quarta-feira, 24 de dezembro de 2014
CAPÍTULO 15
Talvez a visão do meu corpo dobrado, a linha curva do meu queixo aninhando-se na cava do meu ombro protuberante, minha retalhada silhueta curvada na tarefa de fazer aquela fogueira, tenha hipnotizado Isabel o suficiente para emudecê-la. Eu estava agachado junto à fogueira, sentado sobre meus grossos calcanhares, para examinar uma língua de fogo ao vento, convidando para um longo baile anônimo as outras línguas, lá das profundas da noite, línguas de esfinges, gárgulas, medusas, chacmoles, máscaras de cães cérberos, gigantas, figuras de proa, demônias, participantes das metamorfoses de Shiva ou Vishnu, exercendo seus sábios sacerdócios inorgânicos paralelamente às pessoas de carne e osso, na pele de figuras e pessoas míticas que só enxergam o mundo através do fogo, enquanto lesmas frias amuram-se nas nossas consoantes labiais. ----- Sim (: um perito em alquimia espiritual em pleno século XXI (: o real é apenas um caso do possível, de um possível e misterioso mundo(: a vontade é um centro de percepção, um modo de ação, um modo que se atualiza e realiza, graças à fluidez perceptiva do iniciado, certo(?) ----, Isabel disse, empolgada, e pela expressão dos olhos dela, percebi que naquele momento ela estava próxima de algo como uma sagração definitiva. ---- Sim sim (respondi, levando meu corpo de volta à sua presença) os resguardos, escudos, fachadas, limites da vida em sociedade, são modos de agenciamento do Tonal, modos de individuação, de modulação da velocidade da percepção (: modos que os homens comuns chamam de corpos, que interpretamos e experimentamos como corpo e, muitas vezes, como objetos sólidos, delimitados a um espaço, e imóveis no tempo (: mas o iniciado fluido não pode mais datar o mundo espacial e cronologicamente, e para ele o mundo e ele mesmo já não são objetos(: os homens comuns manejam a fala e a razão dentro de um pequeno espectro de percepção, mas também sentem, intuem outras realidades, apesar de fazê-lo de modo vago e superficial, como os poetas(: já os bruxos manejam o sonhar, o ver e a vontade diretamente(: diferença nada simbólica que, se alegorizada a outros contextos, nos permite compreender a impossibilidade de explicar a magia pela ciência e a palavra(: em todo caso, modos diversos de ação, só isso(: o Nagual não pode ser explicado ou entendido pelo Tonal, pois explicar é um modo de percepção e interpretação do Tonal(: a razão é um centro de ensamblagem, um espelho, um modo de testemunhar o Tonal (:o centro de testemunho do Nagual, o modo de presenciá-lo, é outro: o INTENTO, a VONTADE(.) -----, mas minha mente também era excepcionalmente treinada em sair pela tangente, em meio a conversas fiadas, como uma barata dágua, por isso me limitei a acrescentar: ----- Como diria Manoel de Barros, parafraseando William Blake: ''Existe um êxtase em cada cisco'' (: e há um milhão de conchas dentro de nós ouvindo os hinos do além(: um infinito ser consciente, constituído de infinitas emanações, ou átomos (supercordas) de consciência(: a matéria prima de tudo que existe é a consciência, tudo é feito de consciência, TUDO É CONSCIÊNCIA(: a esse ser infinito no seio do qual estamos, Don Juan chamava de Águia(: o processo aqui descrito apresenta todos os traços característicos de uma compensação psicológica(: sabemos que a máscara do inconsciente não é rígida, mas reflete o rosto que voltamos para ele(: nas palavras de Nietzsche: ''Se miras o abismo, o abismo te devolve a mirada''(: a hostilidade confere-lhe um aspecto ameaçador, e a benevolência suaviza seus traços(: não se trata aqui de um mero reflexo ótico, mas de uma resposta autônoma que revela a natureza independente DAQUILO que responde(: assim pois o “filius philosophorum” não é a mera imagem refletida do filho de Deus numa matéria imprópria(: esse filho de Tiamat apresenta os traços da imagem materna originária, a Águia(.) ----, Isabel quase cantava em sua estranha alegria, alegria porque era ela, e não um pseudônimo qualquer de escritora fantasma, que estava diante daquela luz cegante e quente naquela várzea deserta e sussurrante, aquecendo suas jovens fibras moles e dando definição à vida do seu espírito. Fiz uma pausa, de repente, sinistra na imobilidade da minha posição, ou melhor dizendo ''pose'. A sensação que ela experimentava era de curiosidade e apreensão. Quedou-se absorvida naquilo: todo detalhe emocionante da evasão extra-sensorial no lampejo de um gênio gaseificado instantaneamente; tudo sem nenhum outro fim que não o ETERNO, visto assim em detalhe, e belíssimo justamente por isso: solidão identicamente animada por um espírito de inutilidade e delícia, enquanto ela via-me movendo estranhamente, executando exóticos movimentos marciais de águia, achando que eu não sabia que estava sendo vorazmente observado, sentindo à distância aquele gás fluorescente à minha volta agitar-se magnetizado e invadir suas entranhas, de modo que elas se embrulharam lá por dentro ao longo da miração, liquefeitas, como uma multidão em seu estômago, rindo sem pensar. Miscelânea de algas, cordões, caules, detritos e firmamentos de peixe. Era como se ela avaliasse, estupidificada, a inconcebível situação de duas pessoas superpostas à sua frente. Que espécie de argumento poderia oferecer uma simples moça da cidade à um... espectro?! Qual poderia ser a moral de um espectro Nagual, Isabel não tinha a mínima idéia. Ninguém nunca tem. À não ser a de que mais tarde cresceria uma ascese no seu caderno de poemas, com um arame eletrificado por visões esticado através de seus olhos, procurando reconstituir racionalmente o que estava presenciando sem o uso da razão. ----- Sinto-me compelida ao trabalho literário, K (ela diria depois) por sofrer diante da enorme confusão do mundo atual, que torna Kafka um satélite da Condessa de Ségur(: pela minha tristeza em não poder conversar com esquimós e mongóis(: pelo charme operante das cabeleirosas e pernilongas putas da alta sociedade, das sexy a jato e das menos sexy a pé(: pela fúria galopante dos quadros e colagens de Max Ernst(: pela decisão de Casimir Malevich, ao pintar um quadrado branco em campo branco(: pela vizinhança através dos séculos, malgrado as sucessivas técnicas e rupturas estilísticas, de Schönberg(: pelo meu amor platônico às matemáticas(: pelo dança do destino e incríveis distrações da saudade(: porque atraem-me a variedade das coisas, a migração das ideias, o giro das imagens, a pluralidade de sentido de qualquer fato, a diversidade dos caracteres e temperamentos, as dissonâncias da história(: porque sou contemporânea e partícipe dos tempos rudimentares da matéria – desde 900 bilhões de anos? –, do dilúvio, do primeiro monólogo e do primeiro diálogo do homem, do meu nascimento, das minhas sucessivas heresias, da minha morte e mínima ressurreição em Deus ou na faixa da natureza, sob uma forma qualquer(: porque o minúsculo animal que sou acha-se inserido no corpo do enorme Animal que é o Universo, que alimenta-se dum foco de energia em contínua expansão, travestida pela montagem teatral da Roma barroca-poliédrica(: obsedada pelo Alfa e o Ômega(: bêbada de literatura, religião, artes, música e mitos(: imbêbada de política, economia e tecnologia(.) -----, Isabel disse tudo isso coando café na cozinha, para recuperar nossas forças dispersadas pela experiência visionária. Mas, naquele momento, ela ainda estava situada onde podia ver o corpo transparente do espectro, duplicado sobre o meu, lambendo meus olhos por dentro através de um oco fluorescente no centro da minha testa, em meio a uma maceração de sílabas ininteligíveis, inflexões, elipses e refegas como as que Antonin Artaud proferiu em sua transmissão radiofônica de Para Acabar com o Julgamento de Deus. Palavra primordial ferozmente estilhaçada na recepção de um rosto atônito. Atordoada, Isabel procurava a calma nas poucas cores familiares que restavam da pobre realidade precedente, mas seu coração batia com violência dentro do peito, tentando recobrar a certificada calmaria que aquela várzea sempre lhe havia transmitido desde a infância. Mas não conseguiu, de jeito nenhum: alguma coisa desconhecida havia sido atraída até ali, desde os confins do universo, pelo fogo daquela fogueira e as poses letárgicas e hipnóticas em que meu corpo se alternava, mudo e impassível, revelando em detalhes as patas amarelas de um gás super-consciente, que chapinhava os lenhos da fogueira a todo momento, deixando no ar à nossa volta um rastro etérico de bolhas sussurrantes na noite doidamente animada por fosforescências lunares. Assim que avancei, em transe, pela trilha de mato fechado adiante, meio escondido pelos arbustos laterais, a impressão dela ficou ainda mais acentuada. Ela não pulou imediatamente de onde estava e saiu desesperada no meu encalço, mas agora tinha certeza de que alguém, além de mim, estava ali entre nós: certas sutilezas de uma presença atual, que só uma moita de arbustos sacolejando na escuridão pode refletir ( salpicos de areias esverdeadas e braços assentados no fundo amorfo das sombras de galhos entrelaçados: agora sim Isabel percorria sobressaltada e ofegante os cem ou duzentos passos da trilha de mato da várzea onde estava a fogueira até a casa da fazenda, ouvindo o titubeio ensurdecedor das rochas em volta tremelicarem os cantos vítreos nas extremidades dos seus olhos, pelos quais pareciam deslizar peixinhos velozes e ariscos, como vaga-lumes decepados em pleno vôo por golpes de ar fantasmagóricos. Suava frio e corria como se esperasse a chegada de um furação ameaçador à qualquer momento, no curto trajeto até a casa. Entrou e trancou a porta, no limite do que lhe permitia sua percepção. Perdido no meio do mato, eu sentia em devaneio um gosto agradável de moças na boca, e orientava meus olhos pelo alfabeto das árvores escuras, desmanchando no ar enormes gaviões feitos de fumaça. No caminho de volta, os casebres dos pescadores pobres, com o rio ao fundo, adquiriram na minha boca um forte gosto de infância. Passei por uma pequena plantação de maconha, cortando uma procissão de formigas com a força de um jato de mijo. Besouros nadando em querosene, perto de algumas hastes já cortadas de cannabis (finas letras que escreviam no orvalho versos iluminados com pontas de verde chuva, regras simples e estritas dos ramos retos sendo alterados pelos meus sorrisos de amor incondicional incompleto. Os tocos remanescentes estavam inclinados para a terra pela força da chuva (só então percebi que estava chovendo, de fato, o que proporcionava-me cópulas balançadas e refrescantes no rosto, a cada passo. Lembro-me da pressa com que cortei alguns galhos, logo depois, sentindo-me embaraçado como se estivesse revendo um amigo do qual tivesse roubado a esposa, e parei como se estivesse prestando satisfações à terra, e não à ele, tirando da minha própria língua um paladar de vinho, usp, usp, ante-chupando os dentes como um cretino. A pequena plantação de maconha tinha a aparência de um cemitério de anões, e as frases desnudas (sem boca de origem) que eu ouvira lá atrás, no caminho, ainda se moviam à minha volta como braços e pernas de mulheres à toa, sob o tecido sigiloso do desejo de estio, acima das palavras surdas ( e bucais) que minha memória freava agora à minha frente, como cavalos abrutalhados pelo serviço rural. Mas já não tinha muito tempo, e estava mais ou menos em pânico, portanto apressei-me na trilha pela clareira, com o rosto alegre de quem voltava a encetar viagem. Entrei e saí das moitas de arbustos e pinheiros-anões, e ali, a poucos passos, encontrei a árvore mais curiosa de todas. Olhando para ela, era como se eu tivesse passado anos procurando por mim mesmo em lugar nenhum, até que não me encontrei definitivamente diante dela. Às primeiras carícias da folhagem a vulva cindia: uma palmeira-anã erguia-se de um pequeno monte de areia, rodeado pelo barro da várzea. Uma árvore pequena, forte e estranhamente deformada ao luar ( as raízes agarradas ao monte de areia, as folhas como leques contorcidos para o lado e inclinados para baixo pelo vento, mas, afinal, erguendo-se para o céu como braços em oração. Aos pés dela, entre as raízes, onde acabava a areia e recomeçava o solo do pântano, havia uma pequena caverna onde não caberia nem um filhote de onça, e a porta que me dava acesso à ela era uma rocha cujo musgo muitas vezes fora levantado e recolocado no lugar, as bordas nuas como uma atadura suja erguida pela inchação de um ferimento. Retirei a pedra e passei a mão pela terra na frente da cava, meus dedos arranhando e procurando entre o barro macio como ratos do mato perto do alimento; minhas mãos afastaram terra suficiente para retirar um saco de lixo, cujo conteúdo logo examinei, vendo o bastante para dar um pavoroso grito de asco: estava olhando para a parte posterior de uma cabeça de homem (os cabelos, à despeito da lama, eram loiros como os meus, mas quando tentei ver o rosto, a cabeça decepada rolou para dentro do saco novamente, sem resistência. Não pude continuar: recoloquei o saco de lixo na cavidade e depois a pedra, sem tentar recompor o musgo, e fugi daquela várzea correndo alucinadamente. Só depois de entrar novamente na casa da fazenda, e encontrar Isabel afundada numa poltrona da sala, tentando acalmar os nervos com um copo de whisky, me veio a idéia de que minha vida poderia estar por um fio, caso eu não atuasse como o mais gelado dos atores de filmes policiais. ---- Acabo de chegar à conclusão (Isabel disse) de que pertenço agora, em definitivo, à categoria não muito numerosa das pessoas que se interessam igualmente tanto pelo finito quanto pelo infinito (: você conseguiu me convencer definitivamente, com aquelas coisas que fez perto da fogueira (.) -----, naturalmente, eu não sabia também se devia ter medo de Isabel ou de alguma outra pessoa, nem tampouco se, quando o sono batesse (o que não aconteceu até de manhã) e tentasse dormir, seria assaltado por um terror que ultrapassava toda imaginação e medida. ---- Que mal te pergunte, Isabel (eu disse), do que vivem seus familiares(?) ----, ficamos algum tempo em silêncio (ela com um risinho rasgado no canto da boca, pensativa) enquanto nos servíamos duas xícaras de café preto e forte, e finalmente ela disse, sem pestanejar: ----- Meu pai é um dos maiores narco-traficantes do Brasil(.) -----, felizmente, aquela era a última noite que dormiríamos ali, após uma semana inteira de Pantanal. Não é necessário descrever o resto da viagem. Nos despedimos amigavelmente no aeroporto de Cuiabá, com um beijo na boca que gelou minha espinha. Nunca mais vi Isabel na vida. Graças a Deus.
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