segunda-feira, 15 de dezembro de 2014
CAPÍTULO 11
----- Um dia (eu disse para Janice ---) encontrei-me com Renata no apartamento do pai dela, em Brasília (: ela tinha se mudado para lá e começado a cursar Belas- Artes (: eu estava voltando da Serra, no interior de Goiás, com a mochila mais do que dourada: pela terceira vez na vida, tinha conseguido fazer o quilo do ouro em menos de um mês (: aquele apartamento em Brasília era tão imenso quanto o de São Paulo, com alas espalhadas como uma miniatura da própria cidade (: Luís Otávio não me reconheceu imediatamente, apenas depois de trocar algumas palavras conosco (: ----- Você agora estuda aqui também, K(?) ----, ele me perguntou, e eu disse que sim , que cursava a faculdade de turismo da UNB: ---- Assim que me formar penso em montar uma agência de turismo (: para operar não apenas nas cidades do litoral, veja bem, onde tudo o que os executivos visitantes querem é encontrar uma mulata sensual pra foder, mas no interior, onde as viúvas ricas e funcionárias públicas federais aposentadas querem visitar as cidades que constam dos nossos livros de arte, como Ouro Preto e Olinda, reminescentes de nossa história colonial, e as igrejas do ´seculo XVIII, com as esculturas do Aleijadinho (: e também o fabuloso teatro de ópera mundialmente famoso de Manaus, e a própria vastidão, que vem se tornando uma atração turística em si mesma, à medida que o mundo fica sem espaço(.) ----, com toda aquela minha falsidade diante do pai dela ressoando em seus ouvidos, Renata me levou até o seu quarto, no fim de um corredor comprido e em curva suave. O quarto, mobiliado com uma cama requintada, escrivaninha e penteadeira, era ''dela'', embora que desde sua mudança, não houvesse dormido nem cem noites nele. Durante quase um ano ( em que não nos vimos) Renata frequentou a UNB, assistindo aulas de história da arte (: transparências de pinturas rupestres e catedrais históricas, e paisagens impressionistas apareciam e desapareciam da sala de aula (: conversando com ela, eu percebia claros indícios de uma certa lavagem cerebral acadêmica (: a arte era uma coisa exclusivamente francesa(!), mas ela chegou a falar de etnomusicologia e eu mostrei à ela uma fita de música cambojana não-budista (música pop, de rádio, do Camboja): então ela contrapôs àquilo xilogravuras alemãs, e torceu o nariz quando eu disse que era preciso dar alguma atenção aos artistas plásticos de Nova York, depois de 1945 (por fim, chegamos à um acordo, decidindo que no fim tudo não passava mesmo de sub-produto do sistema ou selvageria especialmente engenhosa, comparado com Cézanne (: ----- ''A arte é realmente francesa, cherry(!) a poesia também é francesa (: a literatura, talvez, seja argentina, mas (... APENAS A BIOLOGIA É DE FATO GLOBAL(!) '' ----, ríamos. Durante o tempo em que estive me arriscando em não sei quantos garimpos em busca do quilo do ouro, ela teve lá seus ''encontros'' com colegas estudantes, filhos bem apessoados e servis da oligarquia e seus lacaios, e daí(?), me perguntava: ela era jovem, cheia de energia, e nosso caso não tinha sido nenhuma lenda da paixão (apenas, como notei depois, lendo seu DIÀRIO, eu tinha me tornado imutável em sua cabeça, durante minha ausência; imutável e inviolado, um pedaço intocável de espírito dentro dela). Seu pai, no entanto, sentia ter acertado em sua estratégia; e até mesmo eu tive que admitir que ela se tornara mais interessante, e bonita: Luís Otávio Patrusi ia e vinha naquele apartamento como um estranho tipo de lesma; aquela pele delicada, azulada e doente; o sorriso amarelo; a testa calva desabando acima do olhar morto (os dois passavam dias seguidos sem se falar, cada um preocupado com seu próprio circuito existencial: Renata naquele transe universitário inicial, do qual só escapava quando seu tio Estênio vinha visitá-los,trazendo consigo um pouco da boemia intelectualóide do passado. ----- Os demônios de poeira vermelha rodopiando onde deixaram morrer a grama dos enormes canteiros da rua(: eis Brasília(!) o resto está nas páginas policiais(.) ----, dizia o tio Estênio, vasculhando a geladeira em busca de cervejas. Ele vinha com sua camisa xadrez, barbudo, sapato de dois tons, trazendo um pacote de livros do escritor uruguaio Juan Carlos Onetti para Renata, junto à um buquê de flores de pano feito com arte, além de um pequeno presépio artesanal feito de arame dourado enrolado em torno de pedras semi-preciosas de Minas Gerais. ---- Hoje já é dia 23 de dezembro (ele nos disse, após apertar minha mão), por isso, trouxe uma lembrancinha pra gente não esquecer da vinda ao mundo do pequeno essênio (.) -----, o jeito do tio Estênio de falar era teatral e engraçado, e logo comecei a chamá-lo de tio Essênio, ao senti-lo interessar-se por umas poucas observações que fiz a respeito do seu comentário. ---- Jesus não era essênio, quando nasceu (: se ligou à essa seita judaica depois (: graças à três escritores do século I (Plínio, O Velho; Flávio Josefo e Fílon, de Alexandria) já se sabia muita coisa sobre essa gente antes da descoberta dos Manuscritos do Mar Morto (: Fílon dizia que eram em número de 4 mil, e que moravam espalhados em várias partes da Judéia ( e que ''evitavam as cidades e preferiam VIVER EM ALDEIAS(: eram lavradores, pastores, vaqueiros, apicultores, artesãos, artistas (: e ainda que ''não cultivavam o lado lógico da filosofia, não dispensando cuidados supérfluos ao exame de termos gregos, mas OCUPAVAM-SE APENAS COM O ASPECTO MORAL (: ''estudavam raízes medicinais e as propriedades das pedras (amuletos; e eram inspirados na predição do futuro (há vários exemplos), dando extrema atenção ao asseio; viviam se banhando e seus hábitos de defecação eram extraordinariamente higiênicos para o Oriente Médio daquela época; diz Fílon : ''não se importavam com o clima e nunca o usavam como desculpa para não trabalhar; e que na hora da janta ''a quem estava de fora o silêncio dos que dentro se encontravam dava a impressão de terrível mistério'' (F. Josefo): para os essênios, o SILÊNCIO era muito importante(.) ----, o tio Estênio, agora, dividia um cigarro com Renata, e um pouco teatralmente nos contava que tinha sido seminarista, antes de se ''converter'' ao ateísmo e ao marxismo-leninista, e que cedo na vida havia-se dado conta da imprecisão das Sagradas Escrituras: ----- Nosso texto mais antigo da Bíblia hebraica (o chamado texto massorético), embora tenha sido datado do século II a.C., não é anterior ao século IX d.C (: antes disso, nossas principais versões das Escrituras são as dos Setenta de Alexandria, a tradução para o grego que se julga ter começado no século III a.C e concluída só duzentos anos depois, e a Vulgata de São Jerônimo, elaborada no século IV (: todo nosso conhecimento literário do mundo bíblico baseou-se nesse antigo texto cristão e nessas duas traduções posteriores, bem como num Pentateuco samaritano, em alguns excertos de versões aramaicas primitivas e nas citações gregas de Justino, O Mártir, em seu diálogo com o rabino Trífon(.) -----, apesar do crescente interesse mútuo pelo assunto, o tio Estênio tinha ido até ali porque queria manter viva em Renata a menina, a lolita, a ''enfant terrible'' do DIÁRIO que ela vinha escrevendo recentemente, e do qual ele (assim como eu) veio a conhecer (entusiasmado) algumas páginas. Assim, ele procurou ao máximo encarnar a atmosfera boemia, infantil e brincalhona do Rio de Janeiro entre nós, na qual se passava o ano inteiro construindo psicologicamente o brinquedo logo despedaçado do Carnaval. A voz constantemente gozadora do tio Estênio combinava com a incessante fumaça dos seus cigarros, que pareciam nunca se apagar; o cinzeiro de marfim que ele usava, por um instante, me lembrou o apartamento de São Paulo com o candelabro de braços serpenteantes e a rosa branca do vidro de uma clarabóia, onde Renata se entregou à mim pela primeira vez, e seu sangue de virgem deixou uma mancha em forma de cálice na colcha de cetim. O tio Estênio encarnava o amor, de certa forma: parecia mil vezes mais ser o pai de Renata que seu própio pai; os olhos solapados por intermináveis cervejas alsacianas e longas digressões sobre literatura e a ''sociologia do romance'' de Lucien Goldmann. ----- Tem certeza de que você não é o meu pai verdadeiro, tio Estênio(: minha mãe era apaixonada por você, a tia Heloísa me disse (: vocês transaram muito escondido(?) -----, provocava-o Renata, soprando fumaça de cigarro contra o rosto do tio; o sofá onde ela estava reclinada era de teca e rotim, uma peça elegante trazida da excursão governamental de seu pai à Índia. ----- Talvez, minha pequena(.) ----, ele respondeu, bêbado, já ampliando vertiginosamente sua imprudência; piscava os olhos cansados e levava a mão à grande cabeleira grisalha encaracolada, eriçando-a mais: tinha aceito a sobrinha, naquele momento (em termos de conversa) como mais uma daquelas garotas-adultas cujo afeto assumia a forma de provocação. ---- Sua mãe continua sendo minha esposa (ele disse) e quando voce se excita e fica diabólica desse jeito, lembra muito ela (: é de partir o coração(!) ----, Renata realmente se perguntava há muito tempo até onde aquilo tudo era verdade (tio Estênio realmente amou tanto assim sua mãe(?) No apartamento dele, no Rio, na cômoda do quarto havia uma foto emoldurada dela (ligeiramente desfocada, de pé sobre umas rochas: um lugar de piquenique onde uma brisa efunava a saia larga e branca, a musselina branca acentuando o bronzeado da mãe (Renata muitas vezes examinou sorrateiramente aquela foto, na ausência do tio, perguntando-se quem exatamente estava fazendo sua mãe rir daquele jeito e baixar os olhos em flerte para a câmera; que diziam as VOZES no ar (?) ----- Ah, tio, Brasília é o inferno, só que um pouco mais chata(: a cidade foi jogada nesse planalto quente como um ovo podre para fritar (: até que enfim eu recebo visitas interessantes e, QUEM DIRIA (!) , duas logo de uma vez (: parece que teremos um Natal divertido por aqui, já que meu pai não voltará à tempo(.) -----, o refinado gosto cultural do tio Estênio, devastado por décadas de hedonismo e obstinado egoísmo, tornou-se subitamente solene: ----- Minha querida, o Rio e São Paulo não ficam atrás(: a demonstração monstruosamente feia de nosso fútil desejo de nos tornarmos um país industrializado (.) ----- , e tirando uma guimba de charuto apagado do maço de cigarros, olhou para mim e voltou a falar dos essênios: ----- A humildade imposta ao essênio, o compromisso de ''não abusar de sua autoridade'' nem mostrar ''sinais externos de sua posição'', podem nos lembrar Mateus 23:10 ''Não façais que vos chamem mestres, porque um só é vosso Mestre, o Cristo'' (: contudo, observavam uma rígida hierarquia, e os poucos (quase nenhum) dos que se casavam, submetiam antes suas esposas a três anos de provas (: o Padre Roland de Vaux diz que no sítio arqueológico onde foram encontrados os Manuscritos do Mar Morto, havia remanescentes de uma antiquíssima parede israelita, de cerca de 700 a.C; a construção seguinte (acredita o padre de Vaux, foi iniciada no final do século II a.C (: a primeira sequência de moedas encontradas no local começa com Antíoco VII em 136 a.C. e passa pelo período asmoniano até 37 a.C. (cobre a época judaica e se estende até a ascenção de Herodes, o Grande (: as moedas seguintes começam com o reinado do filho deste rei, Herodes Arquelau (4 a.C. --6 d.C) e chega à 68 d.C; outra grande lacuna entre 68 e 132 d.C. , mas havia treze moedas que pertenciam ao período final de Bar-Kochba contra os romanos, em 132-135 (todas no mesmo nível do solo: como havia muitas moedas da época dos últimos reis judeus (João Hircano e Janeu), o padre De Vaux achou provável que o mosteiro essênio tivesse sido construído durante o reinado de Hircano (134-104 a.C) e ocupado no governo de Janeu (.) o período total da ocupação dos essênios teria se estendido do fim do século II a.C até o ano 68 d.C (.) ----- , eu ouvia atentamente o tio Estênio, embora já conhecesse o trabalho do padre De Vaux; apesar disso, havia uma semelhança fraterna entre nós, e murmúrios de erudição foram pronunciados na biblioteca depois do jantar, com conhaque ou os compridos copos de cerveja que Renata trouxe da cozinha; ela, por sinal, vinha folheando um álbum de pinturas do Quattrocento, cheio daquelas virgens moralmente rígidas e de meninos Jesus envelhecidos (como era tedioso e seco o que se fazia passar por cultura no mundo atual, no mundo do jornal e da televisão, como tudo era ''pretérito passado'', comparado à autêntica erudição , esse pequeno mistério encarregado de manter todos os outros mistérios maiores vivos como num quadro apocalíptico do qual se suprimiu o tempo. ---- Sabe, Seu Estênio, eu não sou um erudito, obviamente, mas como dizia Jorge Luís Borges: ''As extravagâncias, manias e afetações de transtocar a sintaxe e recorrer à sinônimos acabou relaxando, confundindo, reduzindo e invertendo todo tipo de diferenças irreais e estúpidas'' (: o ERUCTO sempre foi um favorito da etiqueta turca(: o eructo é a volatização daquilo que é sólido, histórico e morto(: a erudição é estar fora daquilo que é duro, seco e desidratado(: ''gastar o coração em favor da compreensão'' (: mas para o Dr. Angulo , um eructo é ''um peido vago que não quis chegar ao cu'' (.) ----, nós rimos, após o que o tio Estênio proseguiu: ----- Um dos mais eminentes estudiosos franceses, André Dupont-Sommer, da Sorbone, na época publicou dois livros sobre os pergaminhos do Mar Morto(: neles, procurou identificar duas figuras cujos nomes o texto nunca menciona, mas que evidentemente são de grande importância para a história da seita do essênios(: uma dessas figuras é o Mestre da Retidão, um sacerdote que recebeu revelações divinas e lidera uma comunidade cujos membros são pobres e se auto-denominam ''a Nova Aliança'' (: o mestre é chamado de Eleito de Deus (: ''um homem corajoso'' , nos diz David Flusser, um grande erudito judeu de Praga ''que enfrentava com dignidade sua derrota''(: e acrescenta: ''na moralidade do Mestre da Retidão não havia nada de Jesus, pois aquele sentia apenas ódio pelos inimigos e esperava que Deus o vingasse'' (: e certamente o momento de maior tensão na discussão dos Manuscritos do Mar Morto talvez tenha ocorrido quando A. Dupont-Sommer (prof. de línguas e civilizações semíticas da Sorbone e diretor da École de Hautes Études) leu um trabalho seu a respeito, onde afirmava que o Mestre da Retidão dos Essênios, fundador da seita dos manuscritos, era sob alguns aspectos um protótipo exato de Jesus, especialmente como um profeta martirizado , reverenciado por seus seguidores como o sofredor Servo do Senhor do Deutero-Isaías (o Segundo Isaías, autor desconhecido dos últimos capítulos do Livro de Isaías......................................................................................................................................................................................................................................................................................................................eu continuo ali, ao lado de Janice, reivindicando uma segunda morada na consciência dela, naquele quarto de hotel em São Paulo. Talvez ela não tenha ainda declarado a si mesma que me ama. Eu a convenci com certeza apenas de uma coisa, até agora: ao contrário dos outros homens que ela já teve, eu a convenci de que meu desejo por ela (apenas ela) é absoluto, que foi a existência dela que criou esse desejo em mim. Antes de mim, Janice tem consciência de homens que a escolheram para satisfazer desejos já enraizados neles, porque entre as garotas disponíveis ela era a que mais se aproximava daquilo que eles precisavam. Enquanto eu não pareço exatamente necessitado ou rastejante: convenci-a com o olhar de que o pênis que ergo no ar acima do seu rosto possui o tamanho, a cor, o calor que ele tem graças exclusivamente àquilo que eu reconheci nela. Quando penetro ela de novo, quando meu membro pulsante consegue chegar ao máximo do centro dela que a pélvis permite, em meu íntimo (ela também sente assim) sinto estar voltando à origem do meu desejo; o gosto do meu prepúcio (nela) e de uma única lágrima transparente de secreção brotada em cima da cabeça de ciclâmen, tornando sua superfície ainda mais agradável ao paladar dela que antes, é o gosto dela mesma encharcada em mim.........................................................................................................................................................................................................................................................................................................................(naquela noite, depois que o tio Estênio foi dormir, Renata acendeu um cigarro e disse que agora (além de pintora) ela queria ser também escritora; que estava escrevendo um DIÁRIO, mas tinha dificuldade de dar um formato inteligível às suas anotações. ----- Com o tempo elas tomam a forma adequada(.) ----, garanti á ela, e mais: ---- Só posso dizer que dos dezesseis aos vinte seis (hoje--- oito anos atrás) consegui dominar a vertigem das minhas (caóticas) anotações iniciais a ponto de poder começar minha viagem mentalmente (: e assim me encontrei pronto, uma noite, e alcancei uma rodovia onde as folhas levadas pelo vento eram , àquela hora, como um ataque de espíritos vociferantes(: em cada detalhe da viagem previsto com antecedência, nesse trabalho estético de compor uma jornada (antes mesmo de ter começado, descobri, no centro da minha vertigem, a própria calma da composição abençoada por Deus(.) -----, Renata fechou a porta do quarto atrás de si e tirou um caderno da gaveta da cômoda: no primeiro instante, vendo a tensão em seu rosto e a luz brilhante da inspiração em seus olhos, pensei que o desejo maior dela ali fosse me prender no quarto (para sempre: ela ficou de repente só de calcinha e sutiã, em pé rente à janela , folheando o caderno , olhando para os itens do quarto, movendo a cabeça de um lado para o outro, mas por tanto tempo que afinal compreendi estar ela exercitando os músculos do pescoço para aliviar a tensão. ----- Você não veio até aqui só para uma bebida, K(.) -----, ela disse, e acrescentou: ----- Mas pode tomar mais uma cerveja se quiser(... mas mais tarde, agora voce vai ler e comentar um pouco meus escritos(: nunca mostrei pra ninguém, só uns trechos pro meu tio(.) -----, acho que nunca tinha visto uma garota tão nova com um ar tão decidido (eu não podia saber para o quê, exatamente, ela estava nos preparando (antes de me passar o DIÁRIO, não sei por que, Renata começou a falar de um bar no qual tinha estado outra noite, e de uma sensação de privacidade quase clandestina, ao conversar com as pessoas que , mais tarde, transformaria em personagens desconhecidas. Um balcão de mármore na frente eriçava-se de aparelhos de cromo, torneiras e tubos flexíveis ; refrigerantes, sundaes e café expresso, além de cervejas do lado de fora, a fumaça azul dos cigarros pairando densa como o cheiro de sono e urina de um rodoviária qualquer ( o círculo de Renata, filhos e filhas da elite, excitava-se como torcedores de futebol em estádios, quando o assunto era política e militância. Ségio, cujo pai era fazendeiro na Bahia, recentemente havia mostrado seu radicalismo de esquerda passando do Malboro Light ao Hollywood Vermelho. ----- O socialismo não tem face humana(.) ----, argumentava Arnaldo Villar, magro e ascético filho de coronel, dizendo-se um anarquista ''muito além das fúteis beatices da esquerda'' (Renata, DIÁRIO). Continuou: ----- Se o socialismo assumisse uma face humana, desapareceria (: a ditadura do proletariado deve ter uma massa de robôs embaixo, e monstros no topo (.) -----, a saliva juntava-se nos cantos da boca quando Arnaldo falava, formando nojentas bolhas brancas. Renata tinha transado com Arnaldo algumas vezes, no primeiro período da faculdade, mas escreveu no seu DIÁRIO: ''Prefiro os playboys mesmo. O pênis de Arnaldo é fino demais, com tristonhas veias azuis e um repulsivo saco rosa- choque; e exige indignos esforços extras de qualquer garota para fazê-lo subir''. Renata cortou o relacionamento usando como desculpa as opiniões políticas dele; para ela, Arnaldo tinha absorvido mais do fascismo da família do que percebia, e sua suposta anarquia se aproximava da repressão militar. ----- Se existe um país que não precisa de anarquia, é o anárquico Brasil (.) -----, disse Sérgio, examinando o rosto de Renata por trás da nuvem de fumaça, dos vapores do café e do cheiro de leite azedo do sorvete derretendo-se nos pratos sobre a mesa. Renata e Sérgio ainda não tinham ido pra cama, mas havia ''negociações em andamento'' (Renata, DIÁRIO). Num protesto qualquer contra aumento de tarifas, ele estaria ao lado dela empunhando seu modesto cartaz anti-corrupção; numa aconchegante roda de maconheiros universitários, ouvindo João Gilberto ou Gilberto Gil , os lábios que ela encontraria colados nos seus, enquanto uma mão tateava por entre as fendas da sua roupa, seriam as de Sérgio e não as de Arnaldo. Sérgio tinha cabelos oleosos, grandes até os ombros , e era mais baixo do que Renata, mas ''sua altura não impediria que dormissem juntos'' (Renata, DIÁRIO). Renata tinha ainda dezoito ou dezenove anos, e sua vida parecia estar cada vez mais vazia, na companhia daquelas pessoas: ''Vazia, não plena'' (Renata, DIÁRIO). Ela continuava à deriva, dentro de sua mente, lendo Nietzsche e Rimbaud (aquelas filas de incômodas letrinhas pretas arranhando os olhos, exigindo que relesse ou reescrevesse seu diário várias vezes até que algum tipo de sentido saltasse num esguincho, como um bebê feio e barulhento --- ''Talvez meu futuro não esteja mesmo na palavra escrita'' (Renata, DIÁRIO) ''mas, FODA-SE(!)'' (idem). De fato, parecia estar mesmo na estranha música de sua alma e no fluxo de imagens (letras como cortes, apenas: uma imagem deslizando para a outra, na linha de fuga: das novelas da tv às partidas de futebol (ela adorava), e dessas aos encontros com os amigos e às aulas de arte, até chegar àquele DIÁRIO. De repente, Renata acendeu outro cigarro afobadamente e disse: ---- Não sei o que me deu, para escrever tudo isso (agora, ela me entregou o DIÁRIO), podia lhe explicar algumas coisas antes de você ler, mas não quero influenciar sua opinião (: talvez você seja bastante perspicaz para adivinhar o que está acontecendo comigo (.) -----, olhou-me agora dentro dos olhos, apreensiva. Podia-se dizer muitas coisas sobre Renata como 'escritora'', emanava dela uma pressão espiritual constante, assim como acontecia comigo. Li as primeiras cinco páginas, e ela me interrompeu: ----- Esse garoto, Arnaldo Villar, lhe pareceu ser uma bicha(?) -----, fiquei em silêncio por algum tempo, e respondi: ----- Talvez seja do tipo que lave as mãos depois de fazer amor, mas não diria que é bicha(.) -----, ele estava certamente apaixonado por Renata. Acrescentei: ---- Lendo aqui, diria que ele gostou muito do que você tinha a oferecer e começou a ficar exausto, com os obstáculos que você foi criando para ele(: talvez você seja mulher demais pra ele, não sei (.) -----, nossos olhos se encontraram com uma franqueza palpável: nós dois nos lembramos da mesma cena, no quarto dela, em São Paulo. Renata olhava o quarto agora como se estivesse classificando os móveis e contando as gavetas do armário, queria que eu continuasse a leitura logo : era desagradável ver a pressa e a ansiedade através dos seus olhos, logo refletida no DIÁRIO. A expressão ''bicha degenerada'' parecia ainda estar fervendo nos lábios dela, pensando em Arnaldo (DIÁRIO, 26 de maio de 2008: ''Acabo de mergulhar num volume de versos de Arthur Rimbaud; conheço ainda pouco de poesia e música clássica, mas sei do que gosto: gosto de Saint Saens e Vivaldi, e Sibelius, e sei que gosto dos poemas de Isabel (colega de faculdade). Escrevi para ela, por e-mail: ''Gosto dos seus poemas porque tenho vontade de lhe escrever e fazer você se contorcer de tesão por mim, SUA CADELA(!) '' . Mas sei que Isabel não gosta muito do meu lado vulgar (existe outro?); ela já transou com Sérgio e agora quer transar com Arnaldo só para ver como é, mesmo tendo eu , num ataque de risos e indiscrição, dito como ele era na cama. Ela me disse, depois: ''Acho que você romantiza os garotos, Renata (: nós fazemos isso inconscientemente, para nos poupar a culpa pela abissal condição deles''. Ana Cláudia (outra colega de curso) , com seu estranho corte de cabelo andrógino, tingido de siena, e aqueles minúsculos óculos de aro metálico na ponta do nariz de botão, disse: ''Assim também parece romantizar um pouco a sociologia moderna, seguindo Gilberto Freyre, nosso mestre da presunção(: o próprio Marx era um romântico(: ele pensava que o proletariado era um Super-Homem nietzscheano, quando na verdade não passa de um bando de coniventes e mesquinhos bebês chorões aproveitadores (: os comunistas sempre buscaram encobrir a opressão de suas sociedades com mitos glamourosos (: Castro, Mao, Ho Chi Minh são astros de cinema, como Mickey Mouse e Gary Cooper em pôsteres ---- (he he... gosto do poema de Isabel intitulado ''FARTA'', nele está Isabel todinha, da cabeça aos pés, grudada como um carrapato no papel, nervosa como sempre, preocupada consigo mesma, terrivelmente enclausurada: '' Bem, eu estive presa / Você conhece o pôr-do-sol de lá(?) / Falo da beleza do arco-íris que se vê quando estou farta / Os versos trazem vivos os meses ricos / Repletos de sexo lésbico e desperdício de dinheiro / Que passei no verão,com nossos colegas valentões da seita / Eles tinham pêlos por dentro / E um fogo bem aceso / Brilhando através do seu couro / Aquecendo o ar do verão...................................................................................................................................................................................................................................................................................................................(DIÁRIO, 17 de julho de 2008: '' Nauseada. Vim à São Paulo buscar uns livros que deixei pra trás. Nauseada como numa dieta de doces (preparada para o dia? NÃO. Na rua, eu contava as ruas transversais. Arquejava, parava, fumava de novo e tossia mais. As costas suadas por baixo das alças da mochila. A noite já era o dia seguinte: ''Casal branco e jovem em busca de fim de semana divertido. Nada de esportes radicais ou práticas sadomasoquistas. Mande fotografia com envelope para resposta...............................................................................................................................................................................................................................................................................................................(DIÁRIO, 23 de julho de 2008: '' Rápida visita do tio Estênio. Voltou pro Rio hoje. Meu pai, na iminência de voar ele próprio para uma conferência econômica de quatro dias em Santiago, me chamou no seu escritório. Me ofereceu vinho branco. Recusei , e ele se permitiu um arrepio esnobe: -----Conhaque, então (?) Napoleon(.) ----, relutantemente, me serviu o elixir francês. Quando o gargalo da garrafa cessou, ele pigarreou e disse: ---- Querida, meu dever de pai me obriga a levantar uma questão delicada (: é sobre meu irmão, seu tio Estênio(: não posso deixar de notar que existe entre vocês dois uma excepcional sintonia, talvez apenas afeto e familiaridade(.) -----, pisquei com o gosto áspero do conhaque, e pensei: ''Ele é o meu verdadeiro pai, seu idiota(.)''. Mas meu pai tornou a permitir-se um arrepio. Quando fechou as pálpebras, a pele de veias finas logo abaixo delas contorceu-se, como a membrana nictante e um rã. ----- Seja franca comigo, Renata (: algum dia meu irmão abusou dessa proximidade que existe entre vocês dois (?) -----, talvez meu pai tenha conseguido, com isso, tocar no único ponto de inocência que ainda restava dentro de mim, e destruiu-o. Náusea. Vergonha. Um véu vermelho impregnando a infância, obscurecendo os detalhes. ----- Sempre me deu beijos de avô(.) ----, respondi.............................................................................................................................................................................................................................................................................................................(DIÁRIO, 05 de agosto de 2008: '' Conheci um garimpeiro num bar, novo como K. Lembrei de K. Alguma coisa se mexendo em meio à indefinição das minhas lembranças. Virgindade. Toque. Sondagem. Morte. Ressurreição. Meu rosto aquecido no seu ''fogo''; eu o seduzi indiscriminadamente, desde o primeiro segundo, mesmo sendo virgem e ele rodado como um prostituto. Fiz ele desempenhar o papel de prostituto comigo. Obrigada, K. '' A gente não simplesmente cresce e aumenta a experiência, mas vai perdendo egos anteriores'', K me disse uma vez. Quanta coisa o garoto perdeu pela estrada. Que olhos mais sem fundo. Parecia já ter visto de tudo na vida. ''Ei, benzinho, que tal você e eu no seu quarto hoje à noite (?)''. Os escritos dele me trazem muitas recordações. Me traz de volta à lugar nenhum... Neles a fogueira que aquecia meu ar sensual. Vara gotejante, mas talvez seja melhor esquecê-lo (não vai voltar: não é um garoto da força aérea passando um mês num porta-aviões perdido em alto-mar: nos meus sonhos, eu o vejo casado com uma garota loira e rica, numa cobertura diante do mar da Bahia (acho que bebi demais , por hoje. Estou, toda flores reversas recolhendo e derramando a flama velada / cada pétala põe seu fulgor sobre outra pétala /ELE NÃO VOLTA MAIS / pétalas radiantes de luz transverberada / NUNCA MAIS / transitando com a idéia posta em NADA / NEVERMORE / acelerando o passo sem palavras. Muito bem, sem mágoas. Também viverei com alguma beleza loira. Descobrirei energias pessoais que nem imagino existirem dentro de mim. Sabe qual é o segredo? K tentou me explicar, mas não entendi muito bem...............................................................................................................................................................................................................................................................................................................(naquele momento, interrompi a leitura do DIÁRIO e coloquei ele de lado, após elogiar o poema dela; fui até a janela fumar. Acho que nós dois fizemos um esforço para não nos olharmos nos olhos, mas nos olhamos assim mesmo. ----- Não cabe à mim fazer um discurso , certo(?) ----, eu disse. ---- Porque está dizendo isso(?) ----, ela perguntou. Agora eu precisava chegar outra vez ao nível de concentração que tinha alcançado ao longo da leitura, mas minha mente já divagava como o vento. Não sabia se pensava em Joana, Sabrina, Beatriz ou nela. Então, me envolveu a imensa tristeza de pensar em uma garota que eu tinha começado a amar, no amor que morreu e que não precisava ter morrido. Pensei nela e no meu próprio caderno na mochila, em palavras escritas há dez anos; eu tinha dezesseis quando as escrevi (?), sim, e tinha valido à ''pena'', literalmente, ''a mão que segura a pena é tão poderosa quando a que segura a espada'' ( quando não se é mais uma pessoa, mas uma coleção de fragmentos, cada um diferente do outro, o ato de ler algo que se escreveu há muito tempo, quando se estava repleto de identidade, pode reunir os pedaços por algum tempo, e pode-se RESPIRÁ-LOS , como ensina Castaneda ( withdrawalk, freaks!), reunindo todo o disperso para considera-lo SIMULTANEAMENTE; a potencial consideração simultânea, instalação no não-tempo e reunião de todo o material psicológico disperso através da recapitulação dos eventos da vida ou recordação de si, nesse ‘’MINUTO LIBERADO DO TEMPO de PROUST’’. Mas Renata logo cobrou-me um resposta: ---- Então, o que achou do que leu até agora(?) ----,
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