sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

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----- E ocorreu tudo bem, K(?) ----, Rafaela me perguntou pelo celular, assim que cheguei em Belém, um dia antes de voltar para Juiz de Fora. ----- Não deu pra conseguir tanto dinheiro quanto eu imaginava, mas um bom dinheiro deu sim (: mais o que eu ainda tenho no banco, dá pra atravessar o ano inteiro na boa (.) ----, eu disse, fiz uma pausa, fechei os olhos e pensei: ''Toda minha vida... uma estranha vocação (.) '', e acrescentei ao telefone: ---- Viu, não disse que seria tranquilo(?) ----, e pouco depois desligamos. Quando finalmente cheguei no nosso apartamento, em Juiz de Fora, ela tomou um susto: ---- Cê tá forte hein(!) e esse bronzeado surreal(?) hahahah(: se você sair na rua aqui em Juiz de Fora assim, vão achar que você veio de outro planeta(: só na Bíblia tem personagens dessa cor(.) ----- , ela disse, mas eu não pretendia sair de casa tão cedo, a não ser para ir até a faculdade, quase na esquina da minha rua. Precisava passar agora um bom tempo descansando no aconchego do lar, tomando banhos quentes, praticando meditação, escrevendo e fazendo amor com ela, e tratar de voltar a ser um ser humano o mais rápido possível. Extremamente econômico nas descrições da minha viagem, eu olhava por cima do ombro para Rafaela com um sorriso estranho que, riscando-me no rosto linhas longitudinais, fazia-me parecer usar uma máscara de cobre com uma expressão diabólica de fatalidade. E ao estimar o poder da minha nova fisionomia imaginosamente, ela conferia à cada resposta vaga que dava sobre a viagem um conceito justificador, algo de significado profundo e impalpável, como a manifestação de um princípio espiritual superior. Não abria os lábios durante muito tempo, após as perguntas de Rafaela. Na ambiguidade encontrava mil justificativas para manter-me omisso: através dela espiava o cosmo inteiro, que agora parecia morder a si mesmo por todos os lados. ---- Você voltou com alguma coisa estranha nos olhos, K(: alguma coisa que não havia antes(.) -----, Rafaela me disse, alguns dias depois, com uma voz que parecia encerrada num frasco de vidro com formol, buscando nos meus olhos um ponto frágil naquela superfície falsamente transparente e inexorável, onde parecia agitar-se um homúnculo liliputiano de dois centímetros de altura, fazendo movimentos de ameaça contra o mundo. Andei de um lado para o outro, acuado, mas de repente parei olhando o céu pela janela, enquanto ela observava o que me acontecia como num filme mudo. ----- Há um centro de Santo Daime aqui em Juiz de Fora, não é(?) ----, perguntei à ela, e ela me devolveu como resposta uma expressão facial pavorosa. ----- Ah, meu Deus(: era tudo o que faltava, K(.) -----, ela disse, um minuto depois, e acrescentou: ---- Desde que começamos a namorar, minha depressão desapareceu(: tem dias que eu já nem me lembro de tomar meus remédios(: será que justamente agora você vai começar a ficar esquizofrênico(?) ----, e eu me senti completamente perdido, um mero estudante de Direito portando as insígnias de algumas traumáticas tribulações, traumáticas e inconfessáveis tribulações que me obrigavam a perguntar-me que páginas, nas dezenas de livros que comecei a comprar e ler compulsivamente, poderiam ajudar-me à anestesiar aquela ansiedade que se tornou um pano de fundo permanente da minha existência, após a viagem ao Pará, e explicar a presença daquela mancha de energia azulada que eu via no escuro antes de dormir. Mas de um momento para o outro, eu fechava o livro que estava lendo e me parecia que a realidade ia explodir se eu não me deitasse no escuro e ficasse fixando aquela mancha viva e luminosa no teto. Em vez de assinalar meus erros e descuidos, ou tentar refazer o que eu tinha feito pela metade, ou juntar meus cacos, ou simplesmente me conter, passei a aprofundar intensamente aquele sentimento, buscando todo tipo de droga que me ajudasse a recapitular, reviver minhas recentes experiências na selva e passá-las para o papel. E, meu Deus, deu ''certo''(!) Meu caderno de anotações avolumava-se numa velocidade vertiginosa, enquanto eu tentava convencer Rafaela à me acompanhar ao centro de Santo Daime do bairro da Floresta o quanto antes. Precisava rever urgentemente o que eu tinha visto no alojamento da currutela sob o efeito do Daime. ----- Che Guevara (eu disse à ela) hahahahaha (: o que eu disse para guerrilheiros vale também, e com maior força, para poetas e escritores autênticos, já que a ficção, como o sonho e as visões místicas, e por motivos parecidos , são em geral um ato de guerra contra a realidade, não um mero reflexo passivo (: assim acontece muitas vezes que a grande literatura (raríssima!)  seja hostil à sociedade do seu próprio tempo(: uma dialética, ainda assim, mas no sentido de Kierkegaard(.) -----, vestindo um quimono azul escuro de seda, bordado com papoulas vermelhas e roxas, Rafaela se sentou na mesa da cozinha uma noite, preocupada com minha saúde mental, e disse: ----- Comecei a trabalhar no escritório-escola da universidade(: hoje à tarde conheci as garotas com quem vou compartilhar o plantão(: não senti nenhuma admiração especial por elas, e menos ainda pelos advogados e estagiários de Direito(: um bloco humano cimentado por privilégios de remuneração duvidosos e rivalidades mesquinhas, indiferentes ao povo destroçado pela miséria que vem até ali buscar socorro e orientação (.) ----, de fato, um pequeno abismo de interesses começava a se abrir entre nós, mas mesmo assim eu ainda me mostrava profundamente interessado no ambiente que ela me descrevia: a lubricidade de alguns ''doutores'', atiçada pela proximidade da morte, da pobreza, da loucura, da violência e da humilhação, tinha sobre mim um efeito repulsivo. E ela nada queria saber das confidências e intrigas das colegas de plantão, do retorno das férias, nem das estúpidas rivalidades com os estagiários de Direito: desprezava todos, antes de mais nada, e não apenas por temor de que a julgassem incompetente em algum caso, de um hora para outra, ou simplesmente tentassem puxar seu tapete. O ambiente de intriga e o decorrente asco de Rafaela: o recente temor, cem por cento infundado, de ser tecnicamente inferior às outras e, logo, a necessidade de dirigir contra elas a antecipação do seu julgamento. ----- Nos últimos três dias, trabalhei in loco, com visitas, num deslocamento constante (.) -----, Rafaela me disse, uma semana mais tarde, procurando confessar-me algo em tom de autocrítica: ---- Às vezes sinto a indignidade do meu embaraço diante da desgraça alheia(: sinto-me tão absorvida em meus próprios problemas , que às vezes tenho dificuldade de compreender o caso  que tenho nas mãos (: minha depressão tá voltando, K, acho melhor reduzir com urgência meus contatos humanos e procurar viver em paz comigo mesma (: queria que meu período no escritório-escola fosse um refúgio de concentração profissional em meio ao caos da minha cabeça e do mundo, mas meus nervos me traem constantemente(.) ----- , depois disso, devidamente banhada, penteada e perfumada, ela estava pronta para descansar depois de fazer ginástica (agora, ela malhava em casa, numa esteira elétrica que eu a ajudei a comprar e numa barra de pressão que pendurei na porta da cozinha, na qual eu também me exercitava; pela primeira vez na vida, cogitei procurar uma escola de artes marciais, motivado por toda aquela maldita confusão homicida na Serra do Cachimbo, mas não ousei dar aquele passo ainda: estava absorvido demais nos meus papéis, o sonho contraposto à realidade, cada vez mais agressivamente: ---- Veja, por exemplo (eu disse à ela, uma noite ) os Estados Unidos (: o cúmulo da alienação mental consumista, e no entanto produziram uma das mais notáveis literaturas de todos os tempos(: e a Rússia Czarista, o mecanismo secreto de seus dois cumes de genialidade, nesse conde Tolstói, aristocrata até a medula, que no entanto nos deu um dos testemunhos mais tenebrosos da condição humana(: e no outro, aquele reacionário chamado Dostoiévski, que nos explicou psicologicamente o homem da cabeça aos pés, a ponto de despertar até mesmo a admiração de Nietzsche, com quem se correspondia(.) ----, mas não foram a natureza cortante das minhas palavras nem o silêncio pensativo de Rafaela o que me intranquilizava, naquele momento, mas o olhar de apaixonado companheirismo dela, resistente à tudo, que senti de repente fixo em mim. Sentia-me inquieto e maravilhado, ao mesmo tempo, por sua presença poderosa, poderosa ainda em meio à nova crise depressiva dela que começava, poderosa por sua pureza, ou porque minhas palavras, às vezes ditas ao acaso, faziam seus olhos resplandecerem em silêncio no seu rosto tornado abatido e dolorosamente desconcentrado nos últimos dias, como duas brasas subitamente concentradas em uma sofrida terra seca. Ao meu lado, eu a sentia como um bondoso anjo triste que agora cuidava de um ser forte e indefeso num mundo apocalíptico e podre. ----- Trouxe para tentar te alegrar (.) -----, eu disse, segurando uma caixa de papelão com dois coelhos pequenos dentro, que eu tinha acabado de comprar no caminho de casa, voltando da faculdade de manhã (um branco e outro preto: ela começou a rir compulsivamente: ---- Não podia ser um gato ou um cachorro, K(?) hahahaha(: pelo menos não é um porco(!) você bem que seria capaz(: veio carregando eles pela Avenida Rio Branco (?) ----, perguntou-me ela, ainda rindo, e depois: ---- Você gosta de Paulo Coelho(?) ----, usando uma fisionomia expressiva, criando uma mini-mitologia instantânea do 'humour'', gerando, pela mímica poderosa e a linguagem inventiva do momento, o anticorpo da situação oposta, depressiva e inimiga que assim exorcizou temporariamente: ----- Não o detesto, como boa parte dos pedantes (: mas também nunca o li, não falo sobre o que não conheço(: ele tem a seu favor, em relação à mim, a influência que carrega do nagual Carlos Castaneda, com quem também compartilho a linguagem cifrada (: mas certamente o Coelho mais importante entre minhas leituras, é o Coelho Hangstrom da balzaquiana tetralogia de John Updike, uma colossal realização literária contemporânea, que impregnou minha maneira de escrever para o resto da vida(: adoro suas descrições interminavelmente rendilhadas e os pontos mortos de seus romances, verdadeiras criptas de quatro ou cinco páginas que interrompem completamente a ação para torturar o leitor com uma overdose de detalhes insignificantes, de onde ele extrai a mais alta poesia(: Coelho Corre, Coelho em Crise, Coelho está Rico e Coelho Cai (como eu ri no final deste último!) são livros que eu simplesmente aprendi a amar, ao longo dos anos, pois John, assim como eu, não consegue separar a poesia da pintura(: rompe a linha convencional do discurso realista, criando uma espécie de prosa cifrada, um número verbal, uma sustentação do puro estilo no ar, plástico, radicalmente plástico, a alusão que sacrifica a espessura à sutileza (.) -----, tudo era excepcional naquela manhã, não só os coelhos na caixa e o sorriso de Rafaela que voltava a iluminar nosso apartamento após alguns dias de choro lamentáveis; ela se trocava diante do espelho do nosso quarto, animada a ir comprar ração na rua, enquanto observava meus largos ombros que gostava de morder. Eu também a observava: não lhe faltavam atrativos físicos, de fato, ''Mas, eu pensava ''de que serve um charme tão insistente que não protege contra a infelicidade usual, bioquímica, mística, da bipolaridade depressiva(?)''. ----- Obrigada, K(: não estão sendo fáceis os últimos dias pra mim, mas seriam bem piores se eu não tivesse alguém como você do meu lado nesse momento (.) -----, ela disse com o coelho preto no colo: depressões, descarnações da alma, esculpindo em seu espírito anatomias tristonhas e abissais cartografias (havia dias em que ela amanhecia estranhamente animada, efusiva, sem aquele pesado corpo a corpo de pensamentos mórbidos que a depressão lhe obrigava a portar; e noutras quase não conseguia abrir os olhos, na cama, apesar de já acordada, e fazê-la sorrir se mostrava uma tarefa acima das minhas forças: nada adiantava. ----- Tem uns dias, no escritório-escola, que o olhar das pessoas me esgota, me rouba de mim mesma(.) ----, ela confessava, em meio aos esforços internos do dia-a-dia. Eu pensava que talvez seu natural exibicionismo fosse uma faca de dois gumes e que ela se enchia desnecessariamente da exigência de perfeição física, que um mundo profano e decadente como o nosso prescrevia como fórmula de sucesso. ----- Sinto que para você eu nunca estou deslumbrante o suficiente, e para as outras pessoas, sempre passo da conta(: é assim, confuso e infernal, quando minha depressão ataca(.) ----, ela me informava, me remetendo à cânones inacessíveis, que fustigavam uma frivolidade inexistente em mim. ---- Tente reclamar para si  o direito de ser linda apenas em alguns momentos ,mesmo sabendo que você é linda o tempo todo(: busque entre as pessoas do estágio mais momentos de prosa, de banalidades(: você tem tantas amigas fúteis, Rafaela, que vivem infernos por algumas gramas de excesso na balança, e no entanto elas não desmoronam como você(: elas engordam e você é que se sente feia e insegura(?) Krishnamurti costumava dizer que o medo é a antecipação dos resultados(: pare de tentar ver sua vida a partir do final, conhecer o resultado dos seus atos antes de realizá-los (: incoscientemente, isso é uma pulsão de morte (: você está desejando ser velha e feia para não ter que tomar decisões e fazer escolhas nunca mais(.) assuma a responsabilidade de todos os seus atos, use a morte como conselheira(.) ---- , eu disse à ela. Aquela noite foi longa, monótona, fértil em alertas nos claros mistérios da cozinha: em matéria de ''osteria'', eu preferia a sabedoria clássica, as sólidas tradições, os pratos que gozavam de livre entrada nos labirintos do estômago e intestinos, isentos do ataque dos minotauros que são certos ingredientes picantes. Estávamos, naquele mês de março de 2003, caminhando sobre uma ponte de pilares abalados, divisando no horizonte a constante ameaça de uma tempestade. ----- Temos recebido ladrõezinhos, meu Deus, tantos ladrõezinhos, e aquele balé de guardas e réus dando uma tonalidade carcerária às minhas tardes de plantão(: muitas vezes eu pego um café na máquina de expressos e fico esperando ansiosamente a entrada daquelas figuras desconhecidas, saídas do fundo de algum inferno social (: tenho agonia sobretudo dos adolescentes agressivos que cospem palavrões por segundo, daqueles que não caminham, mas gingam, e parecem saídos de algum clip de rap dos Racionais MC´s (: ah, K, tô começando a ficar atormentada por ter que fazer os diagnósticos no calor da hora, a partir de um número tão reduzido de informações,correndo sempre o risco de subestimar um pequeno caso que logo depois acabe em assassinato e cadeia (: me sinto quebrável, manipulável, nunca no ponto certo para dosar a desgraça alheia com os mecanismos do Estado(: o protocolo exige que eu ouça os atendidos, proceda à um breve exame e decida em seguida acolher o caso ou encaminhá-lo ao setor jurídico(: e essa triagem, ou distribuição, me parece coisa de campo de concentração nazista (.) ----, ela disse; e aquelas divagações filosóficas exasperadas de Rafaela rapidamente se convertiam, na minha cabeça, num motivo de vergonha frente à solitária reticência de alguém surgido sabe-se lá de que distrito rural miserável, vítima e testemunha de infintas injustiças e humilhações. ----- Não parece coisa de campo de concentração nazista, Rafaela (eu disse) É coisa de campo de concentração nazista(: aliás, o livro mais premiado do sociólogo Zygmunt Bauman, Modernidade e Holocausto, explica isso detalhadamente(: como o Estado nas modernas democracias ocidentais  herdou subrepticiamente a 'alma' administrativa da burocracia nazista (.) -----, com voz baixa, quase como se falasse para mim mesmo, olhando para o chão enquanto acendia um cigarro, eu já não estava contribuindo para aliviar a agonia dela; feria, desiludia, ao mesmo tempo que me obrigava a explicar, esclarecer os pontos que ela me trazia do mundo lá fora, pensando ''É preciso anotar tudo isso no meu caderno'', enquanto buscava dentro de mim a acuidade de um prático experimentado e a aridez de um relatório de polícia. Ela comia PROZACs como se fossem bombons ( a maior parte dos atendidos por Rafaela eram pessoas fragilizadas, que vinham pedir o conforto de um ouvido sério e diplomado, ou de uma caixa de tranquilizantes, mas só encontravam estagiárias cumprindo carga horária e playboys de terno e gravata. Ela se compadecia de tal forma ouvindo as desgraças que aquelas pessoas lhe contavam que, quando chegava em casa, no fim do dia, desabava na cama e começava a chorar. Alguns, segundo ela me contava, se aviltavam até o prazer masoquista narrando seus infortúnios; mas a maioria eram moradores de favelas ou distritos rurais buscando se livrarem de si mesmos, serem assumidos pelo Estado como um encargo. ----- O problema é que se eu parar, não cumpro a carga horária e não me formo, e além do mais, tenho medo de parar com o estágio e sentir vontade de me suicidar de tanto desgosto, pelo meu fracasso(.) -----, ela disse, uma noite. ----- A máquina do Estado é amoral, Rafaela, está além dos valores éticos (: não adianta passar da calamidade do subdesenvolvimento para a calamidade do superdesenvolvimento (: da miséria humana à sociedade de consumo (: o efeito nefasto da racionalidade funcional sobre a sociedade ocidental já foi estudado a fundo por Max Weber, é que as pessoas tem dificuldade de compreender sua obra aqui no Brasil(: olhe para a juventude dos Estados Unidos, por exemplo(: a alienação mental em massa é uma servidão pior do que a miséria(: nem supercapitalismo, nem supersocialismo(: o Vietnã venceu uma guerra contra o país mais desenvolvido do mundo com fé, espírito de sacrifício e amor à terra(: enfim, valores espirituais(: nossa guerra nacional, que não é militar e destrutiva, mas civilizatória e criadora, só poderá ser vencida recorrendo a esses valores, e à nada mais(.) -----, eu disse à ela, e percebi, nos seus olhos desiludidos, que se eu não tomasse outra direção, seguiríamos discutindo o assunto até que o desastre total tornasse simplesmente ridícula a espera de uma conversão milagrosa da situação dos seus nervos. Passaram-se semanas, e eu me perguntava se uma criança poderia resolver aquele impasse psicológico que já se aproximava de um tipo suicida de loucura... ---- Você ainda é muito novo, K(: e eu também (.) e somos apaixonados demais pra ser pais agora(.) ----, mas depois ela me confessou que entre suas amigas nós tínhamos muitas vezes sido descritos como um jovem casal de namorados muito charmoso: cultos, bem vestidos, inteligentes e engraçados ( sobretudo em comparação com outros casais, com todos os casais conhecidos... diziam que tínhamos sido feitos para sermos felizes um com o outro, e que um filho era questão de tempo... mas a vida agora estava simplesmente se tornando um inferno. Com o pouco ânimo que ainda me restava, naqueles dias, sugeri mais uma vez: ----- Vamos procurar o centro de Santo Daime , no bairro da Floresta (.) ----, e, para minha surpresa, dessa vez Rafaela topou. Acho que ela saía dos seus plantões sociais tão cambaleante, abatida, como se o fato de ficar tão próxima à fragilidade humana confundisse as fronteiras dentro dela. Rafaela já não ia ao escritório-escola orientar o desatino dos outros, mas constatar a vulnerabilidade da própria razão.  E quando sua perturbação se tornou a regra, foi a saúde mental dela que, num estranho movimento para dentro do abismo, pareceu uma anomia. ----- Pelo que você diz ( eu disse) você passa a tarde inteira atrás daquela mesa, esperando novos casos, como aqueles marujos que vêm à terra apenas tomar um trago antes de enfrentarem um novo furacão em alto-mar (.) ----, enfim, naquela altura, poucos dias antes da sexta-feira à noite em que fomos ao Centro de Santo Daime, já apenas permutávamos banalidades e metáforas. Nas manhãs de aulas na minha faculdade de Direito, no entanto, eu examinava meus colegas de sala com um olhar crítico, como se olhasse para manequins inanimados expostos numa vitrine, e rezava: ---- Deus, faça com que eu jamais fique parecido com eles(.) ----, e concluía que a alienação mental da sociedade de consumo, ignorante de cima até embaixo, às vezes pudesse ser evitada com um uso minimamente menos hediondo das inclinações humanas. Fora da sala de aula, nos intervalos em que eu participava de alguma roda de conversa, enquanto fumava, meu comportamento era tão ensimesmado que entre os colegas corria o rumor de que eu andava drogado o tempo todo. Mas os mais próximos à mim diziam: ---- O K. se casou, pessoal, foi o amor que deixou ele assim(.) -----, e , na verdade, me ocorriam certos devaneios em plena aula, de repente tão numerosos quanto irreprimíveis, e tão obviamente inspirados pela ânsia de uma solução miraculosa e alucinógena para minha precoce vida de casado, que compreendi que, quando você ama de verdade, ao pensar sobre esse amor, deve começar pelo que está acima e é mais importante que a felicidade ou a infelicidade em suas acepções comuns... ou então é melhor não pensar nele nem um pouco.

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