terça-feira, 2 de dezembro de 2014
CAPÍTULO 9
(Continuação: ---- Não te parece mais seguro capinar um pouco esse mato, no quintal(?) ----, alguns dizem que minha escrita é sobrecarregada de lacunas e descrições rendilhadas de coisas assignificantes. Isso é verdade, mas porquê? Qualquer coisa que eu percebo ou imagino me espanta pela sua particularidade: as características que ela compartilha com outras coisas (folhas, mato, troncos, galhos, flores) se for um quintal ou jardim; membros, olhos, cabelos, se for eu mesmo ou uma garota. ---- De fato (Janice disse) um quintal grande como esse pode esconder algum bicho perigoso, como uma cobra(.) ----, é verdade: vejo campos abertos onde outros vêem apenas capítulos. Digo à ela: ----- Sabe, dessa última vez que fui até o Pará, tirar ouro num rio, um sujeito me ensinou a fazer uma coisa exasperante(: posso pegar um pouco de leite lá dentro (?) amanhã te compro umas caixas extras (.. ----, antes de entrar na cozinha, olhei para cima novamente e vi a abóbada celeste em grande parte não apreendida e uma nova estação de constelações enviada para aturdir os olhos. Na cozinha, despejei uma quantidade considerável de leite numa frigideira velha e rasa e acendi o fogão. Pensei que muito tempo havia se passado desde o ano passado sem que minha familiaridade com as estrelas avançasse. Li sobre elas nos jornais (eclipses, chuvas de meteoros, tempestades solares, descobertas astronômicas de vazios gigantescos na teia das galáxias e de um misterioso arco visível de uma extensão de milhões de anos-luz: até que li um pequeno artigo, há meses, onde se afirmava que Marte e Júpiter passariam por uma rara conjunção. Naquela noite, apesar do frio, esperei a noite chegar e percebi a conjunção fulgurante no céu tal como no diagrama do jornal. Júpiter brilhante e azulado, Marte menor e avermelhado, um pouco à baixo e à direita. Enquanto eu olhava, as estrelas em torno dos dois planetas conjugados se aglomeravam na minha visão, como se eu fosse um filme numa cuba de revelação. Foi quando voltei a pensar mais seriamente na conexão maia entre a deidade suprema Hunakb Ku e o centro da galáxia (ou o que de fato havia nesse poderoso núcleo cósmico; no centro da nossa Galáxia , cercado por cerca de 200 bilhões de estrelas não detectáveis à olho nu, encontra-se um Buraco Negro supermassivo conhecido como Sagitarius A (pensava) a vermelhidão de Marte, naquele momento, estava alojada em seu piscar, uma centelha talvez alucinatória, enquanto o fulgor de Júpiter parecia frio e estável ( o leite começou a ferver na frigideira, e eu interrompi aquelas divagações por um instante. Desliguei o fogo e fui para perto de Janice no quintal, segurando a frigideira de leite quente na mão. Acendi um cigarro e disse à ela: ----- Vou colocar essa frigideira ali perto do portão, e a gente vai ficar aqui no banquinho olhando pra ela até o leite esfriar(: acredite, se tiver alguma cobra no meio daquele mato, ela vai vir direto pra frigideira e beber esse leite todo(: é um troço medonho de se ver, Janice(: quando o velho que me ensinou a fazer isso na selva colocou a tigela no chão, em menos de dez minutos apareceram mais de quinze cobras, estavam todas em volta do acampamento: ele matou todas (comeu duas cascavéis e matou todas tive pesadelo com cobra a noite inteira (.) -----, enquanto fumávamos, Janice parecia hipnotizada pela possibilidade de ver uma cobra bebendo leite no chão (não falou mais nada: voltei a pensar no Buraco Negro da Via Láctea: muito mais do que um simples sorvedouro cósmico ou portal interdimensional, até mesmo para os cientistas atuais, que afirmaram que ele é também um ''decodificador universal'', capaz de absorver informações de tudo o que por ele passa, o que levou esses mesmos pesquisadores a afirmarem inclusive que nosso Universo inteiro pode não passar de um holograma dessas mesas informações armazenadas (dois minutos, o leite tinha começado a esfriar, mas o cheiro se espalhou pelo quintal todo. Ainda nada. Passei a mão em volta dos ombros de Janice e perguntei: ---- Com medo (?) ----, e ri. ---- Curiosa, um pouco aflita(.) ----, ela disse. Tinha a sensação de que minhas mãos, aonde quer que estivessem, estavam levantando ela e roubando-lhe algum peso. Como se eu estivesse interpondo minha mão entre ela e a gravidade (levantou então os olhos para os meus, inteiramente concentrados nela, no seu rostinho lindo e aflito. ---- Seu amigo comeu cascavél(?) ----, me perguntou. ---- Sim (não era um amigo, era um velho completamente louco ) comemos a carne da víbora moída não é ruim ele era da Guiana ''COMO LA CARNE DE LA VÍBORA MOLIDA '' (disse ele) ''VÍBORA DE CASCABÉL'' (moída e frita, com pimenta(.) ----, eu disse, ela sorriu e me abraçou. ----- Queria provar pra ver como é (.) ----, disse. ----Se tivermos sorte, serão duas cascavéis ----, eu disse, sabia de antemão o que estava falando, conhecia o ruído daquele chocalho de longe, e Janice não comia carne há alguns dias, ela me confessou; se tivesse falado antes eu teria comprado carne pra ela no supermercado. Minhas mãos, que haviam contrabalançado o puxão da gravidade nos pontos do corpo dela de cuja massa eu podia me dar conta, tiveram ainda outro efeito sobre mim: no âmago da massa de cada uma dessas partes eu sentia uma força de atração, puxando-a de modo contínuo em direção à mim e à massa maior do meu próprio corpo ( a sensação era óbvia nos seios dela, porém mais profunda e mais difusa. Sagitarius A: uma imensa boca que atrái magneticamente aquilo tudo que se lhe aproxima (a luz , inclusive), e distribui os materiais absorvidos para seu próprio corpo galático (todas e cada uma das nossas sensações são apenas sinais codificados de informação interpretados pelo nosso cérebro, exatamente aquilo que Castaneda chamava ''reunião de vestígios'' pela ponto de encaixe da percepção: o que faz o mundo ser sólido é percebe-lo apenas numa estreita faixa da nossa atenção; num Universo holográfico, não existe definição absoluta de algo (Janice começou a repetir o meu nome, num sussurro: a essência de tudo é mesmo a consciência , tudo é energia, tudo é informação: por isso, qualquer tentativa de uma descrição exaustiva daquilo que ela vivenciava ao meu lado está destinada a ser absurda, ainda que bela: o momento era central para nossas existências, tudo que havíamos sido, até aquele momento, circundava o instante da nossa respiração como a terra circunda um lago: tudo o que havíamos sido virava areia e era arquivado nas bordas daquele momento, para sumir sob suas águas e tornar-se o seu misterioso e oculto fundo do lago ( armado de toda a linguagem literária, ainda assim me é vedado o acesso duplo àquela experiência: o Universo é um espelho de grandezas onde o Macro é semelhante ao Micro, e cada núcleo é gerado pelo equilíbrio dos opostos (próton, néutron, etc); só haveria um breve modo de tangenciar aquela experiência novamente: fazer amor com ela de novo, logo mais, mas estávamos de barriga vazia. Então, porque procuro descrever essa vivência exaustivamente, quando reconheço de todo a impossibilidade de fazer isso? PORQUE EU FIQUEI APAIXONADO POR ELA! Você é bonita, Janice. Você é delicada e corajosa. É capaz de sentir prazer e dor. E você é indefesa, solitária e ingênua. Você é grande como o céu e eu caminho sob você. Foi o que eu disse à ela, naquele momento. Algo que foi imediatamente repreendido por aquela (possessiva) VOZ de mulher dentro de mim: ''UMA PONTA DE IRONIA, CREIO(: SEU AVÔ KAESAR CERTAMENTE NÃO POSSUÍA ESSE DEFEITO, ESSA INCANSÁVEL SUSCETIBILIDADE NERVOSA(: OLHE PRA MIM E VEJA APENAS A ARMAÇÃO DE UMA HIPNÓTICA BOCA VERMELHA, GRANDE, BELA E ÁGIL(: ISSO É CONVERSA DE SARJETA, K(!) ROMANTISMO VULGAR DO TIPO MAIS RALO, QUE É TUDO O QUE OS POBRES TÊM PRA TORNAR A VIDA TOLERÁVEL(: MAS VOCÊ(?!) VOCÊ CONTA COM VANTAGENS CULTURAIS E INTELECTUAIS NOSSA CAPACIDADE DE RACIOCINAR LEMBRE-SE(: SOMOS O SUBPRODUTO DE TRISTES SÉCULOS DE FANTASIA IBÉRICA E GANÂNCIA MESTIÇA(.)''. Sempre soube disto: elas se escondiam camufladas próximas à caminhos rurais para dar o bote nas presas (sobretudo caatinga e canaviais nordestinos, nas minhas recordações). CASCAVÉL é o nome genérico dado às cobras peçonhentas dos gêneros Crotalus e Sistrurus, e estão presentes em todo o continente americano. Por razões não muito bem entendidas, ao invés de saírem completamente da pele antiga, a cascavél mantém parte dela enrolada na cauda em forma de anel; com o correr dos anos, esses pedaços de epiderme ressecados formam os guizos que, quando a cobra vibra a cauda, balançam e causam o ruído característico de um chocalho de advertência. A cascavél que saiu detrás do capim rente ao muro da casa de Janice devia ter no máximo um metro e meio, e ficaria suculenta com batatas e tempero dentro de uma panela de pressão. Tirei o facão que estava pendurado num arame em volta do pé de romã, e assim que a cobra começou a beber o leite na frigideira, eu me aproximei dela e decapitei sua cabeça com um único golpe seco, pedindo perdão à ela por tirar sua vida tão abruptamente. Janice soltou um gritinho de agonia, quando eu a levantei pela cauda, pingando sangue. As cobras são consideradas medicinais na tradição chinesa, como um ''aquecimento'' de alimentos, e o sangue de serpentes é muitas vezes misturado com licor para efeitos afrodisíacos. Nas refeições ocidentais, porém, a carne de cobra não é comum; nos Estados Unidos e no México, a carne de cobra mais popular é a de cascavél, em receitas que incluem chilli ou mesmo churrasco, mas pode se tornar difícil de comer se não for bem preparada (parece um pouco com frango). ----- Você não tá pensando em comer isso, tá(?) ----, Janice me perguntou. ---- Pode apostar que sim(: vou usar aqueles legumes que você comprou(: amanhã faço compras pra você(: hoje nós vamos jantar ''víbora de cascabél''(.) -----, então ela arregalou os olhos, contorceu o rosto numa expressão de incredulidade, e disse: ----Fala sério, não quero morrer envenenada(!) ----, absolutamente, Camommille: ---- O veneno da cascavél tem que entrar diretamente na corrente sanguínea pra levar perigo à saúde(: mesmo assim , a cascavél ocupa o primeiro lugar no ranking de mortes por picadas de cobra sabe, uma vez eu sofri um acidente de trabalho, descarregando um maquinário de um barco, e passei uma noite inteira no Hospital Geral de Belém, cuidando de uma costela quebrada(: me colocaram numa maca ao lado de um sujeito aparentemente desfalecido, e eu perguntei a uma enfermeira o que ele tinha(: ela disse que ele tinha sido picado por uma cascavél(: no veneno da cascavél há uma proteína que causa rápida coagulação, fazendo o sangue da vítima endurecer(: a mão dele parecia uma bola arroxeada(: acredita que, de madrugada, eu estava acordado, naquela penumbra do hospital, e de repente aquele sujeito pulou fora da maca, arrancando tudo que estava preso nele, correu até a janela, transtornado, e soltou um grito, minha querida, mas um grito, como eu nunca tinha ouvido alguém gritar na vida, e ... POOOUUU(!) caiu no chão (.) -----, Janice agora roía as unhas, atônita com aquela história, e perguntou, no ápice de uma pequena aflição: ---- E ele morreu(?!) ----, eu ri, por causa da cara de terror dela, e disse: ---- NA HORA(!!) ----, e fui para a cozinha dar tratamento ao nosso jantar : a carne de cascavél é relativamente baixa em gorduras e calorias, rica em proteínas, e alguns a consideram uma estrela em ascensão na indústria de alimentos; no entanto, deve ser preparada e cozida com cuidado. Já tinha removido a cabeça (é sempre melhor trabalhar com uma cobra decapitada, pois até mesmo uma cobra morta pode dar o bote, e as presas continuam venenosas por um longo tempo: ao remover a cabeça, o risco do veneno é removido junto). Lavei a cobra com água e sabão, e fiz um incisão no centro da barriga através da pele, do pescoço onde ficava a cabeça até a base do chocalho (cortei a pequena escama na barriga recobrindo a cloaca: puxei a pele, que saiu uniformemente, sem se rasgar, e cortei a cauda próxima ao chocalho (removi as vísceras com a mão (ela estava vazia, por sorte: lavei a cobra eviscerada e esfolada em agua fria para remover o excesso de sangue e comecei a cortá-la no mesmo ângulo das costelas, em pedaços de 1,5 cm; durante vinte minutos, amaciei os pedaços com um martelo de carne e depois fechei tudo numa panela de pressão, com uma quantidade generosa de sal e tempero. Os legumes separados. Enquanto a cascavél cozinhava, eu disse: ---- Vou descer até o bar e comprar umas cervejas(: porque você não prepara mais um baseado(?) ----, quando voltei com as cervejas, Janice já tinha desligado o fogo e misturado os legumes, como pedi. Perguntou: ---- O cheiro não é nada mal(: como é nome desse prato(?) ----, queria dizer cobra ao modo de caçadores, como Pollo alla Cacciatore: ---- Cobra alla Cacciatore(.) ----, o olhar dela e o prato 'inventado' na hora, dali pra frente, ficaram associados na minha cabeça: era o olhar da Cobra alla Cacciatore. Porém talvez o mais profundo fosse a satisfação de ser testemunha de uma ocasião especial (uma satisfação muito primitiva, a ligar o tempo de nossas vidas ao tempo de nossos ancestrais: aquilo nos proporcionava uma visão instantânea de como é efêmera e arbitrária nossa maneira habitual de interpretar o tempo: o calendário e o relógio constituem desajeitados inventos ( a estrutura da nossa mente é tal que a verdadeira natureza do tempo nos escapa: variar a vibração, a velocidade do tempo, enfocar a atenção, modular a perspectiva, transmutá-la, é um ato xamânico . Os seres humanos temos um ponto de cognição comum, o ponto de encaixe da percepção. Trata-se de um ponto de passagem e de tradução de campos energéticos (de planos de observação; e também de uma coordenada, uma conexão individual, um ponto de encontro ou de perspectiva (o ponto de vista de que nos fala Viveiros de Castro, limite-tensão (ou tensão no limite): punto de encaje, o lugar onde ocorre a percepção, a tradução da energia, a tradução da vibração do escuro mar da consciência (energia escura) em dados sensoriais que são interpretados como o mundo que nos rodeia, que nos circunda, que nos limita. Mas um praticante de nagualismo (um ''diplomata cósmico'', nas palavras de Viveiros de Castro) procura intencionalmente variar sua duração e encontrar as forças inexplicáveis e inflexíveis que povoam os mundos que ele explora, percorrendo o que Duvignaud chama de labirintos de durações diversas na extensão do cosmos. Ainda assim, sabemos que existe um mistério inexplicável: de acordo como uma mulher aparece à um homem, ela determina implicitamente como quer ser tratada; para adquirir algum controle sobre este processo, as mulheres precisam conter esse homem, e assim elas o interiorizam. Variam a duração do homem: aquela parte da mulher que é o VIGIA trata a parte VIGIADA dela mesma de modo a demonstrar aos demais como ela deve ser tratada. E esse tratamento exemplar dela para consigo mesma constitui sua PRESENÇA ( o interior da casinha de Janice estava varado, nos cômodos de luz apagada, por brilhantes feixes de luz que passavam pelas janelas e paredes; a luminosidade azulada assim admitida em farpas afiadas só penetrava um pouco a pequena sala (estávamos na cozinha: um ar pesado e aromático das postas de carne de cobra cozidas constantemente varrido por lufadas de vento gelado que descia da colina (casinha banhada pela natureza, no fim daquele bairro de subúrbio, ao pé da colina e ( impressionava-me com a fluidez daquele espaço enevoado, quando ela perguntou: ---- Onde você nasceu, K(?) ----, então disse à ela NUMA FAZENDA. Começa assim, minha infância (não vou narrar o diálogo, o que não implica condescendencia ou efeitos especiais. Porém Janice liga de certo modo minha incapacidade de falar da infância com coerência àquele ponto formigante entre meus olhos. Nada há para ser dito: é como nascer no Tibet, não há nada. CHIFRES, digo: até a puberdade, os chifres dos bois e das vacas me intrigavam: não tanto os chifres crescidos, mas o fato de crescerem (os botões como pedra sob o couro da cabeça: não apenas submissão do animal à passagem do tempo ; também nada haver com a paciência, mas com independência adquirida (sem a presença dos animais aquela fazenda me seria intolerável: CENA 1) um bandido num barranco abaixa o lampião OLHA PRA MIM, QUANDO EU MANDAR (me diz) o homem vai até a cabeça do primeiro garrote, inclina-se e o golpeia (não vejo com o quê, talvez um machado: faz o mesmo com o segundo EU MATEI ESSES GARROTES DA FAZENDA , OK(?) A FAZENDA NÃO É SUA (sim, digo, não é minha) há sangue nas mãos do homem, que fede à querosene VOCÊ MATOU ELES BEM MATADOS (digo) NUNCA SE ESQUEÇA DO QUE ME VIU FAZER, OK(?) (ele diz; mas eu não penso em fazer o mesmo) POSSO VOLTAR(?) (pergunto) PODE (ele responde) em casa, agora, a cozinheira diz que meu viu num fim de tarde, voltando à galope da cidade VOCÊ VAI QUEBRAR O PESCOÇO, K (ela diz) MEU PESCOÇO NÃO QUEBRARÁ (respondo à ela: tinha doze anos, e vi aquele galho como se ele tivesse sido criado para me varrer de cima do cavalo. Diante do galho já erguido sobre as orelhas do cavalo , o tempo sofre uma mudança extraordinária (varia sua duração, agora: sua lentidão é inimaginável: acordo numa cama, no casebre de um trabalhador rural que nunca vi na vida, à espera de que o tempo volte à sua velocidade normal. O velho se mexe pelo quarto; no peitoril da janela, há uma vela acesa ( a cama está coberta de andrajos e uma velha manta de cavalo (o teto está manchado de marrom e em certas partes o reboco caiu e as ripas ficaram à mostra (o velho se mexe devagar e com dificuldade QUEM É VOCÊ (?) (pergunta-me o velho) o que eu respondo, não sei (aquilo durou horas: o galho me golpeou no rosto e no peito, talvez seja assim no momento de receber um tiro: a violência do impacto é tão grande que o ser se retrái de qualquer contato posterior com o mundo (percebi uma massa escura, composta de superfícies de pedra e água; penetrei-a à medida que minhas costas batiam na garupa do cavalo, caindo verticalmente numa greta de algo como nuvem, com meus pés apontando para cima. Quando bati no chão, descortinaram-se campos inteiros revelando o céu azul sem nenhum solo embaixo, exceto eu. Apaguei. FOI UMA QUEDA E TANTO, MENINO (diz o velho) DÓI QUANDO EU FALO (digo) NÃO SE PREOCUPE (ele diz) O SR. PODE ME ARRUMAR UM COPO DÁGUA, POR FAVOR(?) OBRIGADO (CORTA ---- E você, Janice(?) como foi sua infância(?) ----, ela balançou a cabeça , envergonhada porque tinha perdido a virgindade muito cedo (ela se lembrava de ter escrito, aos doze ou treze anos, um bilhete pornográfico a um menino muito chato da escola, que tinha uma boca muito suja. Não sabia porque tinha escrito aquilo: ''OK, VOCÊ FALA TANTO NA COISA, VAMOS FAZÊ-LA ENTÃO''. No banheiro da escola, ela erguia as nádegas sem jeito e olhava dentro dos olhos dele, em busca de orientação. ''ESTÁ DOENDO'', ela disse. Suavam. ''QUER QUE EU PARE(?)''. Ela mexeu o queixo, dizendo ''NÃO, ANDA LOGO(!)'', e ele enterrou bem fundo ( o tom vermelho dentro das pálpebras cerradas; uma estreita passagem tentando acolher um jato de luz (pressão sufocante, avolumante, num arco de sensação que turvou o mundo em volta dela. ''DOEU(?)'', ele perguntou, melecado de sangue. ''QUE SUJEIRA(!)'', foi a única coisa que Janice disse, olhando para a parte interna das coxas. Quando saiu do banheiro, inclinava a cabeça altivamente e posava como uma dançarina de boate, as nádegas brancas projetadas para trás e um joelho dobrado acima do pé arqueado, apoiado nas pontas. Uma semana depois, esse mesmo menino escreveu um bilhete para ela (estava dentro da mochila de Janice, quando ela chegou em casa. Dizia assim: ''TENHO BATIDO PUNHETA TANTAS VEZES NOS ÚLTIMOS DIAS PENSANDO EM VOCÊ E NO QUE A GENTE FEZ NO BANHEIRO (.) BATENDO DEMAIS, CINCO OU SEIS VEZES POR DIA(.) VAMOS FAZER DE NOVO (.)''. Ela riu e jogou o bilhete no lixo. Já estava com outro garoto.
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