(Kalki-Maitreya)
Parece uma gema de ovo o nosso por do sol do lado da Bolívia.
(Manoel de Barros)
O ovo é um monumento fechado, automonumento; plano-piloto, realizado agora, do germe inicial da criação.
A exemplo da torre de Pisa, o ovo não costuma sustentar-se em pé. Ninguém ignora que a torre gosta de emigrar durante a noite. De resto, ela subsiste somente porque amparada por uma pena num quadro de René Magritte.
O mesmo pintor em outro quadro Les vacances de Hegel mostra um guarda-chuva aberto: em cima pousa um copo contendo um líquido. Evidentemente todos os observadores sofrem uma ilusão de ótica, trocando o copo por um ovo, de resto mais vizinho ao pensamento do filósofo.
O ovo, objeto concreto de alto coturno, caríssimo, quase inacessível: diamante do pobre.
No meu tempo de infância, indo a noite alta a dois metros, eu já não ouvia mais o tique-taque do relógio; antes, o pulsar do ovo na sua gema, nunca sua clara.
(Murilo Mendes)
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