, de desgarrado e instável, que certa vez sucitou um comentário de Marion, com Suzana: ---- Algo não muito bom, de que não gosto (.) ----, sinceramente, ela cantava alto demais para o meu gosto (a música em si é algo que nem merece comentários). ---- Bem (disse Suzana) pode ser, ÀS VEZES, mas há quem possa ouvir pra você o que ele anda pensando(..) ----, eram poucos os assuntos em que Marion era totalmente ignorante, mas a música era um deles: não distinguia uma nota da outra, e há tempos que costumava exaltar as canções de Suzana em público, só porque tinha sido ele seu patrocinador (os entendidos do meio musical em fazer lixo render dinheiro diziam que Suzana não era boa, nem mesmo como lixo , mas Marion conhecia a natureza suscetível da moda, sabia que era possível girar a roleta para colocar alguém em evidência ( o braço dela foi estendido na direção de Marion antes mesmo que ele terminasse de falar; pressionou a mão dela contra os lábios, observando mentalmente o quanto era veiuda : ---- Eu ainda costumo colocar seus discos pra tocar(.) -----, Marion disse, e aquilo me fez pensar em Billie Holliday e mais umas quarenta vozes femininas que poderia citar sem dificuldade (mas era covardia,com Suzana: a indústria musical não produzia mais talentos capazes de evocar o cheiro de maconha numa cerração de manhã cedo ou o clima que cerca uma moça ao entrar numa sala de espera, não sugeria que o mais belo caso do ano estava para começar, não me levava à pensar em paisagens da Jamaica, em mangas, mel, um seio sob o luar, amor tropical, um porco selvagem correndo no mato com um quarto meio arrancado por uma onça; Suzana nos dava apenas gritos, uma ou outra nota prolongada, como um sintetizador quando se esquece um cinzeiro de vidro sobre as teclas.... nada mais. ---- Como você acha que ''ele''  vai reagir (?) ----, Suzana perguntou à Marion. ---- Como (?) ----, ela apontou para o matador de aluguel. ---- Ele está ali sentado há vinte minutos(: não pisca, não se mexe, apenas olha pra cá com aquela cara de ''QUER BRINCAR COMIGO(?) ENTÃO VAMOS BRINCAR(!)'' ----, ficaram em silêncio, enquanto a memória de Marion  reunia tranquilamente os fatos: de repente, o matador se levantou da cadeira, estremecido de ódio, e foi na direção de Marion (não queria ficar desmoralizado, mesmo não sendo o dono do pedaço: ----- Cara, não sei se você sabe disso, mas o SEU braço tá na cintura da MINHA garota(.) -----, nesse momento, senti então uma curiosa felicidade, por saber agora que ele seria capaz de fazer o que sabia de melhor: MATAR (fixou o rosto de Marion de forma que parecia estar jogando sal na superfície dos seus olhos. Suzana riu nervosamente como se alguma coisa lá no fundo dela tivesse começado a pegar fogo. ---- Genial ---- ela disse ---- Genial(!) -----, e depois beijou o rosto do matador, e acrescentou: ---- Você não passa de um maluco, mas é legal(.) ----, eu percebia tudo isso durante  o tempo que ele demorou para levar a mão à coronha de um revólver na cintura, olhar para Marion, olhar para Suzana, e dizer à Marion que sumisse dali. Percebia todos os detalhes ( meu senso de tempo, com aquela hesitação antes da descida da montanha-russa, foi tão demorado quanto o primeiro sôrvo num baseado, quando o pulmão dá seu longo suspiro interior e o tempo recua ao lugar onde começou: sim, tive lembranças relâmpago do matador lendo meu bilhete. ----- SUMA DAQUI (!!) ----,  ele gritou na cara de Marion. Seus olhos se encontraram e ficaram juntos. O matador voltou-se para Suzana. ---- Ele não vai fugir(?) merda, até que enfim você arranjou um homem que aguenta a pressão (.) ----, o sorriso desapareceu instantaneamente do rosto de Suzana, então ela disse: ---- Não vá perder a calma, idiota(!) ----, e Marion acrescentou em seguida: ----- Calma, menina(: eu posso dar sumiço nesse seu namoradinho , e ninguém vai encontrar ele em vinte anos(: meu pessoal está aqui, posso enfiar pregos sob as unhas dele(: sou DONO do meu TERRITÓRIO, percebe(?) e de quase tudo DENTRO dele (.) ----, a cena era como dois homens e uma mulher equilibrados num arame tenso (nesse momento, eu saí da mansão. Dei um passo na direção da porta, Não sabia o que fazer direito, mas me pareceu necessário dar aquele passo, da mesma forma pela qual a letra de uma música pode lembrar a um homem, no limite da insanidade, que ele vai ficar novamente louco, e que lá fora havia um mundo mais interessante do que dentro daquela mansão (quando saí, o pulso do matador ainda marcava ritmo sobre a coronha do revólver). Quando reencontrei Cecília, de volta à nossa mesa, ela não percebia mais promessas secretas no meu rosto: sabia que o que nos tínhamos prometido era inconscientemente limitado e o segredo agora nos envolvia. Ela tocou meu rosto de leve, foi seguindo com as pontas dos dedos os contornos de uma sobrancelha, descendo pelo lado do nariz. Ao tocar meu rosto assim ela podia tornar mais natural sua sensação de familiaridade e destruir um pouco do mistério inquietante que eu carregava comigo, desde o berço. Ela poderia continuar brincando assim com meu rosto (não fosse pela presença do filho) com a ocorrência de uma ou outra palavra isolada e enigmática dando um sentido de estranha iluminação em sua cabeça ( como se ela percebesse que havia LUZ atrás de tudo o que visualizava, e que essa LUZ dava um contorno branco à tudo até ser percebida diretamente. Cecília teria continuado assim até que eu falasse ou me mexesse. Ela queria falar alguma coisa e não falou. Porém, seis ou sete pipocos explodiram de repente dentro da mansão e pessoas desesperadas apareceram no pórtico gritando; depois, mais pipocos (uma garota de programa gritou na sacada abaixo da janela: seguiram-se mais gritos, e mais tiros. Se eu não tivesse sido garimpeiro desde o dezessete anos, acho que teria reagido de modo diferente, menos gelado, mas me limitei a pegar o menino no colo e levar ele e Cecília na direção do estacionamento (CORTA ----  ela colocou a mão no meu ombro, seu corpo inteiro voltou-se para mim (de alguma forma indescritível, Cecília podia distinguir no meu rosto o que de fato tinha acontecido naquela festa. Meu rosto devia estar mudado, mas certamente não era o rosto do Demônio. Ela logo se deu conta de que eu estava mentindo, ou omitindo algo: mas o caráter totalmente inesperado do que tinha acontecido na festa não significava que provavelmente haveria de acontecer de novo. Ela estremeceu. Ainda tinha algo para me falar que não tinha falado. Puxei o lençol para cobri-la e ao fazer isso vi todo seu corpo esticado reto, exceto pelo quadril ligeiramente levantado (há mulheres, muitas vezes de cadeiras largas, cujos corpos se tornam espantosamente belos quando se deitam; e a vocação natural de Cecília parecia ser mesmo horizontal: e do mesmo modo que as paisagens são infindavelmente contínuas, a linha do horizonte retrocedendo à medida que avança o olho do viajante, assim, para o tato, esses corpos parecem não ter limites e ser infinitamente extensos, independente do seu tamanho real. Minha mão pôs-se à caminho: o triângulo roseo na pele clara dela anunciava inequivocamente a solução de qualquer mistério, ao menos por aquela noite (ela, talvez, tivesse gostado de me perguntar alguma coisa antes, mas... de repente ela se livrou do lençol e, ajoelhando-se na cama, pegou minha cabeça e apertou meu rosto contra sua barriga (jogou-se levemente para trás e percebeu que a luz azul das maçãs de vidro que pendiam do candelabro no centro do teto chamava incessantamente pelo meu nome entre as suas pernas (CORTA ---- a maneira como minha imaginação me obriga a escrever essa história é determinada pelos indícios, nela existentes, daqueles aspectos do TEMPO em que toquei, mas jamais identifiquei direito. Escrevo esta história na mesma escuridão... ela pode ser objeto ou imagem de ambos os lados do espelho. Pode regar-me ou ser regada por si mesma. Ambos, enquanto a palavra do escritor permanece em sua boca, voltam a ser partes de um todo indivisível cuja energia levará à separação e distinção entre nós tão logo a história seja abandonada, sem mais nem menos, como costumo fazer (Cecília pergunta: ---- Que necessidade tenho eu de mais alguma coisa, K(?) mas você é tão novo (... ----, não dei importância  a esse último comentário, os sentimentos dela se distribuíam como veias no meu corpo (estou escrevendo mentalmente sobre dois amantes numa cama, baseado numa recordação íntima, enquanto Marion agoniza num hospital com um tiro no pescoço (CORTA ---- Que horas são (?) ----- Oito da manhã(.) ----- Tá brincando(.) ----Estou de pé desde as sete(.) ----- Você parece severa, aí de pé (.) -----Estou com fome(.) ---- Como você parece severa, aí de pé (.) ---- Marion morreu (.) ----- Grandiosa e severa(... ----- Levou um tiro no pescoço, por causa de uma cantora (.) ----- Tenho que te contar uma coisa sobre mim (....) ----- Diga(.) ----- Sou um traste até tomar uma xícara de café preto, de manhã(.) ----- Gosto tanto desse traste(.) ----- Sinto o cheiro de café entrando pelo ar condicionado (.) -----Vem até aqui um instante (.) ---- Meio minuto , por um milhão de xícaras de café(: já assistiu um filme chamado Coffee and Cigarettes(?) -----Não, peraí(.) ---- Fique junto da janela, to com uma sensação de sono maravilhosa, amando a visão de você aí de pé (.) ---- Você é pervertido(!) ---- Maravilhosa nua(!) ---- Não há pressa (: ok, leve o tempo que quiser (.) ---- Cada vez que te vejo  sei que é você, que tem que ser você (.) ---- Quero conversar(.) ----Não importa o que você vai resolver, nem se vai resolver alguma coisa, não somos assim tão importantes(.) ----- Estou com medo, o Ricardo ligou (.) -----Quero dizer, nós como pessoas não somos importantes(.) ---- Estou insegura, você é doido demais, novo demais(.) ---- É o nosso amor que é importante... eu acho(.) -----Talvez eu ainda não esteja preparada(.) ---- Venha aqui, se puder (estou aqui(.) ----- Vou voltar para o meu marido(.) ----- Porque você  nunca acredita em mim rs(?) ----- Tenho que pensar no meu filho (.) ---- Foi ótimo, esqueça(.) ---- Sei que estou errada, logo vou me arrepender de voltar pra ele(.) ----- Se não pode, não pode (.) ---- Tem certeza que não posso(?) ---- Você é quem tem certeza(.) ----- Deus, esse é o lugar mais bonito que já vi(!) ---- Jamais me senti tão ( ----- Quero que tudo fique claro entre nós, jamais fui falsa(.) ----- Não posso reclamar(.) ----, aquela conversa avançava, recuava: havia no ar uma sugestão de que poderíamos ir em frente, conversar tempo demais para pouca coisa, enquanto alguma falta continuava corroendo nossos espíritos. ---- Ah, K, toda essa confusão me deixou um vazio por dentro (ela disse) -----, sim, o amor era uma montanha que subíamos com um bom coração e uma boa respiração, mas a subida não tinha ainda nem começado , e o chão já estava escorregadio. Ela me beijou então, e a doçura que vem de uma fruta rara estava em sua boca, e alguma coisa a mais, um indício de febre e um pouco de lubricidade (de uma lubricidade ainda anos à sua frente, mas que vinha do futuro até ali, por um instante: havia de fato menos lealdade entre nós e mais do ar quente do desejo. Devo ter adormecido durante a viagem; quando vi, já estávamos de volta à cidade, e houve outra vez um momento em que acreditei estar morto. Estive certo durante um espaço de quarenta e oito horas ou mais, quase bem, quase perfeito, sentia-me o mais seguro dos homens, e agora estava tudo errado novamente (um ar de furacão pairava na minha cabeça; mais uma vez desejei ficar com ela, mas... é a lei de ferro do romance: o único voto aqui é ser corajoso: possuindo o sal de Maomé ou Buda, eu teria fundado uma nova religião, apenas não seriam muitos os adeptos. O assombro era minha religião, enquanto acreditei que Deus não era o amor, mas a coragem. Achava que o amor vinha apenas como uma recompensa... mas era o contrário. Eu ainda tinha vinte e seis anos na época, e minha Metafísica Privada, porém, era já enorme como a de Jorge Luís Borges (enterrada em vinte grossos volumes que eu jamais escreveria). Naquele momento, estava aterrado, o assombro era um estado de consciência intensificado, como um rito de passagem. Já não tinha a confiança de que meus pensamentos eram só meus; os homens temiam um espreitador, não tanto pelo terror, mas porque um espreitador impecável atrai a atenção dos deuses. Então, minha mente não era mais minha, meu era só o ASSOMBRO. Os augúrios agora eram tangíveis como o pão. Havia uma arquitetura na Eternidade que me abrigava enquanto eu sonhava, e quando havia ASSOMBRO,  um zumbido potente ecoava pelos corredores superiores da minha consciência, expandindo seu raio de ação indefinidamente. Aqueles veios dourados multiplicavam-se dentro dela na velocidade da luz. Mas naquele momento senti um vazio por dentro, grande e gelado como o gosto do Infinito, como acontece quando um avião desce de repente. Aquilo era uma resposta direta. O Infinito estava me pressionando. Não podia mais ficar onde estava e não tinha para onde ir. A única solução era deixar de ser uma pessoa.

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