segunda-feira, 19 de janeiro de 2015
2
----- Você enlouqueceu, K(?) e onde fica isso... Godofredo Viana(?) ----, Júlia perguntou no celular, e minha vontade imediata foi explicar à ela que eu era patrão de mim mesmo, que eu tinha decidido jamais trabalhar para os outros de novo, que todo ouro que eu encontrava era meu: nada de imposto pro governo, nem contribuições para cooperativas de mineração; nada de ordem, registros jurídicos impecáveis, nada de operar comportas e máquinas de pulverização. ---- Você diz como se o ouro saísse andando direto da terra para os anéis nos dedos das atrizes(: Godofredo Viana fica no norte do Maranhão(.) ----, respondi, e ouvi um grito do outro lado da linha: as férias da faculdade já tinham acabado há uma semana e minha presença vinha sendo sistematicamente solicitada no projeto de cidadania ativa da universidade. ---- Acho que preciso de mais duas semanas aqui, Júlia (: é o único jeito de atravessar o segundo semestre com grana (: acredita que conheci aqui um velho de Belém do Pará que me ensinou um monte de coisas, até mesmo a mergulhar (: sabe, tô falando com você enquanto ando numa praia deserta cheia de árvores mortas fincadas na areia branca(: são uns lençóis(.) ----, aaaah, os grãos de ouro eram como piolhos nos cabelos embaraçados da Mão Terra, mas quando se separavam dos minérios mais leves, girando na batéia, a terra e a simples sílica, lá estavam eles, brilhando contra o fundo de metal. ----- O jeito é esperar, então(: me liga de novo quando puder(: um beijo (.) ----, Júlia disse, nervosa, e pouco depois desligamos os celulares. Bela e fantasmagórica paisagem: ''se a gente joga uma pedra no vento por aqui, ele nem olha pra trás''. Conheci Seu Adamastor na primeira semana de estadia em Gofredo Viana, através de um grupo de garimpeiros clandestinos que vinham invadindo as terras de uma mineradora estrangeira em levas cada vez maiores e intratáveis. Há muito eu planejava dar uma olhada na região: nos jornais e na internet eu já rastreava informações sobre o que se dizia ser a terceira maior reserva de ouro do país . Os garimpeiros usavam pequenos ralos artesanais para lavar os torrões de cascalho mais promissores no meio do mangue; ao longo de todo o dia, eu agachava os músculos doloridos na lama junto à bruxa balbuciante do rio, e as fagulhas de ouro apareciam como vagalumes. Seu Adamastor tinha pulado fora da mineradora por não querer mais ser um escravo dos gringos; e também por causa de alguns amigos muito respeitáveis e duros na queda que tinha feito por ali. Quando conheci Seu Adamastor, minha primeira impressão foi justamente essa: um ex-capataz de mineradora decidido a melhorar de vida e ajudar outros a fazer o mesmo. Eu já sabia perfeitamente como julgar um caráter num primeiro contato, e não demorei muito pra começar a perceber que sem Seu Adamastor ali, todos corríamos um risco muito grande de sermos mortos. O fato era que apenas ele tinha um conjunto de informações precioso tirado de dentro da própria mineradora, que há mais de trinta anos fazia pesquisas na região. A maioria dos garimpeiros clandestinos eram antigos moradores que tinham sido obrigados a vender suas terras para a empresa, acreditando que conseguiriam trabalho nela para poderem viver na cidade, o que jamais aconteceu. Seu Adamastor conhecia e conversava constantemente com algumas lideranças sindicais, vereadores, professores, moradores das comunidades próximas ao empreendimento e todos eram taxativos ao afirmar que não houveram audiências públicas, nem disponibilização de estudos ou relatórios, nem qualquer outra forma de informação à população. Seu Adamastor aos poucos se tornou o terror daquela mineradora e fonte de preocupação da polícia. A região estava infestada de ladrões e mateiros, ladrões e assassinos que vinham de todas as partes do país. Cinquenta por cento daquela malta assassina se compunha de bandidos profissionais que tinham ouvido falar no ouro, mas já não havia um só que não tivesse ouvido falar em Seu Adamastor. Quanto à arraia-miúda da cidade, bastava à eles verem seu 'sombrero' e os dentes amarelados de fumo, que todo mundo se encolhia num canto. Para a gente na situação irregular como eu e o resto do bando, era de extrema serventia aquele exemplo escatológico da força de personalidade. Numa daquelas noites de trabalho, em que se terminava de fazer as lavagens, vimos um camarada lavar mais de um quilo de ouro, boquiabertos (eu nunca tinha visto: assim, do dia pra noite. As sobrancelhas de Seu Adamastor arquearam-se, satisfeitas, tão altas que revelaram círculos escuros em torno dos olhos, e ele disse: ---- É assim que se deixe de ser um escravo(.) -----, e olhávamos em volta contemplativamente, acreditando que um antigo vulcão tinha feito um imenso veio de chumbo e uma rajada do mais puro fogo azul se fundirem, criando um pântano de ouro, uma goela congelada na terra sob nossos pés. Olhei para Seu Adamastor e ele estava olhando pra mim interrogativamente: ----- Quem é você, mô fio(?) ----, ele perguntou. Mas eu não tentei aprofundar o assunto: logo de primeira ele viu a avidez brilhando nos meus olhos opacos mas faiscantes, e na minha fisionomia o orgulho doido de testar minha força e astúcia contra a obstinação da terra. Deu-se por satisfeito com o fato de que eu era mais um fugindo da escravidão, sem medo de ser preso. Dois dias depois ele mesmo me vendeu um Taurus calibre 38 e engatilhou e disparou a arma na minha frente. O som de mau presságio do disparo arrancou um gemido baixo à figura rígida de um caboclo sentado no chão; e um inopinado brado de desafio brincalhão, em volta do acampamento, logo transformou os rostos dos outros garimpeiros num confuso murmúrio de resmungos. O conflito da mineradora estrangeira com a Comunidade do Barão explodiu três dias depois: a derrubada de uma dezena de bacabeiras na área da comunidade, sem autorização legal, revoltou um grupo de moradores que imediatamente fecharam a estrada. A Polícia Militar foi chamada e os seguranças particulares da empresa trocaram tiros com alguns garimperios do nosso bando. Tínhamos acabado de voltar da Serra de Pirucaua, entre vários rios e campos alagados ( eco-sistema que compreende a APA Reentrâncias Maranhenses e de sítios Ramsar. A Comunidade vivia nas cercanias daquela área de campo que foi reivindicada através de uma ação junto à Câmara de Vereadores para uso e preservação. Segundo Seu Adamastor, havia sido criada e aprovada uma lei que tornava a área de campos e manguezais de ''Patrimônio Público''. Mas naquele mesmo ano, a lei tinha sofrido modificações, passando a responsabilidade para a Prefeitura, o que facilitou criminosamente a entrada da mineradora em Barão de Pirucaua. Alguém passou correndo por mim, na rua de terra batida. Estava escuro e o enfrentamento se concentrava adiante. Por um instante resfoleguei, suando frio, entrando num armazém com a porta abaixada pela metade. Seguiram-se murmúrios abafados e passos rente à porta. De repente, o resto de luz dos postes falhou e a rua ficou preta (que augúrio: uma nuvem monstruosa laçou a região de Pirucaua; chocavam-se postes e relâmpagos, o som da destruição marcado pelo zunido da ventania e os tiros. A multidão, rechaçada pela chegada da Polícia Militar, se dividiu em vários grupos, atravessando os campos alagados e recuando em direção à Comunidade. O estouro dos tiros era abafado pela chuva, e pareciam disparos muito longínquos, respondidos com xingamentos débeis a grande distância. Nos intervalos, os tiros isolados ecoavam fracos, e o armazém, cinza, baixo e curto, com todas as janelas fechadas, parecia ser o centro silencioso de uma desordem que se alargava num imenso círculo à nossa volta. Os movimentos e as vozes de um grupo dispersado, buscando abrigo no armazém, fez com que a escuridão da peça, riscada pela luz de um dos postes sobreviventes lá fora, se iluminasse de sons preocupantes e furtivos. A seguir, mais tiros. O tempo todo eu mantive minha mão esquerda (sou canhoto) cerrada na coronha do Taurus prateado. Era como se espectros invisíveis, esvoaçando na rua, discutissem com o vento a possibilidade de invadir o armazém atirando à esmo. Situação inervante, mas ainda assim eu sentia que a mera presença de Seu Adamastor lá fora, na linha de frente do conflito, tornava tudo mais seguro. Todos na Comunidade se encontravam dominados pelo fascínio que o ex-feitor da mineradora exercia sobre nós. Com revólver em riste, me curvei sob a porta do armazém e fixei os olhos na distância . Uma descarga de armas de fogo, longe dali, levou-me a puxar a cabeça para trás e fechar os olhos. Dois tiros atingiram , ao mesmo tempo, a parede, e um pedaço do reboco caiu. Depois, silêncio... a expectativa da Comunidade com a chegada da mineradora na região era a de melhoria da estrutura e a criação de muitos empregos; em reuniões entre a associação de moradores e alguns funcionários da mineradora, ouviram-se promessas de ganhos para a população; e agora, vinham aqueles tiros: alguns poucos empregos mixurucas (segurança em turnos e limpeza das áreas de mineração), falta de água potável e infra-estrutura básica selando o cotidiano das pessoas que tinham visto a comunidade ser dilacerada do dia para a noite por aquele empreendimento. O Posto Médico vivia fechado e quando abria era apenas para fazer ''curativos'' (enquanto a poeira dominava as ruas sem pavimentação, drenagem ou esgoto. Além do que o Conselho Estadual de Segurança Alimentar já tinha recebido denúncias de rompimento dos depósitos de material químico de mineração, no povoado. O ônibus que eu precisava para voltar à Godofredo Viana não passou naquela noite, e fui obrigado a pegar carona num carro de bois, aberto aos céus, com laterais de tábua. Dois velhos guzerás emaciados puxavam por uma trilha de mato molhado, pouco mais rápido que o passo de um homem. O trajeto tinha várias decidas em pequenos vales alagados na distância, onde a trilha cruzava mangues e riachos cobertos de seixos, sobre pontes de tábuas empenadas. Dezesseis quilômetros sacolejando em cima de tufos de cana, com dois outros passageiros, parasitas de garimpeiros clandestinos, que se assombravam com a minha aparência de jovem branco e loiro. Supunham que eu estava voltando para Godofredo Viana em busca de prostitutas. Já na cidade, a fachada dos casebres na rua lançava um longo retângulo negro de sombra, que se alargava lentamente sobre o caminho do carro de bois. Ao longo da pista principal (a única asfaltada), o ramal rodoviário de um cruzamento distanciava suas reluzentes fitas paralelas num cinturão de grama esturricada, à cinquenta metros da extremidade do albergue. Desci do carro de bois já sob o céu estrelado, a mão coçando a coronha do Taurus a todo instante. Meus olhos examinavam o albergue com curiosidade; ao fundo, trilhas altas de poeira persistiam aqui e ali (não havia chovido na cidade: grupos de homens corriam; outros se detinham; e os boatos sobre a insurreição no distrito chegavam aos ouvidos do povo a intervalos irregulares. Figuras de mulheres solitárias, a pé, que tinham parentes na comunidade do Barão, vagavam desoladas na rua. Todo o destacamento policial da cidade havia sido deslocado para o local do conflito. O medo shakespeariano. O medo pirandelliano. O medo kafkeano. O medo vaticano. O medo americano. Desde o osso do abismo in-voquei teus pés. Eu já me dava por satisfatoriamente alarmado, naquela noite. Essa é a sua vida: não fica melhor do que isso. Quando recostei na cama estreita do quarto alugado, todas aquelas cenas desapareceram gradativamente da minha consciência, como se entrassem à galope num abismo, e os restantes movimentos de cada cena animada me lembravam os lances de um jogo violento travado nos campos alagados por dois grupos de anões, gritando uns contra os outros com gargantinhas minúsculas, ao pé da vaga serra que parecia à distância uma encarnação colossal do silênio. A APA das Reentrâncias Maranhenses pode ser descrita como uma grande área (aproximadamente 254 quilômetros de extensão) de costa baixa com uma série de ilhas, baías, enseadas e um complexo estuarino interligado por canais chamados de ''furos'', os quais são recortados por igarapés cobertos por manguezais, que hospedam várias espécies animais (peixes, crustáceos, moluscos e aves migratórias (seu valor panorâmico, para mim, era o mais precioso: praias e dunas abrangendo infinitos eco-sistemas. De manhã, guardei minhas coisas na mochila e desci para a rua em busca de uma padaria aberta. Havia uma na esquina da rua detrás, e nela um dos caboclos do bando de Seu Adamastor fazia o desjejum. Cumprimentei-o discretamente, mas evitei pedir notícias do conflito, e ele me afirmou que já estava voltando para o acampamento naquela mesma manhã. No quadrado de luz que entrava pela porta, havia uma mulher sentada numa cadeira, com a cabeça apoiada na mão, na qual pesava ainda uma massa emaranhada de cabelos pretos. O sol lhe destacava os sulcos fundos do rosto, e, enérgica, ela tinha a imobilidade de uma escultura. Não era bonita, mas tinha um corpo incrivelmente enxuto e fortes panturrilhas pardas (talvez pouco mais de quarenta anos: o caboclo me disse que era a ex-mulher de um dos garimpeiros do bando, e que atualmente era conhecida como puta, embora fosse dona da pequena padaria e reservada ao extremo : ---- Na verdade, não é mais puta (: depois que nosso amigo cansou de ser escravo dos fazendeiros, partiu pro garimpo em busca do famoso bando de Seu Adamastor(: passaram-se dois meses muito fracos de lavra, e quando ele voltou pra casa ainda mais pobre, encontrou na mesa arroz com feijão, toucinho defumado e uma panela de pressão chiando com um suculento dourado em postas (: abacaxis cortados e travessas cheias de pitangas frescas(: olhou pra essa dona aí na porta (sua mulher, na época) por um longo minuto - o branco dos olhos avermelhados pelo pó da viagem - e não precisou perguntar de onde ela tinha tirado tanto dinheiro(.) ----, ele disse (mais ou menos assim: ou seriam as memórias daquela dona de grossas coxas pardas que pululavam no meu inconsciente junto com seus antigos clientes: os gritos, os apertos, os corpos em tão diferentes tons de pele, de músculos, cheiros, tipos de cabelo, formas de orgasmos abafados dentro dela? O caboclo pronunciava todas aquelas palavras depressa, engolindo a média com café , pois o ônibus para a comunidade já estava a caminho. Quando pagamos, a dona fez um beicinho pra mim, projetando os lábios vermelhos de batom. Tinha olhos admiráveis, castanhos, com uma cintilação dourada na íris. ---- Acho que ela gostou de você, menino (: ha ha ha(!) -----, ele disse, assim que saímos da padaria para a rua de asfalto quebrado. ---- Pois é (respondi: é que eu sou tímido(.) ----, e ri com ele. Olhei para trás e contemplei a dona uma última vez, pensativa na porta, olhando para nós à distância. Quando o ônibus chegou , as pessoas encheram os bancos com a inocente intensidade das últimas notícias do conflito: os baleados e os fugitivos em meio à tombos no meio do mato, um segurança da mineradora morto, etc; tudo me dando tempo para duvidar rapidamente do curso que o destino tinha escolhido pra mim. A natureza da paisagem à minha volta dizendo-me, em contra-partida, porque eu havia me juntado ao bando de Seu Adamastor. Meu nome, acrescido àquela tribo de marginais, fazia de mim um bandolero temporário, que vinha de manhã e ia embora à noite, nunca revelando onde dormia, com medo de ser morto. Placa informativa: comunidade à 16 km. Outra placa informativa: mineração industrial. A migração das pessoas dos municípios vizinhos em busca de trabalho com o início das obras de mineração havia trazido especulação imobiliária com o aumento do valor dos imóveis, terrenos e aluguéis (em média R$ 1.000,00) , levando à um desastro aumento do custo de vida (a miséria tornou-se preocupante. Um caminhão da mineradora ultrapassou o sacolejante ônibus em que estávamos e cobriu a estrada de poeira. Mais uma placa informativa, adiante: área de mineração - ENTRADA PROIBIDA. Enormes cartilagens de aço despontando à distância, maquinário do assalto internacional: a mineradora já vinha adquirindo terras ali desde a década de 1980, usando de vários artifícios para pressionar os posseiros a vender suas áreas, inclusive a expulsão de alguns sem nenhum pagamento. Lideranças locais ainda relataram à Seu Adamastor problemas de saúde e flagelos sociais que começaram a aparecer de repente, como doenças nos rins causadas pela mineração, aumento da prostituição entre adolescentes e inúmeros acidentes rodoviários em função do fluxo de veículos pesados nas estradas que ligam o município à área da mineradora... qual o verbo adequado a estes cárceres?, essas máquinas mono-mentais construídas à desmedida do homem? O Guará aqui perde a pátria, o vegetal e o mineral se arrepiam perdidos nessas crateras de ecos onde subir e descer fazem o homem ser julgado pela pedra: caminhantes desorientados por blocos superpostos (proibição de acesso, ainda, à algumas áreas de trabalho e pesca dos moradores da comunidade: crianças brincando numa várzea imunda onde havia sido prometido um campinho de futebol (outra obra de aço da mineradora: tudo era secreto naqueles escritórios inacessíveis, alusivos ao caos, derivando do signo manifesto da destruição (sonho do avesso no reino da murocracia: uma estrada vicinal de cerca de 10 km que cortava o campo e os manguezais havia sido reforçada e melhorada para a passagem de veículos e caminhões pesados à área de mineração, mas foram retirados os pequenos bueiros que conectavam as ''águas'' dos manguezais e dos campos cortados pela estrada, ocasionando a morte de toda a vegetação, tanto dos manguezais quanto do junco (gramínea típica), condenando boa parte da região e toda sua biodiversidade de plantas e animais: agora eu podia ver com meus próprios olhos a vegetação de manguezais desmatada à margem da estrada da mineradora, aterrada, distinguindo-se facilmente o sinal próprio a liberar o passo subterrâneo dos tampos de aço; todo o campo inundável morto pelas máquinas do etc obscuro e a área da serra desmatada para a exploração; o lixão da empresa à margem de uma grande quantidade de madeira cortada e búfalos selvagens vagando à esmo em busca de pasto. BEM VINDO À GODOFREDO VIANA. O enorme zumbido da mineradora à distância (o estalar das picaretas; as conversas e cantigas desencontradas, quando os homens de Seu Adamastor mourejavam em fila única, subindo as bordas inclinadas e lamacentas rumo aos montes de escória que se despenhavam pelas encostas da serra, como uma segunda montanha brotando da primeira; a ocasional explosão de berros e xingamentos quando irrompiam brigas ou uma avalanche soterrava alguma cratera terraceada. Já tinha alguns dias que eu vinha acompanhando um sinuoso veio claro pela parede esquerda de um buraco de rocha, uma clareza avermelhada do tipo tido como mais promissor, junto ao cobre e ao chumbo. ---- Quando a terra avermelha é porque o ouro tá rente, mô fio(.) ----, Seu Adamastor tinha dito numa ocasião. Eu atacava aquela rocha furiosamente, enquanto ouvia Seu Adamastor dar instruções aos homens e narrar, com um cigarro na boca, sua passagem por Serra Pelada no começo dos anos 1980 (antes mesmo do meu nascimento: ---- Era Domingo de Páscoa(: um helicoptero com oito homens da Polícia Federal e Exército, tudo comandado pelo Major Curió, sobrevoava a grande cratera dos garimpêru (: a informação de Brasilía dava conta de que a gente era em número de trinta mil cabeça, todo mundo armado, e alguns, como eu, até com dois berros na cinta(: como eu coçava aquela cintura, mô fio(: o dia inteiro(: tudo gente sem-terra aqui do Maranhão, da Bahia, ou fugida de enchente do Tocantins, e velhos garimperos, comerciantes, bandidos(: o helicóptero deu muitas volta até descer na pista improvisada(: vinha pra dar combate à guerrilha que explodiu(: a decisão de intervir foi do Presidente João Figueiredo (: desceru com carta branca pra agir(: com a intervenção é que começaru a registrar na Receita o ouro, que agora a gente tinha que vender pra Caixa Econômica pela Docegeo(.) ----, eu seguia ouvindo e desferindo um sólido golpe atrás do outro, na minha rocha (o veio rubro estava voltado para dentro , e a picareta, rasgando tudo naquela região, revelou um brilho atormentado pelo pó de pedra. Ajoelhei rente e ataquei a fenda de rocha. O brilho se alargou. Nuvens, lascas de pedra parecendo punhos fechados, voavam por cima de mim: a fúria do meu ataque empilhava detritos às nossas costas e deixava sangrando a pele em torno das minhas unhas. O torrão que encontrei tinha um brilho avermelhado e não escamoso. ---- AAAAHHHHHHHHHHH MULEKE BÃO (!!) ----, Seu Adamastor berrou do meu lado, passando os olhos no meu serviço. Com mais duas horas, cerrando os olhos como se estivessem voltados para dentro de um forno, consegui soltar a pepita. Era uma grana preta, o que tinha agora nas mãos (ela tinha uma espécie de barriga, como um ídolo, algo sagrado como um Buda: minha cabeça zumbia ao sol, calculando quanto eu embolsaria, após fazer a partilha com Seu Adamastor e o resto do bando. Meus cálculos estavam certos: R$ 54.000,00. Caí de joelhos na terra e agradeci à Deus, ''senhor do ouro e da prata'', e seus espíritos ( para mim, aquilo representava uma pequena fortuna, e um segundo semestre absolutamente livre. Do céu às avessas eu havia aguardado o timbre agudo daquela eletropressão. OPERA APERTA! Sol cooperativo, único ator de mil mãos. A rotativa puxando o revólver do livro. Malgrado a natural indiferença de um homem de negócios pela natureza, cuja hostilidade sempre pode ser rebaixada à uma indiferença cancerosa, eu me perguntava se os sócios daquela mineradora podiam deixar de ficarem impressionados com toda aquela paisagem que estavam destruindo. Permaneci com o bando de Seu Adamastor ali até de noite (moles colossais de basalto emolduravam , como um portal aberto, uma porção dos campos alagados que se estendiam de viés para oeste; no ar escaldante tudo parecia muito próximo, embebido numa quietude ofuscante e ensolarada, como que fervendo num líquido imponderável, até contemplarmos as tonalidades cambiantes sobre a serra, refletindo que naquela visão poderiam se encontrar juntos a suprema delicadeza da expressão contida e um estupendo esplendor do efeito bombástico: a esplêndida e inaudível melodia cantada pelo crepúsculo em meio aos pináculos da serra me deixou em transe por um longo momento. ---- Seu Adamastor, agora acho que terei que voltar para Minas Gerais(.) ----, eu disse depois, olhando a chegada da noite a minha volta. A descoberta do ouro naquela região remontava aos padres jesuítas que usavam índios e negros para retirar o metal dos aluviões: trabalhada nos dias de antanho sobretudo por meio de açoites nas costas, seu produto havia custado o próprio peso em ossos humanos; tribos indígenas inteiras haviam perecido em sua exploração. ---- Cê que sabe, mô fio(: mas deixe comigo seu contato (: no fim do ano pretendo subir a Serra do Cachimbo com quatro ou cinco caboclos, pra tirar ouro no rio(: com todo respeito, mô fio(: quando te vi não achei que você tinha talento(: mas as aparências enganam(: vai ser muito bem vindo, se quiser(.) ----, Seu Adamastor disse, e estendeu a mão para apertar a minha: à luz azul da lua, o sangue nas minhas mãos parecia roxo. ---- Nada mal (.) ----, respondi (sem saber o que me esperava) soletrando para ele meu número de telefone, anotando o dele e devolvendo o Taurus prateado sem cobrar nada em troca. ---- Um homem precisa ter objetivo na vida, mô fio(.) ----, disse ele, por fim, e havia tanta obstinação naquela frase obscura, que eu senti por ela, naquele momento, um assomo de inquietude e curiosidade. ---- Entrarei em contato com o senhor, Seu Admastor(.) ----, murmurei, baixinho, pensando duas vezes antes de prometer qualquer coisa. Eu era mesmo um jovem solitário com aquele depósito que ele fez na minha conta, no dia seguinte. No caminho de volta para o município, eu me despedia da paisagem com o coração aliviado. Tinha valido à pena. E recordava como minha própria vida havia se fundido definitivamente naquela onda de obstinação esperançosa: uma vaga idéia de reabilitação financeira impregnando o plano da minha existência; uma vaguidão tal, que punha minha mente a salvo de argumentos, o que só a fortalecia. A própria clandestinidade impunha a exigência de algum tipo de êxito, era como se todos os garimpeiros clandestinos estivessem moralmente obrigados a fazer valer sua vigorosa visão da vida contra o erro anti-natural da fatiga e da desesperança. Órfão desde a mais tenra adolescência e sem fortuna, educado numa atmosfera rural de interesses intelectuais auto-cavados dentro de mim mesmo, eu nunca havia cogitado nem mesmo de longe os aspectos da grande abastança; eram por demais remotos na minha mente, quase indesejáveis. Por outro lado, graças ao ouro, eu nunca havia conhecido a penúria completa desde que tinha saído de casa aos dezessete anos. ''Aqui a história tornou-se um apêndice do mito''. A mínima desta paisagem (carregada de pathos, onde homens desafiavam a terra (eu pensava: insignificantes numa imensidão sem limites, como que atacando a própria enormidade. Já em Godofredo Viana, eu telefonei para Júlia de um telefone público, na esquina da rua em que ficava o albergue. ---- Você está mentindo, K(: é por isso que não tem atendido meus telefonemas(: já arranjou outra(!) ----, ela disse, do outro lado da linha. ---- Sei que você não consegue entender, Júlia(: por isso estou tentando explicar(: quando eu chegar aí você acreditará em mim(.) ----, eu disse, e pude sentir seus lábios se abrindo num sorriso mordido, pensando que, com aqueles lábios, ela tinha... hum. ---- Tudo bem(: mais algum outro mistério(?) quando você chega em Juiz de Fora(?) ----, ela perguntou. ---- Depois de amanhã, se tudo der certo (.) ----, respondi (Rotação, contaminação, colóquio com os tempos. Subversão do espaço...
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário