sexta-feira, 30 de janeiro de 2015
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Sexta-feira de 2002, não lembro qual. A impressão da minha primeira leitura foi a de que o diálogo entre o músico dodecafonista Adrian Leverkuhn e o Demônio, no livro Doctor Faustus, de Thomas Mann, eram certamente as páginas mais brilhantes da literatura produzida no século XX; mais tarde, coloquei ao seu lado naquele altar diabólico o ''Informe sobre Cegos'', de Fernando Vidal Olmos, escrito por Ernesto Sábato. Eu estava pensando em páginas, não em livros. Meu coração dilatou-se angustiado ao longo daquela tarde de leitura, sozinho no meu apartamento, e minha respiração acelerou-se enquanto uma excitação causada por presságios de perigo real dançava na minha mente, empurrando-a para uma encruzilhada. ''Eu era Adrian Leverkuhn?'', me perguntava, como se acabasse de assistir uma luta entre duas sombras sangrentas dentro de mim. Pela janela, na rua, o tráfego rodava tranquilamente, enquanto que nas copas das árvores uma ventania gelada e selvagem fluía sombriamente, deixando um rastro de folhas secas no asfalto. Fiquei estatelado na cama durante horas: nada do que até então havia lido tinha me apanhado com tanta força de sugestão, com a força de uma ameaça ou séria advertência. ''Afinal, é essa a recompensa(?) que digam que K.M é um escritor brilhante(?) meu Deus, não é isso que eu quero da vida(: disso já sei há muito tempo(.)'', pensava, conferindo à mim mesmo uma oferta sacrificial incruenta. ''O drama dialético do confronto de uma grande personalidade criadora com a natureza, a sociedade e os destinos adversos, avançando através do nada de forma ininterrupta(: auto-propulsão e ipseidade, é isso o que eu quero da vida(.)''. Ao ''organizar os pensamentos'' dessa forma, naquela tarde solitária de sexta-feira, não demorei muito a começar a lembrar da noite anterior, quando Amanda veio conhecer minha nova residência. ---- É meio vazio seu apartamento, K(.) ----, ela disse. ----- Não enquanto você estiver aqui comigo, cherry(.) ----, respondi. ----- Então, é aqui que você escreve seu livro de seiscentas páginas (?) -----, ela perguntou, olhando para o quadro de Van Gogh na parede da sala. ----- Na verdade, cheguei à conclusão de que terei que passar os próximos anos apenas fazendo esboços e anotações Emoticon smile quando eu estiver pronto, publicarei ele na internet, na medida em que for escrevendo os capítulos, como Dostoiévski fez com Crime e Castigo e outros livros no jornal(.) -----, sempre me vinha um presságio de ação, quando eu falava do meu livro de seiscentas páginas. Algo trovejante e estimulante, pois eu já sabia que nada na história da literatura poderia chegar aos seus pés. ----- Mas assim você não vai ganhar nenhum dinheiro com ele(.) ----, ela observou, inquieta com a natureza excepcional do meu plano. ---- He he(... mas isso está completamente fora de cogitação, minha flor(: ele só será compreendido uns duzentos anos depois(.) -----, eu disse, orgulhoso, repuxando para baixo os cantos da boca. De noite, naquela época, minhas olheiras costumavam estar tão fundas, de tanto ler, que a luz elétrica feria um pouco meus olhos. ---- Bom, você deve saber o que está fazendo, e eu não vim até aqui pra conversar sobre literatura(.) -----, ela disse, e andou até a porta do meu quarto, parou, disse HUMMM de novo, e entrou. Agarrou com os dez dedos o edredom da cama e, no seu sotaque caipira encantadoramente musical, admitiu que tinha vindo até ali porque queria que eu a comesse por trás, enquanto ela estivesse curvada sobre a mesa da cozinha. Minha resposta a satisfez: eu não disse nada, apenas desafivelei o cinto na minha calça, rindo para ela. ---- Quero que você amarre minhas mãos atrás, antes de começarmos(.) ----, foi a última instrução dela. ''E o que mais(?)'', pensei, enquanto abria o botão da braguilha. Já tinha amarrado as mãos dela com a fronha de um travesseiro. Ela sacudiu um pouco a cabeça, quando comecei a enfiar. Apesar de tarada, Amanda não era chegada em sexo anal, ou não se animou de faze-lo comigo. Quando o ritmo aumentou um pouco, aquele barulhinho aquoso se fez ouvir, embaixo, e eu levei as mãos aos ombros dela, até o pescoço, e pude sentir que, mexendo os seios pra frente e pra trás, sobre a mesa, ela esfregava os mamilos, que estavam duros, nas pedras frias e pendentes do seu enorme colar vermelho. Basicamente, foi só isso. Depois ela foi embora satisfeita e rascunhei , de improviso, um pequeno parágrafo de especulação sexual a ser incluído na minha obra futura e imensa ainda embrionária naquele momento. Na verdade, com os recursos verbais e modelos literários que possuía na época, eu tentei de fato compreender se estava sendo com Amanda o que os cristãos chamariam de pecaminoso ou desumano. No entanto, essa parecia ser a lei de satisfação imediata dos desejos sob o qual eu, Amanda e sabe-se lá mais quem estávamos tentando viver. Adrian Leverkuhn dialoga com o Demônio, cuja resoluta indecência estava tendo efeitos extraordinários sobre a detonação do meu sêmen dentro de Amanda. Mas quando finalmente chegou a tão aguardada manhã de sábado, no ponto de encontro do projeto na antiga reitoria da UFJF, e eu reencontrei Rafaela, as habilidades diabólicas de Amanda já não pareciam me servir para nada. À cinquenta metros de distância, eu já a tinha avistado chegando quase no mesmo instante que eu: os lábios vermelhos dela mexendo espasmodicamente como se em busca de uma posição de compostura no rosto. Ao nos encontrarmos no portão de entrada, porém, seus lábios pareceram desabrochar, quase sorrindo, e quando entramos na vã e ela me percebeu preocupado em garantir um lugar ao seu lado, eles definitivamente sorriram, abriram-se ao ar como que a pedir alimento, com um levíssimo traço de sarcasmo. ---- E então, K(: em que página do livro de seiscentas páginas você está(?) -----, na verdade, me deu vontade de dizer à ela que eu tinha passado a semana inteira sob o domínio de uma paixão intensa, cuja impiedosa energia nunca antes eu tinha me permitido sentir, mas... ----- Nem tive tempo de começar ainda(: andei estudando para um prova de Direito Civil(.) ----, eu disse. Mas continuava escrevendo -o mentalmente a todo segundo, o que me levou a acrescentar: ---- Em meu interior há um livro aberto, esperando ser escrito, mas minhas opacidades me impedem de passá-lo pro papel(.) ----, cuidadosamente, descansei as mãos nas minhas coxas e pela larga janela da vã eu fingia olhar a cidade, fixando o rosto de Rafaela com a visão periférica. O frio daquela manhã nos petrificava, e eu trajava um casaco branco bem chique que tinha comprado há três dias. Eu esperava que ela dissesse alguma coisa, olhando pela janela mas enxergando seu rosto como um borrão de energia com o rabo dos olhos. Meus pensamentos formavam cadeias que me levavam longe, tentando sondar a mente dela. ---- E você(?) ----, perguntei, para quebrar o silêncio. ----- Nem me pergunte (ela respondeu) terminei o namoro, tirei uma nota baixa e minha depressão voltou a atacar(.) ----- , eu devia ter feito algum tipo de macumba inconsciente enquanto dormia naquela semana. Adrian Leverkuhn aperta a mão do Demônio. Aquilo superava todas as minhas expectativas. Não, meu Deus, mas só o rosto dela tão perto do meu já era lindo demais. ''Olhe para ela'', eu pensava comigo mesmo ''Olhe agora, idiota(!)''. Dentes que não podiam ser mais brancos, as curvas deliciosas das maçãs do seu rosto, os enormes olhos pretos esverdeados, os cabelos de um castanho avermelhado, âmbar avermelhado, sei lá, ACREDITEI, e eles caíam lisos como os das princesas dos contos de fadas, e aquelas pernas de modelo, toda ela muito comovente após confessar que sofria de depressão; que rosto doce, tão cheio de uma felicidade acumulada e esquecida na infância, no sul de Minas Gerais. Como seu sorriso abatido, naquele momento, era efervescente pra mim! A inocência dopada que ainda arrancava confiança para ser charmosa e atenta aos olhos admirados de todos. Essa foi a garota que me derrubou, no meu lado na vã, ao dizer: ---- Minha depressão voltou a atacar(.) -----, como me pegou desprevenido aquele seu desarmado olhar melancólico. Nem parecia a garota sarcástica de sábado à noite, brincando de Jogo da Verdade com o olhar dopado de agora transmutado num fino rosto de raposa, um nariz ligeiramente empinado, um lábio superior algo proeminente, uma boca sempre pronta para responder alguma acusação do ficante ou formular algum desafio às colegas da república. Uma jovem dama blasé com quem agora, tive a certeza, eu passaria cerca de um ano e pouco casado em meio à um turbilhão de experimentos eróticos e lisérgicos. ----- Eu sou bipolar(.) ----, ela explicou ainda: ---- Vivo dopada à base de remédios de tarja preta, atualmente PROZAC (.) ----, naturalmente, tudo que podia fazer até aquele momento era conversar (o rosto tão perto do dela que seus olhos pareciam o fundo de um piscina para a qual eu olhava procurando peixinhos dourados: o que me excitava, porém, era que ela me dava realmente a impressão de que nosso primeiro beijo já estava a caminho, protocolado e com trânsito em julgado, aguardando apenas a expedição da sentença; que se eu lhe propusesse beijá-la ali mesmo, dentro da vã, ela provavelmente diria: ''Mais tarde, K (--- ''. ---- Eu não tenho depressão , Rafaela (eu disse) nem sou bipolar, mas também tenho vivido dopado(: atualmente, maconha e LSD(.) -----, e ri. Com a minha paródica confissão, senti que algo de essencial à nossa futura relação já se fundava, funcionando como lubrificadas engrenagens amorosas. Tornei a olhar pela janela da vã, meu pescoço latejava de excitação. ''Que aconteceria comigo'', eu pensava ''se um rapaz como eu simplesmente caísse na estrada e desaparecesse(?) jamais chegando onde era esperado(?) se simplesmente vagasse pelo país em busca da felicidade... bem, da garota adequada(?) eu era exatamente assim(.)''. Enquanto esperava pela minha própria resposta, me distraía com o espetáculo de um milhão de lembranças desencadeadas no pequeno espaço entre os meus olhos, me dizendo que eu tinha feito exatamente isto, nos últimos anos. Meus ouvidos estavam alarmantemente aguçados, e eu percebia que as vozes no banco de atrás cochichavam indiscrição sobre nós dois, como: ''Só estão aqui pra namorar e pegar a bolsa no final do mês''. Fechava os olhos e nada mais via do que um mundo aquoso de mercúrio e ouro derretido com as cores de uma chama azul. Via balsas de garimpo vazias navegando fantasmagóricas à minha frente, de repente voltando atrás para me resgatar do fundo do rio, depois avançando outra vez. Algo estava sendo fabricado no subsolo do meu espírito: podia sentir o zumbido e a força dos motores embaixo, naquele subsolo. Uma textura escura de medo esvoaçou no meu pescoço e, aflito, bani aquelas imagens da minha mente e voltei a me concentrar no rosto de Rafaela. ''Pagamos nossa morte a prestações, longas ou curtas, conforme negociações clandestinas ou inconscientes com a própria morte''. A viagem de ida para Lima Duarte. O passeio, lição ótica, havia terminado. Gilberto, o coordenador do projeto, me perguntou se eu havia tido alguma notícia de Marcos, durante aquela semana: ----- Agora que eu percebi(: ele não pareceu de novo(: telefonarei para ele essa semana, ok(?) -----, eu disse, parado ao lado de Rafaela, que novamente formaria dupla comigo à bordo do carro da Câmara Municipal. ----- Quer dizer que essa semana você entrará em contato com seu cunhado, K(?) ----, ela me perguntou, sarcástica, me pedindo um cigarro. Eu ri e alisei o queixo com as pontas dos dedos, procurando um breve comentário, ao modo chinês. Encostei nela e disse: ---- Ele não é meu cunhado, Rafaela Emoticon smile essa não é uma boa descrição(: como sempre, você costuma ficar exibida ao ar livre(: por falar nisso, como anda seu quarto escuro(: preciso conhecer , né(?) ----, eu disse, procurando diverti-la com aquele constrangimento, com a impressão de que sozinhos, nem eu nem Rafaela éramos suficientemente espertos ou razoáveis, mas que em dupla reforçávamos mutuamente nosso espírito transgressivo e, com o correr das horas, nos tornaríamos mais e mais hábeis na sedução um do outro. ----- Ontem à noite gostei de gozar no chuveiro (.) ----, ela respondeu. ---- Sozinha(?) ----, eu quis saber logo. ---- Sim , mas pensando em você, e naquela barulhada que vocês fizeram no quarto da Amanda(.) ---- , ela disse, e agora eu sentia que podia perguntar qualquer coisa sobre ela, que talvez ela respondesse. ----- Preciso ouvir mais seus segredos(: pode confiar em mim, amor(: cada vez que você goza sozinha e não conta pra ninguém, é um segredo sexual(: e cada uma dessas milhares de vezes em que você goza sozinha constitui um momento único, precisamente com a mesma ordem de imagens, e com você passando o dedo médio naquela dobra exatamente daquele jeito, mordendo o lábio inferior exatamente com o mesmo grau de força, tudo totalmente privativo, pessoal e intransferível(: já cheguei a pensar, inclusive, que cada vez que uma mulher goza sozinha na vida , esse orgasmo continua a existir como uma esfera em outro espaço-tempo, uma esfera com meio metro de diâmetro, em alguma dimensão ideal, mais ou menos como os óvulos que você tem enfileirados dentro de você, só que são(... bem, são óvulos de orgasmo do passado, sendo eu o único espermatozóide viável que está passando por perto, e adoraria passar toda minha vida flutuando de uma para outra dessas esferas orgasmáticas únicas, olhando para elas, e podendo ver sempre dentro de cada uma delas você se masturbando até gozar (.) -----, eu disse, rindo, enquanto ela também ria, me encarando com uma expressão de tamanha incredulidade, que julguei que jamais havia conversado tão à vontade com uma garota tão bonita; mas ela fingiu meditar sobre o fato, e ficou calada. Era de fato uma imagem e tanto para ser meditada, a das esferas. E, olhando para o rosto dela apaixonadamente, agora, de algum modo eu soube que também era o primeiro confidente real da sua vida. Um momento de tranquilidade pareceu chegar, junto com o carro da Câmara Municipal, um momento de silêncio interno perfeito. Então, pela primeira vez, senti que nada mais havia na presença de Rafaela que ainda me deixasse tenso e inseguro, e considerei aquela pausa na nossa conversa com gratidão e expectativa. Quando ela voltou a falar, o que eu estava ouvindo já era a VOZ ÍNTIMA dela, tão certo como estava vendo pela primeira vez o relaxamento aliviado de suas reluzentes pálpebras. ----- Quando entrei na universidade, fiquei logo apaixonada pelo Che Guevara(.) ----, ela disse, aparentemente do nada, e continuou: ---- Mas desde então, só namorei playboys e mauricinhos, uns estudiosos, outros menos, mas todos igualmente vazios, egoístas, sem graça e ignorantes Emoticon smile e agora, que eu pretendia dar uma guinada de 180 graus à esquerda na minha vida amorosa, estou prestes a me apaixonar por um indivíduo politicamente indecifrável, que parece uma máquina paranóica de criticar e debochar de tudo e todos, nunca contente com nada Emoticon smile o que você deve pensar do Che Guevara (?) ----, ela perguntou, assim que descemos do carro e encontramos a associação de moradores do distrito de São Domingos, que deveria estar lotada à nossa espera, de portas fechadas e sem uma única pessoa nas redondezas para pedirmos informações. ----- Não entendi(: eu admiro profundamente Che Guevara, apesar de considerá-lo um pensador sem nenhuma originalidade e um revolucionário fracassado Emoticon smile mas, como diria Terence Mkcenna: ''A Natureza ama a coragem'' Emoticon smile e, você sabe, se algo sobrava no Che era coragem Emoticon smile quando se faz parte de um grupo de guerrilheiros na selva há sentimentos que a gente da cidade não pode compreender, mesmo que seja comunistaEmoticon smile a emboscada de La Higuera é algo que me impressionou tremendamente(: uma vez , li numa biblioteca de Belo Horizonte o trecho de um correspondente de guerra que dizia o seguinte: '' Calcula-se que o Comandante Ernesto Guevara deve cair de um momento para o outro, pois está cercado há vários dias por um círculo de ferro. A terra e os mosquitos aqui transformam a pele de qualquer homem num manto de miséria. A vegetação inextrincável, seca e coberta de espinhos, torna impossível qualquer deslocamento, mesmo de dia, a não ser pelos arroios que estão todos fortemente vigiados. Não é possível compreender como os guerrilheiros podem suportar esse cerco de sede, fome e horror. 'Esse homem não sairá vivo daqui', disse um oficial (.) ----, eu narrei, do jeito que me lembrava, o desfecho daqueles onze meses de guerrilha para ela ---- e de uma fonte militar: ''Às oito da manhã um camponês chamado Victor foi ao posto militar de La Higuera para informar que homens desconhecidos se moviam entre os matagais próximos ao seu rancho (... o Capitão Prado foi com seu destacamento à canhada de Yuro, e seus homens fizeram contato com os guerrilheiros ao meio-dia. Dois soldados resultaram mortos no primeiro encontro. O tiroteio continuou esporadicamente por três horas. Lentamente, os Rangers foram ganhando terreno, chegando a uns setenta metros do inimigo. Às quinze e trinta os guerrilheiros sofreram a primeira baixa visível ----, Rafaela me olhou e disse ---- O Che foi assassinado da maneira mais(... ----, e se interrompeu, pedindo que eu continuasse: ---- Willy chegou com o corpo do seu chefe sobre os ombros, e quando se deteve para recobrar suas forças e dar algum cuidado ao Che, que ainda estava vivo, os soldados emboscados lhe deram ordem de rendição. Mas os Rangers atiraram primeiro. Che tinha graves feridas e a asma lhe impedia de respirar. Então transmitiram a mensagem cifrada: ''OLÁ SATURNO. PEGAMOS PAPÁ'' ---- , eu disse, e,não por maldade ou sadismo, comecei a rir discretamente, o que me valeu uma dura repreensão por parte de Rafaela. Prossegui: ---- Guevara foi levado em uma manta por quatro soldados até La Higuera, distante vários quilômetros do local de captura, e ali se fez um inventário do que havia em sua sacola: dois diários, um código, um livro de notas com mensagens cifradas, um livro de poemas copiados à mão, um relógio e outros três livros. O Coronel Selich esteve muito tempo falando com o Che, que por sua vez falava da AMÉRICA com ele. O Coronel berrava, tentando arrancar-lhe informações estratégicas. De repente, o Che desferiu uma bofetada na cara do Coronel. No helicoptero que transportava os prisioneiros, o Che reclamou de muitas dores , e pediu ajuda. ''No peito, por favor''. Mais tarde, no lugar em que estavam encarcerados o Che e Willy, Terán apareceu e Willy o insultou, e então Terán lhe atirou na cabeça. Mário Terán tinha sido assinalado pelo destino para matar o Comandante Ernesto Guevara, e pediu ao tenente Pérez um M-2, que descarregava rajadas automáticas. ---- Vens para matar-me(.) ----, disse o Che, os olhos brilhando intensamente. Segundo relato do próprio sub-oficial Mário Terán: ''Fechei os olhos e disparei a primei rajada. O Che , com as pernas destroçadas, caiu no chão, se contorceu e começou a perder muito sangue. Eu recobrei o ânimo e disparei a segunda rajada, que o alcançou em um braço, em um ombro e finalmente no coração'' Emoticon smile depois, as mãos do Che foram cortadas a machadadas, para impedir a identificação, e seu corpo esquartejado em várias partes (.) ----, a palavra: eletrocutada no rito do terror. A larga e clara entrada da igreja estava tão deserta que podíamos falar à vontade, ela tinha ficado um pouco nervosa com aqueles detalhes todos que narrei, e me pediu um cigarro. Depois, fez o sinal da Cruz no peito e disse: ---- É, não sou o que se pode chamar de uma menina de coro, mas fiquei um pouco atrapalhada com isso(.) -----, dei uma olhada profunda para seu rosto, e observei: ----- O homem é o único animal que, segundo Rimbaud, perde a vida 'par délicatesse' Emoticon smile oh, pense o que você quiser, amor (.) ----, Rafaela agora riu como se fosse capaz de aturar muito mais do que isso. Ela me fez ficar sedento pela sua boca vermelha quando disse OUI, e se assustou um pouco quando a puxei pela cintura e a beijei, afastando os cabelos dela para o lado com a mão. Enquanto nos beijávamos, eu pensava o tempo todo ''Será que isso está realmente acontecendo (?)'', e imaginava Rafaela amanhecendo linda no meu apartamento todos os dias, cada dia um sorriso radiante e renovado por uma longa noite de amor. Era isso que as pessoas queriam dizer quando falavam das possibilidades da juventude... mais possibilidades da juventude: ----- Se eu me casar com você algum dia, K, vou estar casando com um estranho tipo de ator(.) ----, e riu comigo, não muito alto. Respondi: ---- Ou com um estranho tipo de Artaud Emoticon smile bem, deixa pra lá(.) ----, uma hora depois, após sermos informados de que a reunião com a associação de moradores tinha sido cancelada por causa de um ''showmício'' eleitoreiro num distrito vizinho, sentamos frustrados em frente a um boteco miserável e pedimos uma cerveja. ----- Estava pensando nas últimas horas que você é uma garota de temperamento meio suicida(: como você pôde decidir estudar Serviço Social tendo um problema tão grave de depressão(?) como vai poder ajudar a orientar aquelas pessoas miseráveis cheias de problemas existenciais e financeiros insolúveis, se não consegue nem mesmo se manter de pé sem remédios de tarja preta (?) meu Deus, eu te amo(!) ----, ela não largava mais a minha mão, nem quando acendia o cigarro. Aqueles súbitos momentos filosóficos dela me agradavam, quando silenciava com o olhar perdido no horizonte. Poética, terrivelmente poética. ---- É verdade, eu creio Emoticon smile mas hoje em dia sou também uma garota bastante dura na queda, signor(.) agora, me fala mais sobre você(.) nunca namorou sério na vida (?) nunca trabalhou (?) ----, perguntou-me ela, e eu subitamente fiquei calado, enquanto ela olhava para mim interrogativamente. ---- Te dou uma nota de cinquenta se me disser o que cê tá pensando agora(.) ----, acrescentou ela, fingindo rir. A cerveja já estava fazendo efeito em nós, e em mim, acrescido de suas perguntas, produziu um desespero semelhante ao da borracha, quando enxerga pela frente um caderno inteiro a apagar. ---- ''O anteontem é póstumo'', cherry ( eu disse: Murilo Mendes(.) ----, uma ligeira inquietação, ou calma exaltada, desceu sobre ela: ---- Sem essa de Murilo Mendes comigo, mocinho, não estou brincando, quero saber tudo sobre você(: ou será que você não concorda(?) ----, a leoa do sol sacode a cabeleira invencível que desorienta o olho desarmado. Examino o camaleão dentro de mim, mudo de cor. ---- Aprendi a garimpar ouro há alguns anos, na fazenda do meu avô, e decidi que era algo divertido, quando dava certo (.) ----, respondi, e segurei o braço dela meio sem jeito, como que para ajudá-la a descer um degrau na escala do do meu passado. Mas ela não percebeu nenhum degrau ali e eu já não sabia se devia dizer mais alguma coisa naquele sentido. A igreja do distrito estava sob o sol à pequena distância e os reflexos dos vitrais pareciam responder à leve pressão que eu fazia no braço de Rafaela. Prendendo a respiração, puxei ela levemente pra perto de mim; beijei -a de novo e continuei: ---- Claro que já namorei sério, só não durou muito tempo(.) eu só tenho vinte anos, né(?) ----, agora minhas palavras entravam num caminho escuro, que descia sinuoso para uma pequena sala de espelhos adolescentes à beira da praia, na cidade de Salvador. O tempo redescoberto. Imaginei se seria apropriado convidá-la para visitar ou passar a noite comigo no meu apartamento, ou se ela ficaria insultada. Ela não era nenhuma Amanda. Veio-lhe um movimento brusco do rosto e um sussurro apressado: ---- Péssimos antecedentes, né, K(?) e o problema é que eu sinto que você acha isso excitante(: sair por aí largando uma garota em cada porto, como um marinheiro sem destino(.) ----, ela disse. ---- Mas isso nunca me aconteceu, Rafaela Emoticon smile eu não sou assim, você é que está tirando conclusões precipitadas, por causa do sábado passado e da Amanda(: mas eu não sou assim o tempo todo(.) ----, era como se eu tivesse sempre desejado ir atrás de coisas que me apareciam no caminho só para abandoná-las depois, em meio à GRANDE DERIVA; como se Rafaela tivesse descoberto essa ânsia em mim e a julgasse incurável. ---- Você acha mesmo que podemos ter um futuro juntos (?), eu, particularmente, acho que depois do sábado passado e dessa história de garimpeiro, vamos ter que subir muito as apostas(.) -----, disse ela, e eu amei-a pela desconfiança que demonstrava tão escancaradamente em relação a mim. ----- Mas eu farei o que você quiser(: não sou do tipo que se agarra à uma idéia fixa, em matéria de amores(.) ----, eu disse, mas só um diplomata de escol, agora, poderia enfrentar com desenvoltura o fato consumado de que eu me perdia a cada declaração. ----- Como é que você pode mudar de idéia sobre o que é a sua verdadeira natureza, K(?) eu quero segurança, paz, amor, companhia,carinho, conversas com conteúdo altas horas da noite, e tal Emoticon smilealgumas dessas coisas eu sinto que você pode me dar, mas outras(... ----, meu Deus, que floresta de objeções indulgentes e fantasiosas, agora eu entendia o que a cabeça de uma pessoa deprimida e desenganada. Ela não conseguia alimentar esperanças além de certo ponto, apenas roía sonhos vagos pelas beiradas, como um ratinho com medo de ser devorado de um instante para o outro. Não, nenhum debate desafiador sobre minha ''natureza'' era necessário para que eu a modificasse de acordo com minha vontade e abrisse caminho para o nosso amor em meio à sua imaginação mórbida; pelo menos não ali e naquela hora. ----- Sabe porque eu gostei tanto de você (ela me perguntou) porque você é um garotão culto muito doido, e eu nunca achei que existisse um assim por aí Emoticon smile já conheci garotões muito doidos, doidos muito cultos, até mesmo garotões relativamente cultos, mas nunca um que fosse tão doido quanto você Emoticon smile foi por isso, K(: sou deprimida assim desse jeito porque acho as pessoas completamente sem graça, previsíveis, adaptadas à um mundo igualmente tedioso e sinistro (:eu já tinha perdido as esperanças de encontrar alguém especial, agora só a LOUCURA me parece capaz de alegrar um coração como o meu numa sociedade como a nossa(.) ----, e nisso se resumiu a discussão sobre meu duvidoso caráter , sendo tudo o que a dignidade dela parecia exigir ou permitir. Nenhuma admiração especial por mim como uma intrépida força carnal que quase tinha quebrado a cama da sua colega de apartamento, no sábado passado; nem pelo precoce escritor megalomaníaco de um livro de seiscentas páginas; nem muito menos pelo diletante escarnecedor do marxismo acadêmico ou pelo ''místico em estado selvagem''. Não, simplesmente um ''garotão culto muito doido''. E então, com cuidado, com muito cuidado, convidei-a para ir ao meu apartamento naquela noite. ---- É claro que vou, K(: passei a semana inteira pensando em você (.) -----, Adrian Leverkuhn se levanta da mesa, e se despede do Demônio: está pronto para iniciar sua obra. ---- Eu também, amor(.) ----, eu disse, rindo e nitidamente emocionado, porque, embora ela fosse certamente uma garota que gemia na cama quando seu cabelo era puxado por trás, e pedisse mais quando sua pele sofresse alguma pequena dor, e gostasse de ''ouvir coisas'' enquanto fodia, apesar de sua experiência ilimitada dos mais profundos abismos da depressão e os nervos de aço que demonstrava no mundo arriscado dos remédios de tarja preta, sem falar no impressionante senso de direito inalienável com que fazia o que bem entendesse, a despeito daquela total imunidade ao remorso ou à falta de confiança em mim que tanto me excitava, ela era também linda, cortês, respeitosa, inteligente e engraçada, filha perfeitamente educada de uma família de classe média do sul de Minas Gerais. Quando o carro da Câmara Municipal nos levou de volta e entramos na vã para retornar à Juiz de Fora, Gilberto nos questionou e cobrou o dia de trabalho perdido, dizendo que deveríamos ter voltado imediatamente. E acrescentou: ---- Tá vendo, senhor K, depois eu digo que os escritores atuais são todos uns pequenos burgueses e que a literatura é uma fuga solipsista dos problemas sociais, e você vem atirando do pescoço pra cima em tudo que se mexe na sua frente (.) -----, todos na vã começaram a rir, inclusive eu e Rafaela, e os Che Guevaras de apartamento logo me pegaram para Cristo. Me xingavam de ''playboyzinho'' pra baixo. Quando se acalmaram um pouco, iniciei a minha defesa, atacando frontal e indiscriminadamente a todos, claro: ---- O que acontece é que nenhum de você sequer chegaram a compreender o marxismo algum dia Emoticon smile se a literatura fosse inimiga da Revolução, ou pelo menos uma espécie de masturbação solipsista, não se poderia explicar porque Marx admirava Shakespeare Emoticon smile e o cortesão monárquico Goethe Emoticon smileeu lhes pergunto se no momento em que Marx ia à Biblioteca de Londres, nos dias em que se exploravam barbaramente nas minas de carvão crianças de sete anos, se era o momento ideal para a literatura e a poesia(: porque não só Charles Dickens escrevia naquela época, também escreviam Tennyson, Browning, Rossetti Emoticon smile e em plena Revolução Industrial, um dos fatos históricos mais impiedosos de que se tem notícia, houve artistas como Shelley, Byron e Keats Emoticon smile muitos dos quais Marx admirava e lia (.) grande favor fazem ao mestre de vocês atribuindo à ele asneiras desse tamanho(!) e, além disso, essa outra idéia falsa e superficial da arte como reflexo da sociedade, da classe a que se pertence(: e não só da arte, mas também do pensamento Emoticon smile de acordo com os critérios de vocês, Marx então não poderia ser marxista, já que era um burguês Emoticon smile o marxismo teria que ser inventado por um mineiro de Cardiff Emoticon smile me parece, inclusive, que sequer entendem a 'dialética' Emoticon smile suponho que todos aqui nessa vã leram QUE FAZER?, de Lennin, não (?) pois bem, a classe operária por si própria teria sido incapaz de chegar ao socialismo, não teria nunca passado do gremialismo amarelado e analfabeto, senão fosse a burguesia Emoticon smile o socialismo foi criado por burgueses como Marx e Engels, aristocratas como Saint-Simon e Kropotkin, intelectuais como Lennin e Trotski (.) ----, quando terminei de falar, Rafaela era a única que ainda prestava atenção em mim e no meu discurso. Olhando pela janela da vã através dos galhos das árvores eu via a claridade que a luz da cidade rodeando o Museu Mariano Procópio mandava ao céu estrelado. O corpo de Rafaela parecia desligado do mundo , ligado somente à força que meus olhos irradiavam do fundo do universo. ---- Deus (!) ----, foi praticamente a primeira palavra que ela falou em meia hora; o senso de mistério que minha figura humana irradiava nela era agora inseparável da sua impressão da realidade concreta. Quando descemos da vã e nos despedimos amistosamente do pessoal, a cortina pesada das suas pálpebras aludia à um cenário desconhecido onde logo mais ALGO seria 'representado'. São assim as 'dramatis personae'. Eu me virei ao lado dela na rua e, olhando ela de perfil, tentei compor algumas palavras. ----- A mulher foi feita enquanto o homem dormia Emoticon smile Deus é surrealista(.) ----, a sensação de fome que eu sentia pelo seu corpo era tão intensa que me paralisou. ---- Deus (.) ----, disse ela de novo, e virou a cabeça para mim: ----- De onde você tira todas essas coisas(?) ----, me perguntou. ----Eu (... ----, mas antes que eu começasse a tentar me explicar, o rosto dela se aproximou do meu como uma flecha, e nos beijamos longamente no meio da rua, como se estivéssemos bêbados, enquanto eu me perguntava se era aquilo que queriam dizer sobre deixar uma garota doida. No entanto, no caminho para o meu apartamento, eu pensava que livrar-me do que eu era ''por natureza'' talvez fosse uma tarefa mais difícil do que eu imaginava. Adrian Leverkuhn desiste de invocar seu bom senso em favor de uma vocação séria. O Demônio lhe sorri de um canto.
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