segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Mitolo-gema...


Não se escandalize o leitor se a minha digressão soa como um mito gnóstico. Movemo-nos aqui no terreno supra-psicológico em que está enraizada a gnose. A mensagem do símbolo cristão é gnose, e a compensação do inconsciente o é ainda mais. O MITOLOGEMA é a linguagem verdadeiramente originária de tais processos psíquicos e nenhuma formulação intelectual pode alcançar nem mesmo aproximadamente a plenitude e a força de expressão da IMAGEM MÍTICA. Trata-se de imagens originárias cuja melhor expressão é a imagística.

(Kalki-Maitreya)

Parece uma gema de ovo o nosso por do sol do lado da Bolívia. 

(Manoel de Barros)


O ovo é um monumento fechado, automonumento; plano-piloto, realizado agora, do germe inicial da criação. 

A exemplo da torre de Pisa, o ovo não costuma sustentar-se em pé. Ninguém ignora que a torre gosta de emigrar durante a noite. De resto, ela subsiste somente porque amparada por uma pena num quadro de René Magritte. 

O mesmo pintor em outro quadro Les vacances de Hegel mostra um guarda-chuva aberto: em cima pousa um copo contendo um líquido. Evidentemente todos os observadores sofrem uma ilusão de ótica, trocando o copo por um ovo, de resto mais vizinho ao pensamento do filósofo. 

O ovo, objeto concreto de alto coturno, caríssimo, quase inacessível: diamante do pobre. 

No meu tempo de infância, indo a noite alta a dois metros, eu já não ouvia mais o tique-taque do relógio; antes, o pulsar do ovo na sua gema, nunca sua clara. 

(Murilo Mendes)

Nenhum comentário:

Postar um comentário