Isabel tinha a mais danada das vozes. Vou descrevê-la detalhadamente num momento, mas agora tinha o rosto dela acima do meu. Como todas as pessoas desajeitadas, quando falava com alguém que estivesse sentado, ela tinha o hábito de inclinar-se para a frente, colocando a cara no espaço imediatamente próximo ao rosto do interlocutor, de modo que sempre se ficava preocupado, temendo receber na cara o orvalho de seus nobres perdigotos. Com o sol que entrava pela janela do quarto no rosto, Isabel parecia, especialmente de tão perto, um mingau de aveia de tão branca; e pareceria aparvalhada se não fosse tão cuidadosa com sua aparência, pois os cabelos castanhos flamejantes estavam penteados e os traços, vistos isoladamente, eram naquela hora da manhã, sem força e inexpressivos, mas os olhos pretos de piche líquido eram realmente espantosos. Tinham uma luminosidade extraordinária e o dom estranho de se arregalarem caleidoscópicamente a uma observação qualquer sem importância. Tínhamos dormido os três (Renata, Isabel e eu) juntos na cama de Renata, mas elas ficaram bem ruins com o bolo de haxixe e a bebedeira da noite anterior, e não aconteceu nada. Naquele momento (Renata ainda dormia) a visão de Isabel, sentada na beira da cama, me isolava da realidade: ela me parecia perversa e sonolenta, lendo ou simulando ler um grosso livro de crítica de arte. Estudando Isabel de perfil, eu indagava o abismo que muitas vezes existe entre a idade cronológica de uma pessoa, e a outra, que resulta dos desastres e paixões; porque enquanto o sangue faz seu percurso de células e anos, a alma pode sofrer (ou evoluir) décadas, séculos e até milênios, por obra de implacáveis poderes; ou porque esse corpo herdou a alma de outros corpos moribundos, de homens ou peixes, pássaros ou répteis, de modo que sua idade pode ser de milhares de anos. Motivo pelo qual se pode observar mesmo em crianças olhares, sentimentos ou paixões que só se pode explicar por essa turva herança de morcego ou rato. Porque aquela calcinação interna, aquele encalhamento da alma era possível detectar em Isabel: em certo tremor ao caminhar, em alguma falta de jeito, numa peculiar dobra da face. Do canto onde ela estava, me era possível reconhecer esses indícios no seu rosto, e bastava acompanhar os lentos, apenas esboçados movimentos das suas longas pernas ao se acomodar, de sua mão ao levar o cigarro à boca, para notar que aquela garota tinha infinitamente mais idade que os vinte e poucos anos do seu corpo: ''experiência proveniente de alguma serpente-gato pré-histórica'', pensei, com vontade de anotar alguma coisa à respeito no meu caderno: ''um animal que aparentava indolência, mas que tinha a sigilosa sexualidade da víbora, pronta para o bote traiçoeiro''. De fato, à medida que passava o tempo e meu exame se fazia mais minucioso, senti que Isabel estava à espreita, com aquela típica virtude que têm os felinos de controlar, mesmo na escuridão, os mais insignificantes movimentos da presa, de perceber rumores que para os outros animais passam inadvertidos. Tinha um cabelo castanho liso muito cheio, que chegava até os ombros, que se descolava a cada movimento que fazia com mórbida lentidão. Fumava com tragadas lentíssimas mas muito fundas. Havia algo em seu rosto que me causava desagrado, até que entendi que era causado pela excessiva separação dos olhos: grandes e rasgados, quase defeituosamente separados, o que lhe conferia uma espécie de inumana beleza. ----- Acho que nem sequer nos desejamos bom dia (Isabel disse, virando o rosto para mim ), deve ser por isso que você está a tanto tempo aí parado, me olhando com essa cara de TO BE OR NOT TO BE(.) ----, sim, era evidente que ela também tinha estado me escrutando, através de suas pálpebras semi-cerradas, como que sonolentas, em lentos e imperceptíveis olhares de soslaio, que fazia como que sem olhar, como se unicamente levantasse a vista do livro para pensar. ----- Que bom ser despertado com Hamlet, Isabel (respondi), segundo Mallarmé ''la pièce par excellence'' (: já meditei muito no problema do protagonista, menos indeciso do que em geral se pretende (agora, Isabel riu pra mim): Hamlet encarna o escritor , sabe agir mas não à medida do homem comum, (: rico de elementos auto-biográficos, muitas das suas ''remarques'' são indiscutivelmente ''remarques'' de um típico escritor (: o personagem Hamlet exerce continuamente uma auto-crítica, a força da sua consciência põe-no em estado de alerta(: devolve à si próprio os golpes do Destino, circunscreve-se em relação a um DRAMA UNIVERSAL, crise próxima e catástrofe(.) ----, assim que acabei de falar, Isabel colocou o livro que estava lendo de lado, na cama, e espichou as pernas voluptuosamente, até quase encostar a ponta do pé esquerdo na minha canela, e disse: ---- Homem de ação(: ajuda (não fosse ele Shakespeare) os comediantes a montar a peça em cujo texto faz inserir palavras suas que desvendarão o crime do seu tio e da sua mãe(: mata Polonius, resolve adiar a morte do rei que encontra rezando, não vá ele ir para o céu(: liquida-o mais tarde (: não suportando a vaguidão do espírito de Ofélia, indica-lhe o caminho do convento (: revista os bolsos de Rozencrantz e Guildenstern e troca a ordem do seu próprio assassinato pela do assassinato daqueles dois(: mata Laerte(.) inflexível consigo mesmo Hamlet vive obsedado pela ação que tem a cumprir(: este corpo, diz, é tão duro como os nervos do leão de Neméia(: quando fala ao espectro declara-se aflito para voar à vingança, como raptado em êxtase ou em sonho de amor (: tem a consciência de ser destinado a pôr o século em ordem , embora tal missão o aborreça(: decide na quinta do primeiro ato fazer tábula rasa do passado, deixando apenas o mandamento do pai a ocupar seu cérebro , já agora expurgado de qualquer matéria vil (.) ----, quando Isabel acabou de falar, lançou um olhar distraído sobre Renata, adormecida na cama como uma pedra no fundo de um lago, parecendo deter-se um instante para avaliar a situação, para logo voltar à mergulhar em seu impenetrável véu gato-ofídico. Era inegável que aquela misteriosa substância dos olhos dela havia gotejado nas águas profundas do meu espírito e, desde lá, enquanto coagulava visões, desprendia odores promissores que certamente chegavam à superfície da minha consciência. Sensações obscuras, mas que para mim, eram sempre anúncios de acontecimentos decisivos, ou quase, e que produziam um certo nervosismo em mim, como o que sentem os animais no momento em que um eclipse se aproxima. ---- Qual será afinal a origem do caráter enigmático de Hamlet (?) (pensei alto) Creio que Mallarmé ao informar ''Penser étant écrire sans accessoires'' se avizinhou à Hamlet (.) -----, silenciosamente, Isabel seguia enviando suas radiações sobre mim ( as pálpebras caídas e as longas pestanas que deviam velar-lhe ainda mais a pouca luz de que dispunha). Mais com sua pele, e seu pé, agora encostado ao meu, do que com a própria cabeça, ela devia estar sentindo minha presença através de miríades infinitesimais de receptores no extremo de seus nervos: sinais que através de complicadas redes chegou naquele momento às suas vísceras, não só a excitando como a alertando angustiosamente de que ela estava diante do seu novo mestre, e amante: ---- Teria Shakespeare intuído a proposta de certa filosofia atual (ela disse, aproximando o rosto do meu) que nos descreve o homem cedendo o passo ao ''SISTEMA'' (?) teria ele também a intuição da modernidade, em vez da antiguidade do homem, como matéria de estudo(?) em todo caso, hoje podemos situar o monólogo TO BE OR NOT TO BE , isto é, as ruínas do discurso, num outro espaço que já organiza sua própria arqueologia, ligando-se à palavra final do herói: ''THE REST IS SILENCE'' (.) -----, ao nos beijarmos, senti que os olhos negros por trás daquelas pálpebras esforçavam-se para me conquistar, o que aliás já havia acontecido, de certa forma. Isabel tinha o hábito de olhar fixamente para o rosto da gente como se fôssemos a primeira alma que encontrava que se parecia remotamente com a dela. E aquela voz! Deus usava a voz aristocrática de Isabel para mostrar sua impessoalidade e sua inteligência: tudo o que faltava nela era compensado por seus ditongos. Um esnobe se derreteria ao ouvi-la. Eu estava encantado... rs. Se me demorei um pouco na descrição de Isabel, é porque ainda estava em estado de choque depois daquele beijo, quando ela me perguntou: ---- Você vai ficar aqui em Brasília até quando , K(?) ----, há muito tempo que eu acreditava no longo braço das coincidências; na verdade, chegava a pensar que sempre devemos estar prontos para elas quando ocorrem fatos extraordinários, demoníacos ou angelicais. ----- Na verdade, estava pensando em ir embora hoje mesmo(: estou há muito tempo longe de casa, e cansado(: só vim mesmo dar um alô para Renata(: passei um tempão sem responder os e-mails dela, vim tentar me redimir(.) -----, (conceito bizarro que pretendo tentar explicar um dia: tenho absoluta fé em encontros fortuitos. Isabel assentiu com a cabeça , e disse: ----- Chamei Renata para viajar comigo pra fazenda do meu pai, no Mato Grosso, mas ela disse que de jeito nenhum(: quer ir comigo(?) -----, naquele momento, pensei que se eu tivesse uma santa, seu nome agora seria Isabel. Isabel Lareine. Pensei um pouco ( o olhar de Isabel era irônico, os olhos fixos nos meus. ----- Quer saber (eu disse), porque não(?), não conheço o Mato Grosso, à não ser pelos livros de Manoel de Barros, meu poeta preferido(: seria um honra, e com certeza uma delícia, se você for continuar me beijando desse jeito até lá (.) ----, ela se levantou da cama, antes que acordássemos Renata (o que foi um alívio: agora já não precisávamos nos olhar constantemente nos olhos: sua coxa, porém, que tinha parado a minha frente, estava agora encostada na minha boca: um objeto de carne sinuoso, macio e quente; sua carne tinha o tipo de passividade núbil que pedia para ser explorada: ----- Acho que não estou com uma boa aparência, né(?) bebi demais ontem à noite(: pois bem, que tal agora acordarmos Renata e conversarmos civilizadamente sobre assuntos vitais(?) ----, sim, mas por favor, que Renata não nos levasse à mal ou então viesse ao Pantanal conosco. Quando Renata acordou, eu e Isabel estávamos muito sem jeito de tocar no assunto com ela, e evidentemente nos arrependemos, depois, de ter decidido tudo tão rápido. Renata se negou veementemente à nos acompanhar, dizendo que aquilo era literalmente ''programa de índio'' e que enlouqueceria depois de dois ou três dias olhando o nada à sua volta naquela fazenda. No mais, não nos recriminou, e aceitou resignadamente nossa despedida naqueles termos, prometendo me visitar em Salvador algum dia. Sim, já sei... é algo difícil de explicar: todos somos contraditórios, mas talvez os escritores sejam mais ainda que os outros (por isso, aliás, são escritores: a escuridão em que narro minha estória é quase total: a noite de 25 de dezembro de 2008 havia baixado na ponta dos pés: no aeroporto de Brasília , havia uma fila longa, muito que esperar e a situação de Isabel era a de uma garota de ressaca. Eu estava confuso, mas extremamente animado ao seu lado. Quando enfim decolamos rumo à Cuiabá, mais ou menos à meia-noite, as luzes de Brasília vistas do alto desenhavam a forma de um avião com longas asas curvas na vasta lousa negra do interior do Brasil , parecendo flutuar no vazio como uma constelação, e depois arremeter , como se manobrasse para partir em relação à posição íngreme em que estávamos no espaço. Era um lugar onde poucos querem estar, além dos políticos em campanha, mas aonde muitos têm que ir. Ao longo do vôo, Isabel acessou seu e-mail e encontrou uma cômica mensagem de Renata, que nos tranquilizou (as batidas de tambor se fazendo dramaticamente tensas em nossos corações culpados até chegar àquele ápice redentor. A mensagem de Renata dizia o seguinte: ''ISA, VOCÊS DOIS AGIRAM COMO DOIS PERFEITOS FILHOS DA PUTA COMIGO, MAS QUERO QUE SAIBAM QUE NÃO GUARDO RANCOR. JÁ FIZ ALGO PARECIDO COM ELE E A VIDA É CURTA DEMAIS PARA ISSO. AMO VOCÊS(.) ''. Aquilo me fez lembrar de como perdi um dos últimos amigos verdadeiros que ainda tinha na vida: afinal, sua esposa me encontrou quase sem um único tostão no bolso num bar da Lapa, no Rio de Janeiro ( a primeira vez que ela me via em quase cinco anos; me deu um emprego de motorista na sua agência de turismo, me levou pra cama debaixo do nariz dele, retomando assim as românticas possibilidades que havíamos começado naquela noite em Juiz de Fora, MG, e depois me motivou com todo tipo de mimos até eu imaginar um modo seguro de convence-lo de que nada tinha acontecido, apesar dos boatos. Tendo me recusado, limitei-me a testemunhar contra ele (depois) na ação de divórcio (havia uma bolada em jogo) , jurando perante a lei (e em parte era verdade) que ele tinha me pedido para testemunhar contra ela em troca de uma boa soma. Acrescentei em juízo que ele me havia proposto levar sua esposa à uma casa de praia em Cabo Frio, RJ, onde tinha tudo preparado para um flagrante, com um detetive particular e um fotógrafo. ----- Renata também (disse Isabel) tem um dom inato para as ''boas maneiras'' (risos), como você ela também diz as coisas como elas são(.) ----, naturalmente, Isabel estava querendo insinuar alguma coisa ironicamente. ----- Você não imagina como já tentei dar as pessoas uma idéia poética do que significa ''boas maneiras'' (.) ----, ela riu, com o prazer demonstrado pelas pessoas que passam a vida rindo alto quando estão sozinhas, como eu, e se havia muita solidão naquele riso, havia também uma extraordinária individualidade, forte e superdotada como a de Rimbaud, desenvolvida até alturas perigosamente megalomaníacas, como se não importasse o quanto as outras pessoas pudessem ver dos defeitos e armadilhas que haviam em seus encantamentos. A verdade é que todos caíam encantados num primeiro momento, e só depois ficavam ressentidos. Entendia perfeitamente a questão.. . rs. Mas a liberdade de ser absolutamente o que se é valia todo o resto. Quando ela terminou aquele riso, e eu comecei a imaginar o que poderia ser tão divertido, ela disse: ----- Já que você, eu e Renata trilhamos esse curto caminho juntos até há pouco, vou ser breve(: o que você acha dela como escritora(?) -----, falou com expressão de entusiasmo, como se estivesse propondo o roubo de um diamente da Coroa Britânica. ----- De verdade(?) um DIÁRIO de uma garota de dezenove anos, nada mais (.) -----, ''naturalmente'', completei, e ela observou: ----- Você acha que a literatura ainda tem algum sentido(?) li recentemente numa revista um artigo batendo nesse ponto, que a literatura havia de certa forma morrido, que não tinha mais sentido(.) ----- Quê(?!) ---- Perdão (eu disse) mas o autor desse artigo quem era (?) um operário de construção civil, um metalúrgico ou jogador de futebol(?) certamente o que vem ganhando destaque no campo literário hoje em dia é de qualidade bem ruim, mas a Alta Literatura, a Literatura Culta e Vertical, Iniciática e Temida, não tem nada haver com isso(: seguiremos escrevendo um livro atrás do outro, indiferente às ruínas da cultura celebrada nos jornais e revistas, e os eunucos da crítica literária analmente estabelecida que bufem(!) -----, quanto mais desimportante o assunto era para mim, mais demoradamente Isabel parecia querer abordá-lo. ----- Não, claro que não(: era um escritor 'renomado' (.) dizia que a literatura tinha se tornado um tipo de mistificação narcisista(.) ----, sei, de outro modo, minha própria auto-importância pesou sobre mim naquele momento, e eu disse: ----- Diga-se de passagem, já estou farto da palavra desmistificação, que muitos crêem que é o mesmo que ''desmitificação'', como se MITO e FALSIFICAÇÃO fossem a mesma coisa (: isso começou com os teóricos marxistas da União Soviética e o realismo socialista, falando que era preciso ''desmistificar '' a literatura (: e à eles, quem os desmistifica(?) ----, estava claro, depois de um ou dois minutos, que Isabel deixava a opção de comentar a idéia inteiramente a meu cargo. Tentei desenvolve-la um pouco, até sentir sono, mas foi ela quem acabou dormindo: ----- É explicável que a ânsia de absoluto, a vontade de poder, o impulso à revolta, a angústia ante a solidão e a morte são problemas universais, e não mistificações da podridão burguesa(: a totalidade do homem inclui esses problemas, e ela só pode ser alcançada pela Literatura(: diga-se de passagem de novo, isso não é dito apenas por solistas de saxofone literário como eu, mas inclusive por marxistas do porte de Kosik (: todos os filósofos, quando quiseram tocar o absoluto, tiveram de recorrer à alguma forma do MITO ou da POESIA(: pense nos mitos de Platão, ou lembre-se de Hegel recorrendo aos mitos de Don Juan e Fausto para tornar perceptível o drama da consciência desgraçada(: dos existencialistas, nem se fala(!) -----, quando terminei de falar, Isabel estava dormindo reclinada na poltrona do avião. Comecei a rir sozinho. Tinha que rir. Achei que, quando terminasse de falar, Isabel Lareine seria mais delicada comigo do que tinha sido com Renata, mas talvez tenha sido uma ilusão (CORTA ----- O Aeroporto Internacional Marechal Rondon está situado em Várzea Grande, a oito quilômetros do centro de Cuiabá, capital do estado do Mato Grosso. Eu e Isabel não trazíamos mais do que nossas mochilas entupidas até a boca, inclusive com meu quilo de ouro e três ou quatro baseados. Passamos por duas grandes obras de arte, no interior do aeroporto, mostrando um índio e a outra uma arara-azul (típicos do Pantanal: entramos rapidamente num táxi, sentindo um opressivo bafo quente pesando sobre a cidade e nossos corpos ( eram duas da manhã e Isabel queria ir até o condomínio da sua família, entrar na garagem e pegar um dos carros do pai sem nem ao menos subir para falar com os parentes (clima tropical e úmido, UFA!, o ar condicionado, a corrida do táxi não foi exatamente rápida , embora eu não seja capaz de reconstituir o trajeto do aeroporto até o bairro Jardim das Américas, talvez o metro quadrado mais caro da cidade, rente às avenidas Fernando Corrêa da Costa e Miguel Sutil, a mais importante da região metropolitana (ou não). As ruas daquele bairro (reparei) tinham todas nomes de capitais da América do Sul, como Rua Buenos Aires, Rua La Paz, Rua Caracas, etc. Praticamente só se via mansões modernas e condomínios residenciais de luxo, além de um enorme Shopping Center. Ainda devia ser umas duas e meia da madrugada, quando entramos no condomínio onde ficava a casa (nada modesta) da família dela: os carros ficavam em frente à casa, que tinha um formato modernista interessante, com imensos quadrados de vidros enfiados uns nos outros, formando três andares. O carro que Isabel abriu com um clique no chaveiro que tirou do bolso era um Chevrolet Captiva 2.4 16V., desses que vem do México e são vendidos em versão única no Brasil. Quando entramos no veículo, o ar- condicionado já estava ligado e eu reparei que o velocímetro só ia até 180km. ---- Sei o caminho até a fazenda do meu pai em Poconé de cor, mas é você quem vai dirigir (.) ----. Isabel disse. ---- Tudo bem(.) ----, respondi. Dirigi durante quarenta minutos com ela dormindo ao meu lado e decidi parar num posto de gasolina, na saída de Cuiabá, para fumar um cigarro, um baseado e tomar um café preto, forte e sem açúcar. ---- Fala sério, K(: se você continuar cantando essa música brega durante a viagem eu vou acabar me atirando do carro em movimento (.) ----, hehe: ''Ela mora em Mato Grosso fronteira com o Paraguai'', de Jorgebenjor (https://www.youtube.com/watch?v=drtTBC7JG8U) . Eu estava curioso, sedento depois do vôo, do táxi e daquelas poucas manobras na estrada, e me ocorreu que não entrava num bar desde aquela noite no Widow´s, em Anápolis. Isabel ficou assustada ao perceber onde eu tinha escolhido parar. Disse que o bar Peixe Frito tinha sido recentemente rebatizado de Balde de Sangue, em homenagem às brigas que sempre aconteciam ali de madrugada; um bom bar, eu pensei, no entanto, mas talvez não ótimo, pois nada tinha da impetuosidade da classe trabalhadora, o que muitas vezes torna os tira-gostos únicos e viscerais por pressão psicológica do proletariado sobre o dono (a burguesia) do estabelecimento. O Peixe Frito se limitava a ser escuro e sujo o bastante para que todos os viajantes em trânsito se sentissem à vontade: a maioria parava ali só para cagar e fumar um cigarro, mas podia-se beber cervejas e vodka confortavelmente instalado como um feto dentro de um útero. Poucas lâmpadas fluorescentes, no fundo, e uma velha jukebox fraca demais para atormentar os ouvidos dos fregueses. Fui até a máquina de música e procurei a ''pérola'' hilariante de Jorgebenjor, não tinha. O bar estava cheio (mesmo sendo de madrugada) porque era verão: ---- Não quero ferir seus sentimentos ou fazer você se sentir culpado, mas acho que você não compreende a Renata muito bem (Isabel disse): ela finge não dar a mínima ao que o mundo pensa dela, mas posso garantir que ela é a própria matéria-prima básica de que são feitos os estandartes da sociedade (: só é orgulhosa demais para subir os degraus comuns, então finge não se interessar muito por nada (.) ----, o café estava ótimo, como calculei que devia estar pela entrada arruinada do bar, e foi servido por uma felina mameluca de vinte e poucos anos, como a da música. Naquele momento, Isabel me fez pensar na primeira festa a que levei Renata, logo que a conheci em São Paulo (disse que eram amigos meus, mas menti: fiquei sabendo da festa pela internet, na última hora: assim , levamos apenas bebidas como Acapulco Gold e Jamaica Prime. A lua estava cheia e Renata estava desconfiada, antes da festa (sempre ficava nervosa antes de uma festa) , mas acabou sendo a própria vida daquele casarão alugado por playboys. Mal tinha perdido a virgindade, e já se considerava uma pecadora desesperadamente perdida, com simulação de hábitos auto-destrutivos harraigados há anos: a inquietação dela, por viver em São Paulo , era tremenda. ---- Eu a vigiei muito bem (disse Isabel), sei de quase tudo que ela andou fazendo em Brasília no último ano (: algumas pequenas obras de arte erguidas para o demônio, meu caro(: nem te conto(!) o pai dela tem razão de querer contratar um zelador para cuidar das glórias vazias dela (.) ----, comecei a rir de novo. O nublado amanhecer encontrou-nos intactos, saindo do Peixe Frito´s Bar, livres para limpar a garganta e os olhos dos resíduos de fleuma noturna e arrastar o entusiasmo da estrada. Poconé ficava à 100 Km de Cuiabá, e a estrada era bem esburacada (enormes retas quase sem veículos) nenhum galo ainda se arriscando, apesar da Transpantaneira se abrindo à cada segundo em seu vasto buquê de pássaros, jacarés e outros bichos. Portão de entrada do Pantanal: estávamos em cima de uma enorme pedra branca que o Rio Paraguai, lá embaixo, bordava e lambia; em todo o percurso havendo dezenas de pontes de madeira, algumas em péssimo estado, ou mesmo apodrecidas, principalmente após o Km 80 da rodovia. ---- Você tem carteira de motorista, K(?) ----, Isabel perguntou, colocando pra tocar um disco de Chet Baker que parecia trilha sonora de filmes da Disney, Chet Baker and Strings, belíssimo, mas que tinha a única função de me fazer dirigir mais devagar. ----- He he(... claro... QUE NÃO(!) ----, ela engoliu em seco, primeiro, só depois começou a rir. ---- Fui reprovado no psicotécnico, aos vinte e um, e nunca mais tentei (: ''um homem corajoso, enfrentando com dignidade sua derrota''(: nada mal, hein(?) kkkkkk(!) ----, ela ria, mas finalmente disse: ----- Você não prefere passar o dia num hotel, hoje(?) amanhã vamos para a fazenda(: de repente (risos) me deu preguiça de sacolejar na estrada de chão até lá(.) -----, nos hospedamos num hotel às margens do rio Pixaim, que na verdade é um lago sem afluentes que se enche formando um rio com correnteza na estação chuvosa. O atendimento do hotel era extraordinário, à ponto dos garçons tirarem côco do pé na hora para nos servirem na beira da piscina, logo às nove da manhã: R$ 190 para duas pessoas com pensão completa e um passeio de barco. Por Deus,nada mal mesmo! A internet funcionava até no meio do rio, as águas esticadas de rãs até os joelhos, com um rumor de útero vegetal nas várzeas que nos repercutia intensamente sobre o ondulante e interminável planalto do Mato Grosso. O céu, ali, havia-se tornado imenso, como se Deus desse um suspiro de alívio e desistisse do intenso labor da Criação, contentando-se com a mata rente ao rio e os inumeráveis rendimentos extra-sensoriais do silêncio. Ali, nos monótonos matagais alternando-se com fiapos de rios escuros, o homem retomava sua posição no oceano de faminta proteína animal, no delírio intocado e espumante de empeixados rios cor de chumbo. ---- Quase duas horas de passeio em lombo de água(!) ----, exclamei, saindo do barco para a prancha de atraque do hotel, de mãos dadas com Isabel. ---- Deu para aproveitar a paisagem e a luz na água(?) você tirou poucas fotos (.) ----, ela disse ----- Mas foram umas fotos e tanto, minha flor(: o verdadeiro fotógrafo é como o Arqueiro Zen do livro de Eugenie Eriguel, só dispara quando tem certeza, quando ele e a paisagem se fazem uma coisa só(.) ----, a lancha apitou em despedida, um cheiro de curral exalando por perto; animal que desse pêlo por ali, bentevi vinha cagar em cima dele. ---- Portão de entrada para o Pantanal(.) ----, eu disse, vendo insetos compostos de paisagem se esfarinhando na luz do meio dia, contra a língua ácida do repelente e protetor solar. Depois de quase quatro horas seguidas na piscina, comendo iscas de peixe e bebendo batidas de todas as frutas exóticas imagináveis, Isabel Lareine deslizou para o meu lado na cadeira de praia: estava bêbada, o que me parecia raro, e animada, o que me parecia mais raro ainda. ----- Nós dois ainda não fodemos, K(.) ----, ela disse, e eu me inclinei para beijar seu biquini na altura da ponta do seio. ---- É verdade (: mas nós dois já trepamos com a Renata (: a propósito, sabe porque existem dois sexos(?) a reprodução sexual é um método elegante de garantir máxima diversidade biológica, mas separar o fluxo de energia em feminino e masculino sempre me pareceu uma forma de isolar à todos nós da intrincada dança de energia e atração que podemos sentir por árvores, flores, pedras, mares, um livro ou uma pintura, um soneto ou uma sonata, ou uma estrela distante, etc(: pois a energia erótica inerentemente gera e celebra a diversidade e a religião da Deusa, em seu âmago , é precisamente a Dança Erótica da vida atuando através da Natureza e da Cultura(.) a obra do poeta Manoel de Barros é um exemplo cabal (torneiral) disto (.) -----, o que eu dizia combinava com o hotel onde estávamos; fiz questão de rir e abraçar a cintura dela, e os olhos negros atrás dos óculos fixaram-se nos meus com um brilho distante e elétrico (aquele cheiro de sol na boca desejante de uma fêmea prestes a se abrir em flor, o ermo à nossa volta se tocando em sanfona. ---- Não (eu disse) ainda não trepamos, vamos subir(.) ----, a melada boca iluminada pelo sol tinha agora uma expectante fragilidade: a idéia estava mesmo molhando a beira da calcinha do biquini dela. Deixamos para trás a piscina do hotel e subimos para o quarto, as cortinas claras caindo na sombra da cama como cristais brancos da espuma de um rio. O passo de Isabel tornou-se lânguido e hesitante quando paramos para nos beijar e acariciar, enfiando a mão sob o biquini dela para arranca-lo da pele receptiva ( pela janela do quarto, víamos plantas de todo tipo, e a mata atrás do rio, árvores de enormes folhas protetoras entremeadas com esparto em luminosa floração, como lírios; o rio Pixaim derramando-se e destramelando-se à toa. ----- Depois vou escrever à Renata dizendo que você não sabe distinguir direito entre uma bunda e uma xota(.) -----, Isabel disse, dobrando o joelho na cama à minha frente. Dei um soluço de riso, e disse: ---- Os poetas iniciados em misterios antigos estão sempre repletos de uma intensidade apaixonada, certo(?) ----, e ela me olhou com uma expressão decididamente lasciva. Deitados, podíamos ver o rio pela janela pontilhado pela mata atrás, espraiando-se amoroso como eu sobre as nádegas de Isabel, libidinoso animal de água abraçando e cheirando a terra fêmea, para logo elevar-se numa tromba-dágua estourante, arrombante, carregando barrancos acima do chão, vazando por dentro do suco da buceta, cavando novos leitos a cada estocada e destampo. A vagina dela era para mim como unguento despejado sobre dois doídos dias de espera insone. O leve cheiro adocicado de batida de frutas e cloro de piscina rodopiavam nas minhas narinas expondo meu membro rijo à sua boca e macio ventre nu. Depois de um tempo, voltei a beijar sua nádega esquerda e ela encolheu-se instintivamente, sentindo a intenção séria no domínio das minhas mãos sobre seus quadris. Eu era um rio transbordante cujos estragos agora compunham uma paisagem de carne feminina derramada na cama, instaurada numa química pantanosa, de cios e gosmas adesivas em ebulição.
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