quinta-feira, 15 de janeiro de 2015
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Acho que quando cheguei em Juiz de Fora, em Minas Gerais, para tentar a sorte em alguns vestibulares, eu devia ter redondos vinte anos de idade. O mais alto morro que circunda esta cidade tem seu ponto culminante a 930 metros acima do nível do mar ( parte superior dos morros de Santo Antônio e São Sebastião, em cujas faldas está colocada a parte central da cidade: e encontra-se no alto o monumento ao Cristo Redentor. Deste morro, olhando-se para NO observa-se a Serra de Ibitipoca coroada por seu pião: para o S. sucessivamente: Serra Negra, do Rio do Peixe, do Tinguá, dos Órgãos, do Taquaril, da Piedade, até a Baixada do Rio Pomba, que fica à E. , de modo que, quando se percorre com a vista esta série de cordilheiras, as costas do observador encontram-se voltadas para o ponto inicial da inspeção. À SE, vê-se a pedra do Paraibuna. Naquela altura da noite, após terminar a última das provas do vestibular, subi até o Morro do Cristo e, diante da vista deslumbrante de luzes e estrelas, me senti o risível intermediário entre os homens e as deidades que presidem o Apocalipse, assinalando o limite entre duas Eras. No entanto, aquele céu estrelado me parecia alheio à qualquer interpretação catastrófica: emitia serenidade, harmonia e inaudível música. O topos uranus, o formoso refúgio, ainda que eu emitisse lava sulfúrea sob o olhar: atrás dos homens que nasciam e morriam, muitas vezes na fogueira ou na tortura, atrás dos impérios que arrogantemente se levantavam, com seus pés dominadores, e inevitavelmente desmoronavam, aquele céu parecia constituir a imagem menos imperfeita do outro universo: o incorruptível e eterno, a suma perfeição que só se deixava escalar pela consciência dos mais rígidos iniciados. Meu único contato na cidade era um vago casal amigo da minha vaga e distante família; eles moravam numa rua perpendicular à Avenida Rio Branco, com um vago casal de filhos: Marcos e Júlia. Eu já tinha dormido uma noite na casa deles, antes de me estabelecer numa pensão, na rua Marechal Deodoro da Fonseca. E aquele dia, mais cedo, antes de sair para fazer a prova, tinha visto Júlia da janela, alva morena de dezessete anos, passar por uma trattoria em frente à minha pensão, da qual saía um bafo com cheiro de massa mole fria e o ruído de universitários rindo no balcão de um bar. Ela parou para olhar pela porta aberta, e eu assoviei da janela, onde estava fumando. Ela acenou, riu, me desejou boa sorte na prova e se foi, flanando lindamente. Agora, eu tentava me lembrar da capacidade de julgamento do irmão dela, Marcos , um (nerd anti-social) estudante de Direito da UFJF, da minha idade, que o tornava capaz de escolher e recomendar bons livros à ela e seu pai. Cheguei a admirar a paciência deles comigo, quando me viram passar a noite quase toda em claro com um livro de Dostoiévski aberto diante dos olhos. Todos na casa já tinham lido Os Demônios, e uma discussão sobre o livro foi travada rapidamente: para mim, o personagem principal era Kirilov; para eles, Stavroguin. E no alto daquele morro, de noite, o longínquo rumor daquela discussão havia acabado de me alcançar, filtrando-se pelos interstícios e subindo do meu próprio interior. Não exatamente o livro, mas o ambiente que me cercava naquele momento. De fato, o mundo não podia estar fora, mas no mais recôndito de nossos corações, a partir de nossas vísceras: fora havia apenas um triste simulacro; de posições, afetos, esforços, reconhecimento, ladainhas e auto-reflexão. Nem mesmo um jardim no crepúsculo escapava de tanta simulação ( a percepção coletiva engessava tudo num pequeno espectro de atenção, que chamavam de 'realidade'. Eu já pensava assim, naquela época. Mas, apesar de tudo, eu seguia aprendendo, incorporando algo novo à cada hora do dia, razão pela qual, talvez, tenha gostado que a faculdade de Direito particular em que me matriculei, dias depois, fosse mais como um clube de vizinhança do que uma universidade: só haviam estudantes de Direito e Economia. Me pareceu tudo tão surreal no começo que eu adorei. A V.O. se situava no começo da ladeira dos Andradas , no centro da cidade , com um entorno sempre muito movimentado por causa dos escritórios de advocacia, lojas de departamentos e negócios especializados. A sede da OAB ficava um quarteirão acima, na mesma rua. O primeiro ano de faculdade foi bastante estimulante (sem querer me adiantar na história: toda semana havia uma festa onde algum novo par de ficantes se formava, como num Big Brother. Mas eu não me misturava demais. Estudantes entravam e saíam pelas portas dos apartamentos à noite toda, e às vezes fechavam as portas dos quartos para ficarem no escuro sozinhos. Conheci a cidade inteira no espaço de um mês, de tanto ir à esses encontros. Eu fazia as pessoas rirem com grande facilidade, contando minha vida. Com raras exceções, as estudantes de Direito eram todas de fato bonitas ( todas pareciam saber à perfeição a maneira correta de se comportar ali, e isso obviamente alcançava seu ápice em algumas professoras-advogadas que serviam de modelo de inspiração para o resto. Pareciam não saber como se comportar mal ou fazer qualquer coisa considerada imprópria, o sexo considerado atividade extra-curricular natural, independente das circunstâncias. Claro, ninguém estava naquela faculdade para se destacar pelo domínio da Cultura e da Linguagem (a ignorância das pessoas, incluindo professores, era medonha. Eu ainda não tinha arranjado nenhuma garota na faculdade, mas estava de olho em uma. Descrever a natureza das minhas recordações de Mariana exigiria um livro com seu próprio e exclusivo vocabulário: seria o livro dos sonhos dela, não dos meus. Mariana era uma aluna do segundo ano , que de vez em quando aparecia nas festas da nossa sala; pálida e esbelta, com cabelos castanhos escuros e o que me parecia ser uma expressão confiante no rosto. Conversei sobre história norte-americana com ela numa festa, e no dia seguinte já éramos amigos no Orkut. O repartido do seu cabelo me cativava, e quando passava em frente à porta da sala dela, sua perna esquerda sempre estava cruzada sobre a direita, balançando ritmicamente pra cima e pra baixo. Ela devia ficar assim a aula inteira, tomando notas sem parar um só instante. Ainda demoraria um pouco para enfiar a mão embaixo daquela saia. De fato, desde muito novo que eu jamais distinguia, na minha cabeça, as garotas que haviam se entregado à mim e as que não: todas compartilhavam entre si uma possível suscetibilidade. ---- Você é impaciente demais, K(.) ----, Júlia disse pra mim, numa das minhas visitas à Marcos, que a maioria das vezes era só uma desculpa para revê-la. ----- Talvez (: estou acostumado à uma vida errante(: tudo acontece meio rápido mesmo(: é diferente da vida de uma pessoa que apenas viaja muito (: é uma vida desgarrada, rápida no gatilho(... -----, eu disse: a idéia pareceu tornar-se evidente na cabeça dela, pela maneira como ela pegou na xícara de café. Marcos estava baixando uns discos de jazz no computador da cozinha, álbuns recomendados por mim. Já tive muitas ocasiões de reparar, na minha encarnação de escritor, o quanto se pode aprender sobre uma pessoa ao observá-la atentamente sem que ela perceba. Existe uma linguagem moral nos gestos. Minha informante de dezessete anos sorvia seu café agora de uma maneira diferente, e suas sobrancelhas se levantaram. Todo o centro do seu rosto sugeria uma orientação nova; as bordas internas dos seus lábios já pertenciam ao interior da sua boca molhada. ---- Arranje uma forma de aliviar temporariamente seu desejo(.) ----, ela disse, e automaticamente eu olhei para a porta, desconfiando da presença do magro irmão de rosto fino e barba em ponta. ---- Eu não preciso esconder nada do meu irmão(.) ----, ela disse de novo, de pijama na cama, enquanto subia a blusa para me mostrar uma pequena tatuagem na altura do quadril: letras, letras, letras, fragmentos de pré-sinais. Não perguntei o que significavam. Apenas levei o dedo indicador até a tatuagem e com a outra puxei seu outro quadril para perto de mim. Nos bicamos afetuosamente, de início, e uma vez que a evolução abomina as carícias sem clímax, a excitação prolongada de tanta bolinação quase resultou numa descarga orgástica em tempo recorde, já que a porta do quarto continuava aberta e o irmão dela na cozinha, com os fones de ouvido cheios de Charlie Parker e Thelonnious Monk. Foi algo fugidio e sem precedentes para Júlia, que talvez tenha iniciado assim sua carreira erótica. Aquela era uma tarde quente num meio de semana qualquer: até então eu nunca tinha olhado nos olhos dela tempo suficiente para me dar conta de como eram grandes, e de como era carnudo seu lábio superior, projetado provocantemente quando ela recitava os poemas de Murilo Mendes de que tanto gostava: ''O clandestino é o homem, o avião sou eu, diz uma águia sobrevoando Delfos. Tenho fome de pedras, dizia Rimbaud. Sirvam-lhe fragmentos do Pártenon, mesmo requentados. Ou de qualquer pedra anônima, ainda fria, de Delfos''. Depois de uns dez minutos conversando sobre Murilo Mendes, o grandioso poeta de Juiz de Fora, Júlia surpreendentemente esticou os braços rente ao meu pescoço, encostou a boca na minha, e disse: ---- Você é tão intenso, K(: relaxa(.) ----, e eu comecei a rir (dava para ouvir o irmão dela tossindo na cozinha. Ela era manhosa, sem dúvida, como uma raposa à espera. Agora eu estava recostado na cama dela; das janelas pendiam cortinas brancas de renda. Do outro lado das cortinas, era visível a casa no lado oposto da rua, sua arquitetura recurvada realçada pela luz do fim da tarde. A pedra era da cor sépia das caixas de charuto. Uma mulher que tinha acabado de lavar os cabelos apareceu na janela da casa oposta usando um quimono solto. Júlia correu até a janela oposta e assoviou. ---- É a Ana Luíza, minha prima dentista(.) ----, a mulher observava as pessoas na rua embaixo , e acendeu um cigarro. Era hora da 'caminhada', nas ruas do centro de Juiz de Fora. A 'corrida de ratos' no fim do dia, em Juiz de Fora, era transfigurada pela beleza das estudantes na rua. Júlia chamou seu irmão para ir conosco. Disse que caminharia comigo até a padaria da esquina e voltava, mas não foi o que aconteceu. Ela sentia alguma urgência em me tocar, na rua, e eu atribuí aquilo à sua virgindade. ''Desconhecerás na tua sabedoria, Delfos, tantos desafinados e semi-bárbaros países distantes de tua esfera? Conhecerás o jovem espectro do Brasil? Países martelados , esdrúxulos, consoantes, partícipes da fome, heróis da seca, inscientes de Apollo, atento sem saber aos restos do rito de Dionísio? Onde milhões ignoram o alfa e o beta? Entretanto muitas constelações divinas geometrias acendem-nos''. Caminhamos até os limites da Avenida Rio Branco, e paramos numa praça da rua Pasteur. Já passava um pouco das oito. Escorreguei delicadamente a mão por baixo da saia dela, desabotoei um pouco a blusa e avancei sobre o sutiã. Reagindo à minha tentativa de acariciá-la através da taça do sutiã, ela abriu mais a boca e continuou a me beijar (sua língua era um estímulo adicional ao breu de árvores à nossa volta, minha mão dentro da blusa dela e as línguas se movendo dentro de nossas bocas: a língua dela era um órgão precocemente promíscuo (ganhava velocidade, espasmos, lambia meus dentes, e acabou com a mão segurando meu pau duro dentro da calça... não houve da minha parte nenhum controle administrativo dos apetites de Júlia. Mas naquela noite seus apetites foram apenas encorajados, e não saciados por completo. Ela não quis vir comigo até o meu quarto, na pensão. Ainda agora (se é que ''memória'' constitui o meio que inclui tudo e no qual estou sendo mantido como ''eu'') continuo perplexo com o comportamento de Júlia, naquele dia. Mas na medida em que não tinha idéia de onde estava me metendo, de quem eu era e de por quanto tempo permaneceria naquele estado magnético, a perplexidade também se transfigurava em beleza. Passado recapitulado, revivido, respirado, note bem, na forma direta que as sensações nos trazem. ''O astro gizado, calculado, pintado, fotografado, odeado, odiado, amado, toureado, desembarcado, fichado, mesmo assim sangrando te acena ao longo de tua cena, Delfos''. Aquilo tinha acontecido porque Júlia quis que tivesse acontecido. E eram assim que as coisas se passavam comigo. Depois que ela se foi, voltei para o meu quarto na pensão e fumei um baseado, na esperança de encontrar alguma inspiração literária. Mas as imagens que surgiam na minha mente vinham cheias de interferências, defeitos, as margens trancadas, o rolo de fita de cada pequeno insight não voltava o filme automaticamente, e eu era obrigado a respirá-lo, arejar o evento, precisava rebobiná-lo com a respiração e finalmente ele me devolvia o que havia tirado. Mas já era tarde para escreve-lo. Ainda mais tarde decidi voltar à Avenida Rio Branco para distrair-me fumando um cigarro, e caminhei até as margens do Rio Paraibuna, algo novo e simbólico para mim: a sombra de dor no vôo das garças, visíveis mesmo à noite; voando dos galhos sobre a água parda, lembram Modigliani, propondo esculturas no ar. ''A Elegância e o Branco devem muito às garças''. ---- Chegam de onde a beleza nasceu (.) ----, repetia comigo mesmo, evadindo-me numa sub-realidade que minava a face múltipla da realidade concreta. Meu trabalho sobre mim mesmo, nessa época, ainda era basicamente poético e lunar. Lutava para alcançar algo inteligível. ''Quantas ilhas nos habitam! No microcosmo, ainda tipográfico, do macrocosmo topográfico''. Caminhando às margens de um rio-afluente de águas pardas, correndo no escuro, o Paraibuna dava nome também ao Vale no qual eu caminhava, no qual existe a cidade. ''Quanta força para atingir os pés do pai Paraíba''. Tentava caminhar com um ar neutro, e superar a inintelegibilidade da minha consciência, produzida pela erva. ----Maldito costume de queimar fumo sem antes ter focalizado com absoluta precisão o que quero escrever(!) ----, pensava, antes de iniciar o caminho de volta. Novo Sócrates recria a técnica da maiêutica (precursora da Cut-Up, de William Burroughs): Paulo de Tarso também grego opera o deus desconhecido na matriz das idéias. Desencadeia a dialética. De manhã, reencontrei as garotas da minha sala, na faculdade de Direito: local comparável ao palco de um teatro de variedades para estimular e concentrar meu desejo. As moças de classe-média de Juiz de Fora eram sempre bem educadas e se vestiam com correção, e nas faculdades de Direito a atmosfera era impregnada de decoro jurídico. Naquele momento eu observava mesmerizado uma delas brincando com a ponta do cabelo enquanto folheava um Código Civil; eu folheava o meu algumas carteiras atrás. A minha ânsia não tinha limites, nos primeiros meses de faculdade, mas via uma pequena distância entre eu e a maioria das pessoas. A facilidade com que eu tirava boas notas no primeiro ano me mergulhou numa vertigem, comecei a pensar que o curso todo seria assim. Flanava entre as provas como um dândi intelectual, esnobando todas as provas. Outra garota, de todo insípida na sala de aula um dia antes, começou a sacudir a perna enquanto folheava um jornal . Uma terceira se curvou sobre o caderno e observei seus seios sob a blusa esbarrarem docemente nos braços cruzados. Uma coisinha de nada bastava para colocar minha atenção no encalço de uma garota completamente desconhecida. ---- Não há nada aqui (: nada nessa cidade esquecida por Deus (: há apenas você, minha deusa, mas com que frequência nós conversaremos (?) ----, eu pensava, desde cedo ciente de que não compartilhava o mesmo sonho que nenhuma delas. ''Intenieren'', continuava pensando durante a aula, enquanto a professora desfilava em saltos altos diante da turma ''em alemão(: tal como 'Internat', que quer dizer Internato, mas o espaço superlativo não tinha relação com os relatórios parnasianos sobre (.) ''. A professora de Direito Penal permanecia de pé em frente ao quadro, oscilando um pouco sobre os saltos do sapato, e ao ouvir baterem na porta, foi até ela e fez um movimento como se abrisse uma jaula fétida e saísse. Nossas professoras, belas e jovens, não representavam conscientemente. Bastava uma delas olhar pra mim, nas fileiras do meio, para saber que eu sempre rejeitaria aquela advocacia da teatralidade cotidiana inconsciente. Elas eram todas imunes à maioria das súplicas e ameaças. Logo depois que essas eram feitas por algum aluno, abriam seu caminho até a consciência delas, e naufragavam numa zona cinzenta de indiferença e desprezo. A súplica ou ameaça era sussurrada e passada adiante, mas repetida tomava a própria ênfase de quem a sussurrava. Havia alunos especializados nisto, e outros que só sabiam se dirigir aos professores em tom de súplica ou ameaça. Andavam pela sala e corredores da faculdade sussurrando suas súplicas e ameaças na mente, até a decisão ser tomada. A sala de aula era uma assembléia de muitos eus possíveis, fazendo geralmente comentários sobre o eu no poder que acreditavam ser um usurpador. Aquela professora de Direito Penal, em particular, permanecia sempre curiosamente impassível quando questionada. O silêncio que emanava dela apenas continuava o silêncio da sua vida subjetiva interrompida pelas horas-aula. Aquele vestuário básico de fêmea jurídica me mergulhava num passado remoto, todo estofado em couro, com candelabros na parede e carruagens andando na rua de tarde. As pernas daquela professora, obliteradas pela meia-calça, dava um nó na minha imaginação durante as aulas. Ela não parecia perturbada quando me surpreendia olhando suas pernas, seu olhar indicava um muda continuidade sem argumentos. Olhando para ela, eu me sentia como um animal que, tendo corrido ao longo de um caminho, vira um esquina e descobre que ele leva à margem de um rio largo e de grande correnteza (raiva e impaciência seriam inúteis: a expressão dela (vou chamá-la de Prof. J.) era calma e imutável. Ela olha para cima e para baixo, no rio, para decidir que direção tomar antes de continuar a correr os olhos pela turma. ''Os caminhos de Nietzsche visam a Grécia, mas, é pena, passam pela rua da inestrela que não dança''. Eu sabia que, mesmo aos vinte anos de idade, já era tarde demais para eu viver de outro modo. Viver como um iniciado, crucificado ou poeta maldito não era algo sobre que eu raciocinasse, mas o intuía a cada respiração minha como se pode intuir o tamanho de uma planície ou a proximidade do mar, sem ser ainda capaz de vê-lo. Comigo, todos intuíam também as crônicas do mundo, e a certeza de que as histórias haveriam de permanecer, pois estavam todas sob minha guarda. O sinal do fim da aula soou na faculdade, e eu me levantei. Necessidade urgente de fumar um cigarro. ''O Pártenon lacerado: uma colagem, uma ontologia do Pártenon, uma foto-montagem da Grécia (a outra metade estava no British Museum), os restos dum esqueleto épura galvanizado por esta luz que levantou do solo deuses, estátuas e homens novos''. Marcos foi quem atendeu o telefone, e disse para mim subir. Ligou o computador e disse que havia baixado toda a discografia de John Coltrane numa única noite. ---- O mito aqui se mantém pela pureza da luz continuada(.) ----, declamei comigo mesmo, enquanto Júlia caminhava do quarto dela até a cozinha, onde estávamos. ---- Eu gostaria de aprender a dançar esse estranho tipo de música que você vem difundindo na cabeça do meu irmão(.) ----, ela disse, e acrescentou: ---- Quem é você realmente, K(?) ----, não me admiro que, ao fim daquele ano, quando me casei, eu já tivesse adquirido a reputação de ''enfant terrible'' entre as irmãs que tentei seduzir pelas costas dos meus amigos com meu estilo de ingenuidade agressiva (quando na verdade, em todo aquele ano, só havia penetrado seis garotas. ---- Sou (respondi) exatamente aquele que digo que sou (: já conheci sujeitos que achavam que eram Don Juans, mas nenhum deles era realmente (: o nome é muito usurpado pela mídia(: e o Don Juan que me serve de modelo é um índio yaqui, não o subproduto mental de um Lord Biron depravado(.) ----, se necessário, eu argumentaria que nunca tinha pretendido enganar ninguém acerca do meu desejo ou do quanto minha interlocutora me era desejável e, longe de ser um ''explorador'', eu era apenas uma das pessoas mais honestas do mundo. ---- Você tem razão(: fui eu quem te perguntou, e acredito em você(.) ----, ela se afastou um pouco, continuando num tom de voz mais monocórdico: ---- Você também vai tentar uma vaga no projeto de cidadania ativa da UFJF(?) ----, num acesso de sinceridade calculada (bem calculada, como verifiquei) fui até ela no sofá da sala e disse-lhe como a visão dos seus pequenos seios se apertando contra os braços me fazia querer ser aqueles braços, e: ---- Eu te amo (: que projeto de cidadania ativa(?) ----, perguntei. ---- É um projeto de extensão da UFJF, para 'politizar' o povo(.) ----, ela e o irmão já tinham feito a prova, aquele era o último dia; quando decidi subir na UFJF, depois do almoço, para fazer a prova, refletia de que maneira minha reconversão à uma carreira literária determinada pela falência econômica e pela morte precoce dos meus pais envolvia um certo tipo de mobilização das relações sociais. A orfandade e, ainda mais, a morte dos meu pai, parecia uma determinação essencial, já que agora me submetia a uma certa dependência em relação à oligarquia acadêmica marxista daquela cidade. Mais chegado à sátira corrosiva, Marcos depois me diria, apertando minha mão, que eu havia abandonado o sacerdócio poético pelas estudantes de Direito e Economia, e que agora eu orbitava então muito distante das angústias sexuais de Strindberg e Nietzsche. Nós dois havíamos sido aprovados: escrevi um redação baseada num capítulo do livro A Rebelião das Elites e a Traição da Democracia, de Cristopher Lask, no qual se afirmava que o Espaço Público enquanto Ágora havia dado lugar à ausência do diálogo inteligente entre as pessoas e à alta rotatividade das praças de alimentação dos shopping centers. ''Destruindo este mito, outros renascerão súbito dele: o ar, a luz, o espaço assim o predispõem e ordenam''. De volta à casa de Marcos e Júlia. A chama assombrosamente parada de uma vela na parede da sala acentuava o modo como a pele do rosto de Marcos era esticada sobre os ossos pronunciados do seu crânio. ----- Vamos enquanto ele está em transe, ausente, escutando Coltrane(.) ----eu disse à Júlia, de fato: ou Coltranse... ---- Vira o rosto pra mim(.) ---, disse de novo, e toquei a mão em cima da boca e do nariz dela; dentro do calor da minha mão, senti o nariz dela como uma delicada amígdala. Os olhos dela riam. E com a mão um pouco úmida devido à sua respiração, aliso a pele por cima das suas maçãs do rosto em direção às orelhas. ----- Não sou mais a mesma, desde aquele dia na praça(.) ----, ela disse, e nos beijamos longamente. Marcos parou na porta do quarto, contemplou nossas duas figuras ao lado da cama e entrou pensativamente. Não ocorreu nem à Júlia nem à mim imaginar a quanto tempo ele estava ali parado. ---- Não é preciso ser um homem político para escutar a chegada da guerra(.) ----, eu disse, zombando e rindo, enquanto Marcos fingia não ouvir. ---- às vezes você me espanta como uma criança, irmão(.) ----, Júlia disse, desejando estar comigo numa viagem à caminho do mar, e não ali, temendo ter que dar alguma satisfação ao irmão. ---- Detesto essa cidade(.) ----, Marcos falou, enigmaticamente, e saiu do quarto, rindo para minha cara. Ele começou a andar em direção à extremidade da sala onde estava instalado o pequeno templo branco de azulejos e as paredes forradas de livros até o teto. Continuou : ----- Ninguém se interessa por nada aqui a não ser por universidade(: pela universidade em si, o seu status(: a simulação, o holograma meritocrático(.) -----, reparei que, assim que ele deu um passo, foi preciso disfarçar que mancava. ---- ''Pascal (eu disse), grego póstumo, retardatário, que se ignora, camuflado pela veste barroca(: ceia a geometria antes da hóstia (: dessa vez, pelo menos, ele não citou Norberto Bobbio (.) -----, eu disse e comecei a rir; antes que Marcos tivesse tempo de responder, voltei para o quarto e, com um sorriso escandalosamente malicioso, já pegara de volta sua irmã nos braços. Marcos não fez mais nenhum protesto. Nós três, daquele modo, passávamos a existir no mesmo comprimento de onda. Júlia começou a falar baixo porém claramente, olhando a maior parte do tempo para a porta: ---- Acho que o meu irmão tá apaixonado por uma colega de sala, na faculdade(: espero que não entenda mal meu motivo de dizer isso(: não quero parecer estar zombando dele, coitado(.) ----, recostou na cama, segurando um manual de biologia aberto como se fosse um cálice. ----- Você se lembra ou já ouviu falar de Ana Karenina(?) jamais pude engolir que Karenin fosse aquele bem sucedido estadista que Tolstói queria fazer crer(: ele pintava os homens como ele gostaria que fossem, enquanto Dostoiévski os pintava como eles são de fato(: o contraste é desnecessário: com a vida particular de Karenin mal administrada(: lhe falta clareza mental(: se casou com a mulher errada, e tratou-a do modo errado(: devia ter enfrentado a infidelidade dela antes que fosse tarde demais (.) -----, eu segurava um copo dágua ao sol diante dos olhos, e meu olhar estava focado no horizonte dentro do vidro. ''Delfos. O grande olhiveiral olhiverá(?), o grande olhiveiral apascenta seus teoremas'' (Murilo Mendes sempre foi o mais borgeano dos poetas brasileiros: insuperável nesse aspecto (Júlia tinha ele quase todo na ponta da língua, incluindo a prosa mais vasta: ----- Na casa dos Átridas há plurissalas onde cabem todos os espantos, putas, lolitas, vice-lolitas aguardando guerreiros abúlicos arrastando caudas de pavão; górgones autoterrorizados revogam o corpo alheio e renovam o próprio corpo'' (: Texto Délfico à José Guilherme Melquior (: '' Júpiter ecumênico ambidestro suscita duas águias ao mesmo tempo do Oriente e do Ocidente. Abre caminho à Igreja, à Rússia, à América, à Índia, à China'' (.) ----, quando ela acabou de falar, depositei o copo vazio na mesa, e tentei continuar: ---- Lembra(?) Karenin concluiu que ambos precisavam continuar a viver como antes (: o fim do mundo, quando chega, é mais suave do que um sussurro(: ninguém precisa vê-lo ou escutá-lo, Karenin criou um tragédia desnecessária (: CRIOU-A (: Anna precisou deixá-lo, embora soubesse das consequências(: não queria ficar tão demente quanto Karenin(: agora, seu irmão deveria evitar um comportamento parecido(: ele não é nenhum Karenin(.) ----, eu falava com a segurança de quem aplicava o mesmo surrealismo tanto à vida íntima quanto à vida social. Há muito tinha ficado claro para Marcos que eu seduziria sua irmã, e igualmente óbvio que ela gostaria de ficar comigo. Isso aconteceu sem que praticamente não pronunciasse uma só palavra, porém as circunstâncias não eram normais. Iniciara-se uma lenda: ''Delfos: onde a perfeição (circunscrita) se inseria no normal cotidiano, na exigência do cotidiano''. Mas isso não era produto de uma obstinação: eu não era um caráter defensivo, um cérebro disposto em torno de uma cidadela fixa. Eu me dava o luxo de todo tipo de descuido (a dimensão de grandeza do ambiente excluía o monumento: lembro agora de uma borboleta pousada na grama perto da mão dela (seu vôo, sua imobilidade, com as asas para cima, harmoniosas, e novamente seus trêmulos movimentos a seguir pertenciam à uma escala temporal tão afastada de nós, que, se nos fosse aplicada, nós dois pareceríamos duas estátuas de jardim: ''O pensamento grego: Rotação - contato - ambiguidade - tangência - polivalência''. À noite, no meu quarto de pensão, eu pensava como poderia dormir quando algo tão extraordinário estava acontecendo: aos vinte anos de idade já havia viajado tanto pelo Brasil, seguindo rotas de garimpo tão psicodélicas, que eu era como um fantasma que ficava fosforescente no escuro de tanto assombro filosófico, quando o dia terminava e eu me recolhia para a toca para refletir. Mais tarde substituiria a reflexão filosófica pelo silêncio interno absoluto: ''Entre Delfos e Jerusalém plantei um arco; vôo à bordo dele''. Foi o que decidi fazer, estudando sentado na escrivaninha até de madrugada (pensando: ''ela chupou meu pau(.)''. Ãnh ãnh. ''Ela me fez um boquete'' (produzindo com dificuldade aquela palavra feia para indicar que minha atenção continuaria focada no estudo: ''E eu nem pedi''. Toda história mítica que relata a origem de alguma coisa pressupõe e prolonga sua cosmogonia, sem reflexão concertada e sistemática. Eu não dava a impressão de controlar minhas emoções de perto, naquela noite, e ainda nem era capaz de um tal monitoramento. ''Ela fez o troço'', continuava pensando, e lembrava como a cabeça de Júlia se movia na altura do meu abdômen. Não que antes já não tivesse visto, várias vezes ( mas o que me deixava pasmo era a cumplicidade de Júlia (tão nova) e seu zelo e concentração no ato: sabia o que fazer e, ainda virgem, se masturbava muito. A idéia de gozar na sua boca, na próxima vez, já não me parecia inimaginável naquele momento. Tinha a impressão de que tudo que eu ousasse com ela estaria bem, mas só um mês mais tarde ela aceitou subir até o meu quarto e perder o... a virgindade ''Esperança: ato dialético por excelência(!)''. Depois, arranjei um jeito de vê-la por pouco tempo todo dia: almoçávamos juntos, depois caminhávamos até a praça na rua Pasteur. No caminho para seu colégio, entrávamos na livraria da Avenida Rio Branco. Mas quando comecei a trabalhar no projeto da universidade, passaram-se vários dias antes de nos encontrarmos de novo. Numa gelada manhã de sábado, ela me telefonou e eu disse à ela que estava à caminho de uma cidade chamada Lima Duarte, numa vã repleta de estudantes de ciências sociais e meninas do serviço social, preparando uma aula de improviso sobre Processo Legislativo no Brasil. ---- Estou gostando de ver sua seriedade e maturidade, Lord K. (: você é tão intenso (: vive o tempo todo mergulhado numa agitação interior medonha e sem limites(: e eu gosto tanto da sua aparência (.) ----, na voz dela, não havia nenhum vestígio de teatralidade; nenhum vestígio de desapontamento. Mas ela parecia pasma. E ficou mais pasma ainda, quando chegaram as férias de julho.
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