quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

CAPÍTULO 12

----- Gostei muito do que li (eu disse à Renata ---) , sinceramente (: você sabe mesmo examinar ''superfícies'' de forma minuciosa, como John Updike (: adjetivos exigem precisão, e além do mais, John também era pintor, como você (: a publicidade alimenta-se de adjetivos(: ''uma nova embreagem super-eficiente, silenciosa, sensual, com cinco velocidades, etc'', coloque vinte adjetivos na frente ou atrás de um nome e ninguém vai saber que estamos descrevendo bosta de cachorro (: e pelo menos uma única vez na vida (tenho essa teoria) um escritor (a) deve ser capaz de guiar seu leitor ao interior de uma vagina (o aveludado do mel na junção fechada da colméia, etc) -----, Renata nao se deu por satisfeita com meus cometários, e disse que eu me escondia atrás daquela 'embromação' , só para não ter que emitir um verdadeiro juízo de valor sobre seus DIÁRIO. ----- E você já guiou seus leitores ao interior de alguma (?) ----, ela me perguntou ,ainda contrariada. ----- Você já leu algumas coisas que eu escrevo, certo(?) ----, respondi. Apesar de tudo, trepamos, à princípio com Renata de quatro , as magras nádegas empinadas parecendo lisos e oleados arcos de mármore italiano, e depois com ela por cima, eu recostado no travesseiro contra a cabeceira acolchoada da cama (os lábios roçando o mamilo esquerdo no círculo rosa toda vez que o seio passava pelo meu rosto; ela subia e descia, um cilindro no meu pistão. Demorei um pouco a gozar no pegajoso envolvimento da camisinha , e quando consegui, Renata deu um sorriso de satisfação quase profissional. Quando ela saiu de cima de mim, ouviu-se um pequeno som de sucção num dos cantos de mínimos pêlos, e ela disse: ---- Você leu no meu DIÁRIO, mas não sei se ficou claro(: recentemente , acrescentei um romance lésbico ao meu currículo(: delicioso e reconfortante, mas um pouco sem fibra(: e ela vai estar aqui amanhã(: sabe, acho que isso me ajudou a perceber o que os homens de fato vêm nas mulheres, ou não(..) ----, eu não estava certo de que acreditava na história dela, mas assenti com a cabeça e disse, só por dizer: ----As mulheres são energia divina(: sem Shakti, Shiva é só um cadáver(: as mulheres realmente tentam o peregrino a  descansar da busca e por essa razão que os homens santos revelaram , ao longo da história, a tendência à evitá-las(: os homens santos, não os DEUSES(: Zeus, Cristo, Buda adoravam as mulheres, e praticavam moderadamente a FODA tântrica com elas, ao contrário dos seus seguidores- filósofos (: nesse momento, por exemplo , estou imaginando as diferenças entre as descrições que fiz de tantas vaginas e essa na qual estou pensando agora (: e uma vez que ela está aqui ao meu lado, tudo que tenho a fazer é estender a mão direita e sentir com a ponta dos dedos o úmido objetivo correlato (: e se tento descrever mentalmente a sua agora com palavras escolhidas, crio um padrão único de prosa na grande praia da literatura culta(: assim, eu não perderia tanto tempo na descrição dos mínimos pêlos em volta da sua, escuros contra o branco da sua pele (: e ela tem uma pequena boca rosada dentro da boca maior (flor arquejante no orvalho dos seus calores, que, quando excitada, parece crescer pra fora das nádegas, enquanto a pequena boca permanece rosada, por mais que você escancare as pernas ( a grande boca fica coberta de secreção oleosa, e o períneo é uma plantação cintilante (fico sem saber se como, devoro ou apenas me estabeleço nela tantricamente (: não me movo, por um instante, apenas você, e bem devagar(: seu abdômen, seu útero é você(: muitas mulheres sentem vontade de rasgar as costas dos homens com as unhas, ao fazer sexo lentamente (: toda essa gama de prazeres saponáceos, untuosos e lúbricos é fruído mais nitidamente, em câmera lenta(: sua avidez, sua busca pelas trigueiras ambições do Cosmo (: e só Deus sabe por meio de que desígnios do Carma meu prazer foi realizado pelas suas entranhas agora há pouco(: sua vagina se tornou mais real para mim do que seu rosto (.) -----, Renata olhou para mim como se perguntando se eu seria realmente capaz de escrever essas coisas a seu respeito . ----- Talvez eu não seja tão boa para retribuir à altura, e saber descrever com justiça e arte o que realmente estou sentindo (.) estou me sentindo bastante bem fodida(:  você estava necessitado, hein(?) não tinha mulher no garimpo(?) ----, ela perguntou, por fim, e subitamente os portais dentro da minha memória despejaram uma luz elétrica doentia num amontoado de pessoas adormecidas no chão entre trouxas e bagagens: aquela rodoviária de São Paulo parecia um focinho, naquela noite, cheirando o vasto interior do país, esticado até a borda da metrópole: na noite em que fui embora de São Paulo , a rançosa umidade do sono humano elevou-se dentro do piso, em meio à cabeças cansadas numa dança de torções: os caipiras haviam enchido os desvãos por trás de escadas e bagageiros: o que à primeira vista me parecia cantos cheios de lixo revelou-se serem pessoas adormecidas cobertas com sacos, jaquetas e jornais, como proteção contra as luzes intensas e piscantes. O guichê, naquela madrugada, iria abrir em uma hora, e a fila já era longa. Nela, viajantes de terno amassado e estudantes de sandálias, barba, rabo-de-cavalo e camisetas com foto de Che Guevara misturavam-se aos caboclos e sertanejos pobres do interior, que tinham sido atraídos para São Paulo como cães famintos à carcaça já comida de um boi. ----- Na noite em que nos despedimos, eu nem sabia direito pra onde ir(: as prostitutas são apenas mulheres negociando um produto de mulher, uma situação de mercado(: as rainhas da sociedade, as Grace de Mônaco, apenas negociam em condições diferentes(: kkkkkkkk(!) brincadeira, não penso assim, de jeito nenhum(.) ----, eu disse, rindo. Talvez ela já não estivesse me levando à sério desde o começo. ----- Isabel não é uma prostituta, K(.) e da última vez que eu a vi, na semana passada,  ela estava com uma aparência fantástica, de jeans lilás e jaqueta de brim tingida para combinar com a calça e um lenço lilás no pescoço, como um para-quedista inglês (: agora, ela passou a fumar cigarros coloridos numa longa piteira de marfim e sua cabeleira continua espetacular e flamejante; olhos pretos como petróleo e uma pele leitosa, ligeiramente sardenta, que me enche de tesão, quando ela diz que ''não existe vida inteligente no Brasil desde que Gilberto Gil parou de fumar maconha''(.) ----, bem, de certa forma, Renata estava me preparando para a noite seguinte, quando aquele apartamento de político se transformou no epicentro rabelesiano de um Natal tecno-xamânico de primeira linha: como poderei jamais abrir essas palavras para libertar seu significado original e ainda em potencial? Todas ainda estão aqui comigo em sua própria hora e ao mesmo tempo: é uma questão de suprema indiferença para mim se a doce garganta vociferante era ainda a dela ou já a minha; e aqui, agora, deixe a palavra soberana alcançar sua soberania. Não importa mais de quem seja o quê: todas as partes são UMA, e eu junto-me à elas , e ponto (s) (é assim... que os sons se dispersam numa página como essa. ----- Ah, não (: NÃO (.) ----, positivamente (ela disse: ---- O quê(?) ---- (perguntei) ---- Positivamente isso foram passos do lado de fora, no corredor (.) -----, de fato. ---- Agora alguém está mexendo na porta (.) ----- (tio Estênio!) ---- Nossa, K, que é que eu faço(?) -----, de fato. ---- Ele está entrando (: rssss(.) ---- (sons amplificados de batidas e arranhões como se uma gaveta fosse aberta e fechada várias vezes; conversa subsequente fraca e aqui transcrita com dificuldade; voz masculina alcoolizada grifada abaixo como 'anteriormente': ---- Perdão (tio Estênio disse), acordei só para fumar um cigarro e dormir de novo, mas acabaram os meus (: será que podiam me arrumar alguns(?) -----, Renata concentrou toda sua ternura na voz e rolou alguns cigarros até ele, rindo ( ri também: quando ele bateu a porta, ouvimos um tropeção do lado de fora (ela ria, ria (CORTA ---- Dormi bem, e profundamente como uma pedra, mas juro que ao acordar (às 05:37 da manhã) eu tinha certeza absoluta de que era uma das primeiras pessoas de pé naquela hora num raio de quilômetros, de modo que experimentei a cena com a qual me deparei na sala do apartamento  como uma desconcertante visão mística, apocalíptica, que anunciava como uma trombeta ensurdecedora o que seria nossa noite de Natal. Acordes de violão suaves; duas vozes completamente bêbadas, agudas e fracas, desenhando no ar algo parecido com uma melodia de samba antigo. No sofá da sala, só de cuecas, tio Estênio (ele não tinha dormido) segurava  um violão apoiado numa coxa incrivelmente magra e peluda, enquanto na outra havia a cabeça de uma loira precocemente envelhecida e borrada de maquiagem, esticando o pescoço para ler uma letra de música num encarte de vinil, na barriga flácida dele. ---- Bom dia (.) ----, eu disse, estupefato, e imediatamente ele me saudou com os versos iniciais do famoso samba de Ismael Silva: ---- ''É necessário uma viração pro Nestor / Que está vivendo em grande dificuldade'' ( ----- eu ria;  ainda protegendo o rosto com o encarte do vinil, a loira começou a silvar, um ruído estranho, que saía por entre os dentinhos amarelados virados para dentro, até saírem as primeiras palavras: ----- ''Ele está mesmo andando na corda bamba'' (.) -----, ela disse, completando a canção, e apontou o tio Estênio com o polegar, rindo. A resposta dele foi uma histriônica expressão vazia. Porém, ela (Luciana) prosseguiu: -----Você tinha  um emprego babaca de jornalista num grande jornal do país, e virou um cara tão frouxo  que não conseguiu mais nem sequer segurar o traste da sua ex-mulher (.) -----, tio Estênio parou de dedilhar o violão e a agarrou pelo pulso, que era frágil como giz. Senti que, mesmo  no tom lúdico daquela discussão, ele teve vontade de quebrá-lo, ou senti-lo estalar duas ou três vezes, doídamente, e depois manter Luciana absolutamente imóvel e muda em seus braços , durante meses (falando sem parar nos ouvidos dela) até o pulso dela ficar bom. ---- Escuta aqui, eu ainda ganho meu próprio dinheiro como ''frila'', milhares de reais de cada vez, e é esse dinheirinho que vem sustentando você e eu (: mas se por acaso você quiser voltar a viver às custas dos seus amigos da esquerda caviar, pode ir (: aliás, estamos no apartamento de um deputado da base (um líder do partido(: pode ir, vá embora, ou espere meu irmão chegar e capriche na língua(: quanto à minha ex-mulher (deixe ela em paz!, ela dava o rabo melhor do que você me dá a buceta (.) -----, para mim, era indescritível o ar cômico e experimental com que eles discutiam diante de mim (tinha certeza que só estavam falando daquele jeito por que tinham à mim como platéia: ---- Dar o rabo pra você não é vantagem , pelo menos ela não tinha que olhar pra sua cara(.) ----, o tom de Luciana era tranquilo, apesar de tudo, tranquilo e superior. ---- A propósito, esse é o K(: K, essa é a Luciana, minha namorada (: o K é o mais novo ficante da minha sobrinha, conheci ele ontem e fiquei sabendo que ele é garimpeiro e escritor(: no mínimo, um tipo em extinção, hein(?) -----, tio Estênio disse, e a discussão com Luciana subitamente se desintegrou o ar. Ela se levantou e veio me cumprimentar: ----- Raro mesmo, comparado com essa putada esquerdista acadêmica de hoje(: eu tenho nojo dessa garotada rica e tagarela , tanto dos seguidores acefalados do Olavo de Carvalho , quanto dos acadêmicos, quanto dos que ficam jogando pedras nos pobres dos policiais (: esses babacas vivem protegendo a grana que os pais desses riquinhos juntaram passando o proletariado pra trás(.) -----, de novo, após ela concluir, o tio Estênio apertou-lhe o pulso de giz com mais força, enquanto falava: ---- Ah, olha pra você, Luciana(: você é já um bagaço amargurado, menina(: quarenta anos de idade e já virou um bagaço(: já provou de tudo, não tem mais medo de nada, hein(?) e não compreende mais porque as coisas estão tão mortas, no mundo (.) porque toda inciativa polítizante rapidamente  se torna patética(.) no seu ex-petismo de rebanho, você acreditou que ia mudar a porra do mundo(?) com todo esse medo de mudanças disseminado no povo(.) o próprio Lula chegou ao poder dizendo que não mexeria muito em nada(.) com toda essa paralisação de classes-médias sem finalidade, segmento aderido à burguesia ou defecado por ela, um pouco mais embaixo, reduzidos à função de objetos inanimados (.) -----, agora, ele lhe aperta o pulso até imaginar as silhuetas dos ossos se curvando, e ri. ---- Chega de medo, então(: vamos tentar o amor, pra variar(.) ----, Luciana diz. Tio Estênio responde, súbito: ----- Então é melhor você procurar outro universo(: a lua é fria, menina(: fria e feia, aqui (: e se você não está a fim de olhar fixo essa feia lua em forma de foice, os petistas estão(: eles não são tão sensíveis quanto você(: para eles, a lua é uma COISA, como voce e eu (no máximo, o abismo entre Estado e Sociedade(: eles governam apenas o poder, não o país(: um triste amanhecer que nunca alcançará a plenitude do meio- dia(.) ----, e assim, com uma risada sem graça, Luciana continuou esfregando os pulsos, a mão ligeiramente doída. Fisicamente, aquele casal me fascinava como uma única criatura bicéfala saída de um filme de terrorismo dostoieviskiano: fiquei parado , imóvel, diante deles. Sem concordar nem me mexer, eles olhando pra mim em busca de algum indício de posicionamento: ora! não acreditem em mim, senhores: sou um poeta de esquerda, de direita ou de centro, de acordo com quem eu esteja conversando: ''Hypocrite Lecteur, je suis un Hypocrite Poète''. Participar seriamente do debate político de hoje em dia, pra mim, é aceitar a condição abjeta de COISA . Os olhos de tio Estênio estavam fundos e brilhando como radiação (Meu Deus, pensei, ainda são só 06:30 da manhã). ----- Deixe eu pegar mais uma cerveja (: você aceita  uma, K(?) ----, agradeci, mas disse que guardaria forças pra noite de Natal . ---- Quero chegar vivo, obrigado(: não foi Jesus quem disse: ''Nosso Deus é um Deus de vivos, não de mortos(?) ---- eu falei, e acendi um cigarro. Aquela falação parecia que não teria fim tão cedo: ---- Sob qualquer ponto de vista, só há degradação e coisificação sob o governo do PT(: tampouco acredito que o PSDB faria algo melhor(: incapazes de comandar uma vasta empresa cultural , única coisa capaz de desenvolver uma nação, toda essa farinha do mesmo saco (PT e PSDB) seguirá girando em torno de 'minorias aristocratizantes' do aparelhamento estatal, em cima, com a atuação desorientada de uma classe-média amorfa e medrosa, embaixo(: o resto simplesmente não conta, não existe(: o Estado jamais deixará de ser um ''núcleo colonial'' inflado com os hormônios da corrupção e um vasto rebanho de tecnocratas autômatos em perpétuo retrocesso(.) -----, de fato, eu comecei a rir na janela, depois que o tio Estênio disse aquilo e comentou que Luciana trabalhava com moda (---- O quê?!) ----, perguntei, achei que ele estava de sacanagem: não conseguia imaginar uma criatura humana mais desprovida de estilo no mundo: ---- A propaganda seguirá a mesma, para sempre(: falando no nego graduado e feliz, comendo melancia diante de um tablet, e agradecendo ao Sinhô Vermelho e Barbudo (que não é o Papai Noel) por impedir que algo diferente e assustador (como um paradigma cultural elevado) venha estragar seu plano existencial bovino (: porque nem Jesus disso isso pra eles, porque o Jesus que eles inventaram aqui é o Jesus mais sacana que Deus já soltou nesse mundo(: é o Jesus do medo, eis tudo(: eu tenho medo de você, você tem medo de mim, a Luciana tem medo de nós dois , e a pobrezinha da Renata tem tanto medo de tudo que é bem capaz de se afundar nas drogas pra se esconder desse mundo horroroso se a gente não proteger ela direito, caro K(.) e como disse Hitler: ''O cristianismo que resta por aí é só uma religião de maricas'' (.) -----, seguia ouvindo em silêncio o tio Estênio, afagando a testa, tentando apagar aquele zumbido que talvez surja na cabeça dele de vez em quando. Era sem dúvida um homem inspirado por um estranho tipo de entidade. Continuou: ----Nesse livro aqui ----, ele disse, tirando um livro de uma mala de couro no sofá, chamado Los Deshabitados, de Marcelo Quiroga Santa Cruz , o maior parlamentar boliviano do século XX, que morreu assassinado em função da violência das suas críticas ao regime---- Esse livro aqui resume bem o que estou dizendo(.) ----, era por sinal um romance que eu admirava, talvez o melhor fruto do modernismo literário boliviano: nele, os personagens se caracterizam pela incapacidade de exercitar a função humana de produzir e desenvolver uma sociedade, em meio à acontecimentos políticos anômalos que refletem a intranscêndecia do cotidiano dos cidadãos. Ele prosseguiu: ---- Aqui, Quiroga Santa Cruz mostra um sistema dissolvido em movimentos sem sentido de corpos que vagam pela cidade desolada, retratando fielmente o comportamento desequilibrado das classes-médias pós revolucionárias de 1952, na Bolívia(.) ----, de fato, aquilo me motivou a participar mais ativamente da tagarelice matinal: ---- Certamente, e um retrato fiel do que vem acontecendo no Brasil desde 2002, devido à intensificação do esgotamento cultural sob o governo do PT(.) ----, o tio Estênio, agora, estava tentando gargalhar com cerveja na boca (que estranho! ----- Porra, isso é demais (!) grande K(!) aprazíveis despojos de uma guerra perdida, certo(?)  ----, com o livro colorido na mão, ele olhou pra mim, rolando um cigarro nos dedos, em busca de uma réplica: ---- De fato (eu disse) não há saída (: o Sr. me perdoe a economia de palavras, mas acordei meio burro hoje(.) ----, concluí, debruçando-me na janela, sentindo vontade de voltar para a cama, ao lado de Renata , e dormir até a hora da festa de Natal. De repente, emergindo do abraço maciço do sofá, estendendo uma mão fina e trêmula para pegar o isqueiro da mão do tio Estênio, Luciana disse ( em sua voz não havia o mais leve tom de paródia, dessa vez: ---- Sei lá, acho que mais cedo ou mais tarde, alguma coisa vai acontecer, de qualquer jeito(: certamente não serão  os negros quem vão soltar as bombas, mas os filhos dos brancos ricos(: não será mais a injustiça batendo em nossas portas, mas o ÓDIO, a IMPACIÊNCIA e a INTOLERÂNCIA (: se você põe a sociedade inteira como ratos dentro de uma gaiola de aço soviético, os ratos gordos ficam mais nervosos que os ratos magros, porque eles é que se sentem mais espremidos e oprimidos(.) ----, he he, sublime piada essa, nunca vai acontecer nada disso: por falar nisso,  havia uma intenção notória no livro de Quiroga Santa Cruz para separar o consciente do inconsciente, por reprimir este último e afastá-lo da consciência discursiva e do ''controle reflexivo da conduta'', de que fala Anthony Giddens; assim, os personagens de Quiroga Santa Cruz se viam de fato incapacitados de obter aqueles controles de ansiedade que necessariamente ordenam a constituição da personalidade. A materialidade distorcida da história se atém à falta de confiança que a classe-média tem na continuidade ou não do seu mundo exterior e na manutenção ou não de vagos privilégios, mesclando a tragédia e o fracasso cultural dessa mesma classe-média sem destino com a distorção grotesca de uma ordem social essencialmente perversa. ---- Você tem vontade de saber como um negro de classe-média se sente no Brasil de hoje, K(?) ----, tio Estênio me perguntou. ----- Não muita, rss (.) ----, respondi, rindo , o que suscitou um protesto de Luciana e uma estrondosa gargalhada no tio Estênio. ---- Ah meu Deus, parem com essa idiotice(.) ----, ela falou. ---- Amigos, acho que vou dormir um pouco (: segundo tempo, certo(?) ----, nenhum deles protestou ou ficou ofendido com minha retirada, mas o tio Estênio, na sua incansável agitação bêbada, perguntou de novo: ---- E o que você acha daquele pessoal de São Paulo, amigos do meu irmão (?) ----, não entendi: ---- Que pessoal(?) ----, perguntei: ---- Todos aqueles caras do partido, ou ligados ao partido, vivendo do partido de algum modo(: vivendo naqueles casarões enormes , estilo pseudo-Tudor, da elite branca e vermelha, amarronzada até, verde sei lá, com carrões coreanos parados na frente dos canteiros de hortências(?) aqueles gorduchos que controlam a verba do partido e os institutos de magia negra marxista, que antes eram sindicalistas magros ou donos de firmas de consultorias e agora têm um monte de papéis suspeitos que garante à eles os cargos de confiança, os charutos cubanos e convites para dar palestra para o empresariado ligado à eles por ratearem os grandes contratos públicos (: o que acha deles (?) pense antes de responder, pode ir dormir (.) ----, e eu fui mesmo: ---- Pensarei, alcaide (: salam(.) ----, ''pensarei porra nenhuma'', disse comigo mesmo, entrando no quarto de Renata (CORTA ---- nada de proêmios, prólogos, prefácios e rodeios introdutórios: quando acordei de novo, já eram nove horas da noite, o que me fez suspeitar que toda aquela discussão com tio Estênio e sua namorada tivesse sido um sonho. Renata não estava mais na cama, ao meu lado, quando abri os olhos (tomei banho e passei perfume, antes de chegar à sala e visualizar a figura exótica de Isabel, sentada no sofá ao lado de Renata, conversando com tio Estênio e Luciana (o tom acusador com que ela me cumprimentou fez com que eu sorrisse espontaneamente: na lenta contrariedade com que expôs os dentes perfeitos, ela me olhou novamente, dessa vez impressionada com algo no meu rosto (eu sabia o quê, mas não vou explicar) , e pareceu reconhecer em mim agora um amplificador do seu melhor e mais profundo eu. A testa dela, muito quadrada, era alta como uma barricada erguida acima dos olhos fundos, nadando tristonhamente em seu próprio pretume de piche líquido. Ela estava tentando concluir um pensamento, para o tio Estênio: ---- Acho que o Brasil é não romântico o suficiente, mas só pra ser a bosta que é(: por exemplo, vejam quem foram nossos revolucionários(: um dentista que escrevia maus poemas e o filho regente de um rei procurando manter-se no cargo (: há um certo pragmatismo nisso tudo que lembra os esquemas de corrupção do PT e sua sub-intelectualidade parasitária, certo(?) ----, o tio Estênio fechou e abriu os olhos (vermelhos, estranhamente vermelhos, supus) e só então pareceu me ver ali parado, em pé, afagando a nuca de Renata no sofá. Luciana estava na cozinha, preparando um chester apimentado e comendo os quitutes que Isabel trouxera numa cesta de piquenique. Pelo clarão de um momento, todos ficaram calados, esperando o tio Estênio dizer alguma coisa. No fulgor dos rubros olhos pasmos dele, pareceu duvidar de que me conhecesse. A emoção nos olhos dele parecia um estranho tipo de pânico mudo. ---- Está sentindo alguma coisa, Seu Estênio(?) ----, perguntei, intrigado. Para surpresa de todos, ele disse: ---- Estou me sentindo esquisito(: acho que comi alguma coisa estragada(.) -----, subitamente, Isabel pulou do sofá e exclamou: ----Ah meu Deus, o Sr. por acaso comeu algum pedaço daquele bolo na frasqueira azul (?) ----, Renata trocou um olhar conspirador e sarcástico com Isabel, na outra ponta do sofá, enquanto que junto de Luciana o tio Estênio fitava com olhar vítreo o chão, esperando que o marxismo lhe dissesse o que fazer. ---- Comi(.) mas o que tinha de errado com ele(?) estava uma delícia, e eu estava precisando ingerir um pouco de glicose(.) ----, nesse instante, Renata dobrou-se sobre si mesma, de tanto rir, batendo as palmas das mãos nos joelhos com força. ---- É um bolo de haxixe(.) ----, Isabel disse, tentando rir calmamente, sem parecer perversa. ---- Não diga(!) ----, exclamei, rindo junto com elas ---- Acho que vou aceitar um pedaço e me juntar ao tio Estênio em seu transe natalino (: não é Amanita Muscaria, mas é haxixe, certo(?) ----, disse eu, fui até a cozinha e apanhei um dos maiores pedaços do bolo e comi; em menos de um minuto, compreendi o que era comer um bolo de haxixe: olhei pela janela e a cidade lá fora me pareceu uma gigantesca árvore de Natal desfocada ao ar livre da noite. A voz do tio Estênio subiu de tom, ao ouvir minhas palavras entrarem em seu cérebro com um considerável atraso: ----- Sabe, minha sobrinha querida e diabólica, eu adorei conhecer esse seu amigo(: ele reavivou em mim, hoje cedo, a certeza de que o capitalismo não vai durar nem mais uma década, e de que ele levará embora consigo todas as religiões populares que ainda existem(: acho que a religião (não a espiritualidade) já está tão morta quanto afirmavam Marx e Mencken (: há todo um tom sombrio e apocalíptico nas ruas desse dezembro, e nas estatísticas que nos chegam pelo jornal , que vem fazendo os cânticos de Natal parecerem obscenos(.) -----, o cabelo ondulado e desgrenhado do velho tinha um castanho suave que naquele momento não estava mais parecendo tão cinzento quanto de manhã. ----- O tom obsceno dos cânticos natalinos (eu disse) , pelo menos, eu creio ser devido à re-midiatização de Santa Claus ( o Papai Noel) pela magia negra da Coca-cola(: a origem dessa figura emblemática (Santa Claus), que cruza os céus do mundo com a celeridade de uma divindade do raio, data de uma tradição sagrada muito antiga, relacionada ao xamanismo (: a Coca-cola parece ter convertido num ícone de fantasia consumista obsceno o Santa Claus, uma figura xamânica do norte da Europa(: esse mito possui elementos xamânicos ligados ao consumo da Amanita Muscaria (o fungo alucinógeno preferido das renas daquela região) e o Axis Mundi  (o Eixo Cósmico) através do qual o xamã se movimenta entre os mundos (.) ----, o efeito do bolo de haxixe vinha mesmo num crescente muscário, tanto em mim quanto no tio Estênio , que acendeu um cigarro e disse, apontando para mim: ---- Maese K(!) andei pensando quem você me lembrava, nos últimos segundos, e tentarei explicar (com esse bolo fermentando meu cérebro) porque acabo de associá-lo à figura de Jean Arp, um homem-relâmpago trazendo sua nobreza consigo como quem traz o próprio corpo para um eterno rito de passagem(: é isso o Natal, também, não(?) Arp era um Espaço(: um Espaço nutrido por diversas culturas que, tocando seu corpo, acabaram por absorver-se na universalidade, como uma galáxia tragada por um buraco negro(: suas esculturas fundiam-se ao mesmo tempo na arte e no cosmo(: mas todas as verdadeiras criações do Espírito , mesmo as aparentemente impessoais, mesmo as equações de Einstein, não se resolvem afinal em autobiografia(?) ----, a idéia de acompanhar o tio Estênio no seu vôo extra-sensorial do momento foi minha (Isabel, Renata e Luciana agora conversavam entre si na cozinha, em volta do bolo de haxixe), à nova luz que a menção à Arp lançava sobre nossa conversa; Arp, o inventor da flor-martelo, da flor-tecedeira, da mesa-floresta, da cabeça-bigode, do umbigo-alado, da simetria patética, das constelações, das concreções, dos papéis rasgados, da geometria ageométrica; impelido primeiro pelo acaso, creio ter atingido em seguida o verdadeiro vértice da consciência criadora experimental, dizendo : ---- Não é estranho que Santa Claus tenha uma fábrica mágica de joguetes , operada por duendes (: gnomos, duendes e elfos tradicionalmente foram associados pela literatura antropológica com os xamãs e a ingestão de enteógenos (: um caso moderno são as explorações reportadas pelo tecno-xamã americano Terence Mckenna, que fumando DMT (primo molecular da psilocibina), constantemente entrava em contato com entidades inter-dimensionais que o ensinavam a fabricar objetos feitos somente de linguagem (.) ----, não ocorreu ao velho que agora, aparentemente, ele mesmo era um objeto feito somente de linguagem, num momento pianíssimo de enlevo poético, abraçando a árvore de Natal de joelhos ao lado do sofá, enquanto murmurava o resto daquelas palavras que vinham rasgando dentro dele uma parede (um Muro de Berlim) que aprisionava algo precioso demais para continuar preso, invadindo um frágil e recém-nascido espaço brilhante em sua consciência (segundo ''São'' Samuel Taylor Coleridge, todos os nossos insights e discursos provêm do Espírito Santo, e para Meister Eckardt, como a Virgem Maria estamos sob a sombra do Espírito Santo e podemos parir o Menino Jesus das entranhas de nossa alma; assim como em Monfort, que dizia que como Jesus podemos entrar na Virgem Maria para que Ela nos dê à Luz. O tio Estênio prosseguiu: ---- Jean Arp, que extraía do frio o calor(: guardando na simplicidade a majestade, transpondo a lição de Heráclito: ''O SOL é largo como um pé de homem''(: Arp , doutor em ciências mágicas, operador de metamorfoses(: Arp, mestre do reino animal, vegetal e mineral, espantoso poeta de ''Jours Effeulliés'', resumindo a quintessência do Dadaísmo e do Surrealismo, ultrapassando-os por certa dinâmica em relação com sua idéia de uma estrutura tridimensional(: Daimon criador sempre em ato, caminhando pelo mundo, levado por suas pernas grandes e sua cabeça de alta frequência(: conhecedor da técnica propícia à encantar as eumênides e os elfos, devas e para-devas, Arp sorria, pois ''aujour´hui comme au temps des premiers chrétiens il faut proclamer l'éssentiel'' (: a Arpíade pertence-lhe, e a todos nós(: inimigo mortal da mecanização e excesso de racionalismo do mundo moderno, decidido à reinventar o espaço, ampliar a idéia de realidade, elevar à altura de uma constelação o mais belo ''MITO'' terrestre, o CORPO FEMININO(!) -----, cada mudança de posição, cada movimento do tio Estênio no sofá soava agora como uma tosse mágica, com seu catarro neon impregnando o ar da sala como um pigmento metafísico desconhecido da humanidade. ----  Com o característico efeito da Amanita Muscaria e o canto tradicional do Santa Claus (HO! HO!) e a onomatopéia de sua celebração psicodélica, a viagem do nosso Papai Noel à todo o mundo em um único dia distribuindo presentes pode ser (seguramente) equiparado à uma viagem astral ao redor do Axis Mundi (o Eixo Cósmico) na carruagem celestial dos deuses, encontrada em outras mitologias (: fica claro que as renas de Santa Claus não são renas comuns, mas renas que comeram o fungo alucinógeno e começaram a saltar enlouquecidas na neve (o que de fato acontece com esses animais (fly agaric)  e por isso são representadas como renas voadoras; seguindo os estudos do grandioso historiador das religiões Mircea Eliade, os xamãs , autênticos tecnólogos do êxtase espiritual, fundamentalmente comandam um ritual iniciático de morte e ressurreição em suas tribos(: e o Natal, muito além de representar o nascimento de Cristo, representa a morte e a ressurreição do SOL (:Buda, Jesus, Odin, Ramana Maharshi, São Francisco de Assis são alguns indefinidos exemplos desse SOL(: Ele é como uma AUTO-CRIAÇÃO(: uma força espiritual que avança através do nada, sem se escorar em nada, sem se esconder atrás de nada, auto-propulsão e ipseidade, do início ao fim... com relação à Ele não há antes, nem depois; nem alto, nem baixo; nem perto, nem distante; nem como, nem o que, nem onde, nem estado, nem sucessão de instantes, nem tempo, nem espaço, nem ser. Ele é tal como é, do início ao fim. Ele é o Único sem necessidade da Unidade. Ele é a afeição e o presente pois fez a casa aberta ao inverno espumoso e ao rumor do verão. Ele é o singular sem necessidade da Singularidade. Ele que purificou as bebidas e os alimentos, Ele que é o encanto dos lugares fugidios e a delícia sobre-humana das estações. Ele não está composto de nome, nem de denominador, porque Ele é o nome e o denominador. Ele é a afeição e o futuro, a força e o amor que nós, de pé sobre os ódios e desgostos, vemos passar no céu de tempestade e nos estandartes de êxtase. Não há nome que não seja Ele, não há denominador que não seja Ele. Ele é o Primeiro sem necessidade de anterioridade; Ele é o Ultimo sem necessidade de posterioridade. Ele é o AMOR, medida perfeita e reinventada, razão maravilhosa e imprevista, e a Eternidade (máquina amada das qualidades fatais! Ele é Evidente sem exterioridade; Ele é Oculto sem interioridade. Porque não existe anterioridade, nem posterioridade, nem exterioridade, nem interioridade, que não seja Ele. Tivemos todos o espanto de sua Concessão e da nossa: Ó fruição de nossa Saúde, impulso de faculdades extra-sensoriais, afeição egoísta e paixão por Ele, Ele que nos ama para sua Vida infinita. Nada, além Dele mesmo, pode Ve-lo. Nada, além dele mesmo, pode Conhece-lo. Ele se ve e se conhece a si mesmo. Seu véu impenetrável é sua própria Unidade, e ele mesmo é seu próprio Véu. Seu Profeta é Ele mesmo. Seu Mensageiro é Ele mesmo. Sua Mensagem é Ele mesmo.  Sua Palavra é Ele. Ele enviou sua Ipseidade com Ele mesmo, D´Éle mesmo e para Ele mesmo, sem intermediário ou causa exterior que não fosse Ele mesmo. E nenhuma diferença de Tempo, Espaço ou Natureza há entre O que envia a Mensagem, a Mensagem e o destinatário da Mensagem. E se nós o invocamos e ele viaja... e se a Adoração vai embora, sua promessa ressoa: ---- Para trás essas superstições, e os corpos antigos e idades. Foi essa época que soçobrou! ----, Ele não irá embora, não tornará a descer de um céu, não cumprirá a redenção das cóleras das mulheres e das falsas alegrias dos homens e de todo este pecado: porque isto já foi feito, Ele existindo, e sendo amado. Suas respirações: a terrível celeridade da perfeição das formas e da ação. Ó fecundidade do Espírito e imensidão do Universo! Seu Corpo é o Universo: a libertação sonhada, a arrebentação da graça cruzada de intensidade nova ! Seu olhar são todas as estrelas: todas as penas resgatadas após sua passagem!  Seu dia é o Universo do começo ao fim: a abolição de todos os sofrimentos sonoros e o movimento da alma na música mais intensa do Cosmos. Seu passo são as migrações mais enormes que as antigas invasões. O orgulho mais benévolo que as caridades perdidas. Ele nos conheceu a todos e a todos amou. Saibamos pois, nesta noite de Natal, de cabo em cabo, do pólo tumultuoso ao ar condicionado, da turba à praia, do shopping ao esgoto, de olhar em olhar, forças e sentimentos cansados, chamá-lo à FALA e VÊ-LO, e mandá-lo embora, e, sob as marés humanas ou no alto dos edifícios mais elegantes,  seguir suas Vistas, suas Respirações, seu Corpo, sua Luz. Amém.

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