terça-feira, 27 de janeiro de 2015

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---- E você, K(: você também é desses caras que curtem pés(?) ----, Amanda, uma das estudantes de Psicologia que dividiam a república com Rafaela, me perguntou, e só então eu percebi que aquele papo furado de Jogo da Verdade era 'verdade'. Enquanto eu estava na cozinha abrindo uma cerveja vermelha que tinha colocado no congelador logo que cheguei, ela, Rafaela, seu ficante Alexandre e Rita, a outra estudante de Psicologia que morava naquele apartamento na Avenida Santo Antônio, começaram a brincar daquilo sentados no chão da sala. ---- Não não não não(: você diz os pés das mulheres(?) não(.) para mim são neutros(: mais ou menos a mesma coisa dos cotovelos(.) ----, ela riu: dispondo de um pouco mais de tempo e concentração, eu teria entendido melhor a razão do divertimento, e tirado mais proveito das minhas respostas e perguntas. Em vez disso, não conseguia nem mesmo me aproximar da 'verdade', ou mesmo entrevê-la, nas perguntas que começaram a dirigir a mim e nas poucas que dirigi à elas. ---- O que mais te deixa excitado, K(?) ----, Rita me perguntou logo depois. ---- Sei lá (respondi) Júlio Cortázar costumava dizer que SEM VERBO NÃO EXISTE EROTISMO Emoticon smile mas confesso que a avalanche de exibicionismo feminino do mundo atual, com lábios carnudos e topless, às vezes me deixa interessado(.) ----, eu ia continuar meu raciocínio, para chegar onde queria, mas Amanda logo me interrompeu: ---- E os modelos masculinos também são bem bonitos(: pode continuar(.) -----, ela disse, o que me fez pensar que o rumo da minha resposta não estava agradando de jeito nenhum. Continuei, mesmo assim: ---- Recentemente, vi numa revista a foto de uma garota usando uma blusa branca larga em V, sem sutiã, deitada de costas, com as pernas para o ar cruzadas nos tornozelos, mostrando uma meia-calça(: eu fiquei(... HIPNOTIZADO pela foto(.) lembro que cheguei em casa e, invés de estudar para uma prova do dia seguinte, fiquei lendo a descrição da meia-calça como se fosse um poema simbolista hieroglífico, e olhando para aquela foto(: que pernas lindas, nem musculosas demais, nem finas demais, simplesmente lindas e perfeitas, naturalmente torneadas, sem exagero (.) -----, naquele momento, houve um certo constrangimento na sala, quando Rita comentou: ---- Exatamente como as pernas da Rafaela, foi o que você quis dizer(.) ----, Rafaela sorriu, e levantou uma das pernas no ar, o que provocou um regurgitamento na altura do pescoço de Alexandre, seu ficante, e uma pronta acusação de Amanda, que disse: ---- O Alexandre não gostou nem um pouco disso, gente, olha a cara dele(: VOCÊ NÃO FALA QUASE NADA, ALEXANDRE(: DEVE TÁ MORRENDO DE CIÚMES, NÃO TÁ(?) ----, Amanda era uma garota loira e branca como leite, volumosa sem ser exatamente gorda, charmosa sem ser exatamente bonita, simples e com uma mania de organização muito doida, para quem não havia no mundo nada mais lindo no mundo do que uma folha de papel A-4 perfeita e intocada; a tentativa de desnortear Alexandre acusando-o de ser calado demais e ciumento não serviu para torná-lo mais doce e extrovertido (ele nem sequer respondeu, e não devia estar gostando de estar ali naquela sala conosco, ao invés de estar no quarto de Rafaela de portas fechadas. ----- Talvez, inclusive, eu também seja um pouco exibida demais(.) ---- , Rafaela disse, afagando a nuca de Alexandre, e perguntou à ele: ---- O que você acha, 'amor' (?) ----, confesso que, ao ouvir a palavra AMOR , ainda que descontextualizada e sem ímpeto nos lábios de Rafaela, quem ficou com ciúmes foi eu. Subjetivamente, o ciúme é mais profundo que o amor: ele contém a verdade do amor, pois vai mais longe na apreensão e na interpretação dos signos emitidos pela pessoa amada. Dirigidos à nós, esses signos exprimem mundos que nos excluem. Rafaela continuou, após sugar toda a cerveja do seu copo de um só gole : ---- Mas sempre que chego em casa e me fecho no quarto, a solidão toma conta de mim e eu sinto, feliz, que o exibicionismo está indo embora(: muitas vezes eu me masturbo no escuro, nessas horas(.) ----, ela disse, e eu e as duas estudantes de Psicologia começamos a rir alto. ---- A esposa de Freud também era assim, relaxa(.) ----, Amanda disse. Alexandre agora parecia a ponto de protestar e arrancar o copo da mão de Rafaela, mas não o fez. Há uma contradição no amor: o amante deseja que a amada lhe dedique todas as suas preferências, gestos e carícias, mas os gestos da amada, no instante em que se dirigem ao amante, exprimem ainda o mundo desconhecido que o exclui. Os signos de preferência que a amada emite exprimem ainda os mundos dos quais o amante não faz parte, como Alexandre em relação à masturbação de Rafaela (eu pensava), de modo que cada preferência que ele usufruía ao lado dela, ali naquela sala, delineava a imagem de um MUNDO POSSÍVEL onde outros eram preferidos à ele. Definitivamente, eu me agarrava à essa idéia com unhas e dentes, apesar de já estar encostado em Amanda de maneira a não deixar dúvidas quanto ao que eu pretendia naquela noite. Quando Rafaela terminou de falar sobre suas sessões de auto-erotismo, eu olhei nos olhos dela e disse: ---- Como diria Lord Byron(: ''ESTUDIOSA DE DIA, DISSOLUTA À NOITE'' (.) ----, por um segundo, pensei em substituir a palavra DISSOLUTA por ARDENTE, mas não deu tempo. Alexandre se levantou, visivelmente contrariado com minhas liberdades com sua namorada, e tirou o celular do bolso. Cheguei a pensar que ele me agrediria fisicamente, mas, afinal de contas, não estávamos ali num palazzo em Veneza, e sim numa república de garotas de vinte anos brincando de Jogo da Verdade, e eu não estava perturbando Rafaela mais do que aparentemente ela tinha me permitido perturba-la na vã do projeto, mais cedo, com meu ''vocabulário aristocrático'' e minha crescente fama de ''escritor de um livro de seiscentas páginas''. O que me deu coragem para acrescentar ainda, dessa vez recorrendo à Macaulay: ----- ''Uma libertina entre os doutos, uma douta entre os libertinos'' Emoticon smile PERFEITA(!) ----, exclamei, no fim, percebendo que todas elas ali, incluindo eu, já estávamos bem 'altos' de tanta cerveja vermelha. ----- Você costuma sair à noite aqui em Juiz de Fora, K(?) ----, Rafaela me perguntou, e eu respondi que tinha andado frequentando as festas do pessoal da minha sala, mas que não tinha muitos amigos na cidade. ---- Na verdade (comentei) , tenho apenas um Emoticon smile o Marcos, do projeto, que você também conhece(: um estudante de Direito feio, anti-social e desajeitado, com quem é possível conversar em alto nível sobre Dostoiévski, e nada mais(: andei ficando com a irmã dele, que ainda não entrou na universidade, mas ela é muito novinha coitada(.) ----, Rafaela ouviu atentamente minha explicação , depois se levantou e foi atrás de Alexandre na cozinha. Logo o ciúme, como se fosse a sombra daquele nascente amor, se completou com um DUPLO daquele novo sorriso que ela me dirigiu antes de se levantar, e que agora parecia debochar de mim e encher-se de amor pelo outro. Engraçado: Alexandre devia estar sentindo a mesma coisa, mas era como se eu já me considerasse namorado dela por antecipação. ----- De qualquer maneira (Amanda dizia para Rita) nosso apartamento ficou outro com minha nova arrumação(: apareceram novos bolsões ocultos de ordem logo que terminei o serviço, hoje de tarde(: tomei um banho de chuveiro, deitei no meu quarto, e(... não, não me masturbei (risos) porque ligar para o estágio e inventar que eu estava doente já tinha sido uma coisa DISSOLUTA, como disse o K, e me fez querer permanecer pura e virtuosa o resto do dia, para quando chegasse de noite(... ----, subitamente, Amanda parou de falar e cravou os olhos injetados em mim, com uma energia tão obstinada que beirava a hilaridade. Tarada. Na barriguinha de Amanda, que à medida que ela esticava o braço em volta do meu pescoço tornava-se mais e mais visível, havia a sugestão incendiária de um oferecimento, de um lascívia adolescente implorando para ser satisfeita. ''Procuramos a forma de uma emoção, surge-nos outra. De que ponto insuspeitado do espaço nos despontam certos pressentimentos, certas intuições, que poderíamos registrar num gráfico oscilante(?)''. Senti nela, de imediato, a veemência dificultosamente domesticada e controlada que meu pau levaria ao êxtase logo mais, no seu quarto. E certamente senti em mim também uma súbita ânsia de tocar aqueles quadris que ela começou a empurrar provocativamente contra os meus braços, agora de pé na sala. Rita foi dormir e Rafaela ainda conversava com Alexandre na cozinha: os dois agora discutiam, brigavam. Tarde demais: minhas mãos já passeavam nos longas e robustas coxas de Amanda, encostada contra a parede, que tremiam ligeiramente quando ela tensionava os joelhos e sua loira cabeleira encaracolada se despejava no meu rosto. Quando entramos no quarto dela em definitivo, eu ainda ouvia a voz de Rafaela, o que arrancou um pedaço da minha alma, que não entrou totalmente no breu do quarto de Amanda. ''Entre o tinteiro e o esgoto passa uma corrente subterrânea de entendimento tácito''. Eu me perguntava se era realmente possível que meu desejo pelas pulsações do corpo de Amanda fosse ''sem sentido'' ou ''trivial'', indigno de mim ou mesmo dela, enquanto nos animávamos mutuamente em busca de um orgasmo bêbado e oceânico. De todo desinibida, tarada, Amanda esperava que eu abrisse caminho dentro dela, agora só de calcinha na cama, para aqueles lancinantes prazeres eróticos que ela não parecia desconhecer. Eu beijava sua barriga, quando ela laçou meu membro com a mão e disse HUMMM, o que resultou numa rápida troca de posições em cima da cama. As luzinhas verdes e vermelhas do aparelho de som pareciam bóias iluminadas em alto mar, na escuridão do quarto, e comecei a me sentir muito excitado, frustrado, contente, bêbado e resignado, uma combinação de tudo isso, pensando ainda em Rafaela, enquanto Amanda lambuzava meu pau com a língua e ameaçava acender a luz do abajur para vermos o que ela estava fazendo. ---- Por mim, tudo bem(.) ----, eu disse, sem tirar os dedos da sua carnosa racha umidificada, cujo aroma eu espalhava nos seus peitos, quando trazia as mãos para a frente. Minutos depois dei uma rápida olhada dentro daquela carnosa flor de lava transparente, e não me pareceu errado retribuir a gentileza dela. Eu certamente estava trepando com o que outros considerariam uma jovem putinha na cama; mas, eu não pensava assim : talvez alguém dissesse ainda que Amanda fosse uma garota excêntrica e excepcionalmente desinibida em matéria de sexo devido à um pequeno distúrbio mental... mas eu também não pensava assim. Pensava pragmaticamente, que já não estaria mais tão sozinho na cidade, depois daquela noite, graças à bondade de Rafaela ao me convidar para conhecer sua república. A cama tremeu tanto e fez tanto barulho, enquanto eu dava duro em cima de Amanda, que uma luz se acendeu do lado de fora do quarto. Eu tinha a impressão de estar com todo meu peso apoiado nos calcanhares, na parte de trás das solas dos pés; a tensão dos músculos das minhas pernas e nádegas era tanta, que todos os meus nervos entraram em comunicação ao mesmo tempo, e quando gozei me pareceu que estava ejaculando com as pernas ( a hiperventilação provavelmente diminuiu o teor de cálcio ionizado do meu sangue, alterando a condutividade dos meus neurônios, e depois de resfolegar bastante, martelando bem fundo entre as pernas dela, tive um orgasmo de arrasar o quarteirão. Tivemos! Olhei para Amanda e ela também parecia estar sentindo aquele formigamento em todas as extremidades, na raiz dos cabelos, nos dentes, sei lá, tudo que tínhamos direito. Silêncio... a luz continuava acesa do lado de fora do quarto e agora eu ouvia o som de cubos de gelo girando num copo. A cozinha era em frente, e pensei: ''É ELA(!)'', de modo que cheguei a lamentar rapidamente cada prazer que tinha acabado de experimentar com Amanda, cada carícia inventada e cuja doçura e ardor tive a imprudência de elogiar , ao lado dela na cama, pouco antes de ouvir os cubos de gelo no copo de Rafaela. Dali a instantes, Amanda começou a enriquecer de novos instrumentos meu estranho estado de espírito: --- Um dia de madrugada (disse ela) eu estava ouvindo música aqui no quarto com os fones de ouvido plugados no aparelho de som(: o fio dos fones era bem curto, sabe, mas eu estava muito afim de dançar(: quase em êxtase, depois de saber que tinha conseguido o estágio na Amac Emoticon smile dançava como se estivesse seguindo os rastros de um animal no chão, dobrada para a frente, suando, sem fôlego, abanando os braços, dando pulinhos(: de repente, fiquei um pouco animada demais e sacudi com força a cabeça para o lado, e o aparelho de som inteiro veio abaixo Emoticon smile BOOOMMM(!) então, silencio, e comecei a ouvir esses mesmos sons de cubo de gelo girando no copo, vindo da cozinha(: até hoje não sei se é a Rita ou a Rafaela que sofre de insônia(: hi hi(.) ----, quando ela acabou de falar, tive certeza não só de que ela sabia que era Rafaela quem estava na cozinha, como de que estava com ciúmes dela. A contradição do amor consiste nisto (pensei, depois: os meios de que dispomos para nos preservar do ciúme são os mesmos que desenvolvem esse ciúme. Os signos do amor não são signos vazios, que apenas substituem o pensamento e a ação: são signos dissimulados que não podem ser dirigidos a nós senão escondendo o que exprimem: a origem dos mundos desconhecidos da pessoa amada, das ações e pensamentos desconhecidos que lhe dão sentido, e causam o ciúme na amante. Eles não suscitam uma exaltação nervosa superficial, e sim a tortura de um estranho aprofundamento, para o qual nada há em nós que esteja preparado. ---- Te incomodada(?) ----, perguntei à Amanda. ---- Não, mas acho que fizemos barulho demais(: já são duas da manhã(.) ----, ela disse. ----- Mas hoje é sábado(.) ----, respondi, e ela riu. ----- Pensando bem, FODA-SE(.) -----, ela respondeu e montou em cima de mim de novo e, de repente, deixou que a gravidade tomasse conta da situação. Subindo. Fôlego, eu tomava fôlego enquanto os seios alvos e volumosos dela colidiam como caldeirões em cima do meu rosto, e meu pau entrava nela sentindo por trás suas não menos volumosas nádegas cor de leite. Ela gozou rápido, dessa vez, e fui incentivado a alcançar mais um grand finale com a assistência não solicitada da sua mão branca de unhas roxas. Mão segura, rápida e nada sentimental . As molas de uma, como dizia Rimbaud, ''Mecánique Érotique''. Quando eu me levantei da cama e acendi a luz do teto, vi uma pilha de DVDs pornô em cima da televisão. ----- Dois desses filmes eu nunca vi, são de pornô lésbico(.) ----, Amanda disse da cama, observando meus movimentos através do quarto. ---- É mesmo (?) não quer me emprestar (?) sou entusiasticamente a favor da pornografia e pretendo escrever sobre sexo lésbico, um dia(... ----, eu disse, mas de repente me lembrei que não tinha televisão nem DVD em casa, e me imaginei fazendo aqueles filmes avançarem nas partes mais chatas, tentando encontrar alguma boa imagem que me fizesse gozar, e decidi que NÃO. A última coisa que eu precisava era me tornar um punheteiro. ''Quantos já não suicidaram-se por engano! O inferno é uma idéia alquimista: os pecados serão transformados em fogo; também o homem será mudado. Segundo os alquimistas, mais importante do que a transmutação da matéria é a própria mudança do homem que age sobre ela''. Peguei um dos DVDs de pornô lésbico e observei a capa: a fotografia pegava uma das garotas loiras no exato instante em que os peitos dela estavam no ponto máximo de expressividade, a alma 'deles' inteiramente revelada. Ela estava olhando diretamente para mim, e não para a parceira embaixo dela; de fato, dois belos peitos no ponto máximo de beleza, não com os bicos duros mas redondos, macios e cheios de paciência meticulosa (olhando pra mim com um olhar tão brincalhão, lúcido, alegre... ''Afinal de contas'', pensei, ''eu vim até aqui em busca de uma namorada e acabei a noite com uma tarada promíscua de apetites insaciáveis e propensões estranhas. Não era o que eu queria. E não deu pro gasto de jeito nenhum. Orgasmo nenhum substitui o que eu queria. Não estou reclamando de barriga cheia, estou sendo sincero''. Depois que me vesti e perguntei a Amanda se podia acender um baseado no quarto, ela respondeu: ---- Pode, mas eu nunca fumei(: aliás, só uma vez, com uma colega de sala, no primeiro período(: a Elizabeth, e advinha, ela é lésbica(: dei só uns tragos e ela fumou tudo sozinha, depois começou a me contar uma fantasia sexual dela, em que ela estava num lugar onde mandavam ela tirar as roupas e entrar num tubo(.) ----, eu comecei a rir, com o baseado queimando na mão. ----- Esses filmes de pornô lésbico são dela(?) entrar num o quê(?) ----, perguntei, ainda rindo. ---- São Emoticon smile entrar num tubo, num tubo comprido(: ela disse que entrava num tubo comprido e começava a descer por ele, deslizando numa espécie de corrente lenta de óleo(: a corrente não era tão veloz quanto a de um escorregador com água (ela seguiu contando: era bem mais lento, sem fricção ou atrito, e o tubo era de um neon rosa-choque(: à medida que ela ia avançando, uns pares de mãos entravam no tubo um pouco a sua frente, tateando às cegas, e os seus pés raspavam nela e tentavam agarrar seus tornozelos, mas os dedos estavam cheios de óleo, e escorregavam pelas pernas dela, segurando-a com força, e à medida que ela ia avançando pressionavam sua barriga com ainda mais força, e depois se viravam para encontrar os seios dela, deslizando muito devagar sobre eles, empurrando-os pra cima(.) -----, em linhas gerais, essa foi a primeira vez que ouvi falar em Elizabeth Castro (mas isso não vem ao caso agora: Amanda não quis fumar comigo, de modo que enquanto eu fumava ela ficou rolando de um lado para o outro na cama, às vezes dizendo como as outras duas meninas às vezes reclamavam com ela por cozinhar pratos com curry em altas horas da madrugada, e sugeriam que ela talvez devesse levar menos parceiros sexuais por semana no seu quarto, e quem sabe até ''voltar para o namoradinho dela''. ---- Então você tinha um namorado(?) ----, perguntei. Entretanto, Amanda tinha decidido aceitar de peito aberto as críticas das amigas e as pequenas afrontas silenciosas dos vizinhos nos corredores do prédio como parte da aventura de viver longe de sua família, radicada em Carangola. ----- Na verdade, ainda tenho um(: sou apaixonada por ele, sabe(?) -----, dessa vez, juro que não ri por maldade, mas de saturação. Ela continuou: ----- Mas ele perdeu a paciência comigo, coitado(.) ----, de fato, me pareceu algo longinquamente assemelhado à minha relação com Júlia (digo, ela também perdeu a paciência comigo, mas por outros motivos. ---- ''O vento liberta-se ventando (eu disse: Murilo Mendes (.) ----, mas quando me virei para a cama, Amanda estava com o rosto afundado no travesseiro, de olhos fechados, como naquelas batidas cenas de novela em que alguém para para pensar em alguma coisa profunda, ou agradável, e aparece um close-up do rosto da pessoa e depois ela estende a mão e apaga o abajur da cabeceira, CLICK, mas não deu nem tempo de ela fazer isto. Apagou antes do abajur, que eu desliguei antes de sair do quarto. Não creio que a excitação que eu senti ao abandonar o quarto de Amanda naquele momento tivesse a ver com a esperança de encontrar Rafaela acordada na sala, assistindo a tv com um copo de cerveja vermelha na mão, mas foi exatamente o que aconteceu: num primeiro contato visual, ela nem sequer tirou os olhos da tela para falar comigo, mas o risinho que pude identificar no canto dos lábios dela me deu a certeza de que ela não estava rindo de nada do que passava na televisão, pois era um noticiário. ''O mundo da mulher amada'', pensei ,''é sempre um mundo que nos exclui, mesmo quando ela nos dá mostras de preferência''. ----- Acordada até agora, Rafaela(?) ----, perguntei, hipnotizado pelo desenho das suas pernas cruzadas sobre o sofá. ---- Não mais do que você, K(.) essa cerveja vermelha que você trouxe é uma delícia(.) -----, ela respondeu, e seu riso se abriu totalmente, agora, revelando uma terra incógnita terrível que eu acabara de aterrar com minha súbita aparição na sala. Ela se levantou com o copo na mão e, ainda sorrindo, ajeitou a saia embaixo e disse: ----- A gente se vê sábado, certo(?) ----, o riso na face dela era qualquer coisa de oracular e impressionante, contendo toda uma nova fase de maravilhosos sofrimentos para mim, até há pouco insuspeitados dentro do meu peito. ----- Mas hoje é sábado(.) -----, eu disse, ela riu e respondeu: ---- Não, já é domingo(: são quase quatro da manhã (.) ----, Alexandre, meu rival, não era nem de longe semelhante a mim, talvez meu exato oposto, suas armas eram inteiramente diferentes das minhas, e eu não tinha absolutamente nenhuma condição de lutar no mesmo terreno que ele, proporcionar à Rafaela o mesmo status quo, nem mesmo concebê-los de modo exato. Uma pausa. ----- De fato (eu disse) é domingo(: mas ainda tô longe de fazer tudo que eu podia, e 'queria' (.) -----, e dei dois passos alucinados na direção dela, que interrompeu meu avanço colocando as pontas dos dedos de unhas vermelhas no meu peito: ---- A porta fica naquela outra direção, K (.) -----, ela disse, rindo ainda o mesmo riso oracular e magnético, e piscou o olho de um jeito tão auto-consciente e superior, que eu subitamente compreendi até que ponto inimaginável ela era senhora absoluta da situação, não só da presente, mas das futuras também, que ela certamente já tinha concebido em pensamento. ----- Quando as portas da percepção estiverem limpas, tudo será visto tal como realmente é: INFINITO(!), William Blake(.) -----, eu disse, rindo, e ela começou a rir copiosamente junto comigo, sem tirar ainda os dedos do meu peito, que eu tentei apanhar no ar mas ela recolheu no susto. Então afinal tomei o rumo da rua, como ela parecia estar querendo que eu fizesse. ---- Bons sonhos, K(.) ----, ela disse pouco antes de eu fechar a porta atrás de mim. Nem respondi, já me encontrava sonhando naquele momento. ''Einstein diz que na passagem do finito para o infinito há um desvio para o vermelho''. A luz dos postes no trajeto para meu apartamento estava formando aquele alaranjado escuro contra o céu azulando em meio à névoa matinal, tão gradualmente que não sabia ao certo se era o céu que estava acendendo e ficando mais brilhante ou se eram as lâmpadas da rua que estavam se apagando e ficando escuras. Mas é claro que eu sabia. ''Dir-se-ia fazer-me sinais com o auxílio de um farol''. Uma qualidade sensível nos proporciona uma estranha alegria, ao mesmo tempo que nos transmite uma espécie de imperativo. Uma vez experimentada, essa qualidade não aparece mais como uma propriedade do objeto que a possui no momento, mas como o signo de um objeto completamente diferente, que devemos tentar decifrar através de um esforço sempre sujeito ao fracasso. ''Assim é o ofício de um verdadeiro escritor'', pensava na rua, enchendo minha vista com a imagem dos mais estranhos objetos, que me atiravam signos que nada tinham haver com sua procedência. Naquele momento, eu caminhava mergulhado num frenesi tão egoísta por causa daquela coisa improvável que estava acontecendo comigo, que me sentia afogando em imagens desconexas a cada passo; um frenesi de afogamento, um bater de braços da minha consciência tão agitado para se manter à tona que me fazia sentir estar me divertindo tremendamente. Sentia que a revelação final do TEMPO REDESCOBERTO seria anunciada por uma multidão de signos como esses. Uma alegria intensa, na qual esses mesmos signos se distinguiriam dos anteriores pelo seu efeito imediato sobre meu espírito. Depois, o sentimento de obrigação decorrente disso, a necessidade de um trabalho poético e iniciático do pensamento. Recapitulação. Livro de seiscentas páginas. Mas meu esforço não podia terminar por aí, eu pensava (não podia me contentar com o simples ressurgimento do presente sob a forma de passado, ou com uma simples associação de idéias, mas com o rastreamento de um vida vivida sob uma forma inédita, captada na sua ESSÊNCIA, na sua ETERNIDADE. Assim funciona a grandiosa máquina literária de Marcel Proust. Mas isso é assunto para especialistas... como eu.

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