sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

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''O município-universo. Santuário-universidade. Univercidade. O umbigo, o ânus do mundo''. Meu quarto na pensão na rua Marechal Deodoro da Fonseca parecia mais abandonado do que nunca ( e o rangido enferrujado da porta foi mais forte que nos últimos meses: o vazio escurecido pelas cortinas me recebeu com um entusiasmo que era impossível conter quando eu permanecia encerrado sem ninguém naquela tapera, como um vampiro no caixão. Com as as mãos cruzadas sob a cabeça, na cama, eu olhava para o teto, feliz: ''Cada um que descubra sua alçaprema. Sua turbina. Saiba parafusar e desaparafusar sua lira''. Naquele momento, tive vontade de ouvir o disco My Favorite Things, de John Coltrane, enquanto esperava Júlia, mas eu ainda não tinha notebook, e na minha cabeça tocava Beatles: ''Júlia, Júlia, oceanchild, calls me. Júlia, seashell eyes windy smile, calls me. Julia, sleeping sound, silent cloud''. Eu tanto esperava quanto temia ve-la de novo: ela certamente iria querer saber mais sobre minhas recentes experiências e quando ela chegou no quarto, encontrou uma maneira bastante discreta de insinuar que eu poderia ser preso do dia pra noite, e que eu ''poderia ser de fato uma pessoa perigosa'', ou mesmo ''um assassino''. ----- Ainda não arranjei tudo que preciso, minha flor(: mas arranjei o suficiente pra te levar pra jantar no Berto's, hoje à noite Emoticon smile o que você me diz(?) ----, ela ficou surpresa com o convite; antes daquela viagem ao norte maranhense eu não tinha dinheiro nem para pagar um cachorro-quente pra ela na saída do seu colégio. ---- Assim você me faz medo, K(.) ----, ela disse, deu um suspiro e olhou pela janela a porta da trattoria lá embaixo, onde um caminhão estava sendo descarregado. Os homens pareciam tão pequenos quanto tachinhas de metal e o caminhão , com sua carga de cais, não lhe pareceu maior do que um besouro. ''O operário e o poeta caminharão um dia juntos. A destruição das classes operada pela morte, deverá começar aqui mesmo neste mundo, concluindo-se no paralém''. Eu queria sair para jantar com ela e contar-lhe mais, não sobre minha recente experiência, mas sobre meus planos. ---- ''O poeta e o operário caminharão um dia junto'' (ela disse: Murilo Mendes(.) -----, nos levantamos, saímos e começamos a caminhar pela Avenida Rio Branco até a catedral. ---- ''Eu não fui feito para trabalhar(: Revolução dos homens: não me atrais porque falas em nome do trabalho Emoticon smile Foice e martelo, coisa pouca para um verdadeiro poeta(.) '' idem (.) ----, eu disse, rindo da cara de Júlia, às voltas com desconfianças não de todo ingênuas. Lá em cima, sua vista nublada começou a ver os primeiros e tímidos anúncios do crepúsculo, que com silenciosa modéstia iam se situando em alguma nuvem estilhaçada, sobre os vidros dos prédios comerciais, em algum teto distante. ----- Júlia, Júlia, oceanchild(.) ----, murmurei, aguardando as badaladas do sino da igreja, pensando, com tenebrosa esperança, que ela não recusaria jantar comigo, logo mais. Foi quando senti a língua dela entrar de novo na minha boca (só então compreendi com que intensidade ela havia feito seu pensamento seguir-me à distância, ao longo de todo aquele mês. Enquanto eu a contemplava mais uma vez, por um segundo me veio o fragmento obscuro de um livro eternamente adiado dentro da minha mente, mas o etc se levantava contra o resto do texto que, vencido pelo adiamento, caía no chão de uma página em branco, virando mais etc. No segundo subsequente, quis desaparecer e não ter que suportar mais o silêncio dela, nem seu silêncio nem, agora, as poucas coisas que começou a dizer de má vontade. ---- É muito estranho, francamente(: eu devo ser doida de andar com você por aí(.) ----, ela disse, me fazendo pensar que rejeitaria o convite. ---- Por eu não ser qualquer outra coisa além do que sou Emoticon smile ou talvez apenas porque não dou a mínima para a opinião dos outros(.) ----, respondi, dando um passo na direção da impaciência. ''O motorista dos carros de Apolo, o mediador das facções adversativas, o manipulador de notícias truncadas''. Perto da escadaria da igreja, ela ficou mais uma vez espantada com a plenitude do brilho nos meus olhos vazando pela névoa aérea das nuvens cor de salmão. Mais uma vez, senti uma pontada de desapontamento devido ao fato de que ela não confiava mais cem por cento em mim. Era sexta-feira. Então ela disse: ---- Você precisa me ensinar melhor como conseguiu ser assim(.) ----, e uma tênue cólera ainda mais demente que a anterior me lançou contra o animal disperso dos meus pensamentos. Por um instante, tudo se converteu num pequeno e confuso inferno na minha cabeça. VAMOS CONTINUAR TE ATORMENTANDO, SEU PUTO, ATÉ QUE SOLTES TUDO. Acendi um cigarro com uma mão que tremia, e decidi que iria jantar sozinho, se ela se recusasse a me acompanhar. Mas Júlia voltou atrás, e fomos até sua casa. Fascinado, agora, eu não podia deixar de observá-la um só instante enquanto ia se vestindo. Aproximei-me e tentei acariciá-la. ''O escanção. O aliciador de adolescentes. O podador da retórica''. ---- Eu queria muito te ver, Júlia(: durante todo esse tempo eu necessitava muito te ver(.) -----, eu disse e, em seguida, pedi perdão à ela e tomei uma xícara de café. Saímos. Ela trajava um vestido lilás e verde pálido, e seu cabelo castanho estava bem puxado para trás. Algo parecido com uma falsa elite social encostava seus automóveis na rua perpendicular à Avenida Santo Antônio , onde ficava o Berto´s. A imprensa da cidade, que se resumia à uma corja de viados feios, velhos e ignorantes, frequentava o estabelecimento assiduamente. No piso de parquet, traçamos nosso caminho à entrada daquela floresta de mesas e candelabros, onde uma medíocre fauna humana de endinheirados exibia suas figuras ridículas. Júlia dava suspiros, coitada, à medida que o garçom enchia nossas taças de Cartuxa Évora, se perguntando com os olhos se nós não éramos menores de idade. No fundo, eu não compreendia Júlia. Não compreendia Marcos, não compreendia Seu Adamastor, não compreendia aquela faculdade, aquela cidade, aquele mundo. Não compreendia nada nem ninguém, além do poeta adolescente Arthur Rimbaud... como ele, eu tinha ''perdido a inteligência das coisas''. Peguei na mão dela e disse que ela estava extremamente bela. Ela inclinou a cabeça sobre a taça sem dizer palavra; a parte de cima dos seus cabelos parecia fosforescente , sob a luz fraca, como se estivessem molhados do mar. Aos poucos, me convenci da fascinação suprema que exercia sobre ela. ''O hipnotizador de águias. O amante de Vênus. O amortecedor do vermelho. O domador de pombos. O espicaçador de tigres''. A voz dela, ao falar, era agora calma e monótona, talvez por causa do vinho: ---- Agora já não está me parecendo tão difícil entender como você foi parar naquele lugar, certo(?) então, não é a primeira vez(: mas se você não quer falar no assunto, que mais eu posso fazer, a não ser ficar desconfiada(?) -----, eu devia estar apaixonado por ela, e devia ter repetido isso durante aquele jantar, mas não o fiz. ---- Tá vendo(?) ----, comentei, como se aquilo fosse uma extraordinária explicação. ----- ''Quantas pessoas se abstém de prospectar sua auto-china, sua auto-índia, sua auto-jerusalém, sua auto-delfos Emoticon smile todas as palavras juntando-se formarão um dia uma coluna altíssima tocando as nuvens e decifrarão o enigma(: os deuses vingam-se dos homens, morrendo''(.) ----, ela havia pronunciado aquela advertência com um fulgor selvagem nos olhos que eu já conhecia bem, quando ela ficava subitamente tensa como uma mola a ponto de romper-se. ----- Não se preocupe tanto comigo assim, Júlia(: terá valido à pena, quando acabar(.) ----, ela me olhou com o rosto fixo numa máscara absolutamente inexpressiva, e retrucou: ----- Esse é apenas o seu lado artístico tentando me deixar em suspense(: faz parte da sua encenação bancar o maluquinho, e dar a impressão de que é capaz de tudo(: particularmente, acho errado você ficar brincando com isso o tempo todo(.) ----, naquele momento, eu rezava para que Júlia parasse de embaralhar as cartas à toda hora. ---- É necessário eleger previamente nosso campo de batalha, Júlia, sabendo de cada detalhe sobre ele(: por isso eu não te recrimino(: eliminar tudo que seja desnecessário e abandonar-se à situação com prazer(: esquecer de si mesmo , não ter medo de nada, só então os poderes que nos guiam abrem o caminho e nos auxiliam de fato(.) -----, eu disse, e comecei a pensar que aquele jantar, com uma superdotada de dezessete anos, marcava o que eu poderia chamar de ''o começo da minha vida adulta''; mas o que a marcava realmente eram os cinquenta mil na minha conta. Voltamos para casa dela, mais tarde, de táxi. ----- Estou louco pelo seu corpo , Júlia(.) ----, eu disse no pé do ouvido dela, entrando no seu quarto. Os pais dela estavam viajando e Marcos tinha ido à uma festa. ---- Acho que meu irmão finalmente perdeu a virgindade(.) -----, ela disse. Naturalmente, eu estava ainda nervoso e agitado por ter passado tanto tempo sem ter relações sexuais. ''O corredor do labirinto de Creta. O corredor dos mitos''. O vestido de Júlia era como uma íris, fechada antes de se abrir completamente, quando sua cor ainda está dobrada sobre si mesma, porém uma íris de cabeça para baixo, com as pontas de suas pétalas no chão. ''O invisível se esconde no visível''. Os atos sexuais, como os sonhos, não têm aparências óbvias; são vivenciados ao avesso ( o seu conteúdo é o que predomina, e aquilo que é normalmente visível se torna seu núcleo invisível: Júlia estava deitada, agora, de costas na cama, enquanto eu, com os braços em torno dos joelhos dela, enfiava a língua na sua pequena vagina latejante. Só conseguia me lembrar do gosto do vinho que tínhamos acabado de beber, enquanto sentia um tremor passar lentamente de uma de suas coxas para a outra, como uma onda. Virava, escorria de volta, contornava sua vagina com a boca, até senti-la receptiva o bastante para ferí-la com minha lança envenenada; seu clitóris era constantemente mexido, carregado pela minha língua, primeiro numa, depois noutra direção, pelo movimento alternado do meu rosto. Do calor entre as pernas dela nascia em mim o espírito de um cavalo de crina rebelde (lança grossa e comprida aquecendo uma jarra de leite entre veias azuis; sob a superfície do leite, invisíveis debaixo de sua brancura, havia árvores de uma floresta em chamas, árvores com folhas de fogo, pingando em sua boca e despejando leite dentro dela. Em algumas partes o leite permanecia branco em suas poças; em outras, escorria transparente na sua barriga, junto com o suor (gotas de leite pendiam como groselhas brancas em seu cabelo castanho: eu podia ver os galhos das árvores em chamas nos riscos feitos pelo leite em seu rosto, que ela colhia passando a língua em volta (CORTA ---- eu não esperava me ouvir chamando o gordo diretor da minha faculdade de Direito de ''doutor'': conquanto nunca me deixasse humilhar, tinha de lutar contra um forte sentimento de intimidação, o que em geral só conseguia falando de um modo infinitamente mais áspero do que a situação exigia: ----- Mas você não faltou uma única aula no primeiro semestre, K(: e suas notas são excelentes(.) ----, o diretor disse, acessando meu histórico na internet. Continuou: ---- Não é possível abonar as faltas que você teve no começo das aulas, nesse segundo semestre, mas nem por isso você será reprovado(: é só não faltar mais (.) ----, saí daquele encontro me censurando pela timidez inicial, ao tentar me explicar à ele que eu tinha me ausentado à trabalho, que precisava daquele trabalho para conseguir pagar a faculdade. Disse que trabalhava como mergulhador de uma mineradora, no Maranhão. He he... ---- Você está tirando proveito do curso, K(: apenas não falte mais(: qualquer dificuldade futura, me procure(.) ----, concluiu ele (mas achei que precisaria matar mais aulas, ao longo do semestre, pois pretendia iniciar a escritura de um romance de seiscentas páginas (a desnecessária franqueza com que superei a timidez inicial , ao citar minhas ambições literárias, o fez rir como um porco asmático diante de mim. Devia ter mantido a boca fechada: eu definitivamente não sabia onde estava pisando, quando decidi estudar Direito: todos os professores eram ou rígidos demais, ou ignorantes demais, e aqueles mestrados e doutorados nos currículos de todos eles não os tornavam, para mim, diferentes de nenhum dos animais que se podia encontrar numa fazenda como a que eu cresci. ''O tempo é refratário, apócrifo, redondo''. Quedei-me novamente pensativo, e depois voltei para a sala de aula. Era segunda-feira de manhã, e as pessoas da minha sala me perguntavam a todo instante aonde eu tinha estado. Após algum tempo em que eu parecia ter estado voltado para meu próprio interior, cavilando, disse: ---- No Maranhão, mô fio(.) ----, e abri minha pasta-fichário num papel pautado. ''As rodas da opinião nos redemoinhos da ágora''. A manhã estava bonita demais para que eu me sentisse à vontade preso ali dentro, esperando a Professora J. acabar de escrever a doutrina no quadro branco com o pincel-atômico, com aquele rebolado que já começava a ficar repetitivo demais. Tudo era bonito demais , lá fora, e eu era jovem demais , bonito demais, brilhante demais, e minha única tarefa no mundo (eu pensava) agora era me tornar o autor iluminado de uma obra prima literária de seiscentas páginas. Páginas demais! Continuei a escrever: ''A glória do diamante impede a borboleta de dormir * e as pessoas têm um cérebro bovino demais: os bois arrastam os pés, os chifres e o rabo. Arrastam o ar, o olho. O respiro das rodas dos deuses ficam em silêncio, constrangidas''. Sentia que estava a ponto de pegar minhas coisas e sair dali para iniciar meu livro logo: a aula inteira me senti como um cadáver acefalado. Eu sabia muito bem qual era o motivo de eu estar ali, com os outros alunos, e isso começava a me preocupar muito. Pois eu estava ali em busca de um passaporte para dentro do sistema, o que estragaria completamente a história que eu pretendia escrever: A HISTÓRIA DE MIM MESMO. ''Será que não estou bancando o bobo(?) '', eu pensava , e tinha vergonha da minha própria resposta. Arranquei a página do fichário furiosamente, como se fosse minha própria cabeça, e rasguei-a em pedacinhos. Definitivamente: dentro do meu espírito não existia a palavra NÓS. Inconscientemente, ao longo daqueles dias, percebi inclusive que vinha modificando minha maneira de vestir; uma bela manhã parei diante de um out-door da faculdade, no centro de Juiz de Fora, e notei que trajava quase a mesma indumentária do rapaz retratado na propaganda. Na foto, ele caminhava ao lado de uma loira gostosa que usava uma saia comprida e encorpada de tecido escuro e sapatos de salto alto reluzentes; ela sorria para ele enquanto andavam como se o rapaz lhe houvesse dito algo engraçado e inteligente (o que eu julgava absolutamente impossível, pensando nos meus colegas de sala. Mais tarde, percebi que havia milagrosas exceções. ---- Gostaria de conversar sobre isso com você, K(.) ----, Júlia disse, dois dias depois, e eu não pude deixar de sacudir a cabeça para todos os lados. ----- Claro que eu não vou procurar um psicólogo (!) ----, respondi, querendo exprimir aquela repulsa insultando ou desafiando-a; mas conhecia Júlia já bastante bem para saber que insultá-la abertamente só teria fortalecido seu ponto de vista (era viciada na teatralidade, assim como eu: meu desafio precisava ser persistente, brando, esperto e cumulativo. ---- O que você vai fazer ,então(?) sinceramente, K, acho melhor a gente dar um tempo(.) ----, cada momento agora era um momento de tensão e triunfo, para mim, pois eu já estava decidido a fazer justamente aquilo. ---- Pretendo alugar um apartamento e escrever um romance de seiscentas páginas(.) ----, eu disse, e imediatamente agarrei Júlia mais perto para sussurrar uma palavra perturbadora em seu ouvido: ---- Casa comigo(.) ----, e foi na expressão facial dela que procurei a misteriosa continuidade. ''Vênus-menina perturba o sono dos deuses; enquanto Penélope dentro de casa tece diariamente a história na sua roca, Ulisses fabrica o mito ao ar livre. Os deuses trazem sempre um horizonte portátil''. Mas para alcançar aquela continuidade, de modo a abrir espaço para toda sua vida adulta, entre o primeiro e o segundo rosto, Júlia teria que esquecer por um instante iluminado sua testa lambuzada de suor, sua boca em forma de O e seus intensos e silenciosos olhos, lembrando-se apenas do significado da minha expressão fisionômica metálica diante dela. E isso tinha se tornado difícil para ele, nos últimos dias. Difícil, preocupante, talvez perigoso. O que importava para mim agora era algo que ela não poderia confirmar de jeito nenhum, com seu rosto de criança. O que importava para mim era alugar um apartamento e começar um romance de seiscentas páginas. Definitivamente: dentro de mim não existia mais a palavra NÓS. O rosto dela estava impassível, naquele momento, mas seu busto arfava; de repente, ela se afastou e ajeitou seu vestidinho florido no corpo, abotoando dois botões prateados com suas pequenas mãos. ----- Preciso ir, K(: quando você voltar ao normal a gente conversa de novo(.) você está usando drogas, não está(?)----, ela disse, mas eu já estava decido a nunca mais voltar ao normal, e realmente estava andando drogado. Subitamente, no entanto, fraquejei e senti, num acesso de pânico, a urgente necessidade de me antepor entre todas as formas do seu ser físico, no meio da rua, e impedi-la de partir daquele jeito: seu busto arfante, sua linda cabeleira castanha que cheirava a sono perfumado, sua alva pele fresca, suas delicadas mãozinhas , seu rosto de criança, os poros da sua pele; antepor-me entre o corpo dela enquanto ela ainda estava ali junto de mim, no meio da rua, olhando as pessoas e carros à nossa volta e o fantasma vociferante de sua própria consciência. Eu queria tomar de assalto AQUILO para o que ela olhava, voltada para dentro de si mesma, e que estava atrapalhando meus planos. Toma-la de assalto e apresentar um substituto à ela como um presente dos céus mais turbulentos e incandescentes do meu espírito. ''As sombras de vez em quando perdem-se de si mesmas''. Mas era uma oferta infinitamente despida de virtude, pois era uma oferta que eu carregava em meu próprio corpo para satisfazer minhas próprias necessidades. ''Não se habituando ao novo modelo de vento, aquele pássaro resolveu emigrar; calçar sua sombra, caçar o mar, mugir a lua (trair aquela raposa''. ---- Que merda de um belo dia para esticar as canelas na rua (.) -----, eu disse, pouco antes dela se despedir de mim, friamente. Era mais fácil aceitar aquilo apenas como mais uma condição, como o frio sol daquela tarde, num mundo fundamentalmente inóspito para um gênio literário precoce, do que como uma encarnação cheia de promessas mentirosas. ''Duras estrelas, até mesmo as délficas(!)''. Voltei para casa abismado e antes de me trocar para sair de novo, deitei-me de costas naquela cama solitária mais uma vez, pensando: ''Esquece teus gostos e alegrias pessoais, prejuízos teóricos e ladainhas racionalistas(: põe-te em estado de abertura mental e confia na providência poética(: não se deixe levar pela corrente de jeito nenhum(: retira-se por um momento, se necessário, e deixa que teus pensamentos corram livremente(: ocupa-se de outra coisa qualquer, qualquer coisa serve, enquanto o silêncio se instala em teu interior e faz a limpeza(: a mente é água turva, um único segundo de silêncio interno ajuda a levar a poeira para o fundo e te devolve a clareza(: jamais deixe os outros verem teu jogo, e nunca se coloque na linha de frente de nenhuma situação(: pratica a LOUCURA CONTROLADA, se não tiver jeito de eliminar os contatos sociais temporariamente(: praticar a LOUCURA CONTROLADA não significa passar os outros pra trás, e sim aprender a nunca se levar a sério, a rir constantemente de si mesmo, não permita que te roubem esse talento de jeito nenhum Emoticon smile se você não se importa de parecer idiota, pode fazer qualquer pessoa de idiota, basta desenvolver uma paciência sem fim e ''perder a pressa de ter pressa''Emoticon smileisso invariavelmente resultará numa capacidade infinita de improvisação(.) ----, as folhas de acanto nas cortinas de renda recordavam-me como, um mês atrás, eu me antevira reconquistando Júlia, andando em meio àquela praia de areia branca com árvores mortas fincadas na água. Contraí o queixo e minha mandíbula estalou. Tomei um ácido. Assim, sem pensar. Meu Deus! ''Sonho: bombeiros munidos de mangueiras, vestidos de macacões vermelhos, galgam escadas enormes para apagar uma bomba atômica que explode às gargalhadas, gritando-lhes: IDIOTAS! Não sabem que já morreram no dia em que eu nasci?''. Não exatamente devido ao que me lembrava naquele momento, mas porque há cerca de uma hora tudo aquilo havia sido soterrado. De certa forma, eu alcançara o que havia desejado e desejaria a mesma coisa mil vezes de novo, se fosse preciso. Apenas o plano de fundo se desintegrou no ar. O que me pesava mais era a própria faculdade da memória ( aquela massa de lembranças me oprimia, e eu me vi obrigado pelo ácido a respirá-las uma a uma, para poder separá-las em pequenos blocos e assim abrir novamente caminho ao oxigênio dentro do meu cérebro. ''O Sol visto no microscópio esperneia. Empédocles de Agriento alude à alegria da esfera em sua solidão circular. Reverteremos ao ovo, ao osso, ao horto antigo, às estrelas esferóides, ao átomo-caverna, ao texto total que gira sobre si mesmo. Ao Tao''. Era como se minha cabeça houvesse se transformado num saguão de espelhos no qual, embora os reflexos se mexessem juntos, cada um representasse algo diferente. Por exemplo, em vez de aproximar minha infância, a simples massa de recordações desde a infância tornava minha infância absurdamente distante. Memórias de uma namoradinha de quando eu tinha treze anos, como eu não acreditava mais ter, enchiam minha cabeça, uma depois da outra, cada uma extremamente nítida, porém cada uma inseparável da memória de outras garotas, de modo que me parecia ter visto Júlia há um século; o fluxo de lembranças involuntárias, exatas e concatenadas que enchia minha mente naquele momento , parecia alongar minha vida passada indefinidamente, até que, sob essa forma de recapitulação, o tempo tornou-se de repente absurdo, e eu apaguei. Continuei a viagem do outro lado. Mais prático, né? ''Ver o céu no teto do confessionário constituiria provavelmente o acme do poder visual e místico''. No dia seguinte, saí para a rua depois da aula determinado a encontrar um apartamento ideal para se começar um romance de seiscentas páginas sobre minhas recordações, mais inspirado do que nunca, mas só uma semana depois encontrei aquele singelo imóvel de dois quartos e área externa na rua Silva Jardim com Olegário Maciel; comprei um fogão, uma mesa com quatro cadeiras, uma geladeira, um guarda-roupas, uma cama de casal, uma escrivaninha, uma vitrola e uma reprodução gigantesca do quadro Os Corvos, de Van Gogh, que pendurei na sala. Comprei também as obras completas de Dostoiévski traduzidas diretamente do russo em papel bíblia, quatro volumes da biografia dele escrita por Joseph Frank, somando mais de cinco mil páginas, e o romance Doctor Faustus, de Thomas Man. No sábado em que finalmente me reapresentei no projeto de cidadania ativa da UFJF, já estava perfeitamente instalado naquilo que viria a ser conhecido, algum tempo mais tarde, como minha gruta sexual intoxicada; fazia frio, e a vã com os outros membros do projeto estava estacionada na antiga reitoria da UFJF, atual Museu de Arte Moderna Murilo Mendes. Alguns daqueles estudantes haviam sido substituídos por outros, mas não conseguiram convencer nenhum estudante de direito a participar daquilo, que não tinha prestígio nenhum entre eles, de modo que o coordenador do projeto ficou satisfeito em me ver novamente, se limitando a apertar minha mão, dizer que eu não receberia a bolsa daquele mês e me convidar para me filiar ao PCdoB, o que jamais fiz. Era o ano de 2002, e eu vinha fazendo campanha telepaticamente para o candidato Lula com uma fúria apaixonada e conflituosa. Uma militante do PT , que distribuía panfletos no calçadão da Halfeld, havia me convidado para ir até o diretório de campanha, naquela mesma rua, e eu voltei para casa carregado de adesivos, panfletos e broches de estrelas vermelhas. Quando a vã partiu rumo à cidade de Lima Duarte, no caminho para a Serra de Ibitipoca, o único assunto eram as eleições presidenciais e a vitória do Brasil na Copa do Mundo. Marcos estava de ressaca e não apareceu. E como todos ali dentro da vã votariam no Lula, rapidamente me cansei de conversar e iniciei a escritura do meu livro mentalmente, olhando o pico enevoado das montanhas e voltando a me sentir oprimido pela abundância de imagens liberadas pela minha memória. Chegava ao ponto de me sentir condenado a viver mesmo o presente sob a conjugação do passado; o que ainda não tinha acontecido na minha vida era apenas uma parte do meu passado não revelada. Não importavam mais minhas escolhas, era como entrar de novo numa escolha que eu já tinha feito antes, uma escolha cujas consequências já haviam ocorrido: minha paixão necessitava se atirar contra o tempo. ''Os amantes fodem juntos o tempo (eu pensava), de modo que ele se abra, se adiante, recue sobre si mesmo e se dobre para trás: O TEMPO BOMBEADO POR NOSSOS CORAÇÕES ( o tempo cuja vagina está úmida de atemporalidade, o tempo que se consome ao ejacular sua auto-propulsão''. Eu me imaginava como um personagem de lenda tornando-se consciente de forma gradativa, até perceber que eu era um livro já escrito dentro de mim. A LENDA já estava pronta e não podia mais ser alterada, mas sua imutabilidade me oferecia, paradoxalmente, uma espécie de imortalidade. Porém eu, vivo e consciente dentro da lenda que estava narrando para mim mesmo, já repetida milhares de vezes, me sentia agora enterrado vivo. O que me faltava não era ar e sim TEMPO. Precisava começar logo! ----- E você acha que é algo que vale a pena, garoto(?) ----, Gilberto, o coordenador do projeto, me perguntou, ao me ouvir falando com uma estudante de serviço social que eu pretendia escrever um romance de seiscentas páginas. ----- Todos os escritores atuais são pequenos-burgueses(.) ----, acrescentou ele. Ele era um cientista social do PCdoB com doutorado em algo que não me lembro bem, e aguardávamos um carro da Câmara Municipal vir nos buscar para falarmos a respeito de Direitos Coletivos, Art. 5 da Constituição, Conselhos de Direito, audiências públicas e projetos de lei de iniciativa popular com os moradores de um distrito miserável no meio do nada, a trinta quilômetros dali. O resto do pessoal tinha seguido na vã para outra localidade. Rafaela permaneceu em silêncio, enquanto eu inspirava fundo para atacar a questão e defender a ''classe''. ---- Toda arte autêntica é individual, não individualista Emoticon smile é o que a torna diferente das ciências humanas(: o que importa em literatura é esse diagrama pessoal, único, expressão concreta da individualidade(: por isso há estilo em literatura e não há estilo em ciências políticas(: a ciência é a realidade concreta vista por um sujeito sempre prescindível, quase insignificante, enquanto que a literatura é a REALIDADE TOTAL vista por um sujeito sempre imprescindível, algumas vezes brilhante(.) -----, eu disse, e olhei para ele como Seu Adamastor costumava olhar a minúscula viatura da Polícia Militar, quando avistávamos ela passando à distância na rodagem . ----- Literatura é introspecção(: uma maneira dos intelectuais pequeno-burgueses fugirem dos problemas sociais(.) ----, ele retrucou, e Rafaela agora, para minha decepção, parecia inclinada a tomar o partido dele: o curso de Serviço Social era sabidamente uma fábrica de agentes difusores do marxismo ortodoxo, embora fosse acusado de ''atrasar a revolução'' pelos Che Guevaras de apartamento das Ciências Sociais. ----- Porque não levantamos um pouco o nível filosófico desse diálogo (respondi, alterado), claro, o paralogismo que vocês têm na cabeça é mais ou menos assim(: a introspecção significa fundir-se no EU, e o Eu solitário é um egoísta a quem não importa o mundo, um contra-revolucionário que tenta nos fazer crer que o problema está dentro da alma e não na organização social, etc Emoticon smile passam por alto um pequeno detalhe(: o de que o EU solitário não existe(: o EU só pode existir em uma sociedade, mesmo escondendo-se desta(: na solidão perfeita o EU deixa de existir e a consciência se abre ao DESCONHECIDO(: não se preocupem, um escritor sempre dará testemunho do mundo, mesmo que seja um testemunho medíocre, como o do Realismo Socialista(.) ----, eu disse, e logo Rafaela começou a rir e Gilberto tirou os óculos e passou a mão pelos olhos e a fronte estafada. ---- Não me parece tão nítido assim(: por alguma razão, Marx admirava escritores como Balzac(: aquelas novelas eram um testemunho de uma sociedade(.) -----, ele falou, mas eu acendi um cigarro e voltei à carga: ----- As novelas de Kafka não descrevem greves de ferroviários em Praga, e no entanto permanecerão como um dos testemunhos mais profundos do homem contemporâneo(.) ----, definitivamente, eu não era o tipo de sujeito que ''largava o osso'' com facilidade, quando o assunto era literatura, e Rafaela começou a achar isso excêntrico e engraçado, tendo-se em vista o inusitado que estava sendo discutido por um estudante de Direito e um cientista social. ----- Muitos críticos de orientação marxista já ousaram dizer, por exemplo (eu disse) que a Argentina não tinha uma ''literatura nacional'', alegando essas mesmas asneiras(: a carência de uma ''cor local'', diziam(: eles exigiam uma cenografia pitoresca para conceder o certificado soviético(: para esses ontólogos, um negro numa plantação de bananas é uma coisa real, enquanto que um estudante ginasial de classe-média alta que medita sobre sua solidão numa praça de Buenos Aires é apenas uma anêmica enteléquia(: e à essa idiotice, chamaram de realismo(.) ----, eu devia estar 'realmente' inspirado, naquela manhã de Sábato, pois agora não só Rafaela, mas o próprio Gilberto começou a rir copiosamente. ''Antiquíssimo, já nem recordo minhas primeiras letras. Sou clássico, barroco, romântico, surrealista, atômico, brilhante! A aurora dedirrósea, Helena número 2, abole seu inventor; o crítico Poleimos contesta-me a téssera da identidade; o vento analfabeto atira-me pedras''. ---- Cuidado, alcaide(!) quando a sua gente fala de realidade querem dizer realidade externa(: a outra, a interior, já sabemos que tem muito má reputação entre vocês(: mas só um alienado mental pensaria em documentar a agricultura nas cercanias de Paris em fins do ´seculo XIX consultando alguns quadros de Van Gogh(: é evidente que a arte é uma linguagem mais próxima do sonho e do mito do que das crônicas de jornal(: a arte é um ontofania(.) ----, continuei falando, dentro do carro, ao lado de Rafaela no banco de trás, que agora era a única que ainda prestava atenção no que eu dizia. ---- Onto o quê(?) ----, ela perguntou. Gilberto se sentou ao lado do motorista e ligou o rádio numa altura suficiente para abafar os sons do meu discurso. ----- Uma ontofania, uma REVELAÇÃO da realidade(: mas da REALIDADE TOTAL, por favor Emoticon smile não só da externa mas da interior, não só da consciente mas da inconsciente(: que sofre uma forte impregnação da objetividade, mas que mantém com esse mundo objetivo uma relação sutil muito complexa, e mesmo contraditória(: se a sociedade fosse realmente decisiva, ÚNICA, como se poderia explicar a diferença entre uma literatura como a de Balzac, que ele citou, e a de seu contemporâneo Lautreámont (?) ou como a de Paul Claudel e a de Céline(?) em suma, toda arte é individual porque é a visão de uma realidade através de um espírito que é ÚNICO (.) ----, concluí; antes de descermos do carro na associação de moradores do distrito, para coordenar aquela reunião, Rafaela me convidou para ir à noite numa festinha na república onde ela morava com mais duas estudantes de Psicologia. Eu me enchi de esperanças, e me auto-censurei: ''Quanta frivolidade, quanto exibicionismo alucinado(!)'', pensei depois, voltando com a turma toda para Juiz de Fora no começo da noite, naquela vã. Tinha sido a primeira vez que eu conversava prolongadamente com alguém daquele projeto, já na posse segura do meu novo EU, que, apesar de toda a afetação intelectualóide, revelou-se em momentos cruciais ser bastante refinado, magnético e absolutamente fiel às Musas e Daimons. Rafaela tinha os cabelos e os olhos tão escuros, suas pernas e seios tão redondos e bem desenvolvidos, que de início eu pensei que ela fosse descendente de espanhóis. Um mulherão, que fazia Júlia parecer uma criança de colo. ''Vou casar com essa garota(.)'', pensei comigo mesmo, quando cheguei em casa, tirei a camisa e acendi um baseado (só havia então dois vinis ali, naqueles dias, mas um deles era o Miraculous Mandarim de Bela Bartók, que enquanto tocou me fez pensar que ela era de fato uma jovem prendada, meticulosa e aplicada ao extremo, de uma competência incrível, dedicada de corpo e alma aos ideais socialistas aprendidos no curso de Serviço Social, o que na época a tornou ainda mais atraente para mim. Sozinho novamente, a julgar pela reação fria e negativa de Júlia no nosso último encontro , eu tinha agora como única companhia aqueles grandes autores que eu dizia serem ''os verdadeiros arquitetos da minha mente'', como Dante! ''O espanto, a libido, o urlo, o mal, o animal, o fantástico do real, o círculo, o orbe, o número, a luxúria, a dança cristocêntrica, o erro original de ser, o texto que fabricando o inferno se sustenta, o purgatório também tornado histórico, a idade mitológica do céu, a Idade Média daquele tempo, do atual tempo externo e do tempo por vir; BEATRIZ FORTEMENTE POLITIZADA (Par. XXX, 133-148); a contestação do mundo''. Mas quando cheguei na república de Rafaela, ela estava de mãos dadas com um modelo fotográfico do quinto ano de medicina, o que atrapalhou completamente meus planos. Embora tivessem surgido outros ao longo da experiência...

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