terça-feira, 9 de dezembro de 2014
CAPÍTULO 10
Cair no sono nunca me pareceu uma coisa muito natural. Há uma artimanha feiticeira e surrealista para a travessia daquela zona intermediária, quando as garras do pensamento afrouxam mas ainda não soltam a consciência, e estranhas interferências passam a ser meditadas e visualizadas através de uma porta rangente; com o corpo de Janice se encolhendo ao meu lado na poltrona, tenho uma percepção prematuramente jubilosa no ônibus para São Paulo ( as pequenas e tateantes larvas do contra-senso que precedem os desinibidos jatos do sonho são fatidicamente expostos à uma luz à qual dificilmente sobrevivem, à não ser que você pratique ocultismo muito seriamente (é preciso sempre começar de novo, relaxando a mente em constante desenredo: a consciência do processo, à princípio, parece atrapalhar, mas de fato ajuda; o cérebro, observando a si mesmo , com seus milhares de olhos vociferantes; circundando a cédula da vigília, ele é tomado por instantes de um pânico mudo ante a pobreza de seu domínio (a consciência, esse fulgurante fruto da evolução, essa agitação de moléculas divinizadas, torna-se um cativeiro: um revolvimento diabólico no qual o insone está ainda tão sozinho quanto Satã, virando e revirando e brocando um orifício cônico na escuridão (quando sobre a nítida florida orla da pastagem o oceano invisível e incriado ergue sua forma - chicórias e margaridas atadas, soltas, quase não se parecendo flores, mas somente cor e movimento ( ou talvez a forma - forma do desassossego sonhado ( enquanto fechado em círculo o mar escuro da consciência se move tranquilamente como uma planta sobre o caule (aprender a controlar todo esse movimento inicial no sonho pode ser o primeiro passo da feitiçaria. É o primeiro passo de ensonhar: usar essa característica orgânica do sonho para controlar o movimento das percepções subconscientes. Mesmo Freud, em “Sonhos e ocultismo” , uma das “Novas conferências introdutórias à psicanálise”, de 1933 (o ano em que Noel Rosa gravou “Não tem tradução”, dois anos antes de Carlos Castaneda nascer.. vamos falar sério: quem acredita na Time?, eu acredito no tempo), até mesmo Freud reconhece o poder transmutatório do sonho, não só simbólico, nesta intrigante palestra, onde diz coisas como: '' ---- E imaginem se pudéssemos nos apoderar do equivalente físico do ato psíquico! Parece-me que, com a inserção do inconsciente entre o físico e o até então denominado “psíquico”, a psicanálise nos preparou para a hipótese de eventos como a telepatia. Se nos habituarmos à ideia da telepatia, podemos fazer muita coisa com ela - claro que só na imaginação, por enquanto. Como é notório, não sabemos como surge a vontade geral nas grandes sociedades de insetos. Possivelmente isso ocorre pela via de uma transferência psíquica direta desse tipo. Somos levados à conjectura de que esta seria a via de entendimento original, arcaica, entre os seres individuais, que no curso da evolução filogenética é sobrepujada pelo método superior da comunicação com ajuda de sinais captados pelos órgãos dos sentidos. Mas o método mais antigo poderia permanecer no fundo e ainda prevalecer em determinadas condições, por exemplo, em multidões apaixonadamente agitadas. Tudo isso é ainda incerto e pleno de enigmas não resolvidos, mas não é motivo para nos assustarmos(.)''. Não devemos esquecer: Lacan falou, Freud disse, Jung era seu filho ( quando eu e Janice chegamos na Estação da Luz, desabou um pesado temporal, lançando cortinas dágua pelas ruas e escondendo em nuvens os topos dos prédios mais altos; as pessoas corriam de porta em porta, com jornais açoitados pelo vento na cabeça, e amontoavam-se nas arcadas da estação, exalando um cheiro úmido de rebanho. Quando a chuva passou , e um fraco sol amarelo dourou as poças e sarjetas ainda a correr, comprei os jornais numa banca e entramos num taxi. ---- Boa tarde, irmão (: passando pelo Viaduto do Chá até a Avenida Ipiranga, depois à direita, e depois muitas voltas complicadas rs (.) ----, o nome do hotel estava escrito em tremeluzente neon vermelho contra o crepúsculo, uma letra manual cuidadosamente inclinada; o hotel tinha sido uma casa de fazenda de café, com quartos arejados e abobadados, mobiliado com materiais sintéticos. A cama de casal era uma simples plataforma, e havia um espelho de moldura dourada. Muito básico, mas Janice sentiu-se uma garota sofisticada, guardando suas roupas no armário. Nunca tinha viajado num feriado para ficar num hotel , e não conhecia nenhuma cidade fora de Minas Gerais. Interfonei para a recepção e apareceram comida e bebida. ---- Você conhece muitas pessoas na cidade, K (?) ----, ela me perguntou. ----- Conheço duas garotas, e um pouco a família delas, na Zona Oeste(: temos tempo de sobra pra visitá-las, se você quiser(: vou vender o meu ouro amanhã à tarde, é jogo rápido, passamos na fundidora, pegamos a grana e estamos livres e baludos de novo(.) ----, Janice riu gostosamente, tirando o pijama e jogando-se na cama: trepamos e jantamos, antes de tomarmos banho de chuveiro juntos, o que acabou em mais sexo (depois, saímos para a sacada e fomos vertiginosamente hipnotizados pelo abismo embaixo, um reluzente mosaico de barulho da rua e prédios ainda manchados da chuva mais cedo. A vastidão anônima de São Paulo parecia então expectante, uma imensa platéia caótica aplaudindo de forma atabalhoada. Mas Janice sentia dentro de si, naquele quarto de hotel comigo, um ego novo, operístico, ambiciosamente feminino. Existe uma expressão que pode brotar nos olhos de uma mulher, que não faz nenhuma exigência, mas ao mesmo tempo se proclama aquilo que é no momento (como o heliotropo a se auto-proclamar azul: e meu desejo , minha única meta (além de vender meu ouro na fundidora) em São Paulo, era ficar sozinho com Janice. Não mais que isso ( o que se seguiria então seria a consequência de estarmos sozinhos, não o coroamento de qualquer outro plano anterior: na manhã seguinte, fomos à região da Avenida Paulista e da Rua Augusta, e comprei roupas pra ela; comemos num restaurante onde mulheres elegantes se sentavam aos pares diante de mesas pequenas, e conseguiam tomar coquetéis em copos finos sem enfiar o nariz nas fatias de frutas penduradas na borda. Sob as brancas mesas redondas, suas longas pernas sussurrantes de sedosas, expostas até os quadris por mini-saias. À nossa volta, em altos edifícios de vidro espelhado, erguia-se São Paulo, manifestando ainda o ranço do '' milagre'' econômico. Nos servimos financeiramente do dinheiro do meu pote de ouro, o que ao longo das horas do dia foi causando em Janice uma obsessão de me servir fisicamente: ela dominava meu membro com seu ágil corpo branco, e os extremos de prazer que ela havia me proporcionado na noite passada estabeleciam as fronteiras da sua feminilidade. ---- Me use, K(: faça o que você quiser comigo(: lembra que nosso novo encontro começou com aquela conversa de controlar os sonhos, procurando amoras na floresta(?) -----, estávamos andando às esmo pela cidade, de mãos dadas. -----Claro que lembro(: você leu o artigo que imprimi na lan house(?) a psicanálise freudiana interpreta os sonhos como a emergência de desejos recalcados ou traumas, que nas horas de consciência desperta são censurados pelo superego, mas que estão lá no inconsciente (: ao dormirmos, o superego relaxa e os desejos escabrosos ou os sofrimentos traumáticos podem vir à tona(: como o superego só relaxa, mas não larga mão, mesmo nos sonhos os desejos reprimidos e os traumas aparecem disfarçados, fantasiados em imagens, que seguem o modelo de camuflagem, fazendo deslocamento (metáfora, uma coisa no lugar da outra) e condensação (metonímia, uma parte da coisa no lugar da coisa(: mas para o nagual Don Juan Matus, os sonhos “comuns” são deslocamentos mínimos, erráticos, por uma pequena região em volta da posição desperta, quando se está rijo e fixo (: essa área em volta está preenchida do “lixo humano”, dos fantasmas das preocupações e desejos humanos (e Freud também já pensava nisso, quando escreveu: o inconsciente não é só lixo(!) -----, peguei no braço dela, sentindo com os dedos que seu braço era mais quente na parte de dentro , sentindo a característica absoluta da impossibilidade de Janice ser, em qualquer detalhe, no menor traço, diferente do que ela era naquele momento; sentindo que Janice tinha sido conjecturada por tudo que lhe precedia no tempo e lhe separava no espaço, enquanto que eu não: eu era um fluido amniótico eterno. Continuei: ----- Não é para “analisar” o id e o ego, o inconsciente e o eu consciente, que os nagualistas praticam o ensonho(: o que eles querem é conduzir com potência a percepção para além da área do “lixo humano”, aquela que Freud e seus amigos conheciam bem, dos recalques e dores egóicas(: para além dessa faixa há o mundo do nagual, onde não há significado possível(: por isso o inconsciente real é pura potência (como na esquizoanálise de Gilles Deleuze e Félix Guattari ), e não língua, signo, letra, significante e significado (Lacan), nem arquétipos que seriam modelos gerais de estados de ser, como em Jung(: é sintomático que a área do lixo humano seja predominantemente de ''cunho'' sexual, para a psicanálise ortodoxa, enquanto que para os ensonhadores naguais a energia do sonho e do ensonho seja de ''origem '' sexual(: é o conceito de inconsciente que muda para os ''brujos'' toltecas(: ele é a vastidão do nosso ser, e a nossa capacidade de criar um percurso por este mundo luminoso, já que está além das experiências aprendidas socialmente e repetidas até a náusea durante toda a vida de uma pessoa comum(.) -----, o lugar que havia sido reservado para Janice no mundo , era nada menos que exatamente o corpo dela, sua maneira de ser (o que para mim era uma qualidade: seus olhos num terno contraste com a boca de batom vermelho, os seios, seu recente e entusiasmado hábito de ler romances e artigos (e com essa concentração de sentido que eu vivenciava como sensação de inevitabilidade amorosa, surgia um insaciável desejo sexual. ----- Há vários investimentos no puro “sonho lúcido” como terapia e prazer, como, por exemplo, Sonhos Lúcidos em 30 Dias, de Pamela Weintraud e Keith Harary (: ele é presidente e diretor do Institute for Advanced Psychology de San Francisco, entre outros títulos, e ela é editora sênior da revista Omni, ao lado de muitas outras coisas (: pois bem, este investimento do sonho lúcido terapêutico é algo do ramo da psicologia aplicada, que, sabemos, haure coisas do misticismo e de outras técnicas evolucionárias, como o xamanismo e o nagualismo, mas, é claro, não é a mesma coisa (: Castaneda não se cansa de criticar esse uso simples do sonho, seu sonhar vai muito além (:o sonhar dos bruxos toltecas é uma técnica que se encaixa com a espreita e o intento(: faz parte da exploração da consciência(: tem como principais objetivos produzir uma saúde superior, pela impecabilidade, trazer a consciência de que a experiência do “real” é fruto da posição do centro de percepções, isto é, da consciência do percebedor, e que ele pode alterar essa posição à sua vontade, desenvolver a capacidade de controlar o deslocamento do ponto de encaixe da percepção e propiciar o treinamento para experiências ainda mais profundas e poderosas de controle mental (: um ensonhador tolteca movimenta e controla o movimento da sua percepção tanto quando está acordado quanto quando está dormindo, nos dois casos, está praticando o ensonho(: com o desenvolvimento desse controle, é possível até mesmo acordar em outro lugar(.) -----, sem juras de amor explícitas entre nós dois, era mais fácil conversar sobre qualquer assunto. ----- Como são essas suas amigas daqui, K(?) ----, Janice me perguntou. ----- Elas são irmãs (: uma tem vinte e três e a outra dezenove anos, como você(: conheço também o pai e um tio , a mãe delas morreu há anos (: o pai se chama Luís Otávio Patrusi, é mais novo que o tio, com uma testa saliente, que se curva ansiosa sobre a enorme calva para a frente, como se ele estivesse derretendo (: é político (deputado federal (: sempre que volta para casa, aqui em São Paulo, as filhas são apenas mais um compromisso no dia dele , logo seguido de outros (: conheci ele numa manhã, na mesa de café posta (tinha dormido com a mais nova no quarto dela(: ele estava completamente absorvido numa pilha de jornais (: levantou-se para cumprimentar à mim e às filhas com o ar de ter sido interrompido, e disse: ----- Minhas belas filhas nômades(!) -----, e aplicou em cada um dos rostos delas, um beijo cuja frieza eu julguei, rapidamente, ter alguma coisa do frio extra-terrestre da estratosfera, como bagagem guardada no porão sem aquecimento de um avião (: o apartamento, no Morumbi, se não me engano, é tão lateralmente vasto que jamais parece abarrotado com as aquisições constantes: percebi que, ainda assim, ao sentar-se à mesa conosco ele estava decidido a dar à elas todo o respeito e a intensa atenção que daria à um acessor ou colega diplomata (mas os olhos dele piscavam nervosos sobre o jornal de cima da pilha, cujas manchetes falavam de operações da Polícia Federal, indicações políticas para cargos de confiaça , concessões de prisões domiciliares para gangsters do Congresso, delações premiadas, desvios bilionários de verba pública e guerras de informação, contra-informação e desinformação em todo o globo (: sua filha mais nova, Renata Patrusi, sentou ao meu lado e comeu uma fatia de melão em forma de lua nova, depois de consumir um pão com manteiga com três tiras crocantes de bacon (: o pai delas olhou para mim, talvez se perguntando porque a filha caçula não tinha mais aquele enfastiado apetite de virgem(: então, ele disse: ----- Vocês devem ter andado fazendo gastos extravantes e corrompendo esse novo amigo de vocês (: umas feriazinhas, certamente(.) Mas agora já estão prontas a voltarem para a vida real(.) ----, mas falava com uma certa delicadeza hesitante, como se estivesse com medo de levar um soco, os olhos correndo a avaliar outra notícia, os lábios franzindo-se ao fim da frase, expondo os dentinhos obturados e amarelados pela idade e o cachimbo (: aquele sujeito (pensei) tinha sido um menino pequeno, raquítico, fácil de intimidar, precocemente calvo e pedante em seus planos de vingança contra a vida e o mundo (: o poder terreno (político) era sua vingança, e estava se mostrando vazio desde que ocupara o cargo de Secretário Geral do Governo e fora acusado pela mídia de ''não-trabalhar'' e só ficar bebendo vinhos e lendo poesia italiana. ----- Brasília dificilmente é a vida real, pai(.) -----, Renata disse, e eu quase engasguei com o café, de vontade de rir da cara do pai. As finas pálpebras dele adejaram de uma maneira doída e contrariada (ele tinha um tique nervoso na pele de um azul translúcido e doentio abaixo de um dos olhos, e um latejamento na calva da têmpora; o olho tinha algo do desabamento da enorme testa branca, o crânio informe revestido não de uma impenetrável capa de cachos, mas de lisos fios paralelos, que deixavam à mostra o couro esverdeado e doente, o corpo retaco sem pescoço (a mesma papada de sapo boi de todos seus correligionários da esquerda caviar) . Contudo, falava com precisão e autoridade, dissimulando a ausência de virilidade com a voz alta : ----- A verdade é que esses seus últimos namoradinhos apenas exploram você, Renata(: sua inocência sexual, seu tédio burguês, seu idealismo acadêmico, seu romantismo de pagode e sertanejo(.) ----, não era exatamente o que eu pensava de Renata (ela era inteligente, curiosa pelos assuntos) , mas naquele momento vi através dele a dependência das mulheres que um filhinho de mamãe desenvolve ao longo da vida. Ele continuou: ----- O amor é um sonho, Renata(: um anestésico que a natureza emprega para arrancar bebês de nós(: a natureza não liga para nós, minha querida(: aliás, é bem possível que ela venha a nos destruir algum dia(: quero que você volte para casa todos os dias antes da meia-noite, a partir de hoje(: não vou deixar você jogar sua vida fora (: vc vai fazer faculdade como a sua irmã (: o currículo universitário pode ser medíocre nos detalhes, mas é sadio nos valores gerais, como o trabalho e a família(: talvez, na universidade, voce encontre um charmoso herdeiro e tudo se resolva (.) ----- (.............................................................................................................................................................................................................................................................................................................................Janice me ouvia com certa dificuldade; dizer essas coisas não era fácil pra mim; não obstante, dizia-as com sinceridade. E achava que a renúncia precoce de Renata ao nosso namorinho era apenas uma das maneiras adequadas de pôr fim àquela situação tensa e de desfazer a injustiça e a indignidade das ameças do pai dela. Talvez o que ela renunciava não tivesse mesmo muita importância, mas o ato de renunciar daquela maneira era pesado: nada na vida daquelas meninas me levava a pensar que elas fossem senhoras do próprio destino (não eram capazes de imaginar que o futuro pudesse ser misterioso, ou mesmo trágico e transcendente, apenas de que era inteiramente previsível à luz das decisões impostas hoje). ----- O que é que você gosta mais em mim, K(?) ---- Janice perguntou de repente. ----- Seus sonhos, seus cotovelos, as dúvidas nos quatro cantos da sua segurança, o calor do seu corpo, tudo aquilo que você deseja porém teme(.) -----, ela riu: ---- Se você quiser me enumerar parte por parte, ficarei parecida com qualquer uma (.) -----, ela falava alto, na rua (eu estou aqui, Janice: o cabelo dela estáva solto sobre os ombros; seu vestido cinzento e seu casaco ( e porque naquele momento atravessávamos uma praça (cenário) que me lembrava algum quadro renascentista de faunos e ninfas, estava propenso a visualizá-la como tendo o corpo de uma deusa pintada por Ticiano. Essa combinação de surpresa e do esperado cumprido perfeitamente é uma característica singular dos momentos de paixão sexual e é outro fator que os situa fora do curso normal do tempo. A cidade era um grande labirinto (vastos bairros abrigando apenas japoneses; outros, italianos; até bairros de judeus e árabes; as pessoas corriam a cidade com a eficiência de europeus, produzindo negócios com a eficiência com que os cariocas produzem encontros para beber chopp: homens de terno escuro marchando em grupos de três ou quatro pelas calçadas, gesticulando e gritando ao celular com a típica neurastenia causada pela especulação (só aqui e ali, nas prostitutas de rosto vazio, de tocaia com suas pernas compridas na rua dos Andradas, etc, a cidade de São Paulo traía o fato de que a verdadeira vida, a vida do êxtase e do espírito, persistia por baixo da pressa dos negócios, juntamente com aquela VOZ: ''TENA TYAKTENA BHUNJITHAH (: COMPLETAMOS NOSSA COTA, K(: ESSES DIAS QUE VIVI COM VOCÊ FORAM OS MAIS FELIZES DA MINHA VIDA(: NADA DE PUXAR NEM RECORDAR, NADA DE SERVIR NEM SER SERVIDO, POR FAVOR, CONTINUE A PENSAR EM MIM COMO SUA VOZ AMANTE(: A CONSCIÊNCIA SUBLIMINAR DE UMA VOZ OU DE UM INORGÂNICO É UMA DAS MOLAS DO ROMANCE GÓTICO(: ''O HORLA'', DE GUY DE MAUPASSANT, É UM CONTO DE TERROR GÓTICO, ESCRITO EM 1887, QUE INSPIROU MUITA COISA NA LITERATURA E NO CINEMA, E QUE FALA EXPLICITAMENTE DE UM PERSONAGEM QUE ENLOUQUECE AO PERCEBER A PRESENÇA DE UM SER INORGÂNICO (: O SEU QUERIDO FILÓSOFO GILLES DELEUZE TAMBÉM TRABALHA DE FORMA SUTIL COM O GÓTICO, QUANDO DECLARA QUE O SUPER-HOMEM NIETZSCHEANO É O COMPOSTO FORMAL NO HOMEM DESTAS NOVAS FORÇAS (: FORMA QUE DECORRE DE UMA REVELAÇÃO DE FORÇAS(: O SUPER-HOMEM É, SEGUNDO A FÓRMULA DE RIMBAUD, O HOMEM CARREGADO DOS PRÓPRIOS ANIMAIS (: UM CÓDIGO QUE PODE CAPTURAR FRAGMENTOS DE OUTROS CÓDIGOS(: É O HOMEM CARREGADO DAS PRÓPRIAS ROCHAS, OU DO INORGÂNICO, DO ALIADO, DA VOZ (''LÁ ONDE REINA O SILÍCIO'' (:É O HOMEM CARREGADO DO SER DA LINGUAGEM (REGIÃO INFORME, NÃO SIGNIFICANTE, ONDE A LINGUAGEM PODE ENFIM LIBERAR-SE ''ATÉ MESMO DAQUILO QUE ELA TEM A DIZER (.)''. De fato, eu estava livre agora, tão livre quanto uma página de Mallarmé exageradamente lida (em algum instante anterior ao meu nascimento , talvez eu tenha percebido toda minha vida assim: despir-se naquele quarto de hotel era para nós o gesto de descartar os interesses daqueles que compunham os interesses das nossas vidas. Junto com suas roupas, Janice descartava também as pessoas que ela detestava. Seu corpo nu era a prova daquele isolamento íntimo; e era o isolamento dela (somente seu isolamento) que eu reconhecia e desejava. A partir daquela solidão minha e dela , podíamos agora recomeçar: enquanto eu fixava Janice com olhos de animal noturno, de um intensidade como ela jamais tinha sentido, ela se imaginava uma dríade, alerta de uma maneira mais animal que humana, veloz, sensível, pés ligeiros sobre a terra de um bosque, língua macia no meu pescoço, desavergonhada (sementes de uma árvore flutuando em direção à mim , as asas das sâmaras gêmeas não se abrindo ainda (lentamente --) como as bordas flamejantes e energéticas, mas permanecendo, ainda por um momento, fechadas ( como se ainda dormíssemos e sonhássemos com o vôo ao invés de experimentá-lo, até de madrugada: o sol nascente (depois --) como uma gigantesca prensa no alto espremendo do ar de São Paulo aquela poluição de deserto populoso de concreto e aço barulhento , aquele denso pó preto em suspensão sobre a cidade inteira. ----- Você não é capaz de fazer nada errado, Janice (: porque de uma maneira profunda e muito tranquilizante para mim, sua alma se coloca muito acima da tentativa de fazer alguma coisa certa (: você aceita (: na esfera do STHULA você é toda PADMA e eu MANI (: o jeito que você penteia seus longos cabelos sedosos selvagens no escuro durante um tempão enquanto faíscas azuis voam em torno da sua cabeça e das minhas mãos (Kali, minha querida, o tempo desfazendo e destruindo para que a nova urdidura possa se iniciar (Kali, que perpassa todas as nossas paixões, por mais momentosas que pareçam , e as impele em direção à uma nova volta da roda (seja uma fonte de luz para si mesma, Janice (sempre). ----- , os ângulos do quarto de hotel ondulavam e adernavam. Ela me via como junto à dríade, desdobrando-se à minha frente, como um casal, enquanto arrancava minha camisa (ela antevia a dríade se oferecendo de quatro, com o rosto virado para o chão, e eu montando nela (a idéia da dríade foi momentaneamente apagada: aqui estou eu pensando nela de novo, pensei: a mancha do amor recobrindo as folhas e lambuzando de açafrão os córneos galhos que pendem pesados contra um suave véu vermelho : não há luz, no momento, apenas uma mancha melada que pinga de folha em folha, de membro em membro, percorrendo as cores do mundo inteiro: o peso do amor nos fazendo boiar até bater a cabeça contra o céu: o cabelo de Janice pingando de néctar (passarinhos levando mel em suas asas negras; ----- coxas-macieiras roçando o céu; ----- joelhos-brisas, o tom goteja desse modo (trêmula sobre a praia: QUE PRAIA (?!), pétala, talvez: QUE PRAIA (?!), QUE PRAIA (?!), eu disse pétalas, pétalas de macieira (tudo está no SOM ---- Devia ser uma canção feita de minúcias, algo imediato: o momento torna-se gradativamente mais longo e longo até a dríade desaparecer dentro do cheiro de capim imaginário esmagado pelo silêncio circundante, na cama: Janice concentra-se inteiramente no gesto de acompanhar com a língua o dorso inferior do meu falo (sua cabeça pende sobre minhas coxas. Não tenho direitos sobre ela, nem aleguei nenhum, estendendo-me sobre ela em silêncio simétrico, depois. Nosso amor é uma coisa curiosa, suavemente móvel, no começo, e agitadamente alada no fim, sob as goteiras . ---- Deixo a escrita ser de palavras lentas e rápidas (: afiadas para o alerta, quietas no esperar, insone se preciso for(.) ----, os sons das minhas mais carinhosas palavras estavam agora nas suas nádegas, escondidos num canto da sua boca. ----- Você me procurou ali com sua boca, amor (: minha mente puxando seu corpo (: luz que ao cair sobre as pétalas da sua vagina tornou-se rosa (: vasos sanguíneos sendo erguidos (CORTA ---- Queria que você me falasse mais sobre essas suas duas amigas aqui de São Paulo(.) ----, Janice disse. ---- Tudo bem, já te conto tudo(.) -----,
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