terça-feira, 3 de fevereiro de 2015
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Rafaela ficou olhando para mim durante um longo tempo. Ninguém jamais tinha visto minha verdadeira índole tão de perto. ---- Se você for mesmo viajar para o Pará no fim do ano, então nós não devemos começar a namorar agora (.) ----, ela disse. Mas aquela possibilidade, de combinar as duas coisas, me atraía como um ímã. Ela olhava para mim, naquele momento, e via em mim o que ninguém jamais tinha visto: o investimento radical da minha existência em disparates como aquela expedição à bordo da balsa de Seu Adamastor, na Serra do Cachimbo, era visto por ela com respeito e alguma admiração, de fato, mas também como tema de uma preocupante tragi-comédia; era o capricho de um jovem Indiana Jones gratuito e irresponsável. Eu quis conhecê-la melhor porque sentia que assim conheceria melhor também à mim mesmo. ----- É claro que devemos começar agora (: talvez só não devamos nos casar, antes de eu voltar vivo(: você é muito nova para ficar andando por aí de preto, viúvinha negra (.) ----, eu disse, rindo, com um mapa do Pará aberto no colo, e por longo tempo ela ficou revirando a excitante idéia, até que eu falei: ---- Quero começar o ano de 2003 com mais de cem mil na conta, amor(: e talvez desistir da faculdade para sempre(: tenho planos muito sérios de me dedicar à outras coisas, não só à literatura (.) ----, eu sabia que um êxito em toda aquela loucura me traria uma liberdade inédita na vida, e motivos estimulantemente novos para dar as costas à sociedade para sempre, mas, do outro lado daquele mesmo sentimento, cabia-me abandonar toda a operação, sem demora, ao primeiro sinal de fracasso. ---- Não vou demorar mais do que um mês no Pará, amor(: talvez nem isso (: e além do mais, Seu Adamastor é um gênio e também tem uma família esperando por ele em Belém (: voltaremos com uma boa grana, e isso é tudo(.) ----, eu disse, e então percebi plenamente, pela primeira vez, quem eu realmente era, e aquilo talvez representasse mais ou menos a verdade. Eu estava deitado na minha cama de casal, comprada com dinheiro do ouro do Maranhão, ao lado de uma garota que eu julgava perfeita para mim, e nada havia de assustador nisso: era apenas uma maneira jovem de sentir a vida. ''Quem sabe a que tipo de vida ainda mais estimulante tudo isso poderá levar-me(?)'', eu pensava, acreditando que a companhia de Rafaela, naquela segunda noite juntos, já começava a me conduzir por novos caminhos: os pensamentos dela eram uma dália gigante que se desfolhava nos meus braços, escondendo algas vermelhas nas unhas; nas pálpebras dela nasciam luzes desconhecidas da minha mente atraídas por abelhas-rainhas dentro dos seus olhos, e eu caminhava para os seus grandes seios perfumados, ciumento até mesmo do orvalho da madrugada. Estudei por um momento o perfil dela. Rafaela tinha um ar de concentração, e eu disse: ---- Um real pelos seus pensamentos(.) -----, ela riu, quieta: ---- Estava apenas pensando uma bobagem (.) ----, esfregou os lábios nos meus, e por um instante não pude respirar. ---- Que bobagem você estava pensando(?) ----, perguntei. Eu respirava agora o ar de outra dimensão, pensando o que aconteceria comigo na Serra do Cachimbo enquanto ela estivesse sozinha em Juiz de Fora ou no sul de Minas. ''Deus olhou com ira para essas nações americanas, pois de outra forma Ele teria permitido que um raio de esperança se filtrasse por um rasgão no atordoante negrume da intriga, do ciúme, do medo, da efusão de sangue e criminalidade que pairava sobre os garimpeiros clandestinos''. ---- O que você diria se eu te pedisse em casamento agora (?) ----, Rafaela me perguntou, e riu alto e alegremente. ---- O que eu diria se EU te pedisse em casamento agora(: isso sim(.) ----, respondi, e meu riso fez companhia ao dela, depois ela ficou rindo sozinha e levei um longo minuto para perceber que ela esperava uma resposta (que ela estava falando sério. ---- Eu gostaria de te tirar pra dançar (.) ----, eu disse, sentindo que procurava meu próprio rosto, dentro de mim, e não o encontrava. A solidão sem ornatos me apresentando à mim mesmo: onde o homem e a mulher eram UM, se fundiam VERBO e AÇÃO, noite transparente e sem febre, e formas desnudas empurravam a lua para dentro do quarto, pela janela. ---- Eu faria o que você quisesse (: às vezes sinto até que venho pensando em você há anos antes de te conhecer, Rafaela(.) ----, falei. ---- Só às vezes, K(?) ----, perguntou-me ela, esforçando-se por fazer com que parecesse uma brincadeira. ---- Sempre imaginei uma certa mulher(: não me lembro quando começou, mas lá pelos doze ou treze anos(: e ela andava igualzinha à você (: por isso você me perturbou tanto a primeira vez que te vi (.) ----, respondi, e vi os olhos dela cintilando na meia escuridão do quarto. Senti que agora ela esperava que eu fizesse algo extraordinário, e não sabia bem o que fazer. Então, cheguei o rosto para perto dela, ela o beijou de leve e tornou a encará-lo . ----Casa comigo, Rafaela (.) ----, implorei, rindo, mas me pareceu um apelo algo teórico. ---- Está bem, K, eu me caso com você(.) ----, concordou ela. Não pude mais aguentar a posição esquerda por mais tempo, de modo que larguei a mão dela e tornei a me deitar de costas na cama. Pouco depois, ela perguntou: ---- E quando vai ser (?) ----, Armilavda, ó doce Armilavda, lembras-te do tempo em que descobríamos o universo, em que ficávamos na varanda à espera da lua chegar, retendo a respiração diante do movimento das folhas das árvores (?), pensava, antes de responder: ---- Quando você quiser, amor (.) ----, eu não conseguia esquecer a aparência teórica daquilo tudo, mas , de repente, tudo me pareceu inevitável e perfeito. ---- Ok, quero que você vá comigo em Varginha, conhecer minha família (.) ----, ela disse, e nas semanas seguintes continuei sentindo dificuldades em acreditar que (malgrado o diminuto Buda de pedra sabão que comprei para sua mãe no caminho para Varginha) Rafaela tivesse decidido ''embarcar nessa'' contra uma séria oposição do pessoal em sua casa. Obviamente, eu sabia que os lugares fora do mapa civilizado do mundo em que eu adivinhava o cenário das minhas próximas aventuras e os romances de Joseph Conrad que eu recitava de cor, tinham algo a ver com isso; como também sabia perfeitamente que certos ''personagens'' de carne e osso continuavam atravessando as paisagens mais estranhas e nocivas do norte do país em busca de ouro e que talvez eu fosse mesmo uma dessas pessoas para sempre. ''Mas qual será o personagem que não merece fé(?)'', eu me perguntava, vendo-me obrigado, após conhecer a família de Rafaela, a manter bem viva dentro de mim a idéia da riqueza, ainda que alimentada como um meio e não como um fim. ''No entanto'', continuava a pensando sozinho ''garimpeiros clandestinos com frequência se tornam tão otimistas e imaginativos quanto os amantes mais românticos, e agora eu era as duas coisas, havendo em meio à tudo isso um livro de seiscentas páginas obrigando-me à escreve-lo à cada respiração minha ''. Assim que voltamos de Varginha, começamos a pensar na mudança de Rafaela para o meu apartamento. ---- Uma justiça maior virá mais tarde, amor (: viva o raio da esperança(.) ----, eu disse à ela, me referindo à fria acolhida com que eu e nossa possível e eminente união amorosa tínhamos sido recebidos no seio da sua família. E acrescentei : ---- E quem sabe se até nesse sentido minha excursão com Seu Adamastor à Serra do Cachimbo não poderá vir a ser esse pequeno rasgão de luz nas trevas que sua família perdeu a esperança de contemplar na nossa união, assim que eu expliquei quem eu era e o que fazia para ganhar dinheiro(?) -----, Rafaela olhou para mim com admiração e bom humor: talvez fosse a única pessoa no mundo que acreditasse na minha competência e louca expectativa ( dando, a cada beijo que trocávamos, uma formulação cada vez mais vasta à vagueza obscura das minhas ambições materiais e literárias. Mas pouco antes de começarmos a morar juntos, acabei tornando-me algo incomodado e crítico de sua beleza feminina exagerada, ou melhor, da importância que ela parecia atribuir aos seus grandes olhos pretos esverdeados, seus nariz pequeno e empinado, seu pescoço francês, seus grandes seios espanhóis, seus quadris e pernas de modelo ( até mesmo seus pés pareciam ter para ela pequenos encantos únicos que deviam ser louvados em tempo integral. ''De onde vem essa indomável postura de rainha(?)'', eu me perguntava ''esses modos orgulhosos e excludentes, aristocráticos e desafiadores, que pareciam derivar inteiramente do acetinado da sua pele, do terrível magnetismo dos seus olhos, do comprimento perfeito de seus braços e pernas, da largura e desenho da boca(?)''. Eu não estava nem mesmo minimamente acostumado com garotas que portavam sua beleza com tamanho senso de triunfo e majestade. Para Rafaela, aquela sua cabeleira castanho avermelhada, âmbar avermelhada, cujo tom mais se assemelhava ao do pêlo de um setter inglês, era algo comparável a uma tocha olímpica, posta ali não apenas para embelezar, mas também para simbolizar algo absolutamente divino. ''É por isso que os monges shaolin raspam o cabelo (.) '', eu pensava ''porque, para eles, o cabelo representa o símbolo por excelência da vaidade''. Talvez isso refletisse realmente o poder de atração que emanava da sensação que Rafaela tinha de si própria : quando ela prendia o cabelo num rabo de cavalo atrás e desenhava uma linha negra acima dos cílios, ou quando calçava os tênis de ginástica e saía para malhar naquela roupa preta e alaranjada colante, eu não ficava imune ao efeito. Sentia-me terrivelmente inseguro, alarmado e ciumento, totalmente subjugado pela autoridade com que ela assumia sua beleza, enquanto suspeitava das prerrogativas que tal beleza lhe conferia em sua própria imaginação. ---- Você talvez devesse ler o livro São Bernardo, e Graciliano Ramos (.) ----, eu disse à ela, uma noite, vendo ela chegar no meu apartamento com aquela maldita roupa de malhar. ----- E talvez você devesse parar um pouco de ler tudo que já foi escrito até hoje(.) ----, ela respondeu, mordendo alegremente minha isca com seu sorriso confiante. Estávamos travando aquele pequeno duelo de nervos que passou a constituir uma espécie de aquecimento dos nossos atos sexuais mais intensos. ---- Talvez o ciúme (eu disse à ela) transforme algum dia minha cabeça num lindo quadro surrealista (.) -----, havia momentos em que eu não ousava dizer-lhe certas coisas, ou fazer perguntas demais, pois aquilo a aborrecia tremendamente, e eu sabia no meu íntimo que ela me era perfeitamente fiel. O que me desestabilizava era saber que ela não me levava cem por cento a sério, como poderia levar um homem maduro e empregado . Mas à noite... passei a viver à esperá-la para nossas noites, em que fodíamos até passar mal e ainda conversávamos até de madrugada (era o antídoto para meu ciúme: ---- Eu é quem devia ter ciúmes, K(: tudo em você tem um quê de mentira, um passado nebuloso, uma família incomunicável, ex-namoradas desconhecidas espalhadas por áí, um rastro impossível de seguir (.) -----, ela me disse, e era verdade: ela se expressava de um modo muito vívido, e reparava muito nos meus olhos (quando olhava prolongadamente para eles, era como se enfiasse a mão numa pia cheia de água fervente para tirar a tampa, no fundo. ---- O ponto de equilíbrio, essa noite, pode ser talvez você me contar qual foi a última idéia que te fez pensar no seu clitóris (.) -----, eu sugeri. ---- Ontem de manhã, no chuveiro, eu me masturbei antes de ir pra aula (.) até gozar(.) ---, ela disse. ----- Meu Deus, mas nós transamos na noite anterior(.) ----, eu protestei. ----- Pois é, a noite anterior foi a última coisa que me fez pensar no meu clitóris(.) ----, ela confessou. ---- Sempre o chuveiro, hein(?) ----, eu disse, como um patético detetive. ---- Adoro o chuveiro do seu apartamento (.) ----, ela. ---- 'Nosso', nosso apartamento, amor(.) ----, corrigi. ---- Pois é, para mim é sempre o melhor lugar para me masturbar (: e o daqui é ótimo, de mármore, cheiroso, e a água, a forma de cada gota dágua é perfeita, gotas gordas e redondas, aos bilhões (.) -----, ela disse, o que me deixou intrigado. ----- As fantasias sexuais sofrem uma pressão evolucionária muito grande, não é (?) se não funcionam, ou se não se transformam em algum coisa que funcione, não conseguem sobreviver (.) -----, observei, atento à expressão fisionômica dela. ----- O seu pau é uma delícia (.) ---, acrescentou ela. ----Que bom que você gosta dele (.) ----, agradeci. ---- Mas é isso mesmo (observou ela), até o momento em que o orgasmo começa, na masturbação, fica acontecendo uma espécie de seleção natural das imagens (: você pensa(: dois paus, um enfiado em cada axila, os dois jorrando esperma em mim(.) sim ou não(?) NÃO(.) eu era uma professora de geometria medindo os paus dos meninos (.) Sim ou não(?) NÃO(.) eu era enfermeira numa clínica especializada em fertilidade, e meu trabalho era tirar a roupa para os clientes que tinham dificuldade de gozar, depois chupar os paus deles e deixar o esperma pingar da minha língua num tubo de ensaio(.) sim ou não(?) NÃO(.) eu estava na cabine de um loja de roupas, você era um guarda de segurança havaiano me vigiando pelo monitor do vídeo enquanto eu experimentava uma calça jeans (.) Oooooohhhh, pode ser(!) na verdade, é como se eu estivesse escolhendo um vestido para usar numa festa, sem saber ao certo o que vou usar até o último instante, experimentando freneticamente uma imagem atrás da outra como se fossem roupas, sem saber qual é a combinação que pode dar certo, e vai ficando cada vez mais tarde(: finalmente, eu encontro um vestido lindo, sensual, com o padrão harmônico certo, visto ele correndo e, ah, já posso gozar(.) ----, quando ela concluiu, pensei que, de fato, uma diferença original sempre presidia o amor entre dois seres humanos: mais profundamente, era uma imagem longínqua, além de nossas experiências, um TEMA que nos ultrapassava, uma espécie de ARQUÉTIPO. Imagem, idéia ou essência bastante rica para diversificar-se nos seres que amamos, e mesmo em apenas um único ser amado; exatamente como se repetia em nossos amores sucessivos e em cada um de nossos amores tomados isoladamente. Rafaela era a mesma e também era outra, tanto em relação aos meus outros amores como em relação à ela própria. ---- Faz tempo que eu ouço falar (eu disse) nesses estudos que dizem que as mulheres gostam mais de histórias e os homens de imagens (: as histórias são 'representantes' das mulheres, e é por isso que são sexualmente mais carregadas, na minha opinião(: e por isso que a pornografia escrita pode ser elevada ao nível de arte e os filmes pornô, dificilmente (: é porque a literatura pornográfica produz no cérebro um orgasmo vaginal (: ela registra pensamentos em lugar de imagens, ou pelo menos cerca as imagens de pensamentos, algo assim, e por isso consegue ser uma forma de expressão tão forte (.) -----, a imagem ou o tema contém o caráter particular de nossos amores, mas nós repetimos tanto mais e tanto melhor essa imagem que na realidade ela nos escapa e permanece inconsciente; quando muito, eu pensava, a este amor, terá Rafaela , a quem tanto amo, acrescentado um cunho tão particular, que me obrigará a ser-lhe fiel até mesmo na infidelidade, se isso vier a acontecer algum dia, mas tenho certeza de que não virá. ----- Você é tão cheio de si, K, mas acho que, no fundo, eu te amedronto um pouco (.) por isso você sente tanto ciúme(.) ----, ela disse, tentando me pegar de surpresa, no dia seguinte, após eu falar de forma grosseira com um professor dela que encontramos na rua, enquanto andávamos de mãos dadas. Ele elogiou sua beleza e eu pirei. ---- Ah, não me simplifique tanto assim, amor (.) nem romantize tanto meu 'medo', está bem (?) ----, eu disse, passando de um termo amado à outro, para levar em conta uma diferença acumulada dentro de mim, como uma razão de progressão que se acentuava à medida que íamos chegando à novas regiões do nosso relacionamento, sob outras latitudes de vida. ----- Eu me divirto muito dormindo com você todas as noites, K(: e você mais do que se diverte comigo, pois agora você tem o que nunca teve com ninguém (.) -----, Rafaela advertiu-me, espreguiçando-se langorosamente quando chegou a manhã seguinte. ----- Foder com você é uma coisa deliciosa (.) ----, respondi; nossa paixão era frenética e inesgotável, alimentava-se de si mesma e havia criado uma atmosfera ricamente hipnótica em nossas vidas ( comecei finalmente a abandonar parte do meu ciúme, diminuir o número dos meus interrogatórios e entender suas performances exibicionistas como um subproduto do próprio arrebatamento que tanto me atraía nela: na esteira de uma série interminável de orgasmos, minha concentração no objeto puro do amor passou a ser total: a grande borboleta verde do fundo do mar que só nasce de mil em mil anos adejava à minha volta, para servir meu coração no que fosse preciso. ---- Sua capacidade de renúncia maníaco-depressiva, aliada ao dom do abandono erótico, é o que torna sua atração irresistível para mim (.) ----, eu disse à ela, sentindo que minha inteligência era forçada, que sofria uma coação que já não lhe deixava livre para escolher: uma coação de toda minha sensibilidade, a do próprio símbolo no nível do amor . ---- Nossa, muito, muito inteligente mesmo, hein(?) às vezes eu acho que o que há de errado ainda entre nós, apesar do nosso amor, é que você não compreende nem um pouquinho o que existe entre nós (.) ----, meu Deus, ela era realmente a mais bela, desejável e cativante criatura humana que conheci em toda minha vida; não conseguia afastar os olhos dela nem quando ela estava apenas bebendo uma xícara de café ou estudando na mesa da cozinha. ----- Acho que se nos casarmos logo de uma vez, o lado contencioso da nossa relação minguará por si só(: então, o que você acha(?) ----, propus à ela, e a imagem servia bem ao que eu queria dizer: o que se fazia necessário entre nós, naquele momento, era uma lei, confiança, ordem e estabilidade (e, ainda por cima, eu punha uma enorme quantidade de fé em interesses materiais, relacionados à minha expedição à Serra do Cachimbo, no final do ano, que já se aproximava. ''Se estes se concretizarem'', eu pensava ''será inevitável que eles imponham as condições suficientes para continuarmos a existir juntos para sempre (.)''. Era assim que eu justificava para mim mesmo tanta preocupação em ganhar dinheiro rápido, em face da anarquia e da desordem da minha mente. ---- K (Rafaela disse) você é maravilhosamente irresponsável e gratuito (.) ----, seu rosto refletia a natureza resoluta de seus pensamentos, e ela acrescentou: ---- Decidido, amanhã venho morar aqui com você (.) ----, então, prevendo um futuro maravilhoso, movimentado e agradável num momento e o mais duvidoso no momento seguinte, nos casamos após três meses inteiros devotados à dúvidas, orgasmos, esperanças e temores. Casei-me com Rafaela quando o peso da experiência necessária para chegar à decisão de abandoná-la se tornou tão imenso e angustiante que não consegui mais maginar a vida sem ela. Assim, o sofrimento pelo qual passaria minha sensibilidade caso eu me separasse forçou minha inteligência à procurar a essência que nela se encarnava; e porque aquele sofrimento volta e meia ameaçava-me, reproduzindo-se e entrelaçando-se na minha mente, minha inteligência passou a extrair dele um princípio geral de ação, que também era a mais perfeita forma de alegria que já tinha experimentado na vida. Assim eu transmutava o sofrimento em alegria, como uma máquina sentimental emperrada que começava a pegar no tranco. Aquilo tudo passou a ser também parte da minha Grande Obra alquímica (após três meses de arranjos demarcados e labirínticos envolvendo noites de amor perfeitas, apartamentos separados, feriados conjuntos, crises de ciúme, festas abandonadas com alívio à cinco ou seis dias e alegremente esquecidas por setenta e duas horas, e ainda mais noites de amor perfeitas retomadas frequentemente com um frenesi sexual delicioso... nos deitando para dormir, depois, na cama de casal, no meu quarto, onde uma ávida e carinhosa criatura amiga , deitada já nua sob os lençóis... etc, etc, etc. ---- Você disse, agora há pouco, que ia me contar que tipo de imagens passou pela sua cabeça ontem à noite, quando gozou mais de uma vez junto comigo(.) -----, eu disse, procurando repassar os encantos da noite passada, enquanto colocava para tocar na vitrola um LP de Victor Jarra que ela tinha amado. ---- As imagens que me ocorrem quando estou gozando são coisas muito inusitadas, como, sei lá, leões marinhos esticados sobre pedras molhadas, um carrossel feito de capas de discos famosos, uma cabeça de cavalo de ferro embrulhada numa lona preta, pássaros mergulhando de ponta cabeça no mar espelhando o céu(: minha mente fica tão enlouquecida que não dá para prever qual é o tipo de coisa esquisita que vai passar por ela quando as lâmpadas dispararem(: mas quase nunca são imagens sexuais(: e você (?) ----, ela me perguntou, ao dar por encerrada sua digressão. ---- Também não sei ao certo, mas me sinto como uma espécie de nevoeiro, uma sensação de ter me transformado numa espécie de vapor consciente(: ou então numa espuma de folhas espedaçadas(: ''eu te direi: mergulhando sem pavor nestas fundas regiões onde dorme o veleiro, à espera que o irreal não se levante em aurora sobre nossos corpos que retornam à água do Paraíso'' (: Murilo Mendes(.) ----, eu devia estar meio sem saber se devia continuar olhando para ela, pois ela tinha começado a se masturbar ao meu lado; olhava mais com o canto do olho: vi quando ela apertou um dos bicos dos peitos com um movimento dos dedos, e depois a mão dela correu para o outro seio. Era a mão esquerda (e sem nenhum OOOOHHHHH ou AAAAHHHHHH, tudo em absoluto silêncio, só se ouvia a respiração dela, às vezes com a boca um pouco aberta, às vezes fechada. Numa certa hora, ela apertou os lábios e mordeu-os, e depois mordeu as bochechas por dentro, e depois disse, sem se virar pra mim: ---- Me chupa, K(.) ----, a luz do abajur, ao lado da cama, ainda me permitia ver exatamente em que posição estavam as pernas dela (um pouco abertas, com o cobertor pendente entre elas, as costas da mão dela faziam o cobertor mexer bastante. mas o que me deixou mais eletrizado foi que o braço dela tinha ficado totalmente visível, o cobertor fazendo uma interseção com o pulso, que estava arqueado, sempre fazendo um movimento circular, enquanto eu podia ver perfeitamente o lindo tendão do ante-braço dela se contraindo, controlando os movimentos dos dedos. ---- Acho que vou gozar(.) ----, ela disse, poucos segundos depois da minha língua entrar em sua vagina como uma sonda, lambendo as paredes de carne por dentro. Imediatamente ela começou a gozar na minha boca, puxando meus cabelos com tanta força e concentração, que pela respiração dela deu para sentir que suas pernas tremiam. Foi uma experiência maravilhosa aquela visão do cobertor, depois, escorregando de cima dela devagarinho, enquanto ela juntava os joelhos sobre minha cabeça. ---- Não sái não(: fica aí, por favor(... ----, foi algo que ela disse, naquele momento. ---- Você não quer que eu te coma(?) ----, perguntei, meu cérebro me dando ordens para enfiar e alcançar aquele primeiro momento paradisíaco, e depois me concentrar em segurar os seios dela, trabalhar os quadris e o tronco, segurando os quadris macios dela. ---- É que quando eu gozo, desmonto (ela disse) meu clitóris é muito traiçoeiro (: ele fica dizendo ''Pode gozar, Rafa, não tem problema, depois você consegue gozar de novo em mais alguns minutos, eu aguento mais três ou quatro vezes'' (: mas eu sei que não, não sou do tipo que tem orgasmos múltiplos (: um segundo depois de gozar, fico desativada, por mais tesão que esteja sentindo, e começo a pensar em outras coisas(.) ----, eu compreendia, mas gozar dentro dela para mim era sempre um sentimento místico insubstituível. ----- Coisas como leões marinhos estendidos nas pedras, certo(?) ---, perguntei, e disse: ---- Qualquer mulher fica deslumbrante quando se masturba, mas prefiro meu pau se derretendo dentro de você (: sentindo apenas a estrutura técnica interior da minha tubulação, e aquela vontade de gozar ficando cada vez mais forte, só que também gosto de ver você tendo esses pequenos orgasmos dedilhados, da pequena e fácil alegria que eles te trazem (: sabe, quando penso que ficarei um mês inteiro sem te ver, no final do ano, isso é algo que me traz certa tranquilidade, saber que você aguenta um tempo na mão, pois eu também atravessarei minha aventura inteiramente na seca (: espero que você também (.) -----, eu disse, e bati na ponta da minha orelha, malicioso e ciumento. ''Esta noite eu te encontro nas solidões de coral onde a força da vida nos trouxe pela mão. No cume dos redondos lustres em concha uma dançarina se desfolha''. ----Como você é bobo, K(.) eu te amo(.) ----, ela protestou. ---- Lembre-se, amor, de que eu não estou indo para Las Vegas(.) ----, eu falei, já podendo distinguir na mente aquela tripulação silenciosa e agourenta de rostos chapados e sem alegria, que à Seu Adamastor pareciam todos iguais, como que vazados no mesmo molde ancestral de sofrimentos e paciência, mas, aparentemente, também pelas sua tonalidades moreno-avermelhadas, negras ou acobreadas, no momento em que na proa daquela balsa amaldiçoada se misturavam os mergulhadores dos dois turnos, insuficientemente equipados, com nossas roupas de mergulho rasgadas e cheias de remendos; era um instante de pausa cheio de alívio, no fim do dia, quando os lavadores de cascalho se acocoravam junto aos ralos, fumando compridos cigarros de maconha, para verem se amarelavam de ouro o carpete encharcado: os grandes condutos de madeira se projetando silenciosos, inclinados sobre a proa, e nos permitindo escutar o jorro da água lamacenta nos canais abertos. ---- Pense num lugar infestado de cobras venenosas, mô fio(: É AQUI(!) ----, Seu Adamastor dizia, pelo menos umas cinco vezes a cada vinte quatro horas, apontando o dedo para as margens borbulhantes do rio, onde um interminável cordão de vegetação rasteira serpenteava entre grupos de bananeiras, raízes de palmeiras e outras árvores frondosas que eu não sabia o nome. ---- Vou ficar tão preocupada, K(: rezarei por você todas as noites(.) -----, Rafaela disse, mas eu procurei tranquilizá-la de todas as formas possíveis (desce dos pensamentos de maldição, Amada! Desce da fronteira do tédio agonizante. Eu te dedicarei uma vida de espanto! Eu te dedicarei um buquê de estrelas. Espero-te continuamente no limiar do universo com todas as formas acesas. Porque não prendes ao pescoço o colar da aurora para vires em pensamento até mim, Amada minha: sei que procuraste o infinito no finito. Vem e encontrarás em mim o amor que não tiveste. Encontrarás em mim, fundidas para sempre, a Loucura e a Lucidez. ---- Vai dar tudo certo , Rafaela (eu disse...) PODE CONFIAR EM MIM(.)
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